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Full text of "Manoel Maria du Bocage, excerptos : seguidos de uma noticia sobre sua vida e obras, um juizo critico, apreçiacões de bellezas e defeitos, e estudos de lingua"

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ARTES SCIENTIA VER1TAS 



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LIVRARIA CLÁSSICA 

Mu 



EXCEBPTOS 



DOS PRIflCIBAES AUTORES DE BOA NOTA 

PUBLICADA SOO OS AUSPÍCIOS DC 

S. M. F. EL-REI D. FERNANDO II 

OBRA COU.AB0RADA 
POR MUITOS DOS PRIMEIROS ESCR1PTORES DA LÍNGUA PORTfBUEZA 

E DI1I01DA POR 

* AflTONIO FEpGIAHO DE CASTILHO 

JOSÉ FELICITO DE CASTILHO BARRETO E NORONHA 



BOCAGE 

II 



■&*■<■' 






PAH1H. — WP. PORTUO. J>E SIMÃO IUÇOH E COMP., I\UA DK EnFCRTH, 1. 



MANOEL MARIA 

DU BOCAGE 



EtCERPTOS 

SEGUIDOS DE UMA NOTICIA SOBRE SCA VIDA E OBRAS 
jj$, DM JUÍZO CRITICO 

APRECIACjpES DE BELLEZAS E DEFEITOS 
E ESTUDOS DE LÍNGUA 



JOSÉ FELICIANO DE CASTILHO BARRETO É NORONHA 



TOMO SEGUNDO 



RIO DE JANEIRO 
LIVRARIA DE B. L. GAUNIER, EDITOR 

69, RUA DO OUVIDOR, 69 

PAMS. - AUG. DURAND, EDITOU, KUA CUJAtf/V 

1867 
Fitíto reservados todos os iWtcâU» àc*\»v^v\oA^c. 



Sfe9.8 

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* * 









* 



♦ 



" 4 ÍNDICE DA£ poesias 

ADIlÉlHAÇÕES. ' 

* * * 

Amão-me tanto nas sombras. I . * « 330 

Bem que pareço a verdade. I . *&« • . 328. 

De meullbme no começo. I 528 

Haver em mim luzi mento. I • 329 

Que é de mim tudo cdtórto. I 529 

Quem me observa, e (jSfen me escuta. 1 520.. 

SendoMnsensiigl, de um bruto. I.. ' gr 529*, 

CANÇpES, 

Alma ferida e cega. J. ...... <^ ... . 12 

Inda não bastão, minha voz cansada. I. • ••••*.».... 32 

**• 'Cançoneta. 

Amor é fonte. I. . . : . , . •-£<«*• 20 

CANTATAS. 

De horrenda cerração c'roada a. noite. I *.,.... 189 

Já de Colchos a fera* ardente maga. I ". 184 

Longe do caro esposo, Tgnez formosa. I , * 95 

Qho espectáculo, dhl céosl Eu velo! Eu sonho II ^2 

CÂNTICO. . 

MonDieu, quellcguerre cruellc. U. •...,,»«»,«••« V^ x 

vn, . . a 1 



-• K» 

*.ft '. . '. 251 À 



:*■.::, . , 



n ÍNDICE DAS POESIAS, 

* . 

DECIMAS. 

ft 
Agora vemos capinhas. IIÍ. ^ ........ ê> • .,....,.• 53 

Vb Parnaso quer subir. III. . • . , ♦ «.,..,/ 124 

Calções, »polainas, sapato*. II.* ... ■*- °** 
Bu por mulheres do campo. II. . • . 
Malgré deux succès Tlramatiques. III. 
Quiz erguer soberbo altar. II. : . , 4 . 

Se isto vai de foz em fora. III. . . . >ft .*..*. 44 

&J mote a mim? é bom dar! Ill •_.•••#_• 74 

Tenho visto até. agora. Ill 

* ELEGIAS.' 

À Freire bemteitor, ao caro amigo. II. ..../.,.,.. . 202 

O safcio não vai todo á sepultura^I. . . « • . . «At • • • •. W 

Século hprrendo 4* secai* TÍomros^ II, . . . ,tT. ... 481 

ELOGIO/ 

v* ■ 

Haura, pateia^irtude! Oh! leis! Oh! throno! I ( j*. 270 

EPICEDIOS. &r. 

JMT-nos susto o morrer, do sol radioso. II. . '.?... . . . . . .„ 156 

<ftem pôde, ousado, liqtfelas torrentes. III $ . . . 11£ ' 

# ffIGRAMMAS. # 

A cara da esUmjbeiral ti* ...... ... . . .' 236 

A estanqueira tem nwfTftto, II '..,., .ft .. . 237 

A morte era uma idiotaV 1 '' 9 'Jt* *• 5 ^ 

A morte foi sensual. I fr « 296 

A morte,j^riendo a íouce.I.. . ....... . ..... . . . . . 200 

A morte se' enfastieu. I . . . . 110 

A morte um dia enjoou-se. I. ........ . - . • » . , 300 

a Ante mim não vales nada. I. . . « ^s .... 300 

* António, o meu caro irmão. II ; 258 ' 

Aqui jaz um escrivão. I. ..... . 212 

Aqui jaz um homem rico. I 200 

Arrimado ás duas portas. I. • .....,... 280 

Barbeiro demorador. III . , , . 153 

Bojudo pharmacopóla. I. ......... • 209 

Cara ; cara, cara, cara. II •••••••*.. 235 

Carat cara, cara, cara. II. ......*,«#».,..,♦» 236 






ÍNDICE DAS POESIAV i* 

Ce famcux couquêrant; ce fameux Sésostris. III. . ^ 67 

Certo Averrócs .quiz no prelo, I ; 299 

Certo enfermo, homeift sisudo. I. ...... . '285 

«Ghiçpn foi medico insigne. I. . . . ; 291 

Compôz para leve andaço. I 2tp 

Coto títo. má gqgbia andas tanto. I. . . \ . , . 285 

Concluía gúitífr^amoso. I . 210 

Conferes nas s&horias. I . 210 

Conheces um certo Albano. I.. . . ♦ 109 

Consta que unMpedico fora. I. \ 296 

Custa a ve*qtnlqucr planeta. II 236 

Da feijfhnulher Androhio. I .„,... 212 

Das escumas do Mmsm. II . „ . 208 

De que é só de seu marido. I. . . . * . , *» . <•. - 211 

De todos sempre diz mal. Ill ..,»..... 41 

Deu a estanqueira um espirro. II ........ 237 

Dlgnorante me^Rtou. III. . . .' . 47 

Dinheiro, invicto dinheiro. II. ... -í ....... < 269 

Disse a morte ao ver entrar. 1 288 

Disse em ar de novidade. I. . » . 299 

Disse-lhe certo estrangeiro. II. 237 

Dnie-Hieum serio taful. II..... ." ". ... 237 

Disse um Avicena ao ver. 1 286 

Disse um dia o fado á morte. I. » 290 

Dizem os da Encarnado. H. ..... > ^ 237 

Dizem que Flávio glotâo. I •». l{j 

Dizem què o Caldas glotão. III. 

Dizes que Philcno é tosco. I. . . 111 

Do Meirel formas querela. I. ...... j» .. , • 336 

Domingo, dous do corrente. II. .... I * * . • . . 236 

Dos óbitos o volume. I 288 

Doutor, até d# hospital. I 111 

Elmano, lê-me os teus versos. 1 211 

Empobreceu todo o bairro. I. '. 285 

Emquanty) o meu zoilo. Ill ^^ . . 46 

Entre um frade e entre um burro. II. , ? . . 220 

Envolto em panJpHmisle. Ill 57 * 

Erão três juntasWbois. II 271 

Estando enfermo um poeta. I * . . , . 111% 

« Fábio, o meu dilecto amigo. I „ . 297 

Faço a paz, sustento a guerra. I. . , 212 

Grátis pespega o verdugo. I, . . -> . . . . 283 

Homem de génio impaciente. I •. 294 

ti a rendusonâmc à Dieu. III. . t . 152 

Ioda novel demandista. I ',•*....•»»•. < 18& 

Infelix Diào, mi/Ji hene nupta manto. YU. , % , * v ^^ 



iv IiNlfCE DAS rOESIAS. 

In fide parochi atte&to. L . . . . 284 

Ípmbin, mon barbier et le vôtre. III , 154 

á na loja do Nicola. II. . • \ 

Launrdjvertio-se muito. I . 2S3 

^Lavrou cbibante receita. I. .....„•* • ,. . -301 

Les amia de 1'heure presente. II , . . í ♦jfc L _. ... 110 ,4 :» 

Lê-se n'uma sepultura. 1 4C *;*«• 290 *ã'> 

Levando um velho avarento. I , • • . • .jjr. . . . 209 * "■ 

Longe estás de ser pateta. I •»...«......... 208 

Mordeu uma serpe Aurélia. III. . • #£» .Jfck. . . . 156 

% Morte 1 (clama^fli um doente). I. . *» ^w fr . & 296 

NSò, ninguém ení ter cortez. II. • » . . . • n a è 4» 9 • • •* *258 JKyÉ 

NaoseobservaatajUplaneta.il ^vfe ...... 236 «T? 

HJ^z, nariz e nariz* lf.\ . . * i# . . . 238 

lo mundo ha gloria suprema. 1 % . 9?5 

O fogo de teus versos me exageras, flll, ■; . '48 

U morte! Para que venças. I ■• . . 

0'poeta e o traduetor. III.-.-. . . . . . . . . 

Para curar febres podres. I * 293 

Passei três dias em fazer dez versos! III. . 1 47 

Pedio pelo amor de Deos. I. . . ^ 109 

Pelo que em tfcvater li. III. . . .7. . . . /MtJ 

Perdôíí, tu tens, Elmaiio. I. ...«...._.. . 110 

Persécuteurs du genre numain. II v . ..... . 23 

Podramctima de Vénus. I 292 

ft O que é màís leve do que o ar? — R. O fumo. 1 292 

Pôz-se medico eminente. I 297 

Quanto és, Dido, desgraçada J1L 154 

Quer vinhos ?^ãò tem queijnr. II «... 237 



Que vem do chefe dos MataCTi: ,* *. 297 

Quiz ainda fresca viuva. J. . W • . 287 

r Rechonchudo franciscaqp."}^ *. . . . 301 

« Salve-se ! diz o diabo. IP. : 236 

« Salvo-te, » diz Deos ao demo. II. . . *' 236 

São nadegasygu bochechas!! II. 237 

* Se máos e bons atassalhas. III * 48 

** Se me lembro, Elia, tiveste. III JfoL .... 155 

^^Sempre é teima de viver.' I. ... * ^^^ .... 295 

*Se o padre santo tivesse. II. ... i 271 

Si memini, fuerant tibi quatuor, iElia, dentes. III, 156 

Tinha uma dôr muito aguda. 1 298 

Thsis fait cent vers en une heure. III 48 

Trouxe-sc a pobre doente. I • • • 28* 

Uma d'estas que adoecem. I. . . . . 295 

Uma terra dizem que ha. I » . . . 211 

IV>; jbapado, um retumbante. I ? 289 



INDICE 4 J)AS PORUAS.. * 

Um doutor acommettido. I 289 

Um é original, outro iwrsâo. III. 205 

Um escrivão fez umToubo. I # „ . Í85 

Um geometra zombou. I. ....... . , . . f . 294 

UmfhoDojem que toda a vida. I. . . , , v 20© 

Um homem rjgjfr .çfttro pobre. I. . ^», 293 

Um «edJ#,$jBjia peste. I . . 29Í 

Um medico rWjtou. I , '. . 298 

Um medico, resentido. I. . . # * ., 296 

Uni philoso(èÉ^nfermo. I. . *§/£• -...*«*.. 287 

Vm ff> c, i*» de ca *s as - *• • #£•'■• • •?£•'• • • -,- 2W 

%--* Unlflj^polirejre, Algente. I *»>"• .•'•'• 212 

^*^* Um velho bahio JQHma. I. . ; j gg^ V.'. . 291 

Unudécrotteur à la royáe. III. .. ..... VJrf?. '. . . 

^. a(^ groa serpènt mor&t Aurèle. III. . ? . . . •"'...'• . .«. . -_ 

* Uií harpgon, en courant par la ville*. III -15 

fki joor, loin dòjsacrc vallon. III * 156 

Weux-tu savoir à quelle fin. III • • • • *& 2 

^ * J Zoilo mordaz me insum impaciente. III t *48 

ffu EPB»OLAS. *f 

* * * . 

Ao grão vate Salicio o vate Elmano. I. ... W ...... .". 275 

A ti, (que às outras leis da humanidade). I. * 202 

Besta e mais besta! O positivo é nada. III J "!T . ... <0 

Cá do pé das fangeticas ribeiras. I 46 

Depois que derramaste em meus delir ios jj. 278 

Desgostosa de um mundo espedaçado.UHk^, .... ^ ... . 287 

Entrava n'este tempo nela sala. III. . *^F. ......... 64 

Eu, aggregado» ao nuiraro funesto. II. . .''.,. . 112 

Frio horror ô% cabçllos me arripi a. II. . V,. »,, • 76 * 

Lendo os teus versos, numeroso Elmano. rf.* . ". » 289 

Os amores ha muito, ha mr^to as graças. II. . 256 

Se aos miseros, senhor, não é vedado. II **- . • . 105 

Se o transcendente espirito, que aceso. II 68 

Só* conheço d&lfegrai&deza e nome. I • 197 

Troou no centra abalada terra. III. . . .* *^5* * 

Tu, de tmtigos heróes progénie excelsa. II ■•-••• 10o» 

Tu, que á lusa nação*, que á pátria nossa. II • 277 

EPITAPHIOS. 
4» 

J)e Elmano eis sobre o mármore sagrado. II. ........ « 230 

Este, com quem se ufana a pedra erguida. II. . . ♦ , . ^ . . 4$ 239 



£ 



ti . ÍNDICE DAS POfSIAS. 

•^ FABULAS. +* (L 

' ■ *' ■* 

A cigarra e a formiga. I.« • • • 45 

A macaca. I •..»,.... . ^ . . fjL- $29 

A mona e o filho. I «■*• .*.*.. •jtifife* «^ 2 20 

A montanha que pare. I *Srí* "• • * °^ 

A raposa cas uvas. I. . #,.-.... wtT . . • ,11 

O cão de fmldn <> a raposo. I. . . . ^^M » . . . . H9 

O cio e a cadclla. I jflW^' •*■& * • ** 8 

O corvo e a Taposo. I Hp • ■*. . . fr • . •!&* . .. 31 

O corvo eo povão. J. É , . / •*«*'-.• • • • • ; 4J^ 

deplmnte e o burro. L , . .^ . . . . .-„ f } » . • • . . fet 

O feii» taçando «onío burro* I. . . . ? . v . A 55 

a leão p -o porco. I, . . . > ." ". . .*■ ~* 210 ,^m 

leio velho. I .• ''. 54 ^1 

O leão vencido -pelo homem.' I * \£. 

'■ lobo, a raposa e a ovelha. 1. ............... . 217^ 

O lobo e a ovelha. I / 75*# 

- macaco declamando. I % % . 215 

O papagaio e a. gal linha. I ^. . . . * 227 

passarinho preso. I W 60 

Os tães domésticos e o^ão montanhez. I --...'. 215 

Os dous burros e o mono. I % .. 214 

Os dous cies. l*& . . . • 223 

Os dous gatàfaTT. . • ' 231 

tigre e a doninha. I ^% . . . 2â0 

<* * t 'ipYLLfOs/ ■.* 

A foz do Mandovi, sereno e^windo. II -»•'••;•• 49 

<2ue scena tão su^e^c^&nadpres. I. .......•♦ , . 305 

••*■• "'#,.*> 

. MADRIGAL. 



y Eu tinha promettido á minha amada. I. ... .■* « ** • • • W, 
* ■ ODES. 



,*"* 



^ Euro, batendo as azas procellosas. I. . 1 « 7 

■ : IagÉvido outra vez, Quintella egrégio. II 294 

Ja%eu estro, Moniz, apenas solta. II, ......... £'. . 302 

Jazem desfeitos meus penosos ferros. I Wf%. . 169 

O Deos, a quem se deve a nossa crença. I . . 80 

&o a pobreza importuna me persegue. II. .......... . 20 

Se não somos herôes, se em nós, 6 Ponte, II. ...". .,•'•;' 80 



INDÍG^DAS ÇOESIAS. vu 

V * 

J^)ÍfcANACREONTICAS. fc * 

Brando leito de verdura. 1 106 

J)o vas|ji|j>ysnio.J. # 104 

FormosíMaçiyjyíSbi , .^. 107 

Poupáldo voáffiE: \ . 105' 

Sc qp deoses m#%Bn ferissem. 1^.* . . . , < . . ^ ..... . 108 

Emquanto fera chusma de rebeldes. \TT . . A . •JSjg;# '^£5X1 • ^2 
Profina lyra, a molles sota afeita. I áE&;* -.rtSí*» • **5 

.*• • }. • ' POESIAS DIVERSAS. • ^^ • *." 

cantora im mortal, deosa da lyra. II. ... t ...•«. . 287 

A deosa que esmalta. I 36 

£^^>ra, que a seu lobregfe retiro. Ill 55 

Alterosasjtructiferaspalmeiras.il #1 . . . 47 

A lyra milagrosa. III. '. • . 76 

An arda, Ana r da pérfida, teus olhos. ♦ 47 

Antes dominar, da terra, e céo que os cobre. 1 128 

Apenas vi do dia a luz brilhante. U, 26 

Assaz temos cantado, assaz carpido. I . : . . . 172 

As torres de estranhíssima grandeza. I >i#, ;\ . . 121 

Cercada pelo ejgrcito romano. I * . '. . 233 

Clama com sem íjual desembaraço. III. v __.-> 58 

Da lua morte, ó César, teve o mundo. Eiiif*. « . . . 251 

De rutilantes vestes adornado. I. . . . í ' 246 , 

De serenos favonios bafejada. I - 178 

De vigilias mirrado o sábio morre. II. ... t ........ . 205 

É a estancia da inveja em gruta enorme. I. ., í ...... . 159 

Emquanto os gados. I \ ........... . 205 

Estro de Ovidio, seguirei teus voos. 1 252 

Fonte antiga dos mundos e dos entes. III 105 

GrYõ principe, á xirtufe, á gloria dado. 1 309 

Ha um cerrado bosque. I.*. ; 84 

J'ai le sujet d'un poême hérolque. III 182 * 

Já tinha a noite estendido. I. t . • 31$ .. 

Lá junto de Marselha havia um bosque. 1 302? ^ 

Não contente- Liêo de ter vingado. I , *lr 

Não saber sari, se chora. III. . o ' 

Na solidão crcuta noite. I « 26 

O nova irmã dePhebo! Alcippe! Alcipçct U. • • % « « » • % % *^& 
Os poetas que pintio as bocas. III. . . % c •■•*>*•%«« « ^ 



mn ÍNDICE DAS PftgSIAS. 

t * 

Ouvia do rei dos reis a voz sagrada^jf. ..,*... 535 

O vos, emanação da divindade. I A *jk . • . **> . . . 87 

lesado grilhão meopprime. II ^-'W rY . . . . .* . .^404 

Pesavão sobre a terra os férreos tempos? I • • &5G 

Pico, de Ausonia rei, Saturnia prole. I. ... 5 ... . . *f . 240/ 

1*01, finalmente, os^pés onde murmura. II. ... , *,...; . W 

Que brilhante espectáculo pomposo. I. . . '. . . '; tJtS* . . . 4 313 

Se em verso cantava d'antes. II. . . . je . . . . .^'' -; 84 

Sobre o campo feliz da antiga Ida lia. IJf 445 

Tem de uni tale a lícençu intitnla.jJMroade. II. . . .^^ ... 57 

Tu, llôr de Ycnus. I. - .... .J^^V. . ?v • • *^R" • • • 23 

^ Tu le plaina, anii, grandement, II.' ........ 206 

Varau dipo de Lyáia,ou Roma, ou Grécia. W ^273 

Yenu s, on parto vi/ínhi, 1 . . ; . . .^iS • . • •*• * . .*3 4 ° 

"Vive na margem.!.. *^. ....".... . 1] 

Zoilos, estremecei, rugi, mordei-vos. II. ........ i ^ 

QUADRAS. 

A meiaftoite.ill 8 

Das escumas do Madeira. II 268 

Faço a paz, sustento a guerra. II. .' * 3%9 

fftgio do incêndio de Troya. II. . . . . % * . 260 

Fui vera procissão a S. Francisco. II. '. .' '...*. 25 

Inda antes^oBkisttr mundo. II •.••••'... 261 

Lá que nflRpnou o mundo. II ^261 

Pastoras smceraí. III •..-**..*•.. 7 

Quand^a velha eternidade. .II v 26f 

Troca«|^amargas horas. II. ":í* , . ■ 441 

# '•-. -* 

,, ' SATYRAS. 

A' meia noite. III * .«.«..••.• 8 

Satyras prestão, satyras se estimão. Ill 93 

Sempre, ó Bocage, as satyras servirão. III ,.»••• 84 



^ 



* SONETOS. 



*■ * 



çertp ^genealógico de tretas. I '.**, . . . « 330 

-* no almo ardor, que a mente inflamma. II.. ....... 9! 

ir cruel! De teus furores. II : .1W 

♦ Aflija, coração, vai ter aos lares. L ^fe*° ^ 

A fama derramou lúgubre agouro. III m? • • ^ 

A formosura d'esta fresca serra. III •....: 275 

A frente gue de louro ergui cingida. II • ....♦• 49 




m ¥ 



INDttE DA» POESIAS. * 11 

A frouxidão nq amor é uma ofensa. I ,#« 455 

Ah! men*6astão! om|| jenhoreia. II *.•... 284 

Ahí <jáe fazes, Elmano ^Anl não te ausentes. II. * . fc , « . , .^37 

Kmjda natureza, além do fado. II. ........ f ... • 310 

fc AJtasHhas do genlb, irmãs formosas. II. ..... ; ... . 167 

* Amigo frei JoSp; cuidas aue é barro. II. . . . * *232 

Ao erebro soflgao lugufcrlíínstrumentó. I. ..,...,.•-. . 156 

Af «crosanto fftiplo fui uÀ dia. II 223 

- Xo som da lyra o thracio, egrano vate. III. • • • V 51 

Apertando Àfíise a mão neiJeH m**- • ' • • • ^27 

A prole de Antenor de$neraaa?ft. *•■• ••/. -Si 

Aquelle que domina os céos brilhantes. I * '^ ?**■**' 



^F Ave 



Agui onde arquejandMtfou curvado. I. . . . jt^%WffiF'« . . foi 

&F rígidas ffcões de leí^Jeno. II *'-*188»' • • m 

C&ssim forno a serêa sonorosa. II •'*W l v ...» 312 



A ti, Vate sem par, cujo estro inflamma. II * 246 

Ave da morte, %ie, pianáo agouros. I. 332 

^B elmiro, que entre os pâmpanos farfalha. III 52 

fl^Fklasfhema Rumecão, jura vingança. II. . 177 

Gala a boca, satyrfco poeta. I £..!.. .42 » 

Camões, grande Gamões, qu& semelhante. 1 30 

" Cantemos todos lúgubres endechas. II , . 265 

Cantor*, que a fronte erguia engrinaldada. II ^. . . • £516 

Cara de réo com fumos de jAiz. I * JÉL * ' * * ^ 

Garo a filfcbo/a Filinto, a Lysia, á tama. II. . . •:jHÊ^ . • • 446 

Cedei, profanos, da razão ao brado. II *"^^Hb* * * ^ 

Cesarõi, Viriatos, Apimanos. I '/. tSTI . . 10 

Chalaça minha, que chibavas tanto. II ***• . 142 

Chorosos versos meus desentoados. I / S! . 2 

Ghristo morreu ha mil e tantos annos. II. ...,..*. <r . . 2tB 

Com habito de fora, e de capote. II. . \ . 264 

Com rosto o guarda-mór mesto e medonho.* II 264 ^ 

Comtigo, alma suave, alma formosa. II. . . ". 151 .#. 

Conhecem um vigário de chorina^* 1 !!! . . . \ . . 67 

Contra Elmano Sadino, urrando, avança. III 39 

Contra o drama O Recife restaurado. III. * . . . 72 ' 

%orre furioso o episcopa l rjp fllhp. II |08 

Co'um diadema de luaJ0%lysiõ entrava. II 149 

Cysne gentil, que moíiSjji implume. II <, * . • 315 

Da miseranda Ignez o caso triste. I 

Das petas o almocreve é cousa tua. III 

Dite terras a peiortu és, ó Gôa. II 

* De ceruttiteabão, não bem coberto. II 

De ciuD^Junfriso envenenado. 1 18 

De Elmarío a musa, que entre imagens \e\&. W. ,.....»» » *^* 

De Elmano antes da morte é morto o cauto. W • » • • ^^ 

J 



. 313 
. 165 






1 IftDICE DAS POEtfAS. 

De EhiMio aura vital ameaçada. II. . .* / 247 

DeElmano, excelso «te que assombrara. M\, jf+ j . . . MTm 79 

De encarnada doença Wbalbado. III • • • • .^i? 74 

De excelsos, dignos vales cópia ingente. II 5}^ 

De ferroo julgador não vem t-omtigo. II ■ & & 

De insípido sessão no inútil dia. III ^. . . . , . . . 58 

Deixar, amado bem, teu rosto lindo. II. . . . ^*. , 36 

Demanda-mc usurário aenhorio. II ?«. . . . 934 

De nocturno, horroroio pesadelo. I . . . . 158 

De Ontanio choras, ede Ootanio cantas. H. , . , , , ^ . . 299 

De peito impenetrável setnpre ao susto. II. . . j ...... . 149 

Dlpoís de hArffaúpKào o pantanoso. Ill 78 

De radiosas ynMja escoltada. II *f #J ir 

De um numéjJ0nSã de £lmano, oh ! dom njgnflK.^J. . . ". . . íb 

De Zargo o heróico ardor que luz na fama. II.. 247? 

Do coro arguto de phebôos cantores. II 310* 

Do Mandovi na margem reclinado. II. .»...:..... . 61 

Dôt, que afiada o coração golpeia. II 283 

Dos estragos cruéis que o tempo faz. II .. 28f* £ 

Dos tórridos sertões, pejados de ouro. II. 255 

Do tempo sobre ns azas volve o dia. II 85 

Do throno excelso nos degráos sagradas. II * 225 

ElnuAh Elmaftp 1 Os que te ouvirão rindo. II. v ...... . 314 

Sm banjk) ewMsjo fc em numero infinito. II; . ^ ... 176 

ÊWtfra.flHferf coveiro. III.* *T MÊ: 57 

Em ermo céflpKi hora escura. III. ™ . r 57 

Em sórdida fljprnbr^ajferrolhado. I . ^. 4 

Em vão, padre José, padre ou sacristã. II. ... 229 

Em vãoJjfcfrt&ser-me um ledo engano. 1 334 

Im venêro^pHfcro nadando. I , 26 

Encantador Gnrçào, tu me arrelias. III 31 

Encontrei certo leigo francnfcanof II 221 

Entre as tartareas forjas, sempre acesas. I • . . 42 

fira n'cstc celeste augusto dia. II 174 

Esgalgado bucephalo montava. II 241 

Esqueleto animal, cara de fome. II 164 

Esquentado frisa o, brutal masmarro. 11^ .4» 219 

Esse cabra ou cabrão, que anda na berra, nijf ." 244 



w. 



Esse cantor de chá, manteiga e queijo. III. ,'jt 63 

jjpU. ÉM r é de Elmauo a voz que sôa 1 II 509 

^■JÉc ausento de ti, meu pátrio Sado. II 55 

Ewlo, caro ás musas c aos amores. III. .... ..,.,. 61 

Eu sempre presumi, quando subias. III "3tt$ * " 

Eu vim c'roar em ti minhas desgraças. II ^5?» . 54 

Excedo lustros seis por mais tres annos. I. ........: . 168 

fikhsde EJmano, que cm severas cores. II 317 



Int 

ê 



INDICÈ DAS POESIAS. » 

Famosa geração. de fali adores. I.. 268 

Filho, mo e pai, trelfe um somente. II. . . ajL . . . . .. 41 

s FiçesteJjSn, ínadam» de Lisboa. III y. 68 

Formosa Analirl e mais formosa e pura. II 281 

Gemo mordaz, <jue o mérito golpeia. II 283 

Gritava mçstre^Braz : « Eàjksi traidora ! II 259 

Ha, junto do Parnaso, ^n%irvo lago. Ill 35 

Ha vm medonho abysmo, onde baquêa. 1 152 

Igual ingratidão e igual vileza. I. . .■* *. 45i 

Incultas produjbcões da mocidade. í • « . . . 1 

Indígena immortal do Pindo ingente. II. .... . ,/.'« «... 315 

Intruso no Apollineo saneUurio. III * . . *y»*trifc • . 5t* 

" Bocage não sou \...*àjMha escura. II •}$. • • • 1^5 

que grita a barrigq^tiflKAa tarda. 11. ...... ; . W* . . 266 

sobre o coche de ébano estreitado. 1 2 

Jonio meu, inda meu [porque o jazigo. II. .......... 307 

José, sangue d'heróes, príncipe amado. II 65 

Josino amável, que zeloso engrossas. II 145 

Junto ao Tejo, entre os tenros amorinhos. III 53 

Lá quando a tua voz deu ser ao nada. I. . . 533 

Lá quando cm mim perder a humanidade. II 239 

Lembrou-se no Brasil bruxa insolente. III ^43 

Li as quatorze regras aos pennachos. III .„#... ^68 

Liberdade^^tdttttstás ? quem te demora? II. . . . .j*]k& . ; 7 

LiberdaddBlerraa e suspirada. II ^H^R * •*-& 

Longo tempo, chorando, memorarão. III. . . . v •J^vB^L' • " 

Louca, cega, tlludida humanidade. II *-&£ . .?W- • 64 

Lusos heróes, cadáveres sediços. II ......... 54 

Magalyra de amor que ao tbracio vate. Ill • 'Á.{yJ^% 55 

Magro; de olhos azues; carão moreno. II ^Wt* • • 103 

Mãi de chefes heróes, de heróes soldadoa> II. .„■■> 149 

Mal forão nados os virentes louros. II. ..... • 311 

Marília, se em teus olhos attentira. I. ...» 17 

Mavorte, porque em pérfida cilada. I. ........... . 3 

Melibêo me cantou, cantou-me Oleno. II. ... 146 

Melisêo, o menor entre os nascidos. III. ..,.,..... . 61 

Mercenário pregão de cegd, antai^. II • 230 

Meu padre pregador, JargiA*- capelo. II 19 

Meu príncipe e senhor! Se %ssa Alteza. II 231 

Meus dias, que já forão tão luzentes. II 5 9'*t 

Meu ser evaporei na lida insana. 11 #}9 

Mil poetas emolia ticos e ufanos. II. . . .* -tm • 

Mimo das jMHp te ílorece o canto. II. . • 279 

Miserandrjlrçpcencia, és nome abstracto. 11. • 90 

Morreu Bocage 1 e fez a despedida, li. •%••••.«••«» *>S& 

Morreu Bocage! Sepultou-se [em GòaA \\\ . * ^ 



xii INDICg DAS POESIAS, 

Morreu pobre o Camões, pobre o Garção. II. . . . t . . . , , 191 

Não deves consentir, príncipe augusto. II. ..,■ *•■.-. 2^5 

NSo mais, óTejoineu, formoso e brando. II ". . t ."- . 438 

« Não. presta Coridon, não presta Elpino. III , 2 

Não sou. vil delator, vil assassino. 1 151 

NSotçndo que fazer Apollo um dia. ftl. . . . . 37 

Nascemos para amar : a humanidade. I. . . ." 155 

Na scena, em. quadra tragicorinvernosa. III. 82 

Nas horas de Mor^lêo vi a meu lado. 1 165 

Nem só commove o tom de altos cantores, II 4q 

Néscia, vil ignorância, injuriada. II *. . . . 91 

N'esta cujtfjrittnoria esquece á fama. II. .... , 220 

N'esta. do fejo ppprobrío estancia feia. II. . ,*I 82 

NVsste horrenda lugar, onde comigo. III. . /?' i\ 

Feste. horrível sepulcro da existência. 1 . . 58" A, 

Nestoreos dias, que sonhava Elmano. II. 138 ^^ 

IHze mimosa como as graças pura. 1 164 

No. abysmo tragador da humanidade. II 141 

Nojenta prole *da rainha Ginga. III 42 

Nos elysios de amor endeosada. II 312 

Nos torpes la^os de belleza impura. 1 157 

- Nymphas do Douro, ao vosso uni meu pranto. II 307 

O «», de opacas sombras, abafado. I . . 1*3 

O chimico infernal drogas malditas. III * ' • • • 126 

frjlft 6 *«>»>> ào mar, da terra. II * ,<Êt\ . 40 

O ãMÃhad&^Pjrçe ardendo empr'ende. III 71 

O guavçla-nidr da ilva para baio. Ih 264 

Oh! vós, que lamentais de Elmano a sorte. 1 166 

O instrumaptb brutal da acção mais crua. II 148 

O lacaio à?uftau> é (ai que emprehende. Ill „ 71 

O ledo passarinho que gjrgêa. 1 56 

Olha, Marília, as flautas aos pastores. 1 18 

Olhos .suaves, que em suaves dias. I 4 

Ó lyra. festival, por mim votada. 1 312 

O mundo a porfiar que o Franco é tolo. III , fc 66 

Onde a fresca Fayal. erguendo a frente. III. ... ••••,., • 63 * 

u nympha, que das graças melindrosas. I. .*. .„,..,.. . 331 

O pesado rigor, de dia em dia. II. ..... í 81 

Ó reidos reis, ó arbitro do mundo. II. . -. .«171 

Ó reftto da morte! Ó noite amiga. I 29 

Ot mijhôes de áureos lustres coruscantes. 1 2o 

• Ôtu, que tens no seio a eternidade. I. .•* 164 

Para as sombras da morte aqui me ensaio. I 167 

Pariste um. bando de c.s ladinos. II #•".,.. 29 

Passava já de um mez que o bom Luceno. III, ..»,.*.»• CO 

Pela voz de trovão corisco intenso. 1. ...<«.<> > .. • 335 



ÍNDICE DAS POESIAS. mi 
* 

Perverso e&tragador da formosura. I. . . • ^ . 6 

bebo no etherV» plaustro omni-fulgente. II * .... 308 

fcde o ifco pincel, que mal sustento. III. . . . ' .*■ 80 

Por casa Phebo entrou co'um vil bugio. III 42 

Por terra jaz o empório do Oriente. 1 16 

Pouco a pouco lethifera doença. II.* •- 135 

Precavendo os vaivéns da instável sorte. II 148 

Preside o neto da rainha Ginga. III 32 

Qual novo Orestcs, entre as furias brada. I. . . •£ ' 5 

Qual o itálico heróe, o audaz Tancredo. II 113 

Qual tropa regular, a fradaria. II , . . ' 226 

Qual volátil implume, á terra junto .- . • . 306 

Quando na roseanuvemSobeodia.il. %•*• • • ^ 

Quantas vezes, amor, me tens ferido? II 7 S. . . 199 

Quarta-feira, quatorze do corrente. III 52 

' Que idéa horrenda te possue, Elmano! II. m3 

Queimando o véo dos séculos futuros. I. . . . • # 153 

Quem c este boneco empertigado. II 267 

Quer ver uma perdiz chocar um rato. I. ..*....... . 44 

Rapada amarellenta cabelleira. IIÍ 60 

Resurge vesgo e torto o tal Fred'rico. 1 333 

Sanhudo, inexorável despotismo. II t / . . 180 

Sft.a morte afoga de Bocage o canto. II 154 

Seasarduasleisdasaphilosophia.il .» 301 

Se é doce 90 recente, ameno estio. I. ....... . . ja*.. 

Se Elmano, a quem no plectro, ente sagrado. II. . . . •'jKL 

Se eu pudera ir de tralha, ir á surdina. II T. 

Se na que, morna e lúgubre, murmura. II \ 140 

Senhor, que estás no céo, que vès na terra. 1 57 

Se o grande, o que nos orbes diamantinos. U ^ . . 159 

Se quereis, bom monarcha, ter soldados. 11^ » 224 

Sobranceiro ao poder, c ás leis da sorte. I. í^ 79 

Sobre as ondas do túmido oceano. II. ... %' 150 

Sobre estas duras, cavernosas fragas. 1 78 

Sobre o degráo terrível assomava. II 187 

Sotíre os contrários o terror e a morte. II 67 

Sonho cruel o espirito iimicto. II .... . 90 

Tão negro como a turba 'ue vaguca. 1 163 

Tendo o terrível Bonaparte á vista. II 99 

Terno Paz, bom Maneschi, Aurélio caro. II * 147 

Toldado o foco á luz da fantasia, III .* 17 

Tomo segundo á luz sahio das Rimas. III. . .« 4 

Tragedia de Tancrèo, rei de Drsuria. 1 331 

Trastes scdlços, moveis de outra idade. II 70 

Tributo em ais, no coração gerados. II • ,«.%. 25% 

Tu, França, que na ode és mar em calina. \\\. % v ,..,** . ^ 

V 




xiv NDJCE DAS POESIAS. 

Tu. Gôa, in ilkvtempore cidade. I v . . * . , 45 

Tu, por Deos entre todas escolhida. II ♦".♦.. 172 

Tu que, antes de nascer, morres forçado. II , - ; . 249 

Tu, que do gran cantor da natureza. II * . . * . 317 

Tu, que na fouce de sanguíneo gume. I 79 

Tu, qpc tão cedo aventurando as pennas. II . k ♦ . 511 

Um ente dos mais entes soberano. If . 75 

Vendo o Grande, o que os orbes senhoreia. II. > , ^282 

Versos de Elmiro osjtempos avassallão. 111. '.- .,«...,„. 107 

Victima do rigor c da tristeza. II « . . 05 

Voaste, alma innoecntc, alma querida. I p\ 154 

Volve a Peniche, ó* zanga de Lisboa. Hl (59 

Vós, crédulos* mortaes, hallucinados. I. ...»„• e 150 

Vós, ó Franças, Scmmedos, Quintanilha?. III. .,.»,.,... o9 



•* 



KIM DO LNDICE DAS POESIAS. 



ú 



% 



B* 



# 



\ * 



INBICE í)OS CAPÍTULOS 



TOMO SEGUNDO. 
Advertência geral , 



f 



ÀDVERTENCIAJE ESPECIAES SOBRE BOCAGE. 



— Setgwl \ 




Capitulo I. — Naturalidade e família de Bocage. 
A região tf» Bocage em Normandia. — Os Bocagés ^^^^ 
Madama du Bocage. — Gil le Doux du Bocage c Duguay-TroífflrTIoTlio, 
* de Janeiro. — Casamentos e prole do vice-almirante "du Bocage. — 
Casa^tfiUo de sua íilha D. Marianna com o Dr. Jftfcé Luiz Soares de 
Barbosa. — Filhos d'este matrimonio. — Josá Luiz, jurisconsulto^ c 
poeta "^Lg %* 7 

Cap. II. —Nascimento de Bocage. — Sua educação. — Suas poesias 
infantis. — Praça de cadete. — Transferencia para Lisboa. — Guarda- 
marinha. — Motivos da sua resolução de ir para a índia. — Parte de 
Lisboa como guarda-marinha para Gôa 21 4 

Cap. III. — Viagem de Bocage. — Saudades. — Temporal. — Se o poeta 
^ naufragou? — Sua estada no Rio de Janeiro. — Chegada a Gôa. — Perde 
£& Alusões. — Memorias da pátria. — Poesias feitas em Gôa. — Impru- 
dências do poeta/*- Ódios que aos de Gôa inspirão varias producções 
injuriosas. — Esperas. — Conjuração contra os Portugueses abortada. 
— Não foi D. Frederico Guilherme de Souza o causador da expulsão de 
Bocage, por causa do poema Manteigui. — Não podendo o poeta con- 
tinuar em teôa, obtém ser despachado tenente T^rca. itastàb. — ^«sNr^ 
e chegada a Damão > deserta, nó dia \mmeài\*to'. — --^osjfc ^w».^i»d» 



a 



zvi INDICA DOS CAPÍTULOS. 

— Poejias ahi compostas. — Regressa para Lisboa. *- Bocage e Ga- 
mões , . . . . T 39 

Gap. IV. — Chegada de Bocage a Lisboa. #| fornada a Setúbal. — Nova 
roda de admiradores. — Publicação de suas primeiras obras. — Paga 
recebida do editor. — Estendesse a reputação de Bocage. — Versos irre- 
ligiosos. — .Denuncia d'elles ás autoridades,' e bem assim de vários 
outros, já indecentes, já liberaes, — Ordou-se a prisão do poeta. * 70 

Cap. V.— É Bocage levado «o Limoeiro, e posto em duro s3|redo. — Pren- 
dem igualmente o seu companheiro André da Ponte. — Poeaias ferias 
na prisão. — Relaxa-se o segredo. — O juiz Brito. — Protecção de José 
de* Seabra. — Ê transferido para os cárceres da inquisição. . . . 79 

Cap. VI. — Producções pelas quaes lhe fizerão crime. — Versos irreligio- 
80f. e contrários ao papa Pio X VI. — Disposições da inquisição^ — É Bo- 
^S 6 tr^HHIÉp para o convento das Necessidades. — A congregação do 
Oratório. -^Pesias compostas durante essa detenção. — Suppiica a to- 
dos liberdade?^*» Bocage e Ovídio. — Epistolas aos tras marquezes. — 
Os poetas ami§n *£da alcançarão. — Foi José dè Seá^r o seu liberta- 
dor. — Versos que a este dirigio jaculatórios e depois gratulatorios.-^- 
Boato da sua mo^. — É posto* em plena liberdade. 09 

VII. — Volta Bocage para a sociedade. — Turba qúe ^rodeia. -± 

íMm i o Panard do Caveau lisbonense. — Indigência* e suas conse- 

4 que n'esse sentido vai lá por íóra. — Injustiça da socie- 

i qfyt os grandes engenhos * . . . 115 

Gap. VIII. — A^fifticina chalcographica c a imprensa regia. — Brasileiro 
padre-mestre freiajíosé -Mariano da Conceição Velloso. — Enrorego de 
Bocage n'aquelle estabelecimento. — Principaes obras que Bdftgc então 
Qpofpôz. — É denutôado, em 1803, á inquisição, como pedreiro-li- 
vre. T 122 

Gap.. IX. — Constituição e máos hábitos de Bocage. — Sua ultima resi- 
dência. — Desenvolve-se-lhe o aneurisma. — Sensação geral no pu- 
blico. — Poesias que então compôz. — Adeos. — - Anecdotas reveladoras 
do estado da sua alma. — José Pedro da Silva mendigando paiu Bo- 
cage. — José Agostinho de Macedo classificando José Pedro. — O Agu- 
lheiro dos sábios. — Publicação dos Improvisos. — Versos a amigos. — 
A Nelson. — Os seus últimos amores. — curandeiro. — SentemM6*»r- 
um medico. — * Bocage fulminado. — Morre de terror. — Re&m!nfc 
poeta, feito nos seus últimos instantes. — Sufrágios. — Sepultura. — 
Versos recitados por Torresão ao baixar o féretro á cova. — Os des- 
pojos mortaes de tão grande homem confundidos e perdidos para sem- 
pre. — Ultimo soneto de Bocage. — Soneto composto por um amigo 
durante a agonia de Elmano. — Epicedio por Filinto. — Lapida assente 




ÍNDICE DOS CAPÍTULOS. xvii 

cm Setúbal na dfca do nascimento do nosso poeta. — Projecta-se-lhe 
uma^ estatua de bronze..,. . ^ 135 



I 



Cap. X. — Bocage consideraõVpnysicamcnte. — Retraio do poeta por elle 
mesmo. — Outro do mesmo autor. — Quináo em Montaigne. — Outro 
retrato do poeta feito por um seu inimigo. — verdadeiro e authcntico 
retrato de Bocage. — Quem o desço brio. — Historia d'essa preciosidade ; 
sua descripfâo^ — Elenco^ft retratos que do nosso poeta se têm publi- 
cado. . . . W . . . ..^ 162 

Cap. XI. — Qualidades moraes de Bocage. — Alma contradietoria. — Seus 
sentimentos em matéria de religião. — Devoção a Nossa Senhora; — 
Amor de pátria. — Politica. — Suas idéas sobre a liberdade. — Poesia 
por occasião da morte da rainha de França 170 

Cap. XII. -*■ Continuação das qualidades moraes. — CaridhflS^' sensibili- 
dade. — «heedotas. — Çratidão. — Melancolia. — Independência. — 
Mendicidade litteraria. — Análogos exemplos, portugueses. — Excessos 
baechicos. — IB&e e Ovidio. — Effeito dos vaporet.akpolicos no espi- 
rito dos poetas , \ . . . . 184 

Cap. XIII. — Continuação das qualidades moraes de Bocage. — Amor. 
Inconstanâtif—f Tropas de namoradas. — sentimento nos dous sexos. 

— Brutalidade da paixão em Bocage. — seu amor considerad^jHM| 
graphiçamente. — Delírios a que ellc o arrastava. — - lmprudetídbf£-Jr • 
Amor notariaj, em publico e raso. — Ciúme. — Anecdoti». -^IIh 
também na amizade. .*, Í95 

*. 

Cap. XIV. — Conclusão das qualidades moraes. — Orgtlho. Sede de ap- 

plausos.jjfc Estas chanças de poetas nem são raras, nem modernas^ — 

Tristes consequências de tal orgulho. — Bocage 4'Ducis. — Quiz ap+ 

plausos por todo o preço c infelicitou-se. — Cantos de anjo e de sereia. 

— Tendências actuaes da mocidade em Portugal. — Deve o frueto ama- 
durecer antes de ser colhido 204 

Cap. XV. -r- Boeagiana. -*- Se a gravidade tolera narração de aneedotas. ■?$ 

— Blair e as biographias. — Cabe a estas descrever suecessos fami- 
liares, e da vida privada. — A quadra de Bocage foi de transição. — 
Viver engrinaldado de rosas. — Escolhemos algumas de entre muitas 

.anTOotas de Bocage. — Idéas d'elle sobre os frades. — padre- mestre 
e £n<*fp£r ou os copos de vinho e agua. . — Improvisos de Bocage e de 
outros, contra frades. — ^A procissão de Terceiros, ou o frade á pancada 
com a tocha. — A declaração e o bofetão, consoantes. — mote sem 
rima. — drama roubado. — pregão do cego. — habito do Serra. 

— Motes tolos. — O duque de Lafões. — Frei João de PousafohVw. — 
Bocage e a pajtrulha. — poeta esfaimado e pedinte. — A estanqueira 
do Lorete. — O nariz de Antão Broega. — Epitap^os a si mesmo. — 

vii. b 



xviii índice dos capítulos. 

* 

O homem florete. — A offerta do baptisado. — Sinas e porcas. — 
bolço da Panasqueira. — A véspera do corpo de Deos. — Formosa^ bella 
« honrada. — mulato da viola. — Opajga^b obstetrícia feita a um im- 
proviso dífficil. — A Zargueida. — Joio Soyé. — A historia de Malta. 

— Aborto forcado. — Bocage e Maynard, ou * memoria milagrosa. — 
Bocage e a camponeza ; impossibilidade vencida 214 

Cap. XVI. — Relações de Bocage com varjpp dos seus contemporâneos 
avulsamente. — Thomé Barbosa. — Os irmãos Bersane*. — canapé 
do preguinho. — guarda-mór Verona. — Galina. — Nicotóo WIGq- 
tino. — António Ribeiro dos Santo* 252 

Cap. XVII •— Continuação das relações de Bocage com os contemporâneos. 
^ — Morgado d'Assentiz. — Auxilio que esta obra lhe deve. — segredo 
de Bocage, — Theatrinho da rua de S. José. — Ericia. -r- Epistola 
tYku&ÒfLfr Q Morgado e o Sr. Castilho (António). — D^ Gastão. — 
Sun cotíjjovnçâo a esta obra. — Os sete sonetos de D. Gastão. — O 
soneto : Ah! meu Gastão, o Pindo senhoreia. — Jfcdre Joaquim de 
Foyos. — Condessa d'Oyenhausen,— Filinto. . . . '."** ... . 272 

Cap. XVIII. — Gorftinuação das relações de Bocage com os contemporâneos. 

— Gregório Freire Carneiro. — Ignacio da Costa Quintella^— João Vi- 
çauftfi Pimentel Maldonado. — Sebastião Xavier Botelho>-$ Francisco 

V Ffidro de Carvalho. — D. António da Visitação. — Nuno Alvares Pereira 
Patq. tfonis. — António Mendes Bordalo. — Agostinho Gomes da Sil- 
veira. — António Xavier Ferreira. — Bento Henriques Soares. — Hen- 
rique Pedro da Costa. — José Nicoláo de Massuellos Pinto. — íosé 
Rodrigues Pimentel c Maia. — Pedro José Constâncio. — Pedro Ignacio 
Ribeiro Soares. — Thomaz António dos Santos e Silva. <*r Vicente 

Padro Nolasco da Cunha . 292 

>■" ' 

r TOMO TERCEIRO. 

Cvr. XIX. — Continuação das relações de Bocage com varioiT contemporâ- 
neos. — José Daniel. — Saunier. — António José Alvares. — Soyé. — 
Soares do Carvalho. — Torresão. — Padre Fernandes. — Laborim. — 
Gosta e Silva. — Ribeiro Soares. — Cardoso. — Henrique P. da Gosta. 

— Gania. — Figueiredo. — Gomes. — Moura Leitão. — Alme " 
Mancschi. — Paz. — Rodrigues. — Ramos. — Coutinho. 

— Mendonça Arraes. — Blancheville. — Cordeiro. — Vianna.— ^J. -1 
Gomos. — I. G. M. de S. Mascarenhas. — M. A. Rodrigues.. . . *1 

Cap XX. — A campanha dos Titães. — • Sua historia. — Alcacer-Quibir 
foi tímbem tumulo das lettras portugueaas. — Quanto ellas havião antes 
primado.-— O jugaLcastelhano e' o gongorismo. — Independência e seus 




* 



índice dos capítulos. 



milagres. -» Esforços dos Portuguezes para fazerem resurgir o gosto e 
aperfeiçoar o idioma. — Trabalhos collectivos emprchendidos com esse in- 
tuito. — apenas Portugal s$ solta da Hespanha, creação de sociedades litte- 
rariag. — Academia dos Generosos. — Dita dos Singulares. — Associações 
dos "Solitários, dos Ilhfetrados, dos Occultos, dos Insignes. — Academia 
Instantânea. — Conferencias discretas dos Scienles de Lisboa. — Academia 
dos Anonymos. — Academia Real de Historia Portugueza. — Arcádia de 
Lisboa. — Academia Real das Sciencias. — Academia das Bellas-Lettras 
ÍNova Arcádia). — O Sr. D. Joào V e a Arcádia. — Exercícios académicos 
da*lfelha Arcádia. — Sua dissolução. — Que a creação de todas estas 
sociedades teve sempre um impulso aristocrático. — Trabalhos da Nova 
Arcádia. — Bocage denominando-se Elmnno Sadino. — Guerra entre elle 
e muitos dos consócios. — Causas. — Luta 6 o estado natural dos espí- 
ritos. — Está lançada e levantada a luva 21 

Cap. XXI. — Manifesto da guerra civil da Arcádia. — Quem contpòz q so- 
neto Preside o neto? — Bocage impaciente de censura. — Soneto contra 
Bocage. — Este, ignorando o autur, desencadea-sc contra muitos com- 
panheiros. — Bocage é despedido. — Poesias que dispara contra todos 
os Árcades col lectiva mente, que suppõe inimigos. — Domingos Caldas 
Barbosa. — Belchior Manoel Curvo Semmedo 52 

Cap. XXI I.-p^ Continuação das relações com os Árcades. — Manoel Bernar- 
des de Souza e Mello. — Luiz Corrêa da França Amaral. — José Thomaz 
da Silva Quintanilha. — Joaquim Franco de Araújo. — Os sonetA^aos 
pennachos. — Miguel António de Barros. — Anecdota. — Dotfirogos 
Maximiano Torres. — Joaquim Severino Ferraz de Campos. — João de 
Souza Facheco. — Francisco Joaquim Bingrc. — Francisco da Silveira * 
Malhão 56 

Cap. XXIII. — José Agostinho de Macedo. — Seus louvares primeiros a Bo- 
cage. — Guerra da Arcádia. — Descomposturas de fiocageJ 1 ?- As duas 
famosas satyras. — Pazes á beira do tumulo. — Ode encomiástica de 
Macedo, a que Bocage responde com sonetos. — Epistola e epicedio de 
Macedo a I^pcage. — Máo comportamento posterior d'aquelle contra a 
memoria d'este. 81 

Cap. XXIV. — improvisador. — Condições e circumslancias do impro- 
visa. — Perigos d'elle. — Os improvisadores cm Portugal. — Bocage, seu 

*jMBÉfe Peculiaridades materiaes do improviso de Bocage. — Anecdotas. 
TplKgloria de Elmano, por esta rara qualidade. — Opinião dos que o 
ouvirão. — Juizo da razão fria da posteridade 126 

Cap. XXV. — Prosa de Bocage. — Comparação entre a prosa e o verso. — 
Obras em prosa que o poeta deixou. — Seu mérito relativo. . . . 138 

Cap. XXVI. — Que é poesia? — Bellezas da de Bocage. — Condições do 



xx ÍNDICE DOS ÊAP1TULOS. 

sublime, segundo Longino. — Calor. — Imagens. — Variedade. — Altilo- 
quia. — Poeta christão. — Singeleza. — DescripçÕes. — Melodia. — 
Perfeição métrica. — Seu excesso a ponto de monotonia. — Pausar 
natural. — Termos auxiliares. — Intraductibilhlade. — Clareza. -- Ono- 
matopeia ..jtfe, ; T 140 



Cap. XXVII. — Géneros poéticos em que Bocage se exercitou. — Satyra. 

— Epigramma. — Apologo e fabula.— Cantatas. — Bucólicas e idyl- 
lios .' ,V\ 149 

Cap. XXVIII. — Géneros de poesia. — Dithyrambo. — Ode. — Poesia di- 
dáctica. — Theatro. — Tragedia. — Traducçõesde dramas. — Elogios 
dramáticos. — Ambição de compor peças originaes. — Vasco da Gama.— 
Eulália. — Affonso Henriques. — Viriato. — Epopéa. — Soneto. — Suas 
► dificuldades. — É género em que Bocage primou. — A accusaçao das 
poesias fugitivas. — Perfeição não é attributo humano 167 

Cap. XXIX. — Manchas d'este autor. — dever de imparcialidade. — De- 
ficiência de invenção. — Algumas mais ou menos raras vezes má escolha 
de assumpto. — E grandiloquia sobre objectos que a não comporia vão. 

— E ponto de admiração frequente. — E de interrogação. — E pala- 
vras substituindo idéas. — E vocábulos impróprios. — E jtcuções pe- 
regrinas. — E versificação deleixada. — E cacophonias. — E ©ordões. — 
E epithetos mal cabidos. — E toantes e consoantes em versos soltos. — 
E consoantes errados. — - E rimas pobres. — E lhe por lhes. — E o pal- 
lido lhe. — E imagens falsas. — E metaphoras mancas. — E hyper- 
boles hespanholadas. — E má combinação métrica das alcaicas. — E 
variedade do accento nas mesmas palavras. — E antitheses e gemina- 
ções. — De como não procede a arguição sobre desordem de pen- 
samento. — Analyse severa de uma poesia, como exemplo. — Con- 
clusão. * . . . 184 



ap. XXl«l 
— Difficuldad 



Cap. XXX.éWTraducções. — É o mais firme titulo da gloria de Bocage, 
ildade das boas versões. — Opinião de vários sobre as de Bo- 
cage. — Como este se ufanava de tal perfeição. — Línguas de què elle 
verteu. — Hespanhol. — Gil Braz. — Italiano. — Imitações deMetasta- 
sio e Tasso. — Inglez. — Fragmento de Fingal. — Francez. — São 
admiráveis essas traducções. — Exemplo. — Obras francezas que tradu- 
zio. — Musa greeo-latina. — Grego. — Latim, — Se Bocage o sajáfcbem 
ou não. — A metrificação latina confrontada com a portugueza. -^Quan- 
tidades e syllabas. — As versões de latim podem ser dadas como mo- 
delo. — Confrontações. — Obras gregas e latinas que traduzio. — Con- 
clusão. . .* 203 

C.»p. jBtXI. — Influencia de Bocage na língua e poesia portugueza. — Os 
progressos d'este século. — Não assim na poesia. — tempo de Bocage 



ÍNDICE J>p£ CAPÍTULOS. xxi 

foi de transição. — 0. Elmi&foJP? — Os imitadores. — Bocage e Fi- 
linto. — Opiniões dos Srs. Gàrrétf, Alexandre Herculano e Castilho An- 
tónio 231 

Cap. |Dn. — Juízo cjeautores sobre Bocage. — Como os estrangeiros 
nos costumão julgar. «Êfipinião de Sane/ — de Yoge), — de Ferdinand 
Denis, — de Balbi, — oéLink, — de Backford, — de Dazobry e Bacholet, 

— de A. Timoni, — de Fresse Monval, .— de Freire de Carvalho, — de 
Couto, — de Costa e Silva, — de IgnacÍQ Jos^ de Macedo, — de Constâncio, 

— de Rebello da Silva ,. . V.y. 265 

Cap. XXXIII. — Motivos da omissão, na edíçSo presente, tanto de muitos 
excerptos como do capitulo bibliograpbico. — Publicações posthumas. — 
Considerações sobre publicações taes. — É Bocage clássico ou não? — Seu , 
timbre de vernaculidade. — Escreveu com pureza, mas não enriqueceu ^ 
o vocabulário. — Bocage e Malherbe. — Sc Bocage não é clássico, é 
pelo menos escriptor de boa nota. — Apreciação geral do poeta. — Con- 
clusão 299 



■* 



FiN DO ÍNDICE DOS CAPITULO». 






^^ 



'■*.'■■ 



* 






^ 



Jflft* 






% 



índice dos actores 

CITADOS NTSTA^MQÍORJA 



Àbbade de Almoster. — Vide Joaquim Franco de Araújo, 

A. Gçdoso de Figueiredo, III, 286. 

AgosUnhgufipmes da Silveira, II, 305, 

Albano;^HSde Mattos. 

AlbivanoTlII, 170. 

Alcino. — Vide Quita. 

Alcino Lisbonense. — Vide Joaquim Severino Ferraz de Campos. 

Alcippe. --Vide condessa d Oyenhausen. 

Alexandre Herculano, III, 235, 242. 

Alexandre José de Mello Moraes (Dr.), II, 43, 125 ; III, 205. 

Alfeno Cynthio. — Vide Domingos Maximiano Torres» 

Alfredo de Musset, II, 170, 187. 

Almeida Garrett, III, 235, 286. A , 

Almeno, II, 286. «fr 

Alvarenga, II, 223. *■§£ ' 

Amadis Jasmin, II, 120 ; III, 188. w 

A. M. Sane, III, 267. 

André Chénier, III, 173. v • ' 4 

André da Ponte Quental da Camará, II, 80. 

Anna Marecos (D.), II, 163. * 

AttMo Alvares. II, 103. 

António Bersane Leite, II, 255, 259, 260, 261, 262, 263 ; III, 7. 

António Cbrispiviano Saunier, III, 6. 

António Dias de Azevedo (Dr.), II, 226. 

António José Alvares, III, 12. 

António José Bernardo da Gama, Htóá8. 

António Lobo do Carvalho, II, 221/?M. 



índice dos amores. 




# 



António Maria do Couto, II, 24, 29, P^Pf^ 260; III, 3, 124, 176, 

177, 207, 209, 227, 277. • 
António Mendes Bordalo, II, 304. 
António das Neves, III, 306. 
António Pereira de Souza Caldas,. III, 39. ^ 

António dos Reis. II, 103. . t u ;^» 

António Ribeiro dos Santos, II, 271, 286; III, lKfc?105. 
António da Visitação Freire de Carvalho (D,), II, '298. 
António Xavier Ferreira, II, 306. 
A. P. de Figueiredo, II, 103ít 
Aretino, III, 41. í *\" 

Aristóteles, II, 206. 

Armania. — Vide Marianna Antónia Pimentel Maldonado. 
Arnault,H, 75; III, 171, 218. 
A. Timoni, III, 276. 
Aulo Gellio, II, 215. 

Ausonio, III, 154. 9 

Backford, III, 274. 

Balbi, II, 253 ; III, 272. 4, 

Balthazar Estaco, III, 22. * 

Barros, III, 241. j|f 

Beaugeard, III, 152. ^»-« 

Belchior Manoel Curvo Semmedo, II, 173 ; III, 2, 28, 32, 34J& 45, 58, 

104, 157, 167. 
Belmiro. — Vide Belchior Manoel Curvo Semmedo. . 
Bermuino. — Vide Bento Henriques Soares. " 

Bento Henriques Soares, II, 307. 

Béranger, III, 181. 

Bernard (M-), III, 218. 

Bernardes, II, 103; III, 162, 266. 

Bernardim Bibeiro, III, 235, 266. 

Bion, III, 230. . 

Blair, II, 24ÉUÍ1, 253. 

B. La MartjflK III, 156. 

Boccacio, U/%9. 

Boileau, 11,72; 111,151, 157, 212, 261,304. 

Bouhpurs (pafre), III, 154. 

BouifTet, III, 276. 

Braz Garcia de Mascarenhas, III, 22. «. 

Brueys e Palaprat, III, 139, 171, 218. 

Bruno Seabra, III, 155. 

Buffon, III, 13& 145. 

Byron, III, 28j«7, 288, 289. 

Camões, II, MB, 161, 240 ; III, 22, 119, 147, 162, 179, 180, 194, 235, 
239, 241, 244; 266, 267, 269, 27%j^88, 292. 

Cardoso, III, 205, 223, 273. ^T 



ÍNDICE DOS AUTORES. xi? 

Cari Vogel, III. 268. ^ 

Castel, III, 218, 239, 267. 

Castilho (António), II, 279; III, 219, 235, 246, 286. 
Castro, III, 266. 
Chapelle, II, 193. 
Charles Nodier. III, 145. a 
Châteaubriand, III, 158, 241. 
Chatterton, III, 282, 288, 289. 
Cicèro, 111,187,188, 196. 
Clément Marot, III, 152. J : 

Colletet, III, 139. 
Conde da Ericeira, III, 212. 
Condessa d'Oyenhausen, II, 286. 
Condillac, III, 138. 
Constâncio, III, 277. 
Corneille, II, 170; III, 154. 
Côrte-Real, III, 266. 

Corydon Neptunino. — Vide Joaquim Franco de Araújo. 
D'Alembert, III, 213. >[ 

^hmchekJII, 218. s - 

Dante,W, 285. 
Darwin, IULk£67. 
Daaobry e «Sfeolet, III, 276. 
Delijlé, III, 218, 239, 267, 307. 
Delio, III, 145. a 
Diniz, III, 28, 167, 236, 266. 
Diógenes de Laércio, II, 215. 
Diogo do Couto, II, 66. 
Diogo José Blancheville, II, 137 ; III, 20, 112. 
Domingos Caldas Barbosa, III, 28, 32, 36, 39, 50, 51, 62, 69. 
Domingos Maximiano Torres, III, 36, 74, 167, 248. 
Dryden, II, 216. 
Ducis, II, 210. 
Dufremy, III, 218. 
Dumoustier, II, 12. 
Duque d' Alba, II, 38. 

Durão, III, 266. .*&•' 

EdgardPoê, 11,194. 

Elmiro Tagidio. — Vide José Agostinho de Macedo. 
Elpino. — Vide Diniz. 

Elpino Duriense. — Vide António Ribeiro dos Santos. 
Eurindo. — Vide José Thomaz da Silva Quintanilha. 
Falmeno. — Vide F. I. J. Cordeiro. Jfc 

Felippe Nery Xavier, II, 58, 59, 63. W 

Fernando Diniz, II, 13 ; III, 179, 268^286. 
Fernão Alvares do Oriente, II, 258 ; III, 162, 303. 






ixyi ÍNDICE dos autores. 

Ferreira, III, 162, 173, 203, 235, 2*1*260. 

Fichtc, III, 287. 

Fidelis António Lopes Cordeiro, III, 124. 

F. I. J. Cordeiro, III, 20. 

Filinto Elysio. — Vide Francisco Manoel do Nascimento. * 

Florian, III, 139, 218. K 

Fontenelle, II, 11; III, 138. 

Francelio Vouguense. — Vide Francisco Joaquim Bingre. 

Francisco Bouça, II, 184. 

Francisco Dias, III, 7. 

Francisco Freire de Carvalho, II, 298 ; III, 276. 

Francisco Joaquim Bingre, IÍ, 95, 111, 137, 174, 185, 188, 191, 199, 202 ; 

111,34,37,71,76,153. 
Francisco José* de Almeida, III, 18. . 
Francisco José Freire, II, 103. 
Francisco José da Paz, III, 19. 
Francisco Manoel de Mello (D.), III, 22. 
Francisco Manoel do Nascimentoj^L 156, 222, 286, 289 ; III, 40, 119, 

123, 155, 204, 212, 235, 23^K 240, 241, 245, 252, 268, 277, 28^ 

289, 305. k ^F ifW 

Francisco de Mendonça Arraes e Mello, III, 20. *»** 

Francisco de Paula Cardoso de Almeida, II, 117, 137, 155, 270, 272, 291, 

316 ; III, 7, 10, 45, 66, 90, 91, 92, 94, 95, 124, 206, 2&, 222. 
Francisco da Silveira Malhão, II, 190, 225 ; III, 79. 
Francisco Villon, II, 120. 
Fréron, III, 156. 
Fresse Montval, III, 276. 
Gabriel Pereira de Castro, III, 119, 188, 194. 
Galina, II, 266. 
Gama, III* 266. 

Garção, III, 28, 31, 167, 204, 236, 240, 242, 266. 
Garcia de Rezende, III, 53. ' 

Gastão ttifeb Camará Coutinho (D.), II, 137, 164, 185, 270, 272, 280, 

316;THT 10, 32, 34, 35, 45, 172, 223, 266. 
Gessner, njTl62, 218, 246, 263. 
GUJicente, III, 234, 266. 
G^&R. Vianna, III, 20. 

Gceffie, III, 170. "* 

Gombaud, III, 47. 
Gonzaga, III, 28, 266. 

G. Pereira de Castro, III, 22. 
Gregório Freire Carneiro, II, 292. 
Gresset, III, £13. 

Guarini, III362. 

Hénault, II, 249. k , 

Henrique Pedro da Costa, II, 308; III, 17. 



ÍNDICE DOS AUTORES. kvh 

Hoffmann, II, 194. * 

Homero, II, 232. * 

Horácio, II, 77, 206, 240, 211, 280; III, 164, 160, 169, 181, 192, 202, 

203, 232, 236, 240, 292. 
* I. G. M. de S. Mascarenhas, III, 20. 
Ignacio da Costa Quintella, II, 294. 
Ignacio José de Macedo (padre), III, 124, 277. 
Inuocencio Francisco da Silva, II, 20, 21, 30, 31, 96, 100, 117, 128, 168, 

180, 244, 248, 255, 263, 279, 285 ; IH, 16, «2, 68, 70, 71, 94, 299. 
Insauro. — Vide António Chrispiniano Sãumer. 
Ismeno. — Vide João Vicente Pimentel Maldonado. 
Jacindo Dlyssiponense. — Vide Ignacio da tosta Quintella. 
Jacintho Freire de Andrade, III, 22. 
Jannario da Cunha Barbosa, III, 40. 
J. B. Rousseau, III, 189, 218, 288. 
J. Chénier, III, 158. 
J. Freire (frei), III, 23. 
\. M. de Oliveira, III, 49. 
^LU. de Souza, III, 180. ' 
VBso Baptista Gomes, III, 20. 
João Pedro Maneschi, III, 19. 
João Sabino dos Santos Ramos, III. 19. 
João de Sónia Pacheco, III, 76. 
João de Soyé Waffer e 0'Connor, II, 246, 247 ; III, 14. 
João Vicente Pimentel Maldonado, II, 296. 
Joaquim António Soares de Carvalho, III, 15. 
Joaquim Barreto de Castilho, II, 241 . 
Joaquim de Foyos (padre), II, 103, 286; III, 162. 
Joaquim Franco de Araújo, II, 291 ; III, 50, 64. 
Joaquim Manoel, II, 244. 
Joaquim Manoel de Macedo (Dr.), II, 249. 
Joaquim Manoel de Moura Leitào, III, 18. 
Joaquim Pinto de Campos, III, 14* 73. 
Joaquim Rodrigues Chaves, III, 20. 
Joaquim Severino Ferraz de Campos, III, 28, 75. 
Jonio. — Vide João Baptista Gomes. 
Jorge de Montemaior, III, 247. jfiy 

fc José (D.), III, 219. 

José Agostinho de Macedo (padre), II, 48, 70, 137, 143, 165, 193, 285, 

300, 315; III, 9, 32, 37, 54, 58, 61, 67, 71, 75, 77, 81, 135, 151, 178, 

194, 195, 191, 223, 302. 
José Anastácio da Cunha, III, 49, 289. * 

José Anastácio de Figueiredo, II, 248. ^ 

José Barreto Gomes, III, 18. 
José Basílio, III, 125. 
José Bersane Leite, II, 255,258, 260, m,Yl\\\\VoA^To. 



T 



xxvm ÍNDICE dos autores. 

José Botelho Torresào, II, 153, 218, 225; III, 15. 

José Caetano de Figueiredo, II, 221. 

José da Cruz Varona, II, 263. 

José Daniel Rodrigues da Costa, III, 1, 292. 

Jos&Delorme, III, 179. 

José Fernandes de Oliveira Leitão de Gouvêa (padre), III, 15. 

José Joaquim Gerardo de Sampaio, II, 137, 140 ; III, 15. 

José Luiz Soares de Barbosa, II, 18, 19, 25. 

José Manoel de Abreu e Lima (padre), II, 229; III, 133, 176. 

José Maria da Costa e Silva, II, 42, 137, 169, 184, 2?1, 285, 304 ; III, 16, 

67,135, 205, 208,227, 277. 
José Maria de Mello (D.), II, 103. 
José Mariano da Conceição Yelloso, II, 123. 
José Mariano Velloso, III, 84. 
José Nicoláo de Massuellos Pinto, II, 309. 
José Rodrigues Pimentel e Maia, II, 310. 
José Thomaz da Silva Quintanilha, III, 36, 49, 51, 61, 69, 
José de Torres, II, 71, 111, 13^o£; a 

Josino. — Vide José Nicoláo de mKÈ&los Pinto. 4 JHk 

Jules Janin, III, 232. ^* ^ m 

Junqueira (conselheiro), II, 250. 
J. V. Cardoso, III, 230. 
J. V. Pinto de Carvalho, II, 169. 
Kant, III, 287. 
Klopstock, III, 239. 
Labenski, II, 188. 
Lacerda, III, 219. 
La Condamine, II, 10. 
Lacroix, IH t 230. 

Lafontaine,' II; 170, 190 ; III, 157, 180, 218, 232, 262. 
La Harpe, In, 199, 204. èi * 

Lamartine, II, 188; III, 140, 232,111, 281, 284, 287. 
Lambert, JJIgSô7. * 

Lamothe, IDÇ138. 
Lamotte-Houdard, III, 197. 
Lara, III, 77. 

Lebrtm, III, 30, 154. V 

Legouvé, III, 218. * 

Leibnitz, III, 154. 
Lemierre, II, 36; III, 139, 166. 
Leonel da Costa, III, 303. 

Lereno Celynuntino. — Vide Domingos Caldas Barbosa. 
Leucacio Fido. -*» Vide João de Souza Pacheco. 
Link, III, 206, 273. 
Lobo, III, 162,266. 
Longepierre, III, 67. 



4 



ÍNDICE DOS AUTORES. xx» 

Longino, III, 141, 183. 

Lopes de Mendonça, III, 282, 297. 

Lucano, II, 209; III, 230. 

Lucena, 111,241, 303. , 

Luiz Augusto Rebello da Silva, II, 30, 56. 

Luiz Caetano de Campos, III, 139. 

Luiz Corrêa França Amaral, III, 36, 58, 66., 

Luiz Pinto de Souza Coutinho, III, 19, 191. 

Lycidas Cyntbio. — Vide Manoel de Figueiredo. 

Machado de Assis, II, 35. " ;.-" 

Malherbe, 11,305; III, 304. ' i 

Manilio, III, 170. > > \ 

Manoel António Alvares de Azevedo, III, 286. 

Manoel Bernardes de Souza e Mello (Dr.), III, 56. 

Manoel de Figueiredo, III, 18. 

Manoel Pedro de Araújo Ribeiro, II, 155. 

Manoel da Veiga, III, 162. 

jbrcial, III, 153, 156, 230. ^ 

Mcos Aurélio Rodrigues, III, 19, W0J& 
Tmrianna Antónia Pimentel Maldonado' II, 296. 

Marianna Lepage du Bocage, II, 10; III, 218. 

Marques Leão, II, 285. 

Mattos, 111,31. 

Maximiano Torres, III, 267. 

Medina, II, 246. 

Melibêo. — Vide Miguel António de Barros. 

Mellin de Saint-Gelais, II, 206. 

Melysêo Cylenio. — Vide Luiz Corrêa França Amaral. 

Menalca. — Vide José Rodrigues Pimentel e Maia. 

Mendes Leal, II, 34, 35, 169. 7 

Méry,IIV4S0. 

Metastasio, II, 286; III, 146, Mjjffri. 

Miguel Alvarenga, III, 56. 

Miguel António de Barros, II, 259; III, 36, 70. 

Milton, II, 72; III, 179, 259. 

Molière, II, 170, 193; III, 157, 180, 309. 

Montaigne, 11,164; 111,183. 

Monteiro, III, 275. 

Mofitesquieu, III, 138, 151. 

Morgado d'Assentiz. — Vide Francisco de Paula Cardoso de Almeida. 

Moscho, III, 230. 

Nasão, III, 196. 

Nicoláo Tolentino de Almeida, II, 72, 190, 268 ; III, 254, 266. 

Nuno Alvares Pereira Pato Moniz, II, 157, 184, 209, 300; III, 10, 125, 
135, 173, 174, 175, 177, 218. 

Ontanio. — Vide António da Visitação Freire de Carvalho 



m ÍNDICE DOS AUTORES. 

Os.**.. III. 22. 

Oiidi.., II. 37, 10$. 193. 209, 281; III. 19i>, 219, 223, 227, 250, 239, 

tti. 
I^d. III. 44. 
PaAu. II. 72. 
Paniy.II.76. Ill: III. 218. 
Pedm Lnacio Ribeiro Suares, II, 315; III, 10. 
Pedm Ji«x : Gjnetancio, II. 511. 
PcíieUn. III. 138. 
Perrault.IIl. 218. 
Per>H.. III. 130. 
Petrarcha. III. 17X. 
Philoxèoe Bum. III. 184. 288. 
Pina e Mln/lll. 248. 
Findam. III. 1G9. 230. 240. 
Pin*i. U, 76. 272. 
Plutart-ho. II. 213. 
Pommier, II. 190. ^ 

Pn.percio. Ill, 264. *< V J\ 

Quita. III. 28. 162, 266. 
Quintiliano. III. 148, 202. 
Rabutin. III. 218. 

Racine. II, 72. 170, 173; III, 67, 215, 218, 262. 
Rcbelln da Silva, III, 279. 
Robert, 111, 218. 
Rodrigues Lobo, III, 502. 
Rosset, III. 218. 
Rulébeuf, U, 120. 

Snbrtm, 111/ 140. £ 

Salicio. — 15dc Sebastião Xavier Botelho. Sl 

Sá Menezes; III. 200. if£ 4fjk' 

Sá de Miranda. III, 162, 175, 255, 2jK' L > 
Sannazaro, 111, 166. 
Scudt-ry (Bl lla ), 111,218. 
Sebastião José Ferreira Barroso, II, 45. 
Sebastião Xavier Botelho, II, 152, 208, 297; III, 242, 504. 
Sem co, III,- 196. 

Sfaakspeare, II, 170; III, 185, 192. 
Shelley, 111, 288, 289. . 
Sberidan. III, 55. 
Silio Itálico, III. 241. 
Sismondi, III, 260. 
Stacio, II, 210. 
Stael. III. 158. 
Tabourot. II, 195. 
Tácito. III, 219. 



% ' ÍNDICE DOS AUTORES. xxxi 

Tasso, III, 162, 179, 239. 
Theocrito, III, 161, 166. 
Theodoro de Almeida, II, 103, 157. 

Theophilo Gautier, II, 191. A, 

Theotonio Xavier de Oliveira Banha, II, 60, 223, 231 , 252, 271 . ' ^ 
Thomaz António dos Santos e Silva, lf, 9, 18, 137, 236, 314; III, 71 
Thomé Barbosa de Figueiredo Almeida Cardoso, II, 253. 
Thomino Sadino. — Vide Thomaz António das Santos e Silva. 
Trigoso, III, 25. 

Valentim de Bulhões, II, 103. ,;■ . 

Valmore(M»«), II, 186, 196. 
Varnhagen, II, 119. 

Vasco Mausinho de Quevedo, II, 9; III, 266. 
Velloso, 11,157. 
Verney, III, 23. 

Vianna, II. 157. «' 

Vicente José Ferreira Cardoso, II, 137; III, 16. 
Vicente Pedro Nolasco da Cunha, II, 317 ', III, 226, 268. 
«ctor Hugo, II, 72, 170; III, 141, 281j*84. 
Tieira, III, 267. 'i- 

Virgílio, II, 72 ; III, 146, 160, 161, 163, 164, 163, 166, $50, 259, 249. 
Visconde de Balsemão. — Vide Luiz Pinto de Souza Coutinho. 
Visconde de Laborim. — Vide. José Joaquim Gerardo de Sampaio. 
Visconde da Pedra Branca, III, 218. 
Viscondessa de Balsemão, II, 249. 

Voltaire, II, 11, 23; III, 124. 158, 151, 152, 155, 156, 254, 287. 
Werner, 111,290. 
Wielland, III, 241. 

Xenophontei II, 215. ¥: 

Yart (padrJ* H, 11. ... * 



Young, It^W. 



* 



FIM DO 1KDICE DOS AUTORES. 






* 



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* 



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& St*» 



* 



■r/ 



ADVERTÊNCIA GERAL 



.,.*. 



N'esta collccção, corre por conta do autor je cada Memoria 
a responsabilidade litteraria e moral, tanto %Ç} relação ás opi- 
niões e redacção da mesma Memoria, como á selecção dos E\- 
cerptos. 






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fins* 



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ADVERTEN^ÀS ESPECIAES^ 

SOBRE BOCAGE 






V 




l*Sahioem 1847 a I a edição (Testa Memoria, que ora tivemos 
de refundir e ampliar. N'este intervallo de dezoito annos guitas 
vicissitudes de vida, mudanças de terras e casas, e confusões de 
papeis, forão parte para^jpe não achássemos agora os assenti*., 
que outr ora tomámos. Nos pontos de fado a lembrança náàv 
Mm F^V*5É8ÉSÉP^ » ''j 1 ' 1 Jlfc 1 ^ 1111 ^ na ^ a demos então 
por avmrapS^js nos ^ JHH^V^^ como tal por pessoa 

2 a Eis-ftquí o que escrevíamos 1 çm 1847 : « Áproveiteknos 
ta occasião para dar publico testeiíianho da nossa gratidão, 
las benévolas e importantes coriraKunicações^cpm que enri- 
quecemos esta obra, a quasi todos esses raros ajaaigos^lé Bocage 
ainda existentes. Cumpre mencionar á frente d'elles o Sr. 
D. Gastão Fausto da Camará Coutinho, cavalheiro em quem o 
saber corre parelhas com a delicadeza. — Ao Morgado dissen- 
tias, pouco ha fallecido, também muito devemos. — Somos por 
igual motivo não menos devedores aos Srs. Francisco Joaquim 



4 LIVRARIA CLÁSSICA. tf 

Bingre, visconde de Laborim, José Maria.da Costa e Silva, Gon- 
çalo José Yaz de Carvalho, Francisco Joaquim Pereira e Souza, 
fcjtoma Gertrudes Pereira Marccos, Theotonio Xavier de Oli- 
ve^&pujha, sem esquecermos também os Srs. Joté Pedro da 

«Iva, João Nunes Esteves, e outros, de quem, nos competentes 
gares, falíamos no texto. » Já d'aquella brilhante sociedade 
nem um único deixou de ir jthtar-se ao seu preclaro amigo. 

3 a Ào tempo em que escolhemos Bocage para figuraria 
Livraria classiêa, foi, entre outros motivos, porque nfo existia 
collècçao alguma das suas obras, as quaes andavao disseminadas 
poflÉBfcij^raveis edições. Hoje esta razão dggppareceria, pois 
aos ^SfiWfeerviços que as lettras deven*tjrancansavel biblio- 
philo Sr. I. tf. da Silva, se juntou o de uma Collecção completa 
das poesias tyBSÊte, impressa no anno.de 1853, em 6 volumes 
(a que algíeWjàSfou um 7 o , de versos fesceninos), obra de 
que nenhuma livraria de gosto pôde prescindir. Esta circum- 
stancia nos fez reduzif mui consideravelmente os excerptos da 
prúggfm parte, em attenção também ás grandes dimensões da 
Memoria que vai ler-se, afim de não darmos demasiado numero 

Volumes só a um autor. 

4 a Nos excerptos que antecedem a uoè&i Memoria seguimos 
<0 methodo que nos pareceu tornar mais agradável a leitura, 
substituindo as antigas centúrias deproducçòes similares, pela 
variedade, que faz seguir aí) soneto a ode, depois O drama, de- 
pois a epistola, depois Q6DÍgranima } . voltando ao soneto, etc. 
O modo porém como foíjByddo o índice geral da nossa collec-^ 
ç^io, reunindqdwahi os reãjptivos géneros sob a mesma rubrica ,& 
torna Caceis aswpquizas, segundo o systema antigo. 

5 a ty'esta edição, pois que excerptos dos autores erão da Ín- 
dole cliftrabalho, preferíamos intercalar nos lugares competentes 
da Memoria todas as poesias que prendessem com successos da 
vida do nosso heróe ; já porém se achava reimpressa grande 



adveAencias-especiaes. 5* 

parte cTaquelles excerptos quando chegarão a Paris as nossas 
providencias, de maneira que não pôde aquelle plano ser se- 
guido á risca. ;íg 

6 a Deixámos de reimprimir muitas producções wiBòcáge, 
como os Jar/lins e outras, de grande mérito, por serem de coif 
sideráveis dimensões. Dissemos içais na I a edição o seguinte : 

« Ha nas producções de Bocéffe incorporadas,, nesta collec- 
4fp muitas de pouco ou nenhum valor, parecendo mAtirmos 
assim>áo nosso programmâ de preferirmos só os melhores ex- 
cerptos dos principaes autores de boa nota. Duas razões nos 
moverão. Certas composições, reconhecidamente inferiores, fo- 
rão escolhidas Wfp amostras de algum género pafjtig^r de 
poesia. Por outrVlfco, demos niais liberdade á escolha, por ser 
Bocage autor popularissimo, não existirem as suas obras em 
collecção, e ser rara e dispendiosa a totalwmdtô suas produc- 
ções* poéticas. Diz Lafontaine que « a melhor arte poética é uma 
« escolha de excellentes versos em todo» os géneros ; escolha pro- 
« pria para formar o gosto, porque todos esses excerptos são lidos 
« com utilidade e prazer. » E uma arte poética, pois,quJHfinci- 
palmente tivemos em vista compilar, mas deveremos ás vezes 
sacrificar «essa consideifição á da, tombem necessária vutmât 
Eis livros rqgs . » TJ,, * ■&£«# 

os cit^fflfflwersos de Bocage, deshonrados 
avras impropnS?ÍÉfcènquanto muitas appareçao, 
d'e0£|KFeza, em autores de grande nota, e em obras tidas 
por clássicas (por exemplo CamõejÉJorge F. de Vasconcellos, 
Abbade de Jacente, Hyssope daÉHpz, Macedo, etc), pusemos 
reticencias nesses lugares, mas mh enteudêSkjSf dever privar os 
leitores de producções que completão o retra^moral *do autor, 
sempre que nos foi mister narrar acontecimento ligado com 
versos d'essa qualidade. 

8 a Escrevemos na I a edição (I, p. 22) : « Seja dito que, 




# 



('» 



LIVRARIA CLASSlfc,\. 



dando nós cabimento nesta Memoria a um avultado numero 
de inéditos, os reputamos taes, sem ousarmos asseverar que 
um ou outro a que applicamojMpfc denominação não haja sido 
pUb|icadjp anteriormente, semlpie o saibamos. >» 

fmp Tendo sido confiadas de nós muitas dezenas de poesias, 
dadas como de Bocage, nem a quarta parte reproduzimos, por 
. serem manifytamente as restantes de outras pennas, ou tão 
estragaftas que se não poejião aproygfar ; mesmo das que dem0jL 
ttem sempreundamos positivamente affirmar ser a auflpa : de 
Bocage. 



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NOTICIA 



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DA VIDA E OBRAS 



* # M. M. BAffBOSA DU BQ£AGE 



Eis que dó seu regaço os bons aotyres 
emborca a impressão. Lede «'relede ; 
os moldes engraçados da facúndia 
liada e nobre e rica n'elles jazera. 
Fiuirro Elysio, Arte poet., § ix. 



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CAPITULO PRIMEIRO 

femilia de Bocage — Setúbal c Troya. — A região dtí 
índia. — Os Bocrégde Cherburgo . — Madama du 
Doux du DiMjQM^Duguay-Trouin no Rio de Jane 
ienlèi e prole do &£-*rafote du Bocage. — Casamento dei 
D. Marianna com oDr. Jofroriis Soares de Barbosa. — Filhos 
trimonio. — José Luii, jurisconspjto e poeta. 



À seis léguas S. E. de Lisboa, nas faldas do Baj^barico 

Promontório, onde o Sádão, ou Sado, m ameoas :nar- 

yatdesembocar no Atlântico, demora unfa povoação 

v^mtíg#£ nobre, industriosa, de frequentado poçtp, excel- 

• x m$& pescarias,. preciosos vinhos, marinhas afcmada*; 

povoação tão fidalga, que outrora o Sr. D. Aífonso IV, 



*«" 



8 LIVRARIA CLASggJt. 

desentranhando riquezas da serra da Arrábida c outros 
lugares, a cercou de muros çfe jaspe. ,& 

Fundação de Tubal a »jlN™o crên3eiros?*% que 
porém é certo é que a noffiiffis tempos lhe escondeu a 
origem, sanendo-se comtudo ter sido a velha j Cetobriga 
^MSnte n*uma lingua de terra, fronteira á Setúbal de 
hoje. 

Sobredouráo-se os fastos dtafr povoação com vestí- 
gios de nobreza duas vezes qflpiaria. Ha já 4|P£os* 
que um templo, com suas cSlumnas e capiteis^lvia 
sido desenterrado 4a âtêa, e bem aaiimuapuitos jazigos 
com om$àÁ humanas, urnas com ciai I fe os emjteos 
de bafitl^ ornaipentos de vidtíg de c35*í candeeiros de 
argila, medalhas; e pelo espaço de qflbi uma légua 
forão encontradas renques de alicerces de magestosas ca* 
sarias... minas tudo! 

Inventando Lucangftque César, após a batalha de Phar- 
salia, visitara Troya, âescreve os campos onde ella fàra, 
e conclue a descripção pela magnifica phrase : et eíium 
jpfíàre ruinx! Quanto ás ruinas da opulenta Cetobriga, 
%w$havião perecido ainda, e a ellas se julga dever attrí- 
buir-se o próprio nome dç Tfoya, que também a este 
lugar, na emBocadur^. jg^M^j foi desde séculos appli- 
cado. 

Poucos annos há^e funíou uma sociedade archeolo- 
gica para promover eí&avições, adquirindo a propriedade 
da maior parte do terreno de Cetobriga. D'alli se extr^- 
hírão moedas, adjjeriores cerca de trezentos annos á fun- 
dação do império romano; curiosíssimos mosaitiri^ 
vasos, ampKoras, lacrjmatorios, estatuas, fu8tesy4í 
tfis, tâ&s de columnas, e outras relíquias inajíf 
veis. A creação e os alentos d'aqu9$ft sociedade^ 



BOCAGE. 9 

principalmente delidos ao zelo de um distincto archeo- 
logo, o reverend^o padre Mútgel da Gama Xaro. Consta- 
nos quê," depois da sua trram^encia para cónego da Sé 
de Lisboa, os trabalhos esfriarão, chegando o tetreno a 
ser cedido por alguns dos sócios para plantações de 
alfaces c couyes! Profanação, que, segundo ouvimos, wr 
ser desaggravada pelo príncipe illustrado, o rei artista, 
a quem Portugal deve tfcLformoscs serviços prestados ás 
artereSfeer vôfdade cfu^WSr. D. Fernando se vai tornar 
dono^reTroya, cabe esperar que mais valiosos trabalhos 
e estudos trar$ff&^|z do sol um ,-novo Herculano, uma 
nov^Jpmpeiáí^y* ^^5;" 

Esta Setúbal 3gr tantos títulos celebrada, é naírínenos 
gloriosa por bater sido berço a primorosos engenhos. 
Só ao coro dos nossos poetas deu ella, entre outfos, o 
elegante épico Vasco Mausinho de Quevedo, Thomaz An- 
tónio dos Santos e Silva, inculta niãfttanha de talento, e 
o incomparável Manoel Maria Barbosa du Bocage, cada 
umtos quaes bastaria para illustrar a sua pátria. 

L da biographia d'este ultimo que ora vamos tratai^ e>» 
começaremos pur dar noticia do tronco dos Bocagesem^ 
Portugal, e dos membros mais próximos de tâo distincta 
farmha. v; /'íçL^ 

Kxiste cm Normandia UD^re^^-ifica e extensa, en- 
sombrada de aprazíveis arvoredos^ d'onde em francez 
colheu o nome Bocage, e pertencente hoje aos departa- 
mentos da Mancha, do Orne e Calvados. ...» 

N'esses lugares possuiâo os antepaswd/B^ilo nosso 
consideráveis propriedades, e, ao itsôâe França, 
to o appellido das suas terras du Bocage. Ift&.Nor- 
(na cidade de Cherburgo) viveu, pelos Iras dá* 
íecimo-setimò, um d'esses ca\&\Yte\w^ ^^\&ta*^ 




10 LIVRARIA CLAS6ICA. 

distincto proprietário, por nome Aja to qj o Le Doux (outros 
escrevem L'Hédois) du Bocage, casado com a darijff CatHt- 
rina Cosma. Logo adiante /fornos como d* este ronsorcio 
provierão os Bocages de Portugal; mas é razão não pas- 
sarmos em silencio por uma illustre poetiza d'esta mesma 
Wnhagem, que floreceu na própria França, e foi lima 
como precjursora d'esta grande gloria portugucza. 

Era, por affinidade, segunda^ materna d^ nosso poeta 
a celebre Marianna Lepage, (jtlfe, muito moça, ^ájuvou 
do recebedor de Dieppe, Fiquet du Bocage. 

Marianna, cujo nascimento ant^edêra cincoenta e 
cinccrfcnnos ao do sobrinho } MletíÊfhjjUIÁ d'elle apenas 
três, dk idade de noventa e dous annos^ttn 1802. 

Esta dama, que tanto deveu ás Musas como ás Graças, 
deu-âte a lettras com fervor cada vez maior, e soube gran- 
gear alta fama entre 03 seus pares. 

Propondo a acadeftia de Roão premio ao melhor poema 
sobre Sciencibs e Lettras, ousou concorrer com os vates 
a formosa Marianna du Bocage; laureados os seus versos 
obilitado o seu nome, celebrão-a á porfia as lyràs 

Ss illustres, e os vencidos lhe iAncão de pantií* e flores 



o caminho triumphal. LentoawCfc aqui, Mt^^kDíp^ o 
delicado madrigal com quéSta Condamine à^feféu, 
recordando em sós. $e\s jr énos a vencesflora è.'g cir- 
cumstancia de quebra a hedionda M ue de Scudéry quem 
em 1671 colhera o prémio que pela academia fiwnceza 
fora outorgado. Eis o madrigal : 

D*5SJ|d11o$j, de Vcnys, réanissant les armes, 
Vous subjuguez Tesprit, votis captivez le cour, 
Et Çcudéry jaloj^e en verserait des larmcs. 



vMais sous un átfflre aspect sop talent est yainqueur :"■> ■■* 
Elle eut celui de faire oublier sa IjÉfetar.. *■* 



Tout votre esprit n *a pu faire oubheFvps charmes. 



BOCAGE. 11 

M m *JuBocage^ntie outras obras, traduzio a Morte de 
IpÈfe Gessner ; imitou o Paraíso perdido, de Mil- 
ton, gfc. Sobre essas trflftfftções e imitações correrão 
vários os votos ; ao Paraíso perdido fez o padre Yart um 
espirituoso epigramma, elogiado por La Harpe : 

Sur cet écrit, charmante Du Bocage, 
Veux-tu savoir quel est mon senti ment? 
Je cfrnpte pour perdug, en lisant ton ouvrage, 
êÊ w Leparadis, mon temps, ta peine et mon argent. 

Porém o que á poetiza grangeou os enthusiasticos elo- 
gios 4^ Font^Éjt^pb os louros com que Voltaire em 
Ferney por sualroiãos a engrinaldou, foi o poema original 
da Columbiada, cujo primeiro canto seu sobrinho verteu 
em portuguez. 

Hoje, que o volver dos tempos permitte mais fria ana- 
lyse, devemos confessar que o pensamento geral do poema 
sobreleva á execução. Havia muito, sem duvida, pfera 
um quadro vasto e profundo na achada de um mundo 
novo ; e innpmeraveis incidentes, de magestòsa pod ^ 
podiâo ftflNa pdffeo, seta prejuízo da acção, ir matizar 
aT'^||Plg||Hw^^Lapf "inund^SpiigMMr que o mundo novo tinha 
a pêÊ^/fínte si, na contrimsição entre a cansada natu- 
reza da Europa e a opulência do ^cenário intertropical; 
na differença entre os animaes, o *íqf$à vegetal, monta- 
nhas,4pfres e rios ; tinha a confrontar com a sociedade 
civilisacía as tribus e nações silvestres. Aquella com os 
seus peculiares vicios e vantagens, superai ç^T, talentos 
e sumbição ; esfas com as suas qualidades naturaes, igno- 
(w^x singeleza, confiança, valor,. IjWependeneia.. Pres- 
»âi&^ j s ^ ^ errr m £ os <j e poeta de ordem superior, a 
Ses bellezas^ Cem effeíto, apezar de carecer de 



«^ 



} 



12 LIVRARIA CLÁSSICA. 

energia o estro de M me du Bocage, e»te^eu poema exhibe 



mais de uma vez, em linguagem que entrelemrajfc ^ 
sobrinho, altas idéas, expr&sas por magníficos V&rsos. 
Taes são estes, por exemplo, em que a autora passa em 
revista vários povos : 

Ces Ottomans jaloux peuplent de vastes champs, 
" Ou brillèrent jadis des empires puissants : 
Le berceau des beaux-arls, TÉgypte, utile au monde ; 
L'oputente Assyrie, en voluptés féconde ; ^ * 

La Pnénicie, ou 1'homme osa braver les mers ; 
Et tant d'autres États, dont Téclat, les revers, 
Dans Tabime des temps se perdentiipfnnie une ombre, 
La renommée oublie et leurs faits éx fàjjyiombre. 
Tout péritjjput varie; et la course des.íms 
Change le lit des eaux et la face des champs. 

Estes seguros penhores para a admiração dos contempo- 
râneos fizerão que a denominassem decima musa, e fran- 
céfo Sapho, e que inscrevessem sob o seu retrato este 
dístico : Forma Vénus, arte J^linerva. As academias de 
^oâo, Bolonha, Lyão, Pádua e Roma inscreverão o nojne 
3?àla entre os dos seus alumnos, e esta| Aitias a acoiti» 
pánhárão até o tumulo, pois pogco a tKjpyb seu passa- 
mento Dumoustier lhe dirige "uns versos qúe^a&bavão 
assim: & : 



Lorsque veèBra^eclin le soleil nous éclaire, 
L'éclat de séímrç ons n'en est point affaibli. 
On est vfeux à vingt ans, si Ton cesse de plaire$ 
Etqui plait à cent ans, meurt sans avoir vieilli. 

■i- 

Venhamos poréimiá á família portugucza. Atrás falía- 
mos de António WÈÉ& du Bocage, de Cherburgo, de 
cujo matrimonio WHF Catharin^ festoa nasceu, ( íntre 
outros, Gil Le ftuux/Iu Bocage, ^l^^sado n'aquetia'ci- 



~'4 



#a* 






BOCAGE. 



JÉjlde^e freguezí* de S. Maria Maior. Gil contrahio pri- 
rofeiÇif núpcias em França, e d'esse matrimonio teve uma 
filha, que já era casada com Julião Gclain, de Nantes, ao 
tempo em que elle, tendo abraçado a vida do mar, se 
passou, já viuvo, a Portugal, entrando em 1704 para o Jg 
serviço da marinha portugueza, no posto de capitão de 4$ 
mar e guerra. 

E é aqui lugar de noticiarmos uma curiosa circumstan- 
cia, ligada com a aventurosa vida d'este wlente avô do 
nosso poeta. 

Narrou-nos um cavalheiro, que sérvio na mesa da con- 
sciência e ordáffs, que um dia, percorrendo certo maço 
de requerimentos, vio com cstranheá^um d 'este offícial, 
sollicitando lhe fosse concedido proceder ás provanças 
pelo habito de Christo em Lisboa, por não as poder fazer 
na França, em razão do ódio que n'aquelle reino Jjavia 
contra elle. A razão d'este ódio era o comportamento de 
Gil, segundo a opinião daquelle amigo, por occasião da 
injusta aggressão de Duguay-Trouin á capitania do Rio 

-^áe J a nw<|y&J^711 (e não em 1771, como por ertjjfljdo 
escrfflflj* tf^gjMrnando Diniz) . Transcreveremos o trecho 
em^PSivte escriptor, qp, $cu livro Le Brésil, t. II, p. 73, 
tratínp'este assumpto. Depois de descrever o pérfido 
comportamento de Duclair, e o MjifÍjtó£cpmo Duguay-Trouin 
o pM^irou vingar, narra como oçrPortuguezes diligen- 
ciánrofem vão, por estratagema de guerra, chamar os 
Francezes ao ponto onde os homens de Duclair havião 
sido destroçados, e continua assim : 

« Não dando os Francezes na cilada, os próprios Por^ 
tuguezes incendiarão vários stíanris, e fizerão alguns 

4#fôioneiros, dòfe quaes tentarão qteoaldc sacar esclareci- 
mentos sobre a real força do aggressot ^te* v^wfes^^iv- 



í«» 



A* 

li LIVRARIA CLÁSSICA. 

rào n'um laço armado por um sujeito da Noymandia, por 
nome du Bocage, naturalisado Portuguezjpf qual, por 
zelo a favor da sua nova pátria, muitos prejuízos havia 
já occasionado á expedição franceza. Disfarçou-se de ma- 
rujo, c foi levado, por soldados, como prisioneiro, para 
o caitere dos Francczes. Colheu logo das suas praticas o 
que desejava, e peja exposiçjjg que fez incitou para logo 
o donselho a atacar e exterminar tão fraca gente. » 

Eis-aqui o modo como Duguay-Trouin falia d'este estra- 
tagema em suas memorias : 

« Arrebatou-nos o inimigo de noite algumas senti- 
nellas ; isto deu origem a um ardil extraordinário : um 
sujeito chamado du Bocage, nascido na Normandia, e 
que nas precedentes guerras tinha capitaneado um ou 
dous corsários francezes, achava-se por aqutlle tempo ao 
serviço do/ rei de Portugal, e tendo-se feito naturalisar 
Portuguez, havião-lhe dado o commando de navios de 
guerra nacionaes, e por esta occasiào lhe estava confiado 
um dos que nós achámos no Rio de Janeiro. Começou por 
fazéWo rebentar com uma explosão, e foi dejft>is dirigir 
as baterias dos Benedictinos, sendo tão cérieiitt á ponta- 
ria dos seus canhões, que nos fez um mal inijrivel: ; Este 
Bocage desejava muito distinguir-se e attnihir a con- 
fiança dos Portuguezes, aos quaes, por ser Francez, se 
tinhatífrnado suspeito; lembrou-se por isso de se disfarçar 
em marinheiro, com barrete, jaleco e calças manchadas 
de alcatrão. N'esta bella figura, ordenou a quatro sol- 
dados portuguezes que o levassem para a prisão onde 
estavão encerradas asnassas sentinellas; fez com que lhe 
deitassem algemas, Hm Bpfer umpobrçJpíSriijo de uma 
das fragatas de São-Ma^Kue se foiltàdipstado do acam- 
parnento, sendo aáSim sorprendidô -poj^ins embosca- 



5 




r 



1 ., DOCAGE. 15 

dos. Representou tanto ao natural, que sacou aos prisio- 
neiros franòSes todos os esclarecimentos precisos para 
ter conhecimento do forte e do fraco das nossas tropas ; 
e este conhecimento fez com que os inimigos resolvessem 
atacar o nosso campo. » - 

Assim continuou Gil du Bocage a assignalar-se, a pop{p 
que, noanno de 1717, foi promovido ae posto de coronel 
de mar e guerra (vice-almirante). Official de vasto saber, 
exemplar denodo, e summa perícia militar, foi tido por 
um dos mais hábeis da armada. Por sua distineção nas 
guerras do Brasil contra os Francezes, e do Mediterrâneo 
contra os Barbarescos, alcançou dez mil réis de tença e 
ò habito de Christo (acerca de cujas provanças atrás fal- 
íamos) ; e por novos, relevantes serviços, lhe fez el-rei 
mercê da tença annual de 400^000 réis por trew vidas, 
como consta de certidão passada na secretaria do despa- 
cho das mercês e expediente, assignada por Jeronymo 
Godinho de Niza, aos 4 de Novembro de 1827. 

•O viuvo yice-almirante du Bocage recebeu-se com 
D. Clara Francisca Lestof, aos 15 de Junho de 1 720, fl* 
freguezií^ítflôcárnação em Lisboa, levando a procura- 
ção da'.<íom$seu padrasto, o coronel de artilharia da 
praça de Setúbal João Thomaz Corrêa de Brito : era esta 
senhora filha de Leonardo Lestof, cônsul de Hollanda, 
rico proprietário, e de sua segunda mulher, Lutza jfcn- 
zeller. Nascerão d'este matrimonio duas filhas : 

I a D. Antónia Ignacia Xavier Lestof du Bocage. Deixou 
cinco filhos, de que não ha razfio para tratarmos mais 
miudamente. %,, r ,? ,. 

2 a D. MariatfM Joaquina Xasrojífestof du Bocage. 
Casou com o bacharel José Luiz Saíres de Barbosa, que 
foi juiz de fór»í$áa Castanheira e Povos, o ouvidor na 



16 LIVRARIA CLÁSSICA.,* • c 

comarca de Beja ; verificando-se a ceren^rirtia fregue- s 
/ia de S. Sebastião de Setúbal, aos 6 de Jonho de 1758. 
Tiv^ràft seis filhos,' a saber : '"* 

f .?jjg Gil Francisco Barbos^, du fiocage, nascido em Se- 

fr- . tubal, a 3 de Outubro de tl^!, casado com ]L Gertrudes 
I ^Omem da Cunha d'Essa, fflha de um rnarectpiâe campo, 
governador da torre de Outi<kda barra de Setúbal. Agra- 
dável poeta, distincto jurisconsulto, e de fácil e aprazí- 
vel convivência, falleceu aos 13 de Maio de 1834, e só 
teve uma filha. , 
% 2 o Manoel Maria Barbosa du Bocage, o nosso poeta, 

baptisado naireguezia de S. Sebastião, de Setúbal, sendo 
seus padrinhos Heitor Mçnde^, Botelho de Moraes Sar- 
mento, e soror D. Luiza Mathilde, sua tia. 

3 o -Ç^Maria Agostinha Barbosa du Bocage. Nasceta em 
14 de Julho de 1759; foi baptisada na freguezia de 
- S. Sebastião, em 28 de Agosto; casou com Vicente de 
Paula Figueiredo de Góes Souto- maior, tenente de infan- 
taria 7, e teve dous filhos. ♦# 
f 4 o D. Anna das Mercês Barbosa du Bocage. Nasceu em 
à 23 de Setembro de 1760; baptisou-se na freguezia de 
S. Sebastião, em 31 de Outubro ; casou conr/oão do Prado 
Homem da Cunha d'Essa, cunhado de seu irmão Gil, 
matrimonio que produzio três filhos. 

Maria Eugenia Barbosa du Bocage. Nasceu em 
iOs 8 de Setembro dè 4768; foi baptisada na fre- 
guezia de S. Maria, em 13 de Outubro; falleceu na flor da 
idadfe, sendo a ella que o poeta endereçou o soneto : 

De radiosas fPwes escoltada,. • 
Dóstc immaturo.odeos ao munàttgfifete, 




Co'a -.mento no almo polo a<1 ^.^^ 

Bei» quo sempre se goza e nQJppa enfada. 



*.* 



Ájougra cc( 
Maiflplna o 



BOCAGE. 17 



à 



i cegar vidas destinada 

ia cordeira o cofio uniste. 
O que 4 do cio ao céo restituíste; 
Restituíste ao nada o que c do nada. =¥ ..*. . . 

ifc gemo, inda cNN|f alma querida, . ^jfi 

Í&do amigos tua dita íumensa, v.-^ "^ 

em vez de pranto o, nibilo convida. 

*r ■•■■ 

Ah! pio accordo minha magoa vença. * ' V ■ « 
É captiveiro para o justo a vida; 
A morte para o justo é recompensa. 

6* D^ Maria Francisca Barbosa du Bocage/ nascida em 
Setúbal, em 15 de Abril jde 17,71, baptisada na freguezia 
dç S. Maria da Graça, em 2 de Junho, fallecida no primeiro 
estado em Setúbal, aos 18 de Maio de 1841, tendo vivido 
muitos ãiinos em casa da marquezã d'Alorna; foi também 
(lòetiza, e a irmã predilecta do .nosso autor. Viveu em 
sua <&É$panhia até se elle finar, e toda se desentranhou 
à$ affecto, pagtndo-lhe em saudosas lagrimas, té que o 
foi procurar em melhor mundo, o seu tributo de fraterna 
gratidão*/- * 

Por todrtfr de Manoel Maria ficou pois esta sua (jtierida 
irmã ná ]Sos$e de numerosos autographos, que bastantes 
arihos reçgtou, cojno adoradas relíquias de quem Janto 
amara. ^ jgjt 

editor das Verdadeirtámeditm, t. IV, e I o cSjWs- 
thumas, assim se exprime, no prefacio, f aliando d'essas 
obras de Bocage : « Encerradas, quasi todas no poder de 
uma senhora, estimável por ^uífcaWtitulos, e -irmã do 
autor, a qual M prezava como preciosa prenda, com 
que unicamente a/dlbçára rica seu caro irmão, com difíi- 
culdade se pôde xeab\yfiv a consentir em não ser só cila 
vil. 1 



ft LITRARU CLASSlCÀ. * » * 

quem com sua li»; jo *e rt$qpsse n % estas mpdncções d'a- 



queilc culto tn^enho. 

àuLténi ánaluieate o amor â to* da razão. » 

fi^lea ainda muitos parentes do poeta, e entre elles 

um qae. *m diversa carrei ra Jfl tellechi%fl|plhapta 

i a coroa que adorna eãtfHEBtre famfl^Balhríiios 

distinvto nituFiHyf j^fifflBfcr Yicente Barbosa du 

ao projgAldirniVji esflp indicações, porque nos nâo 
x acoimem de oompinos este capitulo n'uma arvore 
genealogiGa^GondSnremos somente com algumas pala- 
vras acerca q|& immediatos progenitores 4<> poe|a. 

Sua mài* verdadeira Bocage, era senhora de muitas 
prendas e instnicçào: modelo de mais. ^ ^~ >v * 
.íew gaL o Incharei em cânones piBa univer^ 





Coimbra José Luiz Soares de Barbosa, nascido aiè 29*oe 
íelombro d^!728 % juiz de Tora da Castanhtfra^áe 
Povos* ouvidor em Beja, acabou advogahdojm$èt^al. 
Foi jurisperito* disttiicto qpeta, e Bocage lírfc ehama jjfr 
>io numa saphica ao governador de Macáo : x 

4 ^S? « catis honradas vem molhar decanto 

- f^feft «toro rrlko* i]Uo me deu cò*a vida MÉ[K 
"""Os $«ç$d?si$tr*su.... ^^E- 

Úil António Maria do Couto ter visto ^oesiPfeatyricas 
de ftaé I.nitno gijgjfr diifo^iilho; mas que elle não 
consentira em que se lhe pttfficassem, sendo aliás homem 
d* gtande engenho, saber e gosto. . ^ 

l m sopftlo do iUusUref|ka Thomaz António dos SaáfiBs 
e Silva principia aaÉR, dirigindo^ a Jlanoel Maria : 

Ks*n a*t incite, a som 




*. 



■ „ -* í BOCAGE. 

Bebeu do sábio pai, luz hoje extincta, 
Caudal enta5"de métrico^ fulgores; 

Que em jogos pueris, brotantes flores, 
♦ Junto ás ternas irmãs, traçou a tinta 

ue, adulto depois, esmalta c pinta 
fis ufanos* ÉGfi&ftos amores., 



10 



* 




* 




i 



e as irmãs de 1 
T e jí|<#Dr. 
lidftdé de 
ido em provecta 
'aordinário a erudi- 




Em duas notas dizia 
erão todasxle um liptfissim 
Luiz Soares de Barbosa junwva 
simo jurista a de exceUente poeta, 
idade, á imitação de Young, fogo e 
ção préíiigíoa|. ^ 

Pe JoséLuíz^ó tivemos a fórtbna de alcançar um soneto, 
> dístincto poeta o Sr. José Maria da Çostp e Silva 
1, por têl-o ouvido a Santos e Silva, a qtfém B#- 
o repetira, como prova do talento de seu pai. 
é egta poesia pelo ar de famili^que tem coâl 
a& sçittotófcdo nosso improvisador. Tendo fallecido em 
SBtubàl Joáo Tnomaz Farinha, José Luiz zombou muito 
do Jlermão das exéquias, porque o guardião Franciscano, 
voltandchge para a t eça„ exclamara : « Ohl meusLgpádos 
irmãogâuàos olhos, fitai-os rTaquelle funebrâMjhkzem 
ja lau&flF» Escreveu então José Luiz o seguinte soneto : 



fií 



<mcos; 



Meu padre pregador,"] ^ 
Feche a coroa; ajoujé-éíífos OBJiTos; 
Tempere ou lave na cozinha os pratos, 
Que em púlpitos não ha quem possa vêl-o. 



Vá na hi 
Tome o 
Pregue là 
Que éntn 




ntar alface é , 
jfcvft pedir chibaToT* 
s insensatos, 
é saíio inda um éamalòV 



* 



attrit 



LIVRARIA CLÁSSICA 

Nas exéquias do Bicho d^ Cozinha, 
Ou (Toutros figurões d'eèia entidade^ 
Pôde pregar, que tem licença minha. 

Àlli, meu padre, espoje-se já vontade ! 
£ se houver urna ao João Thomaz Farinha, 
Empurre-lhe o armazém da smaade! 

Sr. I. F. da Silva, nQ^wccionario bibliographico, 

íribue a José Luiz um Epwedio que na morte do reve- 
rendo padre 'José d^farxae Souza fez um seu amigo, 
explicando a sua <3r friesta elegia, dizendo que esta indi- 
cação, e a de^erm-folio, sem àesignação do lugar da 
ifripressâo nem do nome do impressor, é extrahida do 
tomo IV da BUI. Lus., mas que o illustre bibliophilo não 
vira epejiftlar algum de. tal folheto. Ignoramos pois aual 
o funaSgfeiito com que se attribue e&e epiredw áowi 
de Bocage. ™ 

Portanto, cFos dous appellidos de que todos os irmãos 
usa vão, o de Barbosa pertencia ao pai; e do ramo ma- 
terno lhes veio o de Bocage^ nomes e famílias que* já de 
si legavão talento. * *> 

l^p Bocage jactância do seu nascimento, e honra- 
va-se cata o fulgor dos seus passados. N'uiMtfjfllio ex- 
clama elle á sua Lenia, de Gôa : *rV 



Pergunta a quantos vêm <9 Tejo e Sado, , 
Se alli me coftdShnou viTnascimento 
A este, em que mourejo, humilde estado. 

Sempre entre os mai^honrados tive assento : fr 

Venho dos princinaes da minha aldéa. 
Nem cuides que vas fabulas in| JfcfcV * 

E n outro íd 




^ BOCÀÇ& 21 

E eu, poslo que leal, que verdadeiro, * : 
De clara gifetação, de sangue, honrado, 
Caducos, frágeis bens não devo ao fado. 

<Basta. Sqpprimimos muitos oulros pormenores "irela- 
trvos á fagoilia de Bocage, pára sem detença nos occupar- 
i do nosso poeta. $ 



W' 



CAPITULO II ^ 



Nascimento de Bocage. — Spa educação. — $8as poesias infantis. — f 
Praça de cadete. — Transferencia para Lisboa. — Gttarda-marinha. — 
Motivos da sua resolução de ir para a índia. — Parte de* Lisboa como 
guarda-marinha para Gôa. 

Éo Manoel Maria Barbosa du Bocage a luz ãfl àia em 
baf;aos 15de Setembro de 1765 % na casa^numeros 
17*e 18 da rua de S. Domingos (freguezia de S. Sebas- 

* Desde o anno de 1817 que demos esta data com exactidão. Todos os 
que depois se disserão autores de biographias de Bocage continuarão a 
commetter o erro dos nossos predecessores. Exceptua-se somente o sábio 
académico Sr. I. F. da Silva, o qual, no monumento que ás lettras pátrias 
erigio sob o titulo de Diccionario bibliographico, se exprime «Mgft: 

« A datájb seu nascimento corria até agora como ponto {mmfematico 
entre os biffnçhos, collocando-a. quasi todos em 17 de Setembro de 1766, 
e só um d'elles (o Sr. J. F. de Castilho), melhor informado, em 15 de 
igual mez de 1765. Até no moderníssimo Dictionnaire gén. de biogr . 
et Whist, dos Srs. Dezobry e Bacbelet, obra geralmente mais exacta que 
as anteriores do seu género, apparéce, no tomo I, com manifesto engano, 
indicado aquelle nascimento em 1771. Para deixar de uma vez assentado 
este ponto de modo definitivo e irrecusável, recorri ao meu obsequioso 
amigo e patrício do poeta o Sr. João Carlos de Almeida Carvalho, que teve 
a bondade de enviar-me cópia authentica, extrahida do livro 8 o dos baptis- 
mos da freguezia de S. Sebastião de Setúbal, a folhas 176 verso, pela qual 
fica indubitavelmente provado que Manoel Maria nascera com effeito a 
15 de Setembro de 17fôjj|S@} rã baptisado a 29 do dito mez e anno. Esta 
data deverá pois prew6eQr$orft em diante sobre qualquer outra, como 
a única verdadeira, «'iiá.. 



V 



22 ^ LIVRAJW^LASSICA. £* 

tião). Aindafxiste de pé o jnemoravpLedificio, Am» sol- 
tou os primeiros vagidoifjjiiem depóiirhavui de flesferir 
Jpntas canções immortaes 1 . Ainda hoje, urtiíeculo de- 
pois, vão em peregrinação desfita a este getij|ro de t4h- 
^ plozinho jpbscuro os rpmeir% scismadòres da poesia. 
Aquelláf^aredes, aqueUa ca^nhola de aspecto vetujjUk 
singelo, maf. nobre, aquellá 1 tocada alta, onde tanta ^rêz 
encostado scismou por ventura a sublfyne criança que c 
hoje$) assombro de todof 'nós, tudo isso, no seu mesmo 
. .desalinho e pobreza, cáfiversa com ellis e os inspira. Aos 
Viandantes commemora ella mesma este facto importan- 
tíssimo; graças á illustrada camará de Setúbal uma in- 
scripção attestaquiÈàlli vio a luz o poeta Bocage. * 

Fadadp para os versos, desde os mais tenros annos, o 
crerié^c£$g contemplar o como ^^flgtão menino en- 
trou o poeta 'giganteo a revelar-seT^fltolwptacoes de crer 
que nos labite do recem-nado poucfassoa as abelKas de 
„ Platão. • 

A mâi de Bocage, que toda se wtremecia n'aquelle 
dilecto filho, mais não fazia que espreital-o anciosa- 
mente, amimal-o e animal-o. Aos cinco annos de idade era 
ella mesma quem lhe ensinava as primeiras lettras, e toda 
se ufanava pom os progressos do discípulo querido. 

Na I a edição d'esta Memoria dissemos o seguinte : 

« Suppomos ter ha pouco fallecido um tal António Pe- 
reira, marcador n'um bilhar da rua Augusta, e conhecido 
versejador. Era fama que fora também seu mestre de pri- 
meiras lettras e latim, em Setúbal. Perguntando D. Gas- 
tão a Bocage se com effeito Pereira fora seu mestre, res- 




* No n° 45 do vol. III 4)0 Archivo pttfgbj^$odem os leitores oncon- 
trar o desenho da fachada d*esta casa T«ri ~i. . ■•■ 



* 



^^ BOCAGg. % 

^poIffflJD-lheLjc É verdade que alguns md| o foi, e se 

« contjnii^mSidpfenpo, al^j^jie. » j^ 9 

Pài e têS erão familiares cem as musas ; Viá nas litte- 

rarias palSgtjras, delicias j^glles, já no trato aõmestico, j| 

,jtois a criancinha colherra ^aspirações, desetivolvendff a .: 
intelligencia precoce, alifienltaálo o fogo qti^esde ds ^j 
ájjpir tenrols annos o deyOTS^Vsupprindo (mo natu- 
ral ardor o que i^ra umsF\3acação escaãsÀva ey terra 
onde os meios fre instrucçãajBrão defeituosos e ogrcdl. 
Iffas não prescin<km tanta vez a^naturezas privilegiadas 
dos andaimes indispensáveis ao vulgo? *.** ' 

Portentosas se manifestarão em Bocage, desde a infa^p 
oia. duas faculdades, gérmen dc^ujfama : — Memoria . 
e imaginação. Balbuciava apenas, e^ie revelava poeta : 
capi que deleite não re j^tia suáftextremoaa ifl áj Ly, seus 
vasinhos in f^ JLaiL ricos de harnynia à&$S$B$£ll è a 
quacta. fáRa SHWannos de idade, tenito ido a Lisboa 
ver aprociss^oda "Cinza : * 

Fui ver a pj^issão a 9? Francisco, 
A quem o vulgo chama da cidade; 
E, supposto o apertão, foi raridade 
. Que. indo eu em carne, não viesse em cisco ! A 

ttisserôs haver n-$çses versos já o mesmo talento e 

hujner satyrico que distinguia Joltaire, qjUíàtào n'aqtyel{| 

mesma i<Jade * zurzia os tocadores de sinos Éom o epr- 

gramma : * 

Pers^utçurs du genre hunfflin, 

Qui sonritoz sans miséricorde, 

Que tfavez-vous au cou la corde f 

Que vous tenez dans votre main ! 

ÍKnos coníirfflW» matula levdarào p^jr Bocage, no 
*bneto que prààáBjamB^ _ \ .';■ t;' 



«í* 



24 LIVRARIA CLÁSSICA. 

Das áÊks infantis despíao jfcenas, Jl 

Sentia o sacro fogo arcJ«Mia mente. • > ^^r 
* Meífcrno coração, infla iimocente, .$?* 

Ião canhando as plácidas Gamenas. 4 

bem como fio prologo dnSiPlmtas : 

Tersos balbucia c$'a \op ^infância ! * 

Vate nafta ; rffvate.jj^tífria quadra 
. * Em que t) rosto viril *uacio e tenro,* 
* £ Semelha o mimo de virgínea face. " 

na Satyra a José Agostinho de i|acejf : 

.......-.." aquelle > > v 

Que já na infância consultava Phebo. 

Cfflfl|ri$it0, bem razão tinha Boftagç em se ensober- 
becerão ^terreno fecundo onde cehtó||^ata*a semente 
do saber: ' 4$r*** 

*"* Eu, esse, cujos dons Medrarão tant# 

De cultura gentil no brando esteio. 

DizjCouto que Manoel Maria, aos oito annfts deidade, 
lia e escrevia com pasmosa pureçt, dando ao ler' a in- 
flexão de voz própria de quem a fundo entende e sabo- 
reia o pensaxàhto do autorH 

Conàagratá sua mãi os mais doces instantes á cultura 
de tão esperançosa planta; e mãi, e amiga, e mestra, lhe 
fecundava a instinctiva cobiça de ncfljfe, ajudando-lhe a 
romper a senda, apontando á sua infantil ambição para 
o alvo, e animando-o com o brado : Pódçs, e has de alli 
chegar! ^ ^ **jt£ 

Mas esSÊÊÊUkosme mãi, qqdtóíf >ez lhe arranca- 



* 




■* 



**• -5 



BOCAGE. 25 



tt tão expressõgl&e saudade* gratidão; qí5e,flnnda infante, 
o fazia) ejfljamar : * ^ • . 



í « No a^go maternal nutro meu cia to; 



dfcvelos que nenhuns desvelos £ ãenhuma screrçeia stip- 
jJFem 



K rem, finjdárão-lhe aos dez anric^de idade; fRfeparavél 
p&da, que liunca se apMOB^y^Vn^fca do menino nem 
do Somem/ do expatriado nedjio moribundo. # 

José^uiz era vate, e dos vates é partilha o dori^prf- 
pheuco. Instinctiw terror lhe fazia antever òs dissabores 
quê o estro causam a seu filKo. Pelos annos da morte dq* 
Bocage, qtatro grande poeta, Lamartine, f^ia a seu pai 4 
d$ritmar lagrimas de commoção e prazer, ao ler-lhe oi 
^ersos (Le Vallori), com q*£ inaugurava a sua entrada 
no^ domínios em que tamanhos trrumphos o agg|gd|ftão. 



pai de Bocage j^Jp contrario, não encarava JfefKlêitor 
o espontâneo oreroS| ^vicejar d'aquelle portentoso talento ;■ 
pesava os contras a profissão de poeta, e procurava so- 
pear no filho tendências fataes,t|ue antevia deverem con- 
duzir o incauto moço ao Capitólio talvez, á Tarpeia de 
certo. Acontecia-life porém o mesmo que ao pai de Oví- 
dio ; tambewtoquelle que o fado condemnárá a succumjjir 
no exílio, victima dos v^fsos, queria, infante, obedecer a 
um pai, que lhe ordenava repudiar a musai debalde con- 
trariava a natureza, e a despeito das ordlfcis paternas, 
ellè nol-o diz, e em verso : 

■* 
Quidquid tenUÉfen scribere, versus erat. 

Nátre-nos esta sua entrada na vida 



# 



ç; pescador 
Que, em a: 
Vio lá nas 




* 



\ 



♦ tsr 



t 



* 26 LIVRARIA CLÁSSICA. ^ 

pois elle o fará elegantemente nos segiwntes jrersos, 
escriptoíád! seu voluntário desterro : * r 5$; 

Apenas vi do dia a luzbrilhante #3F 
Là-ide Tubal no ggwK celebrado, jm 

Com sanguinee^MÍppr foi marcado mf 

** , # Pelos destinos-T^^prímeiro instante. 



4 KÍ>s dons lustros a morte dèjprante 
% .' Me roubou, tertía jaàl, teu doce agrado ; t 

Segui^prte depoi^e emfím meu fado 
Dos irmãos e do pai me pôz distante.. 

Se é de Bocage, em sua mocidade, a ode á Fortuna, 
publicada no 4 o tomo das Rimas — Verdadeiras inkditas, 
Tj^lfti se queixa de pobrezadtaolestia e prematura perda 
Jé' seus pais : * 

Se^a pobreza importuna me persegu^. 
Desde o berço talvez á sepultura ^g* 
Se a feia enfermidade estende as azas, 
E em mim o gojpe acerta: 

Se a morte, a negra morte, vem roubar-me l 
A minha^protecção e o meu asylo ;*fc 
Ou arranca da terra os pais mais ternos, 
* , Prjmor dá natureza : 

^*|fc. A fome, a orphanda jflgjg mais trabalhos 
^■» Reconheço por donsSKJtvindade. 

Beípfr a sagrada mão que assim me fere ; ^ 

Respeito seus decretos. 

Na idade de quatorze annos, tencft aprendido o francas 
com seu .pai, e <f latim com o ecclesiastico hespanhor 
D. João de Medina, e assentado praça de ca$£e no regi- 
mento n°JWe infaiÉna db SeU|jjÍ^LJfossou-se a Lisboa, 
deixando JáT^ajrialrcora^âo. «"^^ M 



s 



BOÒAGB. 27 > 

t Deseiand(v&eguir a honrosa jida em que seu avô tanto 
prim|i$, diligenciou ser transferido para a arma da ma- 
rinha, embora 4ivesse de ir residir no ultramar., 

r^Sjuelle período do rein^o da Sra. D. Maria I gran- 
as forão as diligencias feitrauBjÉ entender a instrucçâo 
publica. Por esses tempos sajtflj^puio a mesa censória 
)%|a mesa sobre o exaaA dos livros* até quajse creou 
em^kmpbra a junta de uirecuiria geral, tendo por prin- 
cipal imiyJto a instrucçâo primam; se cjpp a academia 
deínarinha, destinada ao ensino de unrcurso completo 
de ^athejpfcticasj igualmente* 7 adaptado para servir de 
fundam^^to commum á navegação e ás architectiifiêys na- 
val, .militar, hydraulica e civil, á sciencia das mitifrs e á 
artilharia ; a escola de pleura e desenho de arc^^p- 
tura civil; a acadepiia real de fortificação, aptij^gria e 
desenho; a acadgfftia real dos guardas dâ^marinAr; 
instituições que, ^ouco depois, e no mesmo reinado, 
forão ampliadas com a creação da academia real das ^ 
sciencias, coma fundação da academia de marinha do 
Porto, etí. 

Não podemos affirmar que Bocage fizlfcse muito regu- 
lares estudos, ^durante os sete annos que decorrerão 
entre a sua chegada a Lisboa e partida' para a índia; 
antes para nós temos que JM&o o deleitarão sonftljp e 
fruetos da arvore da sciencia, pois de seus conhecimentos 
mathematicos e náuticos nem reza «tradição, nem (senão 
de longe e a furto) ra memorão os seus escriptos. 

^ Por exemplo : n'áquella saudosa Canção, quasi elegia, 

▼* que o poeta pôz por titulo A Nerèiúa y e que adiante 
vai transcUpta, gjjacjoso idyllio tão cheiroso a maresia, 
tão rico de sua djim]iftf, e ^ndôBfcb o vép da allegoria 

ftrdrcadica e mytholggica, rebuça p^,vent4|fe*liiuitas ver- 



28 LIVRARIA CLÁSSICA. 

dades o misero Alicuto, j)ccorreu-nos se acaso os versos f 
em que o amante, amescfmnhapdo os seus dotes phfjrsicos, . * 
exajta o,seu saber e as suas prendas, nã<^serão copiados 
% do natural e fidelisshDQ retrato dos conhecimentos "náu- 
ticos do nosso Bocage^Mtãô por longes terras peregrine. 
~ * aãOj cotejai-me^flp|fiíitro tercetos, que discorrem 



desur o verso 

* - ■*' 

* Na manobra quemjâ mais diligente. 
í f 

âté Êo verso : r 

E prton tão ftybM navegantes, 

Comparai-os.com a scienGÍa presumível no jÇehíújejjro 
e jpfènil guarda-marinha, glafioso neto do vice-almirarit£ 
du Bocage, e dizei-nos, se no seu conteúdo (correctas as . 
illusõesãa perspectiva poética) desdizem esses versos e 
chanças de nauta, dos estudos, aliás grosseiros e rápidos, 
com que Urania devia de andar a esse tempo ^adestrando 
e apparelhandp o "seu novel discípulo filho de Apollo. 

Foi n'esse tempo que Bocage realisou a sua grande 
viagem ; jl então querido, festejado, alvo de admiração, 
era Lisboa o grão theatro apropriado a sua Índole ; que 
razões o induzirião a projectar quasi repentinamente uma 
erftigpção até o berço da aurora? 

Na primeira edição que â'esta Memoria sahio em 1847, 
fomos écho da seguiste explicação : d* 

Dizia-se que tenãò o almirante conde de S.Vicente 
particular affeiçâo a uma formosa estèireira, que se agra- 
dara do tnestretfe campo Leonardo Teixeira Homem,* 
este, ao dirigir-se uma noite para casa d'ella, fora tras- 
paAido por um florete na travejsstf^jda Espera; que a 
indignação geral toihára grande ?«o1(*po, obrigando o m 



BOCAGE. 29 



conde a evadir-se precipitadamente para Hespanha ; e que 
todas ^s noites apparecião pasquins, clamando vingança, 
taes como estef attribuido a Bocage, que da columna do 
Pelourinho se arrancou, uma madftigada : 




Está bello e excelleri_. v _-r . 

P'ra o* conde de S. Vicente? %= H^ 

Ffli mister satisfazer a opinião ; e correm impçpssos o 
processo ga sentença de absolvição ao conde. Por esta - 
occasião^ se refere, compôz Bocage cinca escandalosos 
songfbs, qftf andárão,$br todas a&jjnãos, excitando iras 
^âfistoortttjgas e omnipotente^', a ser verdade, como se 
jplgava, <jjte o próprio conde tinha licença ampla nara 
degradar vassallos; que finalmente foi para evitíS* as 
consequências, qua o poeta decidio evadir-se, £, tQda a 
pfessa, para climas remotos 1 . ** 

1 Àccrescentfmos que possuíamos <fes dos incriminados sonetos, dous 
dos quaes impróprios para o prelo; quedávamos porém, com as indis- 
pensáveis reticencias, mas exacto, um que fora publicado, inintelligi- 
vel, na Collecção das Satyricas de Bocage, feita por Couto ; e era o 
seguinte: Q ■ 

Pariste umjbando de c. . .s ladinos, 
O* São Vicente, sem gemer co'as dores; 
E n'esta p. . . .1 corja de tambores 
, Tens um s....o de c.*...s indinos, < 

a 
i Reges dos vastos mares m destinos, "*" 

'^jkT* Por sábias leis, decretos sup'riores ! 

' lBpÊ* Devendo ser menino entre os doutores, 

^'.- Ficas sendo doutor entre os meninos. 

Mil esteireiras tens. Está a manba 
Em conserval-as, sem com mão impía 
9» D ar a0 mestre de campo morte cstranl^ 

Se fazes outra, temos romaria : 

Tu partes de Lisboa para Hespanha, 

Elles do jfflfcnol p'ra a Casa Pia. JÊf 



m. 



m *Para entender cstes^KS*, cumpre saber qt&este alniirante foi o insti- 

M^ ' — .*.. - * ^ 



LlTlllM CLÁSSICA. - 



* TeAm o res putaVT y» Lnn Augusto Bebefio da Silva 
a boora de Testir esta NÉB Mmoria oon as p i mtf êo sem 
primoroso estyio. putíkmáo^tm três edições : no Pm- 
norama. na CoUttçMBmtral das ceras áe Bocmgg^ eoto 
>a volume avulso, com ^â^pos^ da academia. Raríssima 
tt> j|( alterações que ô Cstiocto escríptor fez ao dosbo 
opúsculo; porém é este um dos lugares em que se dá uma 
nmdaqp. Díz-aos que, em 1785, na iddBe de dezâvfe 
para vinte annos, estava Bocage èom o posto j/t tenente 
de infantaria, e em vfgpjflás de partir para ^Ipdjjp; item; 
que o Sr. InÉfeceocio fte JpiideiÉât que o ] 
de S. Vicente era £ anuo de 1776; e q 
viera para Lisboa em 1782? tendo antes dit 
nascera em 4766. 

Com a devida vénia, observaremos que nào é exacto t# 
ido Boéage para a índia em 1785,j>ois foi em 1786; 
que tambenro não é, ter iJo no posto de tenente de) 
infantaria, pois foi como #mples guarda-marinha; qne 
Bocage não veio para Lisboa em 1782, e sim em 1779, 
se chegou de quatorze annos: e, finalmente, que não 
nasceu eii 1766, mas em 1765. 

Feitas estas rectificações, só fica <re pé a observação do 
Sr. Innocencio. Impossibilitado, no Rio de Janeiro, de ve- 
rificar se não haverá alguma çircumstancia que 
lefar-se em conta, e costumado a prestar veneij 




ue deva 



tuidor da academia dos guardas da marinha, a qual dirigio muilo tem- 
po, desfavorecendo-o a opinião publica com imputações que devemos 
calar. v f> 

qued'elle sabemos « que, homem illustrado e* laboriosissimo* deixou, 
do seu proprto punho, 16 volumes in-folio, escriptos um cada anno, sobre 
malferias rclíllfvas á marinha « á academia; mttífcc ri to, que foi comprado 
no conde filho por Joaquim Francisco MonteiíBSk Campos, que o deu a 
Marfcl José Maria dl Gosta e Sá. ^* ^ F,4,f 



á 



f "ri 

I 

BOCAGE! 31 

profundidade^ consciência dgcfTOtàhos do Sr.ÚftoceiV 
cio, diremos que o seu argumento das datas nós parece 
victorioso : se o facto daJtesteireira é de 1776 , a esse 
teitapo tinha Bocage onze anhos, esfeàva em Setubaí, e náo 
podia ser isso causal de urpa T*ó||pao só verificada dez 
annos depois. * Ç*5 : 

Assim lealmente confessado este ponto, só no^resla 
exfiffmir soifirifta de ttd anachronismo [ São graves as 
viseguintesypircumstancift. 
' * DézoiJb annos decorrerão láftaobre a publicação da 

" 0S wQÉBr ' ^ esa S^ rec ^ r P" 1 ®* com ^bgcns e mu- 

ÉfónçaaJ^Drosas todqios nosafog afctigos apontamentos, 

jjk Aem^p nem sempre nos obedece com firmeçu 

' âBrto portm é que nós não houvéramos affirmado o facto 

So peremptoriamente, se elle nos não tivesse sido attes- 
3o por algum amigo intimo do poeta. ^ 

g .- Accresce que A. M. do Couto, que cultftoii relações 
com Bocage, e apenas este ffjjeceu foi autor da sua pri- 
meira biographia, que depois reimprimio, seguida de 
varias poesias satyricas inéditas, deu, á pagina 24, o so- 
neto Pariste um bando, e accrescenta todos estes dados: 
que este soneto erafle Bocage; que foi por elle composto, 
na idade de dezesete annos, sendo guarda-marjpha-; 
que o caso (dó filho) da esteireira é comprido; que ha 
ag^fcsoueto (de Bocage) do mesmo jaez, que a decência 
{HHpt manda calar. 

Le-se igualmente o seguinte, na Nouvelle Biographie 
Uifwerselle ; « LMnimitié du comte de Saint-Vincent lui 
ferma bientòt cette carrière (celle dela marine), et ce 
ministre lui fit expier par Texil une saillie que le jeune 
poete s'était permiáftà son égard. >> * * 

• Não'iremos*íhaiáffonge, pois só temos aqui em ysta 




x b^~ Vfc ^ 




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>> *^^ e et^^è** ^«^ 






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WTtS/' V 



249 

1 Historia de 

j do a Bocage, 
Isaniào. Em 
! oda a appa- 
»<> do um do 
■'/*, pag. 05, 
feito a um 



o, um dos 
'*«t, ouvimos 
»s tem sido 
», onde cila 

"levada po- 
etado para 
natural o 



• * 



32 , LIYrAiâ CLÁSSICA. 

mostrai que^ao menos e & opinião tem gjpssado, sendo 
para admirar que sem.^jjjgtygmefrto. £$$ * ^ 

ft , Se bois "devemos repelia ãfflf&ella explicação, acatemos 
a que nos dá a entender o pVoprio Bocage, dizendo que 
fora por não offerecerem: então as armas no continente 

Sropêo theatro assaz vasto pára' o seu insaciável ardor 
fama, que lançara os olhos a tqjlos os pontos dfrtno- 
narchia portugueza, ávido de tr$hsportar-se a qualqirt* 
região, por mais remota e inhospita^ onde, em b&llicas 
fadigas, ganhasse appjjiusos e honra. E*força-so,,em seus 
versos, por ifonvenceMiòs. de que. o desejo Jçrdeiftfc <je 
flístioguir-se pelas armas era o único impulscMie o mq* s 
Vçra% transportar-se á índia : ^ 

i Amiga pátria minha e lar paterno ! 

Penates, a quem rendo um culto interno ! *■ 

^^fcLacrimosos parentes, 
^^Plfkt na ausência me estareis presentes ! 

Adeos ! um vivo ardor de nome e fama 

A nova regiífemè attráne, me chama! 

E n outra parte : 

Nos climas, onde a guerra 
-Jferóes eternisou da lysia tenra, 
* Vou ver se acaso a meu destino agrada 

Dar-me viáf feliz ou morte honrada. * ,. 

Também n'uma epistola, figurando qile Adam 
lhe falia, ouve-lhe : 

Ó tu, que de uma vã caduca fama, jÊt 

De uma illustre chimera ambicioso, 
A estrada vens saber do afouto Gamat 

B igualmente para aqui transcrever ujn mimoso so- 
neto: • % 



I 



í. 



I 



jjtasa corrente, di 
ifm cuia 




«35 

Eu m^osento de ti, uieJKrio Sado, > 



y. 



^ ím ctija praia o nomtfftfenPhilena f 

Mil vezes tenho escripto f mil beijado. 

Nunca mais me verás, entr&tneu gado, 
Soprando a namo»da*e branda avenár, 
A cujo som descias mais serena, 
Mais Vagarosa pirado mar salgado. 

Devo* emfim manejar, por lei da sorte, 

Cajatjps não, mortíferos alfanges, ^ "^ 

Nw campo *do colérico MavprteJ ^ ™ 



' Jralvez, entre impávidas phalanges, 
. Ren 



unhas farei da minha morte fjm 



Remotas margens, que humedece o Gaf 

. Sempre a gloria militar conservou grandes encantos 
para Bocage, o qual mais tarde ainda fallava djjifcpaixor 
^nadamente, e até de suas bellicas aspirações raSim, con- 
cluía com estes versos um soneto á iramoria do guarda- 
marinha Palhares, morto no combate xP Argel : 

Na (^íra, marcial, htnrosa lida, 

Entre os braços da gloria heróico e forte, 

Recebeste a cruel, mÔTtal ferida. ^ 

é khl que inveja me faz a tua sorte! ^ 
É viver como eu vivo infausta vida, 
gá* É morrer como tu ditosa morte. 

: Também 6 curioso notar que todas as suas poesias de 
indflfe patriótica têm o fito constantemente na índia, com- 
quanto muitos brilhantes sueceasos da nossa historia pu- 
dessem chamar-lhe a attenção para outras direcções ; o 
que prova*que,jgTi to$o o sentido, aquellas regiões orien- 
taes forâo seiflfje a sua idéa lixa. 

vii. ^3 



*■ 



* 

' 54 ^ LÍY^IA CLÁSSICA 

Supponhamos^Tois qtM^j|jresolução deJfocage nascesse 
da natural volub^d^dexló seqjjéáracter, e do. dtt^> ar- 
dente de contemplar o esplendido theatro de nossaffmais 
romanas glorias. É verdade que, n'uma epistola dirigida, 
9 vé Rio de Janeiro, ao vitíè-rei do Brasil, Luiz de Vascon- 
áellos c Souza, jrarecc indicar que, por algum 
movei, ia, arrancado dos braços gatemos, e quasi i 
rado : 

* -%, dos braços paternos arrancado? £ 

• y E pela fiiria de soberbos mares 

Jf % Sacudiaj), arrojado 

* A remotos, incógnitos lugares, 

Onde talvez que me apparelhe a sorte, 

Depois de infausta vida, infausta morte. ^K 




Surdo o fado a meus ais e a minhas magoas, 
JtyMtte ameno paiz me quer distante ; 
manda que eu busque as aguas 

Oride se banha o valido gigante. ? 

». ■• 

! >■ 

E completa ficção theatral e poética o motive) que o ■ 
insigne dramaturgo c nosso bom amigo Mendes Leal 
avenloifepara esta» partida do poeta, no drama com que 
ha poucos mezes*alvoroçou o mundo litterario, enrique- 
cendo a scena jrfjfeff ueza y e que, por se referir muito de 
perto ao assunHo da presente Memoria, nào podemos 
deixar de mencionar. 

Os primeiros amorçs de Bocage è o titulo do ultimo *^ 
drama do Sr. Mendes Leal, drama que, hoje injpres%dF,os 
Portuguezes de além e de áquem mar conhecem e admi- 
rào; ^tói discursaremos pois sobre lim livro de cujo 
merijoja a critica litteraria publicíp verjkdes.' 

Para a partida de Bocage se finge nepouredo d'esta 



% 




IJ0CÀGE.*4 3> 

peça uma caus^Linteiramente^jdfieia ánistoria, mas tão 
galaqjfce com tanta arte motrvac^, >juc ò espectador 
perpSfo não atina com as raias da verdade para a vero- 
similhança.. 

A obra do Sr. Mendes Leal rediéttemos o leitor curiosq. , 
N^lk- achará á farta com que debwar e colorir em 
lo o grande vulto, ainda juvenil e quasi imberbe, 
^monstruoso talento, evocada pelo não menos arrô- 

io estro do nosso dramaturgo, "i,^ 

Não hajerião por certo de perdoar-nos os manes 3c 
Bocage, se não comtnemorassemos em lettras (Je broiwe, 
na face doeste pobre obelisco erigido á sua memoria, 
aquella apolheosc com que o poeta Mendes Leal celebrou 
o poela^Bècage, seu confrade nas lettras, seu irmão na 
gloria l . 

E fosse qual fosse o motivo, o indubitavetaéijue Bo- 
cage tomou esta resolução com apparencia de muita 
^espontaneidade. N'aquellas quadras, a própria expatria- 

1 N'uma carta que sobre o drama do Sr. Mendes Leal, c sua representa- 
ção no Rio. de Janeiro, nos dirigio o esperançoso escriptor fluminense Ma- 
chado de Assis, se lê acerca d'este ponto do drama o seguinte bem pensado 
e elegante paragrapho : 

a Veja V. como se houve Mendes Leal no desenlace da comedia. Eu leio 
na biographia de Bocage escripta por V. que a causa de ausentar-se de Lis- 
boa o poeta foi o receio de que o conde de S. VióãNte se vingasse d'cllc, 
por motivo de pasquins que se lhe attribuião, r frqOTmTiffn respeito a uma 
morte praticada na travessa da Espera. Nada oVistó ^jr refere na comedia; 
ahi o motivo da partida para a índia é uin generoso sacrifício de amor. 
Pois beml é com ambas as mãos que eu appiaudo este desenlace, tão lo- 
a ^gico e tão digno da comedia e de Bocage me parece elle ! Bocage amava es- 
tremeejidamente na occasião de deixar Portugal ; os versos que então es- 
creveu dão prova d ? isso; era elle capaz de um sacrifício? era. E demais, 
retirando as suas pretençpcs á filha de D. Felícia, conservava elle a sua 
cara independência, e abria diante de si horiz >ntes novos eeftmpo des- 
conhecido. Ahi está Bocage. » ■** "* 

Esta bell.i ^gJ^" inArta no n° 19ô do Diário do Rio de Janeiro de 
15 de Agosto de .4Ío5 



is, e ateiin- 



36 .LIVRARIA CL^SSIC». 

ção é um brinco,'? tudò-jfe faz alegreritente, porque o 
inverno da vida nem se julga possível; e razão tem o 
poeta Lc Mierre, definindo » 

La ieuifesse au front gai, pour'Ípri tout est príntemps. 

Na idade dos vinte e um annos requereu pois, e atejU*^ 
çoç o decreto de 51 de Janeiro m de 1786, .yelo. M 
despachado em gWrdjf marinha para o Estado 
O^ecreto é do teorsfiguinte : **■ 

. * Hei por bem laser iqprcê a Manoel Marta Barh»sa* 
(tjpkis de Bocage de o nomear guarda-mari#ha da armada 
do Estado da Jndia. conselho 'ultramarino o tenha 
"&ssim entendido, e lhe mande passar oâ^despaãfòfc neces- 
sários. Samora Corrêa, em trinta e um de Jan^pde mil 
setecentas e oitenta e seis. — Com a rubrica de Sua Ma- 
gestade. *> 

Partio Bocage, com effeito, no mez seguinte, com escala 
pelo Rio de Janeiro, a bordo da náo de viagem Nossa 
Senhora da Vida, Santo António e Magdalena, sob o 
commando de José Rodrigues de Magalhães. * 

Foi-nos communicado o seguinte inédito, feito por 
occasiáo ; d'esffcfoKrtida, e conservado pela família da 
senhora a ^■Hfr dirigido : • ^ 

Deixar, amado bem, teu rosto lindo, 

Teus afagos deixar, tua candura, m v* 

Tanto me opprime, que da morte escura '* 

Sobre mim negras sombras vêm dahindo. 

parto; e vou teu nome repetindo, 
Jfeue dê desafogo â magoa dura; 
is tristes ais, suspiros de amargura, . .. 
Áquem dos mares ticariÉÊÊfindo. 




# |OCAGE. jL 37 

Mas se irêc&cão, no cru^ttanspoi^e, „.. 
Quantas rorias o barathro vomita, £ 

. jt Se meu mal c peior que a mesma morte, 

fado em me aterrar em váo cogita k 

Com todo o seu potó não pódc a sorte % 

Tua imagem riscar d esta alma afflicta. * 

lantos não seriào entào os poéticos bilhetes de des- 
«qpe #lle deixasse ao coro d^s sua§. nymphçs ! 



como exemplo : 



tiaffcí 



*Ah! que fazes, Elmano? Ah! nâfre ausentes 
a Dos braços de Gertruria carinhosa 

Trocas .tio Tejo a margem deleitosa 

Por bárbaro paiz, barbaras gentes? 

* k 

i tigre t#gerou, se dó não sentes 

odo tão consternada e tão saudosa 

A Tágide mais linda e mais mimosa ; 

Ah ! que fazes, Elmano? Ah ! não te ausentes. * 

Teme os duros cachopos, treme, insano, 

Ío enorme Adamastor, que sempre vela 
ntre as fúrias e os monstros do Oceano : 

01b| nos lábios de Gertruria bella 
Como suspira Amor!... Vê, vê, tvranno, 
As Graças a chorar nos olhos d^ella ! ^ 

Parece porém quê 'esta Gertruria legajfeflfee tempo, a 
sultana favorita, pois a ella forão nàofenos dirigidas 
outras producções que revelão affecto mais profundo. 
*frjféverá, em taes assumptos, depósitar-se grande fé nas 
apaixonadas afíirmativas de poetas? O alcorão d'elles nol-o 
revela Ovidio, qt^ndo tão ingénuo declara que as suas 
palavras não são artigos de fé : 

Tem de um vate a licença infinda liberdade, 
Não se prende em $AÉfes de histórica verdade. 



* 



■^ 



38 , LIVRARIA CLASSlfl|. 

Vás que sabíeis- ' ■• Vós mSWJeis 
. * tí^jfcil* gente,^% ter por suspeito 

% quanto mente Quando, co'o peito 

Qualquer cantor, Ébrio de amor, 

E o quanto eu mesmo .*$io graciosa 
Vos fabulei; '^MB-a pintei. 



t 



* 




Suppondo que, em tão solepine momento corri» o 
A| partida para remotíssimos climas, não estivesse mentii 
cá este cantor, nem s#puzesse a fabular, sferia^* 
creditar que a caiÉfe da sua peregrinação fosse o 
nar-se, por façanhas-, digno da tal D. Dulcinéa G?r- 
*4£P es * Arregimentando-se no errante es<|uadMo dos 
Amadis, quiz merecer a sua dkma, tnaireitanAp t&rtos 
*por esses mundos, e quixoteando em j^nra «Bria da 
namorada. Pelo menos elle assim o ararmou 4pR bella 
quando lhe bradou : 

Por entre a chuva de mortaes pelouros 
A nua fronte enriquecer de louros 

Eu procuro, eu desejo, !0t 

Para teus mimos desfructar sem pejo ; 
à- ^k Pois quem d^ste esplendor se não guarnece, 

y\ Nào c digno de ti, não te merece. 

Faz l^Wjè 4uque d'Alba|^raãicando a tencionada 
conquista dq^pnugal a uma juve^ formosura, a quem 
pretendia convencer de que as suas heroicidades devião, 

e um. 

admira o imitasse HÉSJjag?^ mancebo, leve c poela?! Por- 
tanto, se jBsteí.jflosfcllou serio, eis-ahi outro motivo da 
resoluçqttffê vate do Sado ; accrescendo que a sua natural 



no coração d'ella, compensar,*-* sua velhice. Ora, se 
dçque d'Alba, ido^.£Jfce e severo, fazia d'estas 



e provernRíl inconstância em amorcS f e amizades, em 






crenças e gostos, bem poBlfcperar ng seu animo e.^p 



* 

^ BOCAGE. 39 

vivo desejo dq**j(fcens, de locomoção, attrahindo-o em 
tal caso ás regiões da índia, 09R9, sem^jj^jèuMoar a sua 
cftrrttta, ia admirar o theátro esplendido dos feitos #e 
nossos avós. . e * 

Já muitos erão tahraph, em tão curta idade, os inti- 

s^amigos que Bocage deixava cem vivíssimas sau- 

À: , ^ \ % 

Ó vós, que nos altares da aqpízade 

Votastes exemplar fidelidade, p > v 

Vasconcellos, Couceiro , *J % 

Li# bamfeitor, Andrade prazenteiro, 
f V0S4 que em doce união viveis comigo/ <*^ 

Ouvi nnf f nrnn ndens Ha um tpmn amio-n. ^^ 







Ouvi unt tprno adeos de um terno amigo. 






lis salgklo de Lisboa, mas não sem que o coração 
se lMff^pagasse, ao deixar : a pátria que tanto amava, 
parentes de quem era adorado, amores em larga cópia, 
e um tropel de admiradores do seu talento, já em tão 
verdes annos patenteado por numerosas producções. 



CAPITULO II! 

Viagem de Bocage. — Sau<yjBL— Temporal. — Se Og&oe^vHnfragou? — 
Sua estada no Rio dejáÉjjBK — Chegada a Gôa^ jpS rde as illusòes. — 
Memorias da pátria. -Xjgttsias feitas em Gôa.-^ljjÉtudencias do poeta. 
— Ódios que aos de Goa inspirão varias producçõéé injuriosas. — Espe- 
ras. — Conjuração contra o|JPortuguezes abortada. — Não foi D. Fre- 
derico Guilherme de Sou^a óVwusador^a expulsão de Bocage, por Causa 
do poema Manteigui. — Não PSpdojft poeta continuar cm 4 Gôa, ■ 
obtém ser despachado tenente paraS^MÉP — Parte, e chegado á Da- % 
mão, deserta, no dia immediato. — F$v para Macáo. — Poesias ahi 
compostas. — Regressa para Lisboa. — Boqj|pe e Camões. 



Lá vai o poeta sulcando as ondas. FitalBs olhos da 
fantasia no Oriente, naáÉfegiões da aurora, e para lá 



40 ' LIVRARIA CLÁSSICA. 

corre pressuroso, que èshi onde os r^s< do sol dão har- 
monias A^íemnon. Põipfcn as illusões começão logo a 
<ksvaafccCT-se, e a realidade a desmentir ostentares da 
imaginação. Ainda bem não perdera dos olhos as mar- 
gens do Tejo, e já se lhe ião eii^nenando as pungentes p? 
saudades que tinhão dç o devorar durkite a sua pesada 
emigração. ConsefNto-se varias das poesias que a bordo ^ 
: escreveu, por exemplo o soneto em que declara ir-lheí 
cortando o coração voraz'' tristeza, e fartando-se a'elfte-1 
cplera da sorte : 

** 
. j*. Emquantoosfbtvos, formidáveis' Notos, 
* Por entre os cabos trémulos zunind 
fendente baixel vão sacudindo 
A climas, do meu clima tão remotos : 

Emquanto de Nerêo contínuos motos % 

Nrf vacillante popa estou sentindo, etc. 

Adiante observaremos como Bocagfe havia por costume, 
cm seus trabalhos, enfermidades ou perigos, invocar con- 
trato o auxilio do Creador de todas as cousas. Assim acon- 



IjÉfeg.por occasião de um grande temporal que n'esta 
viagem lh&ar 

s< # s 



fem lh&ameaçou a existência, e que motivou dous 
bellos sajKts. 



i 



Ó Deos, o* rei do céo, démar, da 'terra, 
Pois só me restão lagrimas, clamores, 
Suspende os teus horrisonos fureis, 
O corisco, o trovão irae tudo aterra ! 

Nos subterrâneos ^cárceres encerra' 
Os pro<seJJasos£fct>nstros berradores, 
Quê^pcb^ndo os ares dMnfernaes vapores, 
Pareft que entre si travarão guerra. - 

Para nós, compassivo, oaájÊák lança ! 






* 4 

BOCAGE. 4i 



?i. : 



Penfoa ao fqgfe lenho! attenctaíio pranto 
Dos tristes, que em ti põem siÍ esperança ! 

j£s densas trevas despedaça o manto ! 
Fazerem signal de próxima mudança, ""* 

Jirilhar no ethereo tojje o lume santo ! 

Fora o seguinte admirável hymno ungp das mais for- 
s cousas escriptas em portuguez, se, melhorado* o * 
nal, se houvesse attendido á regra horaciana : Primo ^ 
dom, médio ne discrepet imum. 

Filho, espirito e pai, três e.um sómjpte, * 

Que extrahiste do cahos, do pó, do nada, ' -■ 

sol dourado/* lua prateada, 
"jcionato irracional vivente; 




Et3|o 



Ro, justo, immenso, omnipotente, 
Que occupas essa abobada estrellada ; $ 

Grão ser, de cuja força illimHada 

A machina do mundo está pendente; 

*. 
Tu que, se queres, furacão violento, 
Sumatra feia, tempestade escura 
Desatas e subjugas n'um momento ; 

Creador, que remiste a creatura, 'SfP 1 

Quebra o furor do túmido elemento, éfr 

Que nos abre ntâxrferno a sepultura ! ãm 

MT 

É da mesma viagem õ soneto que principia : 

y 

Por fofos escarcéogurremessado, ^ 

Ora aos abysmos, ora ao firmamento, jftT 

Escutando o furor e o som violento ■ 
Do rispido Aquilão, de Noto irado, etifr. 

Também na epistola dirigida de Goa a Gerrruria ha 
uma rápida e formosa descagbpo d'esse temporal. 




42 LIVRARIA CLÁSSICA. 

E por esta occasiã? diremos quê alguns, provavel- 
mente *wra augraentarem as parecenças de Bocage com 
Camões, pretendem que também aquelle naufragara, sal- 
vando a nado os versos, e accrescentão ignorar-se se este 
naufrágio foi á ida ou á volta, suspeitando outros que o 
de Camões fosse lá mesmo na índia?** 

Costa e Silva,*depois de asseverar inexactamente ter 
Bocage sido promovido ao posto de tenente de infa 
de Gôa, accrescenta: « Fez a viagem de Macáo, em 
naufragou como o* grande Camões, e salvou a nado parte 
das poesias que compõe Ao seu primeiro tomo, como o 
antigo poeta salvara a sti&LusiadjâÈ&iâo temos base para 
confirmar tal asserção, antes romanBÇcom que ao autor 
do Ensaio prouve adornar o seu livro. Neip^or outra 
qualquer via a ouvimos boquejar sequer; sendo certis-^ 
simo que para Bocage, de si blasonador e avesado a me- 
morar-se, aqui,alli, não passaria assim despercebida uma 
circumstancia que do seu ponto de vista mais o ache- 
gasse, pelo parentesco das coincidências, ao grande e tão 
seu Luiz de Camões. que é verdade é que nem um só 
jfierso de Bocage pode servir de prova a tal balela. 

navio que conduzia Bocage tocou por escala no Rio 
de Jari^jro, onde, avaliando-o péfr uma epistola de que 
abaixo fallaremos, obteve também promptamente largo 
circulo de relações, e até de conquistas. Era a esse tempo 
o nunca esquecido Luiz de Vasconcellos e Souza, da casa 

«astello -Melhor, vicejei do Brasil, onde Bocage travou 
elle amizade que depois de annos se arraigou em 
Lisboa. N'uiM^effctola, dirigida a este fidalgo, diz o 
poeta : r ^ 

Vasconcellos, que ainda, 
JVa dilatada America opu 



4 




* 



BOCAGE. 43 



* 



Pela intacta justiça, < 
Pela terna saudade é suspirado ; ^ 

*Vasconcellos, aquelle "0 

Que de um sorriso, ó musa! honrou teu canto 

Lá na tépida margem „ 

Do tépido Jatteiro, que a cerúlea 

GottejtypK cabeça 
Tantas vezes alçou da vitrea gruta 

Para urdir-lhe altos hymnos 
Entre o coro das mádidas Nereidas. 



D'ònde se conclue que Bocage poeto* muito emquanto 
se conservou no Rio; mas nã#se sabe de poesia alguma 
d' es se período. MSÊÊÊ infornWdos por um sáfto brasi- 
leiro, o Sr. Dr. A£$Fto Mello Moraes, o qual das cousas 
portuguesas corfhèce mais e melhor do que a maioria dos 
nossos conterrâneos, ter Bocage, no breve tempo que se 
demorou no Rio, pousado na rua das Violas, no quarteirão 
que fica entre esta rua e a de S*Joaquim, no lugar deno- 
minado Ilha secca. Minúcia que aos curiosos muito pôde 
interessar. 

Chegado a Goa, a 29 de Outubro de 1786, recusou 
madrasta sorte proporcionar a Bocage ensejo de colher 
os louros com que sonhara, e que de tão longes terras 
o havião, segundo ajfemava, arrastado até oJ>erço do 
sol. Se o fado lhe délKnava uma coroa, n'outros campos 
a tinha de conquistar. 

Onde pois esperara a fortuna, vio peiorar-se-lhe o fado. 
Valor marcial, não tinha em que empregal-o. LatMÉÈs 
poéticos, não havia mãos que lh*òs tecessem, em terrSJe 
getas, onde bradava, como o outro eju>atçiado : Barbaras 
Mc ego sum, quia non intelligor ulliW^H? 

Sejão prova estes versos : 

Já por bárbaros climas £nirat\\\ado, 



*4k. 



y 



n 



Ia* 



44 LIVRARIA CLÁSSICA. 

Já por mares inhospilos^agante, 
Victima triste da fortuna errante, 
-/Tc dós mais desprezíveis desprezado : 

Da fagueira esperança abandonado, 
Lassas as forças, pallido o semblan 
Sinto rasgar meu peito a cada ins 
A magoa de morrer expatriado! 

E c&foutros : 

Aqui sinto jjiscer minha amargura : * 

Aqui, pela saudade envenenado, * 4* 

«to espectro companha a noite escura: ■• 
i ninguém me attende, ó negitóVajdo! 
Nem Deoses, nem mortaes, mnguem^nfc attende... 
Tão molesto se faz um desgraçado! 

Sou qual febricitante, que, sedento, 
Em libar fresca taça allivio goza, 
Afagando com ella o"soffrimento. 

Em menor gráo, mas ainda com vivas cores, pintara, 
4 sempre que lá poetou, a insoffrida saudade da pátria : 

Musa chorosa, que por terra estranha, 

Tão longe de teu pátrio ninho amado, 

Andas errante, suspirando ao lado 

Da saudade fiel que te acompan^, *& 

Do chão, onde a lançaste, a lyra apanha! 

e n'outra elegia : 



Por isso agora, afilie to e vagabundo, 
Estranho tanto o mal ; por isso agora 
De lagriáfjfe sèm fim meu rosto inundo. 



3 



Todavia é certo que nem todos os contemporâneos de 
Bocage cm Goa parecião getas. Era desembargador d'essa 



BOCAGE. ; 45 

relação Sebastião José Ferreira Barroso, distincto cultor 
da sciencia e das lettras, traductor das Metamorphoses, 
autor de um poema épico de que era heróe Affonso 
<T Albuquerque, e de outras (Aras, é*' amigo dfe Filinto e 
Alfeno. caso quejBocage fazia d'este sábio poeta mani- 
festa-se no seguiilkrsoneto, que em Gôa lhe dirigio, de- 
dicando-lhe o idyllio piscatório intitulado As Tágides: 

Nem só commove o tom de altos cantores, 
, Enternece também, também recreia 41- 
y/:\ M> som de crystallina e tarda veia, 

-A Ittde e baixa voz dos pescadoreÉ ^* 

Tu pois, cu)Q 'pincel produz mil flores 
Dos campfàfyLe Hippocrene aformoseia, 
Queixumes contra Armia e Dinopêá 
Ouve a seus desgraçados amadores. 

Ais que derão no Tejo aqui voarão, 
Depois de serem lá desattendidos 
Das Tágides cruéis que os motivarão ; 

Agora vão parar nos teus ouvidos; 
E n'elles com razão, Sebastio, parão, 
Que não te enojas de escutar gemidos. 

Pungia-o a constante saudade da pátria ; adivinhamol-o ; 
e masque o não antolhássemos, os seus versos nol-o 
revelarião : 

Vagando a curva terra, o mar profundo. 

Longe da pátria, longe da ventura, ^ 

Minhas faces com lagrimas inundo ! ^ 



E d'estes espinhos da alma nenliunsKI lhe cravavuo 
mais fundo que as reminiscências dos amores deixados 
na Europa, e desses dias plácidos eivtao ta<K&ta*> ^&&&> 



46 LIWAUJA CLÁSSICA. 

de borrascosas viagens e Jpuidadcs cruciantes, como se 
collige do soneto que ^rincip» : 

Olhos suaves, anè em suaves dias..*. «,;.. 

impresso á pag. 4 ao 1* tomo dos eicâ^tos. 

Não peçseis todavia que os san^mB^fde Timor fossem 
privilegia das Lisbofienses, e que o foragido em mais 
parte nenhuma além do Xejo encontrasse olho& suaves. 

Pobre Gertrudes^ de Portugal ! À sua imagem era ata- 
cada violentamente em todas as terras onde o cavalkiro 
andante punha pés. Parecia uma conjuração. ChJK^o 
ao Rio (^ Janeiro, em viagem para Gôa, W^o acom- 
mettido por uma ninharia de amores novos. De todos 
blasona ter logra^p completa victpnà, fortalecido das 
recordações da sua Lisbonense. Elle que vol-o diga; 
escutai-o : 

Puz, finalmente, os pés onde murmura *■ 

plácido Janeiro, em cuja arêa 
Jazia entre delicias a ternura; 

Álli, como nas margens de TJlyssèa, 
Prendendo corações br inca vão, rião 
Os filhinhos gentis de Cytherêa. H 

Mil graças, que a vangloria trocarião 

Em vergonhosa inveja á tua vista, ,; 

Usurpar-te meus cultos presumião ! 

Eis olhào como fácil a conquista ; 

Mas a fé me acompanha, a fé me alenta, 

E constância me dá com que»resista. 

Este combate a gloria me acerescenta. "" 
Conhec&ge o valor do navegante 
Em tenewosa horrisona tormenta. 

Se porém as Fluminenses forào todas repellidas com 



* • BlíCAGi *, •■ 47 

perda, ou não, e até mesmp se as iniciativas provinhào 
d'ellas, é ponto escabroso de decidfc, e adhuc sub judice 
lis est. Difficuldade, da conquista! fidelidade e constância 
de' Bocage! pictorfiuiatque poetis qui^bet cMendi. Em 
troca damos ^píèno credito ás suas relações com as taes 
mil graças. ^ • .# ^ ' 

Muito mais ditosas forão as formosas, filhas de Goa; 
essas vírSjro Bocage inteiramente Bocage, inteiramente 
borboleta, convicto e indefesso Anacreonte volitando de 
flertam ffór. - * 






*i 



isjprprendêl-o com Ànarda? ouvi ; 

. Alterosas fructi feras palmeiras. 
Vós que na gtoria equivaleis aos louros... 
Escutai meus tormentos, meus quqiiíhies* 
Meus venenosos, infernaes ciúmes... 
Alli de uns lábios onde as Graças brincão 
Quvi suspiros, grangeei favores, 
Jhi me disse Anarda o que eu não digo. . . 
Novas campinas testemunhas forão 
De nova gloria, de maior ventura, 
Tal que julguei, lográndo-a, que sonhava. 

Mas a conquista nova, gloriosa e celeste, não parece 
tef sido trabalho de Hercules, pois que os taes lábios brin- 
ca vão para quem queria, e quem queria lhes ouvia suspi- 
ros e giamgeava favores, c até em muito mais larga escala 
que a do desditoso Manoel Maria : 

Anarda, Anarda pérfida, teus olhos, 
Onde amor traz es cripta a minha sorte, 
Teus mimos por mim só não são gozados! 
Tu não foges de mim, tu não te esquivas 
Doestes olhos que em ti captivos andão. ^V 
Mas ah ! não é só minha esta ventura ; 
^ Meu vaidoso rival a tem segura. 

Que indigna variedade I Em uvtt mov&^Afc 






•W 



48 Títf*^ 4 cnss ^ « 

Teus oIh& inconattàtes 
Acariohão sem pejo a dflp' amantes.' 

t Á ifiesma, c nt B^smo sentido*, foi dirigida aind^ a 
tg canção Deliliãmferoso . „: 4T | : * * 

É lambem feito em Goa o idyllior^Macatorio, dftli&do 
a Lenia, no qual s&\ê : ^ 

o infeliz ifk em vão carpia ffSL- 

Do claro Mandovi sobre a ribeira * " " ■ ** 

•;-v-»; j^^ 

e aqui, faHpò Elmano de si mesmo, reconI%e qifé eq^ 
Portugal e^elle jflitra qualidade de poeta : 

Lá, sobre H| A flores que meneia 
Sadia viração, cantei mil versos, ■■ % * *- 

Mil versos de que tinba a mente cheia. •* 

Trabalhos, afflicçôes, fados adversos, a íl 
« A melodia, a graça me apoucarão 4 ^ T» 

Em climas do meu clima tão diversos. 

opinião esta com que de nefthum modo se conforma 
J. Agostinho de Macedo, pois na virulenta satyra que ful- 
minou contra Bocage, declara que as poesias compostas 
por este na índia sâo preferíveis a tudo mais que depois 
produzio : ^ 

* m 

Deitaste-te a perder, que a natureza *P 

Não te negou seus dons : é doce, é terno, 
Delicado é também quanto cantaste 
Aonde o berço tem nascido o dia. 

* • &• 

Foi ainda em Gôa que Bocage escreveu o idyllio ma- 
rítimo^ Nereida, que parece ser uma formosa allegoria. 
Essa poesia mimosa, e perfeitamente versificada, tem um 
particular sabor fciucolico, e imita em vários trechos o 






49 

original que sèm duvida tMífta o poeta ante os olhos 
Virgílio, se é que não Theocríto. Segundo as tradições do 
género, Alicuto deve. ser, como ftCknà bosquejámos, o 
pf*yprio Bocage, e G$fvra alguma dgpÊtmetios Aforda e 
mqys Lncina quéis outras. Eis o idyflio : 

& ' -* 

Á foz do Mandovi, sereno e. Içando, 
• ^ÍÊfcto infeliz estava um dflfs< . * 
^ ^jEJorosos queixumes espalhando : : 






ito, o marítimo, que ardff 
Po? t Glaura, das Nereidas amais bella, . « -^j*. 
Que em vitrea lapajsem pezar o ouvia* ' 4mf 

Dbudo pela não ver, doudo ppr vèl-a, 
E nas algosas pedras debruçado, „ ^ - 
Bradava d'e|^a sorte alli por ella : 

« Tanto, ó Glaura cruel, te desagrado, 
dhua^po deixa&por mim, nem um momento, 
InTs crespas ondas, o licor salgado ! 

« Olha que em ais e em lagrimas o alento 
« Me vai fugindo, que a mordaz saudade 
« Me róe continuamente o soffrimento : 

« Olha que lá me tens a liberdade, 

« E que mais te não peço em recompensa, 

« Que um ar benigno, uns longes de piedade. 

« &0igno tanto amor de tanta offensa? 
« Ah! Que me faz odioso? A má figura? 
« pé gretado, a pallida presença? 

« Queres só quem te iguale em formosura : & 
« Pois sabe, que jamais verás objecto, 
« Que possa merecer tua ternura. 

« Não devo á natureza um grato aspecto, 

« É verdade : o meu mérito consiste 

« > M um cJaro entendimento, e puro aSfccto. 



Se a compasso da lyraV verso triste 
Então alguma vez, ao «na. canoro 
Ninguém, não sendo ta, ninguém resiste : 

^ - » Que provas mUis fieis de que 4§ adora, 

7 < Que este incansável pranto? E gpaljbente, ^ 

Do meu mister que requisito jgMÉi^ 

Na manobra quem' armais diligente 

Que eu ? Qufm^jjljraeitar melhor o prumo^ 

Quem no lema èiftafulha é mais sciente? 

A carga jao porão 'com regra arrumo, Êf 

Sei pôr á capa, sei manáar à via, 
Como qualquer piloto, e dar. o rumo : 

Sei comoJjfei de correr com travessia, 
E pela tojJestiJha, ou pelo outante 
Achar alatifode ao meio-dia : 

Sei qual estrella é fixa, e qual errante; - 
A Lebre, o Cysne, a Lyra, a Náo conheço* 
E Orion, f&o fatal ao navegante. 

Talvez muito vaidoso te pareço; 
Mas devo assim fallar, para que vejas 
Que teus desdéns, ó nympha, não mereço ; 

E se o que digo é pouco, e mais desejas, 
Irei, pois, outros méritos ganhando, 
Até que tu de mim contente estejas : 

Tentarei, por fazer teu génio brando, 
Nunca tentados, nunca vistos mares, 
Os meus antepassados imitando ; 

, se teus olhos singulares 

ires ã flor d'agua um só minuto/ 

indo-me allivio, serenando os ares : 

a Quero jyer-te um mimo... Ai! Já te escuto, 
« Ouço-tfia dizer, que não cobiças ^ 
« Donativos do inisero Alicuto; 



** 

^ 




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4 



OCAGI. 



*■: 



.*•♦ 



51 



Mas ipezar de tantas ifltostiças, 

Hei Se cada vez mais mostrar-te o fogo * 

Que tu com teu rigor n'esta alma* atiças. 

• Ah! Vem^ltêreidá, amanse-te^o meu rogo : 
«f^Se te enojar ©Jtílar, e estar comigo, 
- Não falles, apparece, e vai*te logo. ' f 

Topámos ha três dias o ititínigo 

«altura de Ghaúl; travàinpi(g|ieTra, 
ntio do Portuguez o esforço antigo ; 

*íèz-me uma presa, rpptrtio-se em terra 
Ihda agora : o quinhão, que lá me derão, 
Este pintado cofrezinho encerra. 

Nas mãos um collãr de ouro me ]Awrao ..« 

Sobre aljôfares mil : vi que, por beui$» 

Do teu collo e tens pulsos dignos; erao. 

~ m i "' p ' 

mesmo foi pegar-lhes, que tttaêl-os 

Para offertar-tfos : vem (não é desdouro), 

Vem aceital-os, ou, sequer, vem vêl-os; 

Mas que precisas tu, se és um thesouro, 

Se tens mais lindas pérolas na boca, 

Se tens ouro melhor nas tranças de ouro ! 

Loucas idéas ! Esperança louca ! 

Louco amor ! E ofFreci com voz ousada 

Á filha de Nerêo cousa tão pouca ! 

■ * ■ ■■ í! 

Mas se nem alma tão fiel te agrada, 

Um pobre, ó Glaura, um triste marinheiro 

Que mais te ha de off recer? Não tem mais nada. 



Já te entendo (ai de mim !) Bem sei, prii 
Qual Glauco irei vagar no pego vasto 
Sobre as espaldas de delphim ligeiro ; 

« Pelo embate das ondas será gasto &l 
« Do soterbo Neptuno o gran tridente, > 
« E os palmares ás phocas darão pasto*, 




52 XIVRARIA GLAS^||r w 

« Tájw opposWKòrizorite do occidente ]£v 

« ^p apontar* , primeiro (ah ! dura f) 



* Q# .ty me aUendas uma vez somente. & 




«Eu que fiz, .miserável! (or 
1 * « Amor ó crimeWara ser qui 

• Não^Mi Jove eterno a foi 

<r A que foi, como eu fui, no mar nascida, 

• Por vencer Juno e Palias na belleza, M 
c Mais que Palias e Juno é applaudida. 

« Porém se ainda asskbsuppóes vileza 

« Soifreres que um nuMfctpe afoute a amar-te, 

« Sendo tu de mais alta natureza; 

« E sft lewi « mal o importunar-te 
« CoÍÉTaiPte «ração desesperado, 
« Tyra^|^ògfce tardas em vingar- te? 

<( PdB? )AeH amor desatíftado; 
á «Eu não fujo, aqui estou ; das xroçfas «aia 

« Tragaíjor jacaré, por ti ma£$p|)p. ■-"' 

« Sobre mim de repente o monstro caia : 
<( Folgarás, vendo o sangue de meu peito 
« Ás golfadas saltar, tingindo a praia; 

« E eu morrerei contente e satisfeito 
« Por escapar de estado tão penoso, 
« E inda mais por morrer por teu respeito. 

* « Só temo que o meu catóílastimoso, 
« deplorável fim de meus amores, 
« Faça teu nome a todos horroroso. » 



[uiria o triste em vãos clamore: 
d que para alli vinhão remai 
Noslftricos sadós os pescadores, 



Porém outr^wuítas damas de Goa foraò ainda victi- 



h^%E ficou mudo, para o mar olhando. íft^vt*.* 

#Juit 



*P ... BOCAGE. 55 

jpas cta jmixão hydrophobics^de Mafioel Marig^be, apenas 

amais leve suspeita o agitava, derribava, instantanea- 

' mente o idolo do altar, arrastando-o á clcjâca máxima. 

Quando o ciutoe, coáí razão ou sem ella, o aguilboava, 

não havia respeito, humano que o detivesse. 

Não sabemos quem foi uma pobre Alcina, que lhe 
*cahio a* talho de fouce, mas á pag. 151 do I o tomo dos 
excerptos demos, no soneto que começa : 

Igual ingratidão e igual vileza 

• .♦> £ . 

uma amostra do modo cortío erão tratadas, terna e deli- 
cadamente, as formosas sobre quem as suas suspeitas ti- 
vessem a desgraça de recahir. ú* t, 

E todavia logo, acto continuo, ^e gtihba a escrever á 
Gertruria, de Lisboa, a epistola :> j; .; ív . 

Gà do pé das gangeticas ribeiras 

que se lê á pag. 46 do I o tomo dos excerptos de Bocage, 
curiosa pelos protestos de inalterável constância. 

Não contente com a irregularidade do procedimento 
para com as senhoras de Goa, já cortejando-as sem dis- 
tincção de estado, já desamparando-as, já tornando ? as 
alvo de satyras ferinas, duplicou ainda imprudências. 

Tinha já por insuppojrtavel a sua permanência 4a ín- 
dia : pefturia cada dia crescente, solidão intelleétual, 
saudades da pátria, tudo lhe azedava o espirito, e o fazia 
dispararás cegas contra os preconceitos e $ philaucia de 
uma terra en&qpada, o que lhe accresce^tim liada vez 
mais o exercito dos inimigos. nosso atrabiliaqp militar 
não pfedia o costume de atiçar o fogo com a DOííta da 



espada. Dessas satyras alguns sondBfe se salvarão, como 
por exemplo os seguintes : ':.*■'■« 

ir ; 



, „_•*. W V 



54 ^LIVRARIA CLÁSSICA. * 

Eu vim croji^msti minhas desgraças, . j£jf ^ 
Bem pomo Ofídio misero entre os gefas, "3» r :. 

. Terra sem lej, madrasta de poetas, » ^ 

Estuporada mãi de gentes baças \.. T * ■ 



Tens^iUítfg, antes cães, de muitó raçáfc 
* Que nifri&ttdem cojp dentes, mas ^ptretas, 
R^áue impjpgir-nos Têm, como a patetas, 
Gatos por lebres, ostras. poc vidraças 1 . 

Tens varias casas, armafens de ratos, 
£ • Tens febres, mò)Nfochias- em demasia, 
jwjDe que escapamos a^ojfer de<ra|(ps; 




i <*M 



O mal que em todos dá, que produs flatos, 
JÉ a vã, negregada senhoria! * * 

' i. %■ * — 

Lusos «Kes». j^daveres sediços, 
Erguei-vos dentre o pó ! Sombras honradas, 
Sujgí! vinde exercer as mãos mirradas 
Westes vis, nestes cães, n^estes me; ***" 



Vinde salvar doestes pardaes castiços 
As searas de arroz, por vós ganhadas... 
Mas ah ! poupai-lhe as filhas delicadas, 
Que ellas culpa não têm; têm mil feitiços. 

De pavor ante vós no chão se deite 
Tanto fusco rajá, tanto nababo, ** 

^ E as vossas ordens tremulo respeite. 

Vão para as várzeas ! leve-os o diabo ! 
Andem como os avós, sem mais enfeite 
Que o langotim, diâmetro do 



■Xi 



Das terras a peior tu és, ó Gôa ; ^ 

;l tj&tu pareces ipais ermo que cidade; * .*''**'. 

* íft ibl^ia usava-se fke ostras nas janellas, cm vez de vUtos. •* 

y laàigestib que se cro^apertando muito o corpo com uqh precinta. 



,. « • 4» *" t, 

-?W S BOCAGE. % 55 

jl ^J?Mas alqjas em ti maior vaida$ t J ^ 

^ v-y^Kie Londrts, que Paris ou quelifln. * 

A chusma, de teus íncolas pregoa f>. ^ T*/ 
Que excede o Grão Senhor na jpaUdtde; 
x • Tudo%far «enJtória : o próprio fradtf 

'^ AUega[^ítoêl-i, o jus d^Yôa 

*^ * De timbres prenhe estájBrmas ouro Jprata *¥ 

r " Em cruzes, com qué*il!iíii n te benzias, 
•»} Foge a teus infançôes ^ bolsa ehata. 

«' ■ *^í 
{ troe feliz^e ^lenwa sems ^_ . 

Se f algum 4usft> líe^â»âie faz bagata * , ?*1* 



* 



iSS1fâ'{|i\||y* y a%senhorfais ! * a**. 

iíâo mêhos*podetn ler-se os tre» sonetos quedemos no 
tomo I o , pag. 42 a 44, e que pjfotijteo ^ * 

^ ^Cala a boca, satyrico poeta -otT ^(f * 

. . 4- Tu, Gôa, m ifJb temporexjàaiàe 

* Quer veFfíma perdiz chocar um rato..;,. 

■• Fácil se comprehende pois que o ódio inspirado por 

Bocage era já chegado em Gôa a extremos de exaltação : 

e por tão graves imprudências teve elle de eyadir-se a 

esperas, destinadas a pòr-lhe termo á existência, comp se 

s v| de varios%efchos, por exemplo : 

* ,» 

m medo à fúria dos terríveis mares, 
Yim do culto, benéfico occidente, 
Viver com tigres, habitar palmares ; * 

Aqui vago em perpetuo labyrinlho, , ^ 

Sempre em risco de ver maligno braço -f 

\ - No próprio sangue meu banhado e tinto. 

feticaMaj^i pçtas, attri buídas aos gentjjpstyli índia . " ç'JV 
Dinheijjcujo valor é quasi 200 réis. } ■"■.«£ ^ : 



*•• 



50 




RIA, CL A 



f 



ICA. 



f. 



A estas incl 
çáo, de que ellé. 



victima, « 

longa, rdatflda pj^. ^ 

Iho/onjp g#lé o spgumte 

* .V * 
iJfr barathro «urgio ; 
''A antiga, universal,- 



* 



se juntou o caso da Çfci ur; 

odos os Portugçezes, ^MRp si 

descoberta após uma sua molesti^p 

ãa Xavier Bote-. 




m- 



Lethal doença 
timar-me 
entença ; 



ft - Podres fauces abrio [ 
• iPorém cedeu, rugindo J 
4$}ue a vida, a meu ± 

^Eis que pérfida mão rabal i 
*»*£fepultando o dever no esquecimeflÉb^. 
4 todos nog/fpepara e nos destina. 




M\. 









*5 



% 

** 



)^%sga|^Hj^ff:iràini punhal cruento, 
Ta ba^p^Jr teu ^pofepso amigo, _. 
Qual victima innocente, ao monjfBÔàtfo. v 

Umâ dst^infame, ulfbarbaro ínunigt) ' 
Da fé, das leis, do throno, um deshumano, 
k Credor de eterna, de infernal castigo, 

* Tendo embebido seu furor insano 

Na falsa gente bracbmane inquieta, 
Que amaldiçoa o jugo lusitano, 

Contra nós apontava a mortal setta ! . * 
.«■-. Jlas estorvou o inevitável tiro H « 

«■^/A mâo divina, poderosa e recta! K 

Desenvolveu-se o crime ! Inda respiro, 
, J£ já destes, ó réos de atroz maldade, # 

Em vis theatros o final suspirou * 

Já dissemos quç.a primeira edição d'esta nossa Memo- 
ria logrôtf a boa afortuna de induzir o elegante escriptôlf 
■J5r. LVlâ^wh^o..^ Silva a aproveitar tod^. Q^ dociÈ 
mentas » fattostlÉBffi' èxhibidos, para, rtve^Pfc tudo da 




1:" * * ' * 

«3» BOCAGE. ^ 57 

ttagem, enriquecer a litttfatura com um estudo 
j-critijpõ. Comquanto |ej£i) frequentes c bri- 

t antes as ampliações do respeitável académico, não po- 
mos divergir nas bases, pois <pfe èlje adoptou quási 
sempre as que^fòhja&os dado ao público. 

Aqui ^orem :, , f "recorrendo o Sr. Rebello a outra* fonte, 
rep^oduzio uma tradição, que ijrôê havíamos, apóé exame, 
repeílido. Exprimio-se assim/flepois de variar o que dis- 
^semfcsTio tomo XXII da Livraria clássica, pag. 32, 35, 
37, 38, 4<fV a ^ ;- 

<** « Dando baixa dò Y wrvicõ militar, por motivos pouco 
areriguadosf sahio de (íòijfe emprehendeu uma viagem, 
em que alguns biogrtphos virão só a inclinação dç Visitar 
,. os sítios mais famosos da conquista; ef outros a obediên- 
cia ás ordens do governo, e uma deportado fortjadak Af 
ultime conjectura é a que se figura mais provkvel, atten- 
tas as circumstancias em que. sé tinha collqcado. Não 
contente com o rancor dos habitantes, jtàppliciados nos 
seus versos, a Índole irascivel e as propensões satyricas de . 
Elmano levárão-o a pôr o alvo dos seus tiros na pessoa do" 
capitâo-general D. Frederico Guilherme de Souza, ferin : 
do-o no lado mais sensível com o poema obsceno A Man- 
teigui. Esta injuria atroz contra a amante do governador, 
éonhecido o génio vingativo d'este, não parece possível 
que ficasse impune ; por isso não será nada temerário 
attribuir a sahida de Goa a uma causa tão natural. » 

Nunca havia sido indicada boa fonte onde esta tradição 
fosse bebida,. e antes muitas circumstancias tornavão a af- 
firmação inverosímil. Hoje porém basta confrontar as 
datas para reconhecer que tal versão dFrece de funda- 
mento. No Archivo universal, 4 o vol.*jp° 20, apparecem t 
alguns ass^É^s, extrahidos de livros d^nsi&^&fe^.Yv» 



** 



V 



58 4 LIVRARIA €LA*SIC\. %, i *" ^ 

lippe Nery Xavier^ e *irvão as suas próprias palavras dg. 
refutação do antigo boato : 

u D. Frederico Guilherme de Souza, nomeado goygr- 
nador e capitão-general (Teste Etfado em 18 de Março 
de 1778, tomou posse em 26 de Maio de 1779, e largou 
o governo em 3 de Novembro de i 786, ao seu successor 
Francisco da Cunha c Menezes, chegado no dia 28 de 
Outubro antecedente, e em seguida foi visitar as^praças 
do norte e Surrate, d' onde voltando se embarcou^para 
Portugal em Fevereiro de 1787. Bocage chegou a Gôa no 
dia 29 do referido mez de Outubro, e encontrou a D. Fred©^ 
rico no governo do Estado apèúas^atro dias ; esse tempo 
não era de certo bastante para adquirir conhecimento ne- 
cessário da paixão do governador, e de suas particularida- 
de*, e fazer o poema satyrico A Manteigui, e d'est'arte 
provocar as iras do amante ; tendo elle, durante os referidos 
dias, de tratar do seu desembarque e alojamento em terra 
estranha, e falta de hospedarias, e no meio de festejo ge- 
ral, e costumado, pela chegada das náos de viagem, e 
• jTessa occasião ainda maior com a vinda 4o novo gover- 
nador. Além d'isso a residência do poeta cm Gôa, e a 
sua promoção para Damão, deixa ver que D. Frederico 
nío concorreu para a sua sahida d'este Estado. » 
: D6 poema torpe a que se allude, é heroina uma mulher 
'formosíssima, nascida em Damão, mas casada em Gôa, e 
nio obstante pouco morigerada. Em todo ó poema, só se 
falia da mulher, do marido e do amante; apenas um verso 
allude a outrem : . + ■-.* 



Nunca mais! Nunca mais!... Ah! D. Fulano. 



Ainda que este Fulano seja um pseudonymo com que se 
substituísse o nopae do governador, nunca poderia este 



^ ^ W % ' ^JflClffcE. 59 

Frederico, pois esUs quatro jyllabas não caberião 
b verso, e antes" 1 pode riu ser o nomeado seu successor 

Francisco. 

É pois da primeira evidencia >4^ e Bocage não foi ex- 
pjfao por D. Frederico, e que: é utp romance quanto 
stftem devaneado tobre o desprçxivel poema, como cau- 
^jsadjor d'esse desterro . c 

A^rma Couto que « o clima era opposto ao sgn tem- 
pimento, e que, por temer novas moléstias, voltara com 
licença a Lisboa, nogàndo-se ítepois ás armas, cujfyida o 
desgostava, e uie èra então^ftimmamente fastidiosa. » 

Nada d'isto affirmtyflosíjfe cremos ao contrario que os 
dissabores e perigos bastarão para arraigar em Bocage 
contra a gente de Goa um tèiró que lbe era com arçura re- 
tribuído. A permanência em semelhar^ cidade tornára- 
sedhe portanto intolerável, e resolveu saliir d'alli, fosse 
para onde fosse, e dé preferencia para lugar: d'on de mais 
íçcilnTente pudesse realisar o projecto*<|to& desde logo 
concebeu. 

Constando-lhe que na praça de Damão vagara um lugar, 
aproveitou ávido o ensejo para exprimir ao governo a sua 
'*pciedade de sahir de Gôa, embora para sitio não mais 
. attractivo. eerto é que, em portaria do goverriâçfe e 
capitão-general da índia, datada aos 25 de Yefmito 
de 1789, foi despachado tenente de infantaria da 5* com- 
panhia do regimento de Damão 1 . > 

Depois d' este seu despacho, partio o nosso tenentefpara 

te 
. * No Arçhtvo universal, 4 o vol., n° 20, foi publicada essa. patente, cuja 
cófria temettêra, de Gôa, o Sr. Filippe Nery Xavier; n'ella se lé que a no- 
menção é feita, attendendo aos serviços e merecimentos do guqrda-ma- 
rinha N. Os esclarecimentos que damos aqui sobre essas datas dâ Índia, etc., 
são colhidos doesse curto apontamento do Srr Xavier, útil cara o e&tada da, 
Tida de Bocage, no prazo a que ora nos refeTYKtf&t 



■^» 



60 LWRARI 






Damão, aos 8 de Março de 1789, na fragSla SantfAn 
commandada po*Felix José Tiopco 3a* Gama, chegai 



ao seu destino em 6 de AbrflP subsequente ; e 

mesmo c 

cumprir 



^3S)S€ 

mesmo dia o governáflof António Aeite de Souza mSdoí 



mprir a sua patetitaip dar-lheÁo&seTdb posto. ^. 

Immediatameiite depois, isto e^lcm^odia 8 de AbriL 
Bocaga, acompanhado do alferes Manoel Jtfsé DioJYsio, 
que, ppr crivado de dividas, não podia conservar-se mais 
em Damão, desertou, {agindo peia Porta do Campo, para 
nunc^mairapparlcer. Isto tudo jfogsta de uma conta 
do governador de Damão, datada a 21 de" Abril da 1789, 
e do livro de Damão, dos annôs 1786 a 1790. w 

Jf&È&e provado que Bocage, exasperado com tantos 
desgc^s, é aterrado com tantdfe riscos con&o em Goa 
supportou, vio-se "acommettido de um accesso de nos- 
talgia e de um" ardentíssimo deseÚLíte* regressar a Por- 
tugal. O Sr. Theotonio Xavier de4mvejp^anha, de Se- 
túbal, parentfe de Bocage (e a qtéfn oevemos valiosas 
informações) assevera que a deliberação de Bocage pro- 
viera da indignação que lhe causara o haver sido injusta? 
mente preterido; mas com a devida vénia diremos que 
nem de tal cousa existe vestígio algum nas suas obras, 
nem oóde ter fundamento, pois até Bocage sahio do ser- 
viç^metamente quando acabava' de ser promovida, V 
seuçjeuido e contento, tendo tirado e feito registrar a sua 
pajente, e jurado, um mez afttes. 

E porquanto Bocage desappareceu de Damão, poucas 
horas depois de ahi chegar, sem haver tempo psurç ser 
arrastado 4| esse passo por considerações loçaes&jpjrõjíàâo 
está quç a sua deliberação era já caso pensad&jgfejh Côa, 
onde aceitou a remoção para Damão como um jjjpgtnente 
qut lhe favoreceria a projectada evasão, fácil njjtnapraça 



▼ . BOCAGE. 61 

terceira ordem, e de êxito perigoso em Gôa, impor- 
te residência do govefjiador e cápitãcngeneral da Indiá. 






^l ^& se conservou pQis em Dgpiãq o tempo necessário 
para aggregará r sua%frenturosa expedição um compa- 
nheiro, mai$ conbeqàdòr das padjjens, ^ cuja cooperação 
pudesse tornar a ãudaST deliberação menos arriscada. tal 
alféMk endividado preenchia perfeitamente as sua? vistas; 
desertarão juntos. * 

Vem aflui a propósito- reproduzir um soneto, onde Bo- 
cage nos relata os ifcolivos que, tornando tão penosa a sua 
posiçakem Gôa, o resolverão a tamanho extremo : 

Do Mandovi pa margem reclinado 
Cbfijrei debalde minha negra sina, 
Qtfal o misero vale àê Corina, 
Nas Poncitanas praias desterrado. 

Mais du£p fez Irmeu duro fado 
Da VÍqRpSÉn^fr sjíkigua viperina, j 

Até que aos njKjres da longínqua China 
Fui por bravos tufões arremessado. 

Atassalhou-me a serpe, que devora 
Tantos mil; perseguio-me o gran gigante 
Que no terrível promontório mora. 

Por bárbaros sertões gemi, vagante... 

Falta-me inda pèioV; falta-me agora 

Ver Gerlruria nos braços de outro amante. 

N'uma nota a este soneto, diz Bocage que ali u dia n'elle 
a uma espécie de peregrinação que fizera por teítas bar- 
^ barapy onde supportára os horrores da penúria, e esta 
pòe&A/tfpnfirma a nossa versão : foi na margÉn do Mòn- 
dovh(jjiõ de Gôa) que elle chorou a sua sina; afarão as 
caltím^ms (?) com que alli o victimárão, causa (la sua 
partid* j%ra a China. Já se \è ter & e^^*^\\s^&s> 



6t2 % LIVRARIA CLÁSSICA * V 

sido apenas uma facilidade&procurada. A peregrinação 
por terras barbarás e sertões, si£|fortando penúria, e ge- 
mendo vagante, allude á sua jornada até Bombai^ouJ^ 
Súrrate, d'onde se embarcaria para Macáo. 

Confirçna-se esta interpretação com outros anjdògos 
dizeres de Bocage, por exemplo n'éMe trecho : * - 

. Musa de Elnjanoj que gyraste afflicta ^ 

Por inBoéphos mares ; 

Se a lòquai ignorância, . 
* Sobre as margens auríferas do Ganges, * 

t Co' um sorrtofr affrontoso ' 



rrfefraftl 



As vis espaldas tejrwtou mil vezes; Ir ♦ 

^fe Se a vasta, a fértil China, 

■HPFôfa d 1 imaginaria antiguidade, 

Pelo seu pingue seio "*.. 

Te vio com lasso pé vagar mendiga ; 
Se a mirrada avareza, 
.. 9 \? Aferrolhando os cofres prenheqji&ouro, . 
4$ * J-: Lá onde o sol o gera, *** ^ v 

PÍ5 mais dura que o mármore a téUs versos... 

e ainda neste lugar : 

Misérrimo de mim, que em terra alheia, 
f Cá onde muge o mar da vasta China, 

• Vagabundo praguejo a morte feia ! A^^ 

Eil-o finalmente, apò% tantas fadigas, chegado á vfflha i 
possessão portugueza na China. Ahi o recolheu em casa 
o negociante de Gôa Joaquim Pereira d' Almeida, que 
o apresentou á primeira sociedade^djgJMacáo, onde per- 
maneceu alguns mezes, sendo este AJjjjgUda aquelleajue, 
por occasião da morte de seu pai, iafjHrou aBcwgfta 
delicada elegia : *-^-* 

É tiriãfa mundo um cárcere, em que a morte.. ti. 



V 



■ * s ' • 

* ' v BOCAGE. 4 03 

e finda assim : * ^ 

^ O' tu, meu bemfeíwi meu caro amigo, 
A' Tfc Que, contra o desprazer, no affavel seio 
D'alta philosophi/achaste abrigo, 
De um grato opraçâp, de magoa cheio, 
Acolhe o ter$o,vj£ cândido tributo, ." ■• >* 

+ .Que a musa, gloria minha e meu recrtio, 
JflTTe offrece, envolta no funéreo luto. 

^ í i* ■ ■ 

Affirma o Sr. Xavier que Bocage^nffljgpodendo resistir 
á indole, jompuzera alli varias !fièe§ftas satyricas, t|es 
como o Canto da Beba, os sonetos^» descri pç ào de Ma- 
cáo,. contra os fidalgos macaístas/etc. Tudo isso porçnvé 
ainda inédito^ e bom serviço prestaria quem d{ú|ao 
prelo essasjpíoducções, sobre acuradas cópias. ™ 

ÍTaquella cidade compôz o soneto a D. Maria de Sal- 
danha de Noroifha e Menezes, que principia : ' *>• 

■ ^L jptv 

Musa chorosa , que pór terra estranha ^ . ; ' v ■■ 

»■■ 

E bem assim a ode, que começa : 

Musa , nao gemas ! Ergue, ó desgraçada 




dirigida áquella fidalga, com o intuito de obter \, 
illa concorresse para facilitar o seu regresso á pjitria, 
poisÊassim falia á musa : 

Roga, roga-lhe emfim que te destrua 
As anciãs, os temores; 
-.. Que à pátria, ao próprio lar te restitua. 
" *^Ah! Jâ te dfcque sim! Não mais clamores. 

Musa, mtisa, descansa. 
:.■■#., Cantemos o triumpho, ô esperança ! 
'" í* *"■"'« * 

Também se achava em Macáo wo&wta âs^.âe^g^ ^ 






64 . » LIVRARIA CLÁSSICA. fc T 

noticia (Mfallecimento do príncipe réíT, o Sr. D. José 
(irmão mais velho do Sr. D. Joio VI), que a 20 de Se- 
tembro de 1788 succumbio, na idade de vinte {ftete* 
annos, a um ataque de bexigas; o que inspirou a Bocage 
$ima. septida^êlegia, cujo primeiro vçfso": lr 

EU vos sauao, ó túmulos annosos «** 



allufle a um cetfÈljpqjde Chins que existe próximo de 
Macáo, e no qdly d&0Òeta se foi pôr a escrever esses 
vesgos, lamentandò-se j^or não ter podida em Lisboa 



acompanhar a dor g< 




Misérrimo de mim, que em terra alheia, 
Cá onde muge o vasto mar da China, 
Vagabundo praguejo a morte feia. 




forão então por Bocfge dedfeados á morte 
cipe os dous seguinte? sonetos : 



Louca, cega, illudfraa humanidade, 
Miserável de ti! Não consideras 
Que o barro te gerou? Como que esperas 
Evadir-te á geral fatalidade? 

Pó, que levanta o sopro da vaidade, 
Homem caduco e frágil, não ponderas 
Qua teus bens, teus brazões, tuas chi meras, 
Nenhum valor terão na eternidade? 

Ah ! volta, volta os olhos mais sisudo; 

Atyi na inagestade aniquilada 

Te faz o desengano aviso mudo : A 

Attenta de José na cinza amada : 

Que serás, se elle é já, se ha ^e ser tudo 

Pasto da morte, victima dojaada? 



?*■#:■ 



fiÉ*:" 






../■ 






I 



v # 

BOCAGE. 4 7 65 

José, sadguVd^éróes, principe amado, ^ 

Nosso bem, nosso pai, nossa alegria, 
Tu pela negra mão la mor|jp fria, 
Da truculenta morte em flor cortado ! 

Tu de nós |>ara sempre desterrado ! 
Nós sem ti paj^sempre ! Horrível dia ! 
Misero povo ! Infausta monarchia ! 
Rigida lei do inexorável fado ! 

Áureas, vãs esperanças concebí|mos..y 
Eil-as, eil-as em cinzas no jazigo - 
Com t£U rosto adorável, que perdemos. 

Ah ! Que é do nosso generoso j«go? 
Que fazemos no mundo, ah! qu?fazemos, 
Que nos não vamos sepultar comtigo? 



Era então governador interino de Macáo o desembar- 
gador da felaçâfcde Goa, e ouvidor geral do civel.Aazaro 
da Silva Ferráfi, á cujo favor generoso deveu pfjSm$fnl 
mente Bocage a sua restituição á pátria ; por jpsá* ria 
viagem (antes que lhe esfriasse á?gratidào) lhe dedicou 
a'saphica : 






Ao som confuso da celeuma os nautas 

lc transluz a immensa satisfação de regressar a Poiw^W* 

Eu torno; eu torno, por amor guiado, 
Exposto â fúria dos tufões, dos mares, 
Eu torno ; eu torno para vós ; ouvio-me f 

Júpiter alto 1 
,^-j/Tudo a ti difvo ; a gratidão não soffre, etc. 

* Èíao pônfnos aqui ter»o á parte da biographia de Bo- 
cage/ jj^locan te á sua residência nas regiões regadas >. 
pelo Gã*ges ? assalta o espirito a cotAto\\\^v^j^^^^^ 







► LIVRARIA CLÁSSICA. 

grande tfp(pio, em mil sentidosfcfcão parente d'este : Ca- 
l mões! .- «- 

; Ambos Portuguezes, nlfccidos apenas a seis léguas de 
distancia; poetas : magniloquos, bucólicos, elegíacos, pri- 
JÍYnorosos naíébmposição de son^Éis 4 soldados; idolatras 
4 da pátria; perseguidos; pobres; ambiciosos de gloria; 
amantes; indo militar para a índia; lá compondo peri- 
gosas satyras ; tra^jportando-se a Macáo; correndo gran- 
des riscos; regressando com diffifculdade;... e ambos 
expirando em leito ÚMÍigente, e aiWfcjs dorminlo sem 
lápida, e confundidoflÉferdidos seus restos ! 

tjuanto porém ás Isjpras a que acabamos de alludir, 
cumpre apresentar uma reflexão, em honra dos dous 
# poetas : nenhuma d'essas satyras é pessoal. Nas satyras 
indianas de Bocage * censura dos vícios não parece so- 
bre^griptada a individuo algum em particular ; nova pa- 
ridara#t$m Camões, o qual, nos Disparates na índia, não 
apoatotí*um só noaflpO Soldado pratico de Diogo do 
Coutc^ e o que este fltor ccÉhttpiporaneo delata, na dé- 
cada V, liv. I o , cap. 3 o , mostra a que estado de corrupção 
' tinháo chegado os Portugutees na índia, e que o poeta 
âfera ainda brando censor; os fidalgos de então já não erão 
mais que os manes dos seus antepassados. Igual justifi- 
cação teraJJocage a seu favor. 

Esta Confrontação occorreu ao espirito do poeta do 
Sádão, como se collige do soneto que principia : 

« 

Camões, grande Carnes, quão semelhante 

» * . ■ . '■ «rçw 

que demos 110 tomo I, pagina 50 V 

, E c aqui lugar de dizer qiig Bocage proiwHf^pfxiaior 

vcucra ffllfcft autoi 4 des Lusíadas, jtsscveranuo qué^uito 




j 



RjOCAGE. j|< 



61 



antes lhe aprouvera ser Camões do que Al^ándrc ou 
Achilles, como o repetio n'estç soneto : 

Sobre os contrários o terror e a morte 
- Dardeje embora Achilles denodado, * 

Ou no rápido ÀHft ensanguentado i yt. 

Leve a rastos «em vida o Teucro forte. 

Embora o bravo Macedónio corte f , 
. Co'a fulminante espada o nó fadadlpí 
Que eu, de mais nobre estimulo tocado, 
Nem lhe amj£a gloria, nem lhe invejo a sorte. 

Invejo-te, Gamões, o nome I 
Da mente creadora o sacro .1 
Que exprime as fúrias de LyeòJraivoso, 

Os ais de Ignez, de Vénus o queixume, 
As pragas do gigante procelloso, 
céo dé%nor, o inferno do ciúme. 

Numa ode a José Bersane, indícando-lhe os jrfâfos de 
inspiração para vários. géneros literários, diz : *v ^ 

** '■*■■" *£ 

Para cantar de heroes, que à pátria derào 

Não cuidadas victorias, 
De sangue, de suor, de pò manchados, 

Forçando o mar e a terra, jj 

Lê Gamões ! lê Gamões ! com elle a mente * 

. . Fertilisa, afervora, 

Povoa» fortalece, apura, eleva! .< • 

Já ao partir para a índia elle fallava de Camões d'est*- 

arte .: * u* 

fy£-p6 mares vou talhar, cujo» furores 

Descreve o grafccantorjipor quem de amores 

♦*-; Inda as musas suspirão; v 
Aqfeél$es mares onde os Gamas virão 
'^ft&> rebelde horrendissitoo gigante 4 , 

. Os negros lábios, o feroa sembtafai • V \* .. 



08 ^ LIVRARI^ CLÁSSICA. 

A epistola ao vice-rei do Emdo do Brasil, Luiz de 
Vasconcellos e Souza, terming assim : 

Não escapas do assumpto que proclamas, 
Só ptftopce aos Gamões fallar dos Ganias^ 



r 



N'outra a Cardoso : 

Se o transcendente espirito, que aceso, 

Que absorto eii#^urbilhões de etherea flamma, 

Deu tanto a Lysia e lhe deveu tão.aguco ; 

Se Gamões o immortal não fosse aqffille 

Que aos seus em^vã fttfar pio ; se achasse o triste 

Risos na sorte, $Cwlh a pátria ; 

Se não curvasse a jRíe ao ferreo peso 

De mil tribulaçõeg^e mil desastres ; 

Se infestos, se cruéis, se carrancudos 

mísero, quaes vio, não vira os fados; 

Além da humanidade o vôo alçara. 

Precedendo e seguindo assombro a assombro, 

Em numens con^ykio o pensamento, 

Feliz qual fòrjMHEfeliz foi tanto 

Da gloria rio hjB|n te os. olhos fitos. 

Ufano , sobranceiro á desventura , 

A 1 baixeza, ao desar com que nas almas 

A servil dependência engenhos mirra, 

Meneando o pincel, que portentoso 

véo da eternidade imprime os quadros, 
acter, dá luz, dá vida a tudo, 
a perfeição co'a fantasia, 
fero Adamastor, mais espantoso 

cedera o trovão na voz medonha, 

tmembngtgiganteos oceuparião 
lor espaço do ar, maior da terra ; 
a mais dilatara a boca enorme, 
Retorcera inda mais os negros olhos, 
Das procellas hoftísonas toldado. 
Nas columnas de neve encantos novos 
v ,o raro ccnjpl tu, Gypria deosa, 
i&DorosasTt&es esquivaras, 





V 



* 

BOCAGE. Ã 69 

■* 
Sem tolhoif mvasoej; ao pensamento . 

Mais pathetica Ignez, Ignez mais bella, * V. 

Entre os penhores seus, entre os filhinhos, 

Ou cópia iTella, ou cópia dos* amores, 

"0 despiedado Affonso embrandecêra. 

■ty ■'!■■■ » 

No poema sobre ^Agricultura^ c. H , àfyJAe Camões ; 



\ alta musa, 

Das Camenas do Tejo honra e saudade. 

Paremos.aqui. Vemos Bocage regressando á pátria, de- 
pois de haver consumido vinte e cinco annos da sua idade, 
percorrido climas remotos, ^fcyamente padecido ^go- 
zado. Têl-o-ha acaso amestraqJ^Fpesada experiencttu da 
vida? Terá elle -aprendido a d<JÍnar tào incorrigíveis ten- 
dências, ou subjugar tão exaltado génio? Ah! mocidade, 
mocidade ! que fada não és tu ! Como douras a existencial 
Como esqueces e promettes, enganadora I É a mocidade 
tão formosa e abençoada cousfejMjfí até das recordações 
estilla deliciosas saudades, para^Bjpafogo da velhice ! A 
experiência de Bocage para/iada tW valeu, que a levian- 
dade do mancebo, passando esponja sobre os dissajiojes, 
fallaz lhe purpureava de prazeres e esperanças o hori- 
zonte. , *f 
, Que pagina lhe reservava o livro do destina? Em se-.' 
gui<$a o veremos. \;Jh 






I 



70 



livrarA clássica. 



.-. . - -MS- 

i 
CAPÍTULO IV 



-*» 



Chegada de Bqpflfói Lisboa. — Jornada a Setúbal. — Nova roda de ad- 

- miraàftres. •^«$PiibKcação de suas primeiras obras. — jwfaga recebida 

do editor. — jfetende-se a reputação de Bocage. — VerSs irreiigMtitfe. 

— Denuncia óVelles ás autoridades, e bem assim de vários CjÉCP 8 , já 

indecentes, já liberaes. — Ordená-se a prisão do poeta. 

^ Em Ago9to de 1790 4 pisava' de najiro Bocage o idola- 
trado chão da pátria ; alvoroçado abraçava os amigos de 
qtirafa; com enthusi^ÉjjQ, repartia o <*ortçào por mil 
ní^M corações ; e nãowHte fartavào os olhos de contem- 
plar cfs sítios testemunnas da sua primeira mocidade. 

Tudo então lhe desafiava a musa, ora senjjda, ora fa- 
ceta. Daremos como exemplo o soneto por elle improvi- 
sado, quando, ao transportar-se a Setúbal, apeuas desem- 
barcara, pára matar*MiiJB(|es, álli vio n'uma casa vários 
trastes, que tinbão^ra|mbi^Q á de seus p*j|', e que, o 
dono literalmente rheTmera&Êu ; soneto inédito, quexle 
Srtpb&l mesmo nos enviarão, e que nós pela primeira vez 
public4ftft|ps na primeira edição d'este livro. 



sediços, moveis de outra idade, 
primeiro avô mimo e ventura, 
saúdo, jã que a desventura 
respeita a vossa dignidade. 





Ntai tu me esquecerás, oh! raridade! 
Leito, que cerca horrível bordadura ; 



* Por lapso de memoria,- J. Agostinho de Macedo, nag Qmsiderações 
mansas, 4 pag. Jo, di%|ar» Bocage chegado de Macáo a Usí^.Ho principio 
de Agosto de jM^W°. morar para casa d'elle Macedo.' 3^rosoti um 



**JP* 




W 



» 

BOGAG£. 71 

Tu, que jriKbte, peJa^Efitf&e escura, ,, 

A M. .*.... na cova à mesma eternidade. # 

Ah! não se atreva braço aventureiro % 
. £,De incansável algoz, que o mundo arrasa, 
Quebrar dos tempos o brazSo primeiro ! •> 

Lotfe, incêndio voraz, que tudo abrasa! /•. 
^ Tenhão meus descendentes, sem dinheiro, 
**" A historia natural sempre de casa. 

Reservamos para' o lugar, competente a narração de 
varias aneedotas d*fesse tempo, assim como trataremos 
sobre si da renhida guerra da Nova Arcádia, a qual prin- 
cipiou logo depois da volta de Bo$ge á Europa, asswt&pto 
este que, bem $omo o de suas relações com José Agos- 
tinho, merece capitulo particular. 

Apenas cruzou o Tejo, considerou-se Bocage livre e 
longe dos, seus getas, e esplendidamente rodeado dos 
seus Romanos. Engrossado o Mj&lio poético, e tentadas já 
primeiras jornas em algumas pájpnfepda imprensa, sahio 
á Juz com um volume das Suas fimas, impresso pa ofíi- 
cina de Simão Thadeo Ferreira, e taxado a 7 de Novem- 
bro de Í791 . ffi, 
Note-se, porém, que a esse tempo a musa só servia 
sjuiar a génio gloriosamente ao hojfflítal. Simão 
So pa^ou-lhe esta edição por dez mojn|l Podia-se 
lar de Simão em Judas, e fazer-se-lh#dQ*ppellido 
tf a furtou. Perdfio peto pobre joguete de pala- 
, ^„. V\ para abafar uma execração vehemeate intem- 
pesfiVà.V 1 D' esses Simões Thadeos andâo hoje por ahi a 
„ T rodo; tanto o andassem os Bocages! v 
Na imporfçiite memoria biographica e critica do Sr. Josc 
de Torres èçbre Nicoláo Tolentino, dífcti^uéllfe cavaU\ov:<s 







T2 LIVRARIA CLÁSSICA. 

que o Sr. Amaral Frazão lhe asseverara ter Tolentino 
vendido a edição de suas obras, quando ainda na im- 
prensa, por doze mil cruzados, a um collega do poeta, 
Manoel José Sarmento! Será isto possível? Se tal succe- 
deu, nào adoaria no animo de Sarmento a simples boa 
vontade de fãner ao >eu ami^o um mimo delicado? Se 
porém Tolentino vendia por doze mil cruzados o que a 
Bocage rendia apenas dez moedas, ha explicação intelli- 
iíivel para semelhantes díftercnças? 

Mas, em todo o caso, nào renhào os estrangeiros lançar 
em rosto aos Portuguezes este baixo preço dado ao livro 
de Bocage. A '27 de Abril de 1667 assignou Milton um 
oon trado, vendendo ao impressor Samuel Simmons f paio 
primeiro nome e pelos feitos devia ser judéoi por metade 
das taos dez moedas cinco libras esterlinas i o poema do 
Paraíso ptrdhlv: e igual somnia após a segunda e ter- 
ceira edição. Mas nào se aecuse o bom Samuel de mes- 
quinhez, pois levou sete annos a venderas três edições, 
e isso com a pia fraude de alterar o titulo. As segundas 
cinco libras, ainda Milton recebeu, e depois a familia 
vendeu por oito a propriedade da obra ! Affirma-se que 
lioileau vendeu, em 167 L o manuscripto do Lwfriw, por 
seiscentos francos, ao livreiro Thierry : e Racine, pouco 
antes, oedèra o seu manuscripto da Andromaca, pela 
terça parte doesta somma. Parini mostrava hyperbolíca 
exigência quando pedia a um livreiro veneziano cento e 
ciucoenta sequins pelos três poemas // Mattim\ Jí Mez- 
wgionio % La Sira* Ahi tendes ftrnias para o mesmo pé, 
na Inglaterra, na França, na Itália; cã e lá más fadas 
lia. Km tempos modamos, pergunte-se a V. Hugo quanto 
ivndèrào o£ Misxrawis; em ternas autigos, pergunte-se 
) t iixili* quanto lhe reiuteu \» episodio Tm Marcellus 



* # ," • 

.* BOCAGE. ~7> 

.. .*■ 

i ms; mas estas cousas vanão com as circumstancias e os 

dias. 

Voltemos ao nosso poeta. ■' $ 

Se os versos não rendiào metal ao já então Elm&io, 
coroavão-lhe a fronte de louros. A sua ifHHbão de dia 
ít^ia se ia exaltando* já o renome do assófpQrobo impro- A 
visddor subira da extática admiração das turbas ao attento ^ 

" apreço dos entendidos ; já a provação do scrípta manent 

lhe fixava cadeira ci^rul no parnaso portuguez. Nume- 
rosas Poesia^ E}jgg\ps poéticos, a Eufemia, e varias com- 
posições ent verso e prosa, augmentavão quotidupa- 



• 



mente o seu thçsouro, com appláuso dos amigos e jjfmja -j 
dos emulos. "*** 

D'est'arte lhe decorrerão sete annos de vida nómada, • 
gloriosa, independente e dependente, dissipada e de com- 
pleta inciiria quanto ao amanhã. #r .. 

Avultava entre os defeitos de Bocg^e o da volubilidade, 
applicada a todos os gostos e sentknentos. O homem que 
não passaff dia sem rend%ctfflrà amores covos; que 
hontem^erguêra ás nuven^o que hoje satyrisava; que 
epigramnMtva desalmado os médicos, cujo auxiltà&ri suas 
enfermiuifles supplicava; que despiedadamente sacrifi- 
caria a um bom dito o amigo mais do seu peito; que 
n'wn dia odiava o gtíripro de vida que na veápéra agtbi- 
ciJrara; que ora in^psava os poderosos, ora entoava 
cançoeiyi liberdade ; homem assim organisado não podia 
ai !) resistir sfãlpip aos ruins impulsos do in- 
circumstantwLogo veremos como applauso^ 

Sem r^|ão se crê geralmente qffc. Bocage era ímpio; 
Ímpio ! f Çl^^^° profundamente rtífgiòto; áitè levava a *" 
sua fSjâ^HPpp 10 % fanatismo l 1ft\^ ^w^S^^^ ^ 

■ v 1 i 




l 



♦ 



74 . LIVRARIA CLÁSSICA ,$**% 

crença com todo o ardor da sua. imaginação ! Elle, que 
se desavinha com o melhor amigo, por este zombar... 
de uma pratiof pueril! ímpio I Bocage!... 

Verdade é que varias poesias suas irreligiosas, algumas 
das quaes correm impressas ou manuscriptas, arrancarão 
applauso flfimpios, e contristarão aos seus admiradores 
* sinceros. TOteejosos de apresentarmos imparcialmente, 
n'este professo biographico, tanto os documentos favora- 
yqjp como os aggravantes ; havendo tfm que na carreira 
de Bocage exerceu terrível influxo ; tufemos, tentações de 
transcrever aqui uma famosa producção, merecedora do 
mai*, severo estigma. Não lhe accrescen taremos porém a 
publicidade, comquanto em noss<g$empo se pense ii estes 
respeitos mui diversamente do que !» principio^lo sé- 
culo. **L> ^9fc 

MilheirdÉjljlf cópias, da - <* 

Pavorosa illusSo da eternidade. Jfc 

feAJ» ■ 

v #*■ 

d'esse poema assassino da mfíocencia, e vergonhosa aber- 
rtfção do espirito humano, gyrárão d&jgtítos em mãos. 

Affirrna Couto haver o poeta esci«Pàquei!es versos 
com o intuito de precafer uma namorada sua, a quem 
umirade requestava. Nem sombra de plausível tem esta 
opinião. Vê-se que o poeta diligtfgnu perverter eiri&eu 
favor a uma senhorita boçal, aHpsa, e de bons cos- 
tumes. »*- ilÉ 
9 Obra a todos os respeitos moralmente pessima,1ndigàa 
do taleMtfde Elmano! Lancemos sobre ella o véo** 
Attribuíràj^se-lteffiversos outros ligeiros, iíias repre- 
v hensivejjWpulosjrtireligiogos, comquíá^ estejamos 
convepHrafeág que esta accusação tomou I8wr corjjp 



*jfc m »-, ' *< 



j*lj» * * bocXge. 15 

do que a verdade devia consentir; e talvez nenhuma 
d'essas imputadas poesias seja de Bocage, exceptuando 
apegas o seguinte soneto, provavelmente composto com 
projecto culpável, igual ao que dictou a Pavçrosa : 




Um ente dos mais entes soberano, ** r V^ • 

Que abrange a terra, os céos, a eternidatfe,*lfc $ 

Que diffunde annual fertilidade, 

E aplana as altas serras do Oceano ; 

i & 

* Um nume so^errivel ao tyranno, 

Não à triste mfcrtal fragilidade, 
Eis o Deos que consola a humanidade, 
Eis o Deos da razão, o Deos de Elmano. 

4 Um despot&da èfiôrme fortaleza, 

Prompto sèapre o rigor para a ternura, 
Raio sempi3K|*m;lo para a fraqueza ; ^ 

Um creador funesto á creatura/rfL 
Eis o Deos qutf horror isâ • natureza, 
.figos do mnatismo, ou da impostura 

Cópiasaa 'Pavorosa, quentão pavorosa se tornou para 
seu autor^ cahírâp nas mãos das autoridades ecclesiasticts 
c civis, qàe juljfflBfe necessário proceder immediatamente 
contra o audaciíSo poeta. Se efese poema lhe grangeou 
ainda mais clara fama, não menos lhe acarretou os maio- 
re£ desastres que : ÍBL|u a vida o vietimáráV, podendo 
bem applicar-se^heiBjMWPalidade da fabula de Arnault, 
OPdkgaio: *^%» 

*í. . Lá cause de notre grandeur , „.-, 

Peut Têtre aussi de notre perte. "^Çí** 

fosse aquella a cau$^proflP^fe perse- * 
i>cage, cumpre confessar <\t^JBJW|y^\^x^> 




76 



** './• *p - ' 

^LfaRAlUÍCLASSICÀ. > * ^^^ 

imputações grSrês se conglobarão em torno da accusação 
principal, como passamos a Ter. ^ 

Abusando da)nelebridade 9 que o tornava idolo geral, M 
neahuns respeitos coarctavão suas audácias : solteiras, 
viuvas ou cacadas, erão indistintamente objecto de suas 
aspirações K nao raro lançando assim priMgJfbaçào em lafes 
domésticos. Sirva de exemplo uma roHpa a-Urselina : 

Frio horror os cabellos me arripia, . 
W Quando a imaginsfição me fepresenta 
Meigo esposo que ao thalamo te guia. 

Como que o vejo co'a paixlo sedenta 
Mancha r-te a leda boca purpurina, * 

De seu néctar dulcíssimo avaré pti*. j^ 

í o vejo... oh| raivaf E nãd^pmina 

Bvc um barbar^j^ '^ 

ba o meu bem, 





Tu, Vago habitador de estranhos lares; 

Que em vão buscaste o riso da ventura JUL 

Por longes terras, por inmiensos mnres... J j(p8r 

*■ A isto se segue uma ephemera velleijÊ|e de respçjto 
ao thoro conjugal, que até lhe suscita uBB de suicidiè^ 
matconclue assim : ™ v* 

EUa chama por mim, vou dar-lhe a \ida ! 
Feliz eu, no fim mísero a que aspiro, v 

Se, co'a J)oca amorosa à tua \f/A& 
■i Desentranhasse meu final suspiroí 

Quakers da poesia derão igualmente á autoridàjfé nqp 
ti cia de centenares de «scriplos, inspirados pelasSifiiíigtís 

~ descom postai e ébria* de Parny e de Piron. Esses, sim, . 

* são de Bocage í corre impressa grau parte d^a^as fesce- 
ijiiiâs; e alguns versos que se oslentào nas várí^collec- 



'«* 



* **£ÇC# * * / BOCAGE. - 77 

ções, continhão primitivamente phrases ou palavras inad- 
missíveis, que os editores substituirão. Ahi^ nâyo sfc pro- 
tit cure arte de poesia, mas de Joxicologutfmoral. Além dos 
cantos desgrenhados, outros ha, mui leves, que (em 
publico) insurgiriâo hoje o leitor, n'estas eras em que, a 
pàr de menos v i]?jjWe, se alardeia mais pudicícia. Muitos 
d'esses versosJÉRyjrepugnante nudez, encerrão quadros 
indignos do caracter e do talento de Bocage ; mas não 
será licito encarar a questão á luz da arte? Sendo-o,jj)e- 
conheceremos que, se as poesias licenciosas de Horácio 
são os seus únicos versos sem espirito, as de Bocage, 
aviltando-lhe a moralidade, honrar-lhe-hião talvez o ta- 
lento, se tal geiÉJa pàdesse aspirar jamais a credito ou 
consideração. W„ ^ ' | & 

Comquanto já ao loiáHretumbassenHKios de trovão, 
precursor da tremebunaa tempestade jl& vinha a car- 
ranquear no horfeonte, era cedo para Portugal; forçoso 
lhe era èsgerar mais um quarto de século. Não soara 
ainda a>mfH, em que, na phrase de Cicero, cumpria a 
cada cidadão prazer inscripto na fronte o que pensasse 
<|ás cousas pwjcas : scriptum in fronte uniuscujusque ci- 
tltf, quid de fQjftblica sentiat. 

Vários dos versos liberaes de Bocage forão denunciados 
como primeiras tentativas perigosas ; e em verdade que, 
a despeito de todas a^ cautelas da censura, muitos relâm- 
pagos de alma livr^Fuígurão nas suas obras. Prirfcipal- 
jriente 4 nas versões de peíÇas dramáticas, o poeta, escu- 
^fex jjgffi e com a responsabilidade de um texto supposto, 
^ff^Styansào aos seus sentimeri|âfc; intercalando versos 
ppjprioíe traduzindo com ir^l^tóíè. Restão porém ^ 
algrfl^uM^^ucções ot$0§tês, e«enptasjtíjra:se o liou-" 
^ vessenípícf ò em 1820. Citaremos àous ^q^SmN!^ 




mm * 

% HL - " 

78 - LIVRARIA CLÁSSICA. vf* 

O que passamos a transcrever, segundo nos informou 
pessoa competente, já duas tezes houvera sido rejeitado 
pela censura ; nfít havcndojlesejo de o publicar, o editor • 
do tomo V declarou, em note* ter sido escripto pa prisão : 
mediante este artificio, obteve o passe da censura.. É 
obvio o sentido etn que o poeta ahi toma a palavra liber- j 
dade: V v 

Lilierdade querida e suspirada, 
Que o despotismo acérrimo coiidemna ! 
N Liberdade, a meus olhos mais serena 

Que o sereno clarão da madrugada! 

Atlende á minha voi j que geme e brada 
Por ver-te, e por gozar- te a facèÍn«a! 
Liberdade gentil, desterra a pena ** 
Em que esta alma infelii jax sepultada. 



Vera, OfJNMia immortal, vem, maravilha ! 
Vem, ó "consolação da humanidade, 
Cujo semblante mais que os astros brilha. 

Vem! solta-me o grilhão da adversidade! 
Dos céos descende, pois dos céos és filha, 
Mài dos prazeres, doce liberdade ! ' 

Se porém ainda n*este soneto pudessem fticar duvUbs 
sobre o seu verdadeiro sentido, nào assim sobre o do 
seguinte : 

Liberdade, onde estás? quem te demora? 
^ Quem fax que o teu influxo em nos nato caia? 
* Forque, triste de mim! p*qne não raia J>_ 

iu mj e^phec^kÉÉ^Li a tua aurora ? 





BOCAGE. 



«• 



79 



Eia, acode ao mortal, que, frio e mudo, 
Occulta o pátrio amor, torce a vontade; 
E em fingir, por temor, empenha esttylo. 

Movão nossos grilhões talfet piedade ! 
Nosso numen tu és, e gloria, e tudo, 
i- Mãi do génio e prazer, ó liberdade ! 

Eis-áfii o perigoso cortejo da Pavorosa : as accusações 
tremendas de immoral, irreligioso e liberal, repercu- 
tião-se com estronco sempre crescente, ao passarem pela 
boca dos encarniçados inimigos que o poeta se coAi- 
prouvera em crear; aquelle que não hesitava em aprc- 



Ininrigo de hipócritas e frades, 



■Jf 



cçrto estava de adquirir adversários tçíftveis e nume- 
rosos. 

Foi preso. 

Ahi se abre a phase mais negra da vida do nosso lieróe ; 
o triumphador baqueava ; a Rocha Tarpeia denunciava ao 
Capitólio a sua proximidade. 



CAPITULO V 

Ê Bocage levado ao Limoeiro, e posto em duro Segredo. — Prendei igual- 
mente o seu companheiro André da Ponte. — Poesias feitas na prisão. 
— fittaxa-se o segredo.. — O juií Brito. — Protecção de José dejSea- 
hra. jfe É transferido para os ckfceres da inquisição. ' 

IjH&L i de Agosto, 

cidade, ond< 
t?nde*t# geral 





80 A UVRAHIA CLÁSSICA ^fc »«;»_ 

Manique, ordenou ao juiz do crime do bairro de Andaluz* 
que abrisse devassa a respei|$ de M. M. Barbosa d^. Bo- 
cage, denuficiado autoç, .à^napeis ímpios, sediciosos e * 
críticos; devassa que progjppo activamente contra ^in- 
culpado, e até còntjg os seus ami£bs. ^ 

Pareceter sjdf escripto quando fpmeçárãq §s ameaças 
de pjprs^iiçào, e ainda antes de ser levado á ffedéa, o 
poneto que reproduzimos no tomo I, pag. 15i^ 

Tm. * 

%* Não sou vil delator» vil assassino 



ittií tempo da prisão, vivia Bocage em grande intimi- 
dade com André da Ponte Quental da Camará, ao qual, 
por causa doestas relações, também apprehendèrào, e 
que algum tempo jazeu em ferros. 

Era este Atrçlré da Ponte cavalheiro muito distincV, 
chefe de uma família illustre da ilha de S. Miguel, cm 
quem o amor ás letlras é hereditário, já lá desde os tem- 
pos do grande Bartholomeu do Quental, cuja virtude e 
sabedoria são proverbiaeí. Não admira Ws que em hisboa 
se estreitassem relações intimas entre Quental e Bocage, 
ambos moços, ardentes, apaixonados, e poetas ambos. 
Essa conformidade de sorte, génios, estudos e aspiraçájf , 
fez com que ambos sentissem como própria a dôr do 
i# amigo. Westa occasião, dirigio Bocage ao seu commensa' 
uma#de, onde lhe diz : 
\ 



Se não somos her 


óes, se em nós, ó Ponte, 




Afouteza nãolM 


||&ha constância, 




Para com 6âH| 
A ngjgH 


Hpister da pátria 





Sq^m nomes, amiga, alçados vemos 
Afcqpâ dos comniuns : ama-nos Phebo ; 






• 



BOCAGE. f RI 

As musas nos enlourão ; cultos nossos * 

Mansa virtude acAe; % 



Em tenebrosos carcertfllHtèpl** ; "'** 
# . Fallaz accusação nos 

Be op pressões, d^ameaçfs nos caiscgi 
, « rigor caYrflifcudo; ^^ 

j*puro don\ dos céos, alva inflocencia, 



neaças nos caiicssr 



j)sta afronta, este horror nos atavia, 
rfpma candidez *cofhpeifta asjpanchas 
« 4 Da superfície escura. %?>ÊÊ 



Deixemos a perversos delatores 
Os filhos do terror, fantasm^j negros, 
Que o^edonho clarão étifiui interna 
Assoprão sobre os crimes. 

Se verdade entre sombras esmorece, * ■ 
^* Se das eras tantyas pendo, e pendas, T - 
Para o são tribunal, une ao longe assoma, 

Eia,£inigo, 'appellemos. 
* . V ■ 

Também ha para nós posteridade ! , 

Quando lá no sepulcro em cfcinf, soltos 
Não pudendos cevar faminta inveja, 
Galumnia devorante. 

Os vindouros mortaes irão piedosos 
^ç Ler-nòs na triste campa a historia triste ; 
Darão flores, ó Ponte, às lyrafe nossas, 
Pranto a nossos desastres. 

Também lhe endereçou o. seguinte soneto : 



Jfcf* tolere, arraste vis grilhi 
^R^Quem comtigo altos bgn 

j* Ti nossa amarga sorte, csàfra, ímpia, 
^r Colha tríumphos tacita iiumkp. 




v 



.{ pesado rigor, de dia em fwBjjBgtfà ^ 

Se apure contra nós, oppr 



•f. Wv 



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V #0r-*H 



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+ 



32 ^ LIVRARIA CLÁSSICA. a 

dUnbra como a do .lúgubre jazigo 
* .N os cub ra de mortal mekácolia. 

Íá£, * Cuslão faJ|fci a virtudèJCdoria ; 
, Ir pop eDttt^abrolhos se caKba ao monte, 
Ao tempunia honorífica memoria. 

Bfcto que#oje a calumnia nos afynte, ^ Jh 

• # moa serão talvez \ia longa historia * ». fc- "' ■ *fi 

Dous nomes immortaes : Bocage e Ponte. fc ^r 

J)utante o segredót Mp aginaçào de Bocage o cruciava, 
já pelo horror do cárcere, já pela ignorância da sua sorte, 
já eflpfinT pelos punbaes do ciúme. Ahi compôz entào este 
soneto : t ., 

ITcsta do feio o pprobri£ estancia feia 

Que abafas, mài das trevas, com teu manto, flk 

Muda tristeza, carrancudo espanto, . 

amotinado espirito me anceia.í* 

Das sombras abrigada, a frágil teia 

Urde Arachne sagas ^canto em canto; 

Minha imaginação faz outro tanto; 

Mil tristes pensagterifts forma, enleifc^ # 

Minha imaginação de algoz me serve, 

Forçando-me a que os gostos de algum dia 

Submersos d'este horror no abvsmo observe. 

I 
De encontradas visões na fantasia 

Baralhado tropel me cahe, me ferve, 

^ E n'esta confusão reluz Armia. 

* 

Foi $inda no segredo do Limoeiro que Bocage compòz 

prWàvelmeiíh u> ins sonetos, que demos no tomo I, 

pag. 4, 58 c 157, e cpua prineipião : *. 

Em surdida nttijnoJTn afrrr olhado... 
jjVg*' 1 lunriM 1 M'|in1cru ( ia esistencia... 



4 «wi onde arquejando estou curvado... 



* * :.--.-*# * BOCAGE. * 85 

^ Cerca de um mez havia já que o desventurado jazia 
no^egredo, quando comfftttou entre ferroa^ amargurfr 
os seus mal logrados f^jlfta e doqfrômnos. RaiouJte V 
ennenoado e tristonho o mi 15 de Setembro de rwl • 
(data que subsequentemente havia de representar outro 
grande amiversario); no seu futuro meltmcolid&e cerrado 



nem {Èfuer uma luz; tudo são trevas, desamparo e so- 
lidão ..(Sareis oi|ir como a#pallida musa de Elmano de- 
dilha o alaú^kf (ftfvi ; desabafe ^menos pelos versos essa 



Do tempo sobre as azas vohçe o dia, 
poflfl|ide meu triste insolmento. 
Vedada â luz do sol este momento, 
flfeías, com vossos fachos se alumia. 

Nascido apenas*|pavorosa harpia 
Ao berço me voou, d» immundo alento 
1 Empestando o misérrimo aposento, 

E eis me roga esta* praga," Sqprenda, inipia : 

<c Esteja íâiípre o bem devnffoto! 
« Vivas swmpre choroso) amargurado ! 
« Damne teus dias o destino immoto ! » 

... Cahio-me a imprecação do monstro alado. ' 

;':* Curto mil males, e entre sombras noto 

Outros, com que me espera ao longe O fedo. 

Dias depois, a 22 de Setembro, torna Bocage a cantar ; 
mas d' esta vez a musa mio logra reiaontar-se .í CQfttu- 
mada eloquência; não modula eludias ao som do ptèíjÉro 
nobilíssimo; rasteja canção plebe» ao som da viola po- 
pular Uportugueza. Je stús force de wHúbaisscr pour me 
faire entendre, diz elle.por desculpa na hypographe com 
que rfemata esta curiosa e delcixada peça; nuite para o j 



A 



Q* 






J84 *LIVRARIA,jCLASSlCA. * %^ 

povo, paral^plebe, esqueceu a altiloquia, os arrojos do 
* 4btrój as ousadias sublimes dcP immortal ; eis os versas : 

♦ nPy* Se em verso cawRfoSntes 



OgRer da formosura, 

' Hoje vou chorar em verso 

Inconstancias da ventara. 



Vou pintar os dissabores 



♦ 



^ Que sofFre megêoração, 4Vik * * 

Desde que lei Aorosa 4 . ^7 
♦ • Me pôz em mira" prisão. 



A dez de Agosto, esse dia, 
Dia, fatal para mim, 
Teve principio o meu pranto, 
meu socego deu .fim. 






Do fune&lo Limoeiro ^ 

Já tocolw trinrk degrçps, W "* 

Por onde^rtem e descem 

Igualmente os fepns e os mãos. 

Correm-se da&nus porta 

Os ferrolhos^ 

Feroz cond 

No sepulcro dos viventes. 



ie da&nus portas ^ 

n %jÉHF ntes: JHft 
Qdu3Fme enterra ipF 



Para á casa dos assentos a. ^ 

Caminho com pés forçados, * ^£p 

Alli meu nome se ajunta , 

A mil nomes desgraçados. 

Para o volume odioso 

> Lançando os olhos a niedo, 
Vejo pôr — Manoel Maria — 
E logo á margem — segredo. — 

líis que sou examinado 
Da cabc-ca até os pés, 
* E vinte dedos me apalpão; « 
f-. Quando de mais erão dez. ' 



T 



.% 

* 



.■'f 


J 




"*' J& 


» 


BOCAGE. *. 




Tirão-me chapéo, gravata, * 




Fivelas; e d^sl^sorte, 


-• 


Por um guftda^mjevado 




Ao domicilio «flSRltai " 


% 


Eslufa de treze palnios 


Cuma fresta, que dizia 


♦* 


Para o lugar asqueroso, 


Denominado enxovia . 


% • 


FdjHftne, fico assentado 

^^TnWonha #iidão, -JB' 


* 


E sem cama a que me encoste, 




Descanso os membros no fkfio. 



w. 



85 







jj terríveis jfensamentos 
minha alma se apoderão : 
istos, e bens doeste mundo 
intão conheci o gue erão/ 

Nos olb&|çpra»to fervfjç * 
No coração cresce a dôr, *jp 
E com males da fortunj*. ^ 
Se mistura o mal de attior." 



sfc 




mais mel 
de improviso â* 
E ouço um animo benigno, 
.£ i Que me alenta, e me conforta. 

Era Ignacio, affavel peito, 
Alma cheia de piedade, 
Credor dos meus elogios, 

Por heróe da humanidade. 

# 

Do amável carcereiro 
Me patentêa o desgosto, 1 * . * 
Diz que piedoso me envi ^ * 
Pobre, mas útil 



Junta a este beneficio 
A necessária comida, 



me env |lfttrt 



* 



•» 



í 






86 jApiUA (ÍLASSIcV 

* jÊputf& sustentasre o fio i 
.• T^estâ lastimosa vida. % 

* ** . * Garmerterftotaud^N*' 

1 *\ Togaste um "uJhSw 10 ' a 

QpRèio tornar iqplfloce m" 

*D meu penoso destkio. 

Os amigos inconstantes . ^ 

Me tinhão desamparado, . ^ 

E nas garra s^foj |jgen£ia JH^ ^ 

Eu gemia atáBSoo ; % 



% 



j^ bu gemia aimumauu , ^ „#- ^ 

^ Jfe Quando Aonio, o caro Aonio; ^ 

^» Da naturezaThe 



Da natureza Shesouro, 
Á tagsle penúria manda, 
E(Paz auxilio depuro. 

Emqugn^o ej^ir Elnaano, ^ ^^R 




Emquanlo erâiir Élnaano, . 
SemsÉ|É«ej^singularjJ^.^ 
Na síSnKaajKs jeufr ▼eM* * 
Terás honlísoiugar. * * 



* 




ministro destinado 
Era o respeitável Brito, 
Que logo vio no^neu rosto 
Mais um erro, que çRi deltcto. 

Õlhou-me com meigo aspecto, 
Com branda, amigável fronte, 
E fui logo acareado f 
Com o meu amável Ponte. 

Portei-meijpib^uem tinha 
i a vòwJSe tendência : 
i da opinião, _ 
irei a innocentiã^ 



*fe 




■v* 



►♦ 



t 



i 

Puni pek»4ft an _, 
Ferido de inferna dor. 4 v 
Singular soiupa amizade, 
Gomo singtqP^^pNrfJr * 



< 



Posto fim ao ao 
meu guta me con 
Para segredo mais largo, 
De que não tem medS | íuz. 

FioJ^t mais desàfog ajjoí» 
"~ " em fkuoij 







♦ IS de amarguiwentia *í ;í f ^ 

Soltar-séda/rida o nó. . ^ T^ 



Lembra va-mé a curta fresta, . a 

jj&gjpte á preSar matulla A ^ 

dBStye quando em toando ^ 

ito vil em pVasetfhuia. 



f 



fÉfa, yKto vil em phrase#huJa. 

LeinhMBM £r iiariA,, "jj^V 
eu|fâV?P^a, a qibmfBfa^^ 
-loucamente misturando ^ fc t 



prazer com a d< 
pe 



9 PiflHM)ue de alvo ! 

Aqujp^a chuchar gosto» 
Cigarro, que ou compra, ou pilha., 




M 



Um por baldas, que lhe sabe, 
Ao outro dando matraca; 
Estes cantando foni», 
Aquelles jogando a faca. 

Cousas taes, que n'<onjtro tempo 
Me farião anciedàáe, 
Erão então para mim 
Estimulo de saudade. 



Servindo-me de tormento*** -^K 
A minha imaginação*. ^ls^' 



i 



,*■ 



■F 



a » 




O meu AíjpQp&^ÊâJB 
Benigno iqe '** 



®áÊÊ$ 

,ti||m suaves 499- , _- 

jÇminha pena adoçara. ^ 

%. Qyal foi comigo^aò principio, 

%A • Comigo a ser.oontinúa : 

^ Os desgrac^dh^flftcoptrao .^ ^ 

Poucas almaljKiba^s.nâ. r '^|-' 

* Ir* * •* a 

íjr Céo ! que tojlft as venturas/ .* W 



% 



Todos os* bens tens comtjgo, fe # 

Faze quf ser ^rato qu pqs*sa 



AJkieu benéfico amigou • ^ 



Ou tantas felicidades 
Te djto^<Me»de lhe dar, 
Quai^Hkrnes que ,eu 
De tSltéfesej*. ♦; 

Emfim f fepdfe^ «ffrer t 

Tardas MMMJe {ojgR ento, 
Fui c08qnMHnÍtn& alpia 
Ao sol 







'# 



* 



Deos crcador do mitodo, 

Pai, amigo universal, íLftf. 

Com saudável, brando somfno 

Foi-me interrompendo o mal. ' - A 

* • 

JTeste centro da tristeza, 

Morada das afilicções, 
. . Fiz ao lugar das perguntas 

Jfr Inda mais três digressões. s 

+ Amo, professo a veròfede: 

Nas três AÉêssÕes que fiz, 
* pre acnei o amável Brito» 
ísbemfeitor, que jufc. 










TaHemjsirfc 

INTcsta dolôr 

Aonde a phí 

, Ás vezes desi 



Ha» já quarenta %^ppp| 
* Que* choro n'este degredo : 
* Hei de ser muito cajado, 
Costumàrão-Die ao segredo 




ôroi 
Aonde a phUjppbra^»* t % ? 







Jíscrjjteu tamhgm ifa prisão a^flápà á Instabilidade da 
Fortma, que principia : ^ "^ISS^ ^ 

De serenos f a vonios bafejada.../. ^r g 



4>nde a si mesrf^se oonsSla, pelra exempl|Fde elevações 
e guedas ; cmsu^po fim, diz : r. 

Ir wNada tenu^Éianencia : \ J^Êt 

Caprichos 9H|Ka alterao tudo^jR 

m * Da famosa Ulyssêa *t ^ » . • % 

Os corroMterrei, fui grato^DtjÉnneJ. » 

Hoje* sumido à g ei 4nMPfcv 
|J[ Á luz ve«A|»em caroer*iPoJpnho, 

Náfcp jfctece que existo . 
Réo»me publica opinião^potente ; * ♦ 

Triste labéo me afeia, 
v • 

segimlo breve §e relaxpu, pois tendo sido encarre- 
gado do interrogatório do aceusado o juiz Ign^cio José de 
Moraes e Brito, este se mostrou tão brando para com 
Bocage, que o poeta chegou a temer não fosse tamanhff 
lenidade mal vista por «eus oppressores, e na effusão*ro 
reconhecimento lhe dirigio * seguinte soneto : * 

De férreo julgador não vem comtigo' % 

Rugosa catadura, acçõeJausteras; . ^ _* '^ ^S, 




Antes tóytf Juiz jàJQnemJ 
E ^frhas mais gkflfaso o 110 

amargor, a tris^ezai 
Que úmoem «o cun(K|HKfs leis severas; 
(Ma jjnignâ clemênáMfô tAnperas, 
Dos çéos, que gemem, bemfeitor e amigo : 

Se árdua rocha imitando, ou rijo muro, • 
# Reprovar, detrahir tua piedade 

Tyranno coração, caracter duro • 

D'elle te vingue a Jbce humanidade, 
t „ Que de aggraji^ao tempo estás seguro ; 
**** Meus versos te aarão a eternidade. 

* Durante a%esma prisão compôz est'q»tros : 

* «^ 
Sonho cruel o espirito inquieto ^fc 

Me aiTètíáÉ| a. ijcognita morada; f v 

Era de biHe a temerosa entjp& * ' 

De bronze o pavimento, o muro, (Tteofc). 

Ente disforme, de rugoso aspecto, 
%* * D'alto assento m &frfrc om voz pesada :** 
« Té que do medHNir te abrigue o iafla 
« Fulminei contra ti este decreto : Jf** 

* «Os foros perderás da bflttfemidade; 

« Teus flagellos serão teu* semelhantes ; 

« Hão de extorquir-te a gloria e a liberdade ! i> 

Nisto acordo co' os membros titubantes. í 

Assim tremeste, ouvindo, ó férrea idade, 
A queda horrenda que esmagou gigantes. 



Miseranda inaocencia, és nome abstracto, 
És um titulo Nrtto da humanidade, 
Quando se envolve em sombras a verdade, 
Quando soffres do crime ò duro trato. 



4 



4 ' ^ 



Qiíe importa que ewbnserafo itèitoíittcto 
Das peçonhentas fezes dá maldtife,' * Afç 

Que em cumprir tinira, rór&idade, ] 
Fosse meu coração^fiMBcto? * 

Que importa, se a calumniaf m'o desmente^. Jb 

Se o s^r do parecer é tão diverso, 

£ em vão se oppõe o interno ao apparente? • 

Opinião, rainha do universo, 
^nte o teu tribunal omnipotente 
Sócrates infpio foi, e eu sou peyerso ! 

_ T # f 

Néscia, vil ignorância, injuriada 
Dos vivas^oue meu estro me grangeia,*^ 
Desce aosjpfernos ; e a calumnia feia, *** 
Bramindo, qtfrahe da lobregá morada. 

Do monstro de cem cores escoltada, 
Por aqui, por a|oprre, vagueia; 
Em meu nome de lar em lar semeia 
Agro dicterio, satyra damnada; 

Em eynico furor me finge acê 

Venenoso ^ 

Diz que Ajfrff de um rei, de um t)eos desprezo., 



t 



lico furor me finge acÇjfrfc 
)sojttírdaz, impio me^Wia; 
í £«ot de um rei, de um Deos 

Mas sempre, sobranceira baixa trama, 
Das pátrias justas leis me é doce o peso, 
Amo a religião, e aspiro â fama. 



Aceso no almo ardor, que a mente inflamma, 
Vivo de amor, de amor suspiro e canto. 
Na face agora o riso, agora o pranto, 
*De arvore tua, ó Phebo, eu cinjo a rama. 

Prezo a doce moral, na voz da fama * 
Meu nome pouco a pouco aos céos* levanto, 
Mas turba vil que abato, anceio, espanto, 
Urde em meu damno abominável tvavwx. 



• 



w * ■* 

92 ;*ÔYRAÍt# CLAS%1CA. 

Réo me Heiata de hórrida rawdade, 
jfrfrje^ta aniquila^me o bando rude, 
Envolto na tothea escuridade^ 

Que falsa idéa, ó zoitOTj. vos illude! 
Ptrtafs-me a paz? Furtais-rae a liberdade?. 
Fica-me a gloria ; fica-me a virtude. 

' 

Quando na rósea nuvem sobe o dia 

De risos esmaltando a natureza, 

Bem que me aclive as sombras ia tristeza, 



* * * *Um tempo semsabor me principia : 

Quando por entre os veos da noite fria 
A machia celeste observo acesa, 
De angustia, de terror a imagem presa^ 
Começa a devorar-me a fantasia. 



*Por maisjjrdentes preces que lhe faço 
Meus ais^po ouve*o nume soj^iolento, 
Nem prende a minha dôr com ténue laço. 

). 

se passo 




No inferno se me troca o pensamento 
Céos ! porque hei de existir, porqu^si 
Dias de enjoo ajmes de tormentMÉ 

Vejão-se não menos os sonetos queTIRgos no tomo I, 
pag. 165 e 167, e começão? 

Tão negro como a turba que vagueia 

Ara as sombras da morte aqui me ensaio 

remorso que alli diz não lhe vergar a consciência, 
Rescreve o poeta em soberbos versos como roendo a alma 
dos seus accusadores, no outro soneto que publicámos 
no mesmo tomo, pag. 166, e rompe assim : 

Aquelle que domina os céos brilhantes 



.*• 



OCA*gE. '•|F 93 



• I 

Meus dias, que já forro tão luzentes. 
Hoje da noite opaca Jrmãos parecem. 
Meus dias miseráveis emmjrâhecenqjr^ 
Longe do gosto* e longerapKiventes. 

Horror das trevas, peso das correntes, 
Olhos, forcas me abatem, me entorpecem, 
E apenas por momentos me apparecem 
Rostos sombrios de intratáveis entes. 

Pagão-se da rugosa austeridade^ 
Antolha-se-lbe um crime, um áfenlado 
Soffrer nos corações* humanidade. 

Voai, voai do céo para meu lado, 

Ah ! vinde, doce amor, doce amizade ! 

Sou tào*djgno de vós, quão desgraçado. 






Yictima do rigor Ada tristeza, 4# 

Em negra estancia; em cárcere profundo, ♦ 

mundo habito sem saber do mundo ; 

Gomo que não pertenço à natureza. 

Emquanto M^vasta redondeza. 
Vai solto (Jhpe infesto, o yicio immundo, 
Eu (nãojfipprerso) em pranto a face inundo, 
Do grilnio supportando a vil dureza : 

Mas no bojo voraz da desventura, 

Monstro por cujas fauces fui tragado, ^ 

Em parte um pensamento a dôr me cura : 

infeliz (não por culpa ; só do fado) 

N'aquelles corações em que ba ternura, 

É mais interessante, é mais amado. á* 

E, ainda de dentro das grades, náo se lhe diminuía o 
sestro amatorio, a que devera tào deliciosos instantes, 
mas também tão horríveis amarguras. Da prisão mandou 
a uma Nfee o soneto : 



94 %YRARfJf C1ASSICA. 

* Nize mimosa, como as graçaf pura... 

que se lê á pagn(&4 do tymg I. 

Continuou assim da prisfro a deplorar suá mofina sorte, 
não senàtf os ciúmes o minimo dos seus padecimentos : 

Não sinto me arrojasse o duro fado * 

IVesta abobada feia, horrenda e escura, 
ITestá dos vivos negra sepultura, 
Onde a luz nuncfk*entrou do sol dourado; 

Não choro a liberdade, que oleada 
Tenho e«uferreas prisões, e a pa» ditosa, 
Que voou da minha alma attribulada; t 
Só sinto que Marília, etc. . • 

Compense porém aquellas leviandades a Te sincera e 
profunda com (jue o misero se qpfugiava, em tâo grave 
conjunctura, das velleidades mundanas no seio da reli- 
gião. Sirva de prova o magnifico soneto : 



tu, quTiens no seio a eternidadlhtt 

queHrasladámos no tomo I, pag. 164. < 

É ainda animado por iguaes sentimentos, que o poeta 
traçou estas linhas : 

r 



A frente que de louro ergui cingida, 
Ufana do louvor e da innocencia, ,. 
Jaz (por effeito de hórrida apparencia) 
Curvada pelo opprobrio e denegrida. 

De mil gratos objeclos guarnecida, 
Rutilava a meus olhos a existência. 
Hoje, amável prazer, na tua ausência 
Parece aos olhos meus um ermo a vida. 

De quantas cores se matiza o fado ! 



^OCÀ£E. ▼ 

Nejn sempre o homem ri, nem sempre chora ; 
Mal com bem, bem com mal é temperado. 


95 


• 



Qt estados varião de hÕq|$m hora. 

Sábio o mortal que em um, que em outro estado 

(Dispojto a tudo) a Providencia adora! 

Nem sempre achava allivio o mísero n'estas sublimes 
orações, e então o desanimo o arrastava a não esperar 
melhoramento, senão na morte. Haja vista um soneto, 
que por si só vale um poema, que demos no tomo I, 
pag. 165, e começa: 

Nas horas de Morphêo vi a meu lado 

Copiquanto houvessem relaxado um tanto o segredo 
de Bocage, considerou-se um beneficio q ser elle íransfe- 
rido, após três mezes cie cadêa, para os cárceres da in- 
quisição, tribunal que já havia perdido a anterior deshu- 
manidade. ^ 

Aqui citaremos um trecho da carta qwaos 5 de Julho 
de 1847 nos d')$#ro o ii^imo amigo de Bocage, o já hoje 
finado Francisco Joaquim Bingre, que do , seu quéhdo 
companheiro nos fallava sempre com o calor da amizade 
pura, e uma elegância de estylo e linguagem, que raro 
acompanha a idade mais que octogenária que Bingfjf 
tinha a esse tempo. Eis como elle se nos expressou : 

« Todos sa|>em quanto José de Seabra foi apaixonado 
de Bocage. Ninguém (... o ninguém do meu tempo) ignçra 
que, para o livrar das garras do intendente Diogo Ignacio 
de Pina Manique, que o retinha preso nas cadêas do 
Lifnoeiro, pela composição da Pavorosa illusão da eter- 
nidade, fez com que a inquisição o requisitasse, ficando 
ahi poucft tempo, e sendo bem tratado, pois releva con- 



96 ftvR£UÚ CLÁSSICA. 

ressar que já n' esses dias era morno o antigo rigor do 
jpanatismo inquisitorial. » 

O erudito Sr. I. F. da SiHl; alludindo aos doUs versos : 

Cuja fama, senhor, purificaste , 

Das noáoas torpes da mordaz calumtiia, 

julga que essa poesia foi dirigida a José de Seabra, depois 
que, pela protecção d'este, fora solto. 

Cremos, sim, que Seabra fosse o principal libertador, 
o que lhe era facílimo, sendo elle *então ministro do 
reino; mas afigfljba-se-nos que esta elegia referida pelo 
respeitável critico, í que começa : Costume de chirar , foi 
escripta no Limoeiro, a 31 de Outubro de 1797, dia em 
que Jraé de Seabra completou sessenta e cinco annos, e 
que exactamente antecedeu uma semana aquelle em que 
transferirão Bocage para a inquisição, com vantagem para 
p plano da stia Uberdade. Não podia, estando livre, dizer: 



da sua libei 
Festas w^br; 



>ag aiLii cr< 
>s cit&ros 



o fogo. 



m ^ ii cauto «qpyDras fe apaga j 

Al^jp d'isso os dous vçrsos citfflros admittem outra Inter- 
pretação, ligando-se c|hi os immediatos : 



E a quem já vezes mil n'um teu sorriso 
Deste amável penhor de bens vindouros. 

O que porém definitivamente nos persiwde são o? ou- 
tros versos, em que Bocage mostra que a #ífta então sup- 
plicada não é de dinheiro, mas de mais alta natureza, e 
dependente do goveiíio; ora, se é sabido que Bocage até 
recusou empregos oífcrecidos pçr Seabra, parece conckér- 
se q # ueesta mercê é a liberdade. Ouçamol-o : 



Tens o jus c o poder, ambos augustos, 



* 



JOCAGE.* 97 



De tornar venturoso o desgraçado. 
Es órgão da suprema autoridade, 
Puro e vasto canal por §fàê as graças 
Manão do throno excelso ao curvo rogo. 
Doce, ténue porção dos dons immensos 
Que o céo te conferio, donfere ao triste! 



V 



% 



certo é que Bocage foi transportado, a 7 de Novem- 
bro de 1797, e entregue ao inquisidor geral, D. José 
Maria de Mello. Já iâo longe os dias dos autos-da-fé ; já o 
tribunal da inquisição era um refugio contra os tribunaes 
civis, um degráo para a liberdade. * 

Concluindo, transcreveremos, por^nteressantce pouco 
conhecido, o officio de 7 de Novembro de 1797 que o in- é 
tendente da policia Diogo Ignacio de Pina Manique diri- 
gioao bispo inquisidor geral. Extractamol- o fielmente da ^ 
Torre do Tombo, secretarias, livro V da intendência gerai . 
da policia: - t * T 

% ■ 

« Ex mo c Rev mo Senho%^T». ComUanoePme q*e rVesta* 
corte e reino gtavão al£pihflrpapcis impios e sediciosos, 
mandei averiguar quem serião os ^utores d'ellcs, e encon- 
trei que uma parte d'estes era o seu autor Manoel Maria 
Barbosa de Bocage, o qual vivia em casa de um cadete Â^ 
regimento da primeira armada, André da Ponta, qw&fr 
natural da ilha Terceira; mandei proceder contra um e 
outro, e áappjchensão dos seus papeis; e não achando ao 
sobredito Manoel Maria, se encontrou somente o André 
da Ponte, que foi preso, e ap pretendidos os papeis, e 
entre elles se achou um infame papel impio e sedicioso, * 
qne se intitula Verdades auras, e principia Pavorosa illu- 
são da eternidade, e acaba De opprimir seus iguaes com 
o ferro e o jugo, como consta do auto da achada, qu« 

MI 1 "', t 



LIVRAftIA CLINICA. 



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acompanha a conta que me deu o juiz do crime do bairro 
»* Ê& Andaluz, a quem eu havia encarregado esta diligencia. 
Ufi meçmo auto verá V. Ex. os mais papeis e livros impios 
e sediciosos que se apprehendêrão ao dito André da Ponte, 
os quaes remetto inclusos com a devassa a que mandei 
proceder para averiguação da verdade, e as perguntas 
que se fizerão aos ditos Manoel Maria Barbosa de Bocage, 
que passados alguns dias, também foi preso a bordo de 
uma embarcação, que ia fugido no comboio para a Bahia, 
c André da Ponte Quental da Camará ; remetto também 
a delatarão que me fez da cadéa o dito Manoel Maria 
Barbosa de Bocage,, para que esse santo tribunal lhe dê o 
peso qujp mereça. V. Ex. me insinuará o mais que quer 
. que eépiça sobre estes dous réos, os quaes conservo na 
prisão, esperando a restituição d'estes papeis logo que 
forem examinados por esse santo tribunal pela parte que 
Um toca, etc. — J^de Novembro de 1797. » 

Os restantes papeis c ddÉÉpentos pertencentes a este 
pro^so não existem qo reaT árchivo ; queimou-os lord 
Bercsford com os mais papeis e negócios findos da inten- 
dência da policia da corte; acto de barbara imprevi- 
4J|picia, que hoje lamentamos debalde. 



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«OCAGE* 



CAPITULO VI 



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Producções pelas quaes lhe fizerão crime. — Versos irreligiosos, e contrá- 
rios ao papa Pio VI. — Disposições da inquisição. — E Bocage transfe- 
rido para o convento das Necessidades. — A congregação do Oratório. — 
Poesias compostas durante essa detenção. — Supplica a todos liberdade. 
— Bocage e Ovidio. — Epistolas aos.Jres marquezes. — Os poetas ami- 
gos nada alcançarão. — Foi José de Seabra o seu libertador. — Versos 
que a este dirigio jaculatórios e depois gratulatorios. — Boato da sua 
morte. — É posto em plena liberdade. 



Na inquisição, de duas producções lhe íizerão crime : 
a Pavorosa, de que já falíamos, e um soneto, engjfe com- 
posto, e a que deu origem este suecesso : sendo èm 1797 
batido pelos Francezes o exercito pontifical, assignou o 
pontífice a paz de Tolentino ; mas no mesmo anno houve 
em Roma uma sedição, em consequáfcia da quaUfcrí i 
cidade tomada por um e%flfcito írancez, ser^o Pio VI 
transportado prisioneiro fpi França, onde faíleceu em 
1799. Chegando a Lisboa a noticia da primeira dfflrota 
dos soldados do papa, Bocage compôz este soneto : 

Íendo o terrivel Bonaparte â vista, "£fc 

ovo Annibal, que esfalfa a voz da Fama : 
« Ó Cg. Heróes! » aos seus exclama 
Purpjpfco fanfarrão, papal sacristã. 

« progresso estorvai da atroz conquista, 
« Que»da philosophia o mal derrama ! » 
Diz. E em fervido tom saúda e chama 
Santos surdos varões por sacra lista. 

D'elles em vão rogando um pio arrojo, 
Convulso o corpo, as faces amarelas, 
Cede triste victoria, que faz nojo. 



** 



* 



100 , LIVRARIA CLÁSSICA. 

O rápido Franccz vai-lhe ás canellas; * 
* Dá; fere ; mata. — Ficão-ftie em despojo .* 

Tiaras, mitras, bulias, bagatellas *. 

Sr. I. F. da Silva attribue a Bocage o seguinte so- 
neto, feito ao mesmo assumpto; talvez duvidássemos um 
tanto da autoria, se n;lo fosse a firmesa com que o digno 

collector a assegura : 

D i 

1 Será sempre com o sincero respeito devido ao benemérito das lettras, 
Sr. Innocencio Francisco da Silva, que alguma vez submetteremos duvidas 
a asserções, que, sabidas da sua penna, trazem já por isso a autorisação de 
um grande nome. Sabemos de antemão que relevará nossa franqueza, s e 
alguma vez divergirmos^ uma opinião, que estamos sempre dispostos a 
acatar. 

No toigft VI da Collecção tias obras de Bocage, pag. 410, diz S. S. que 
nós iiH^Pphos Juntas partes, e cm outras remendámos este soneto. 
AbrindWse o tomo Vil que alguém annexou á mesma Collecção, acha-se 
exactamente este soneto, como aqui o damos, pondo por extenso a palavra 

Epiin, que'«!ippríg)ímos no 5 - verso, e só com uma differença no ul- 
que alli se lê : Relíquias, bulias, m..., bagatellas. A nossa lição 
^os nWi preferiVél : I o porque esfoutro verso é, fla harmonia, mc- 
wagianp; 2* ponfue Bocage, frequentemente obsceno, raras vezes era 
immundo^|feguella penúltima palavra nunca nos consta que a empregasse; 
3° porque alagas idéas rclkiosas anuía poderião, quando cm certo gráo 
d • excitação,' induzil-o a ^H?do papa bel li coso, mas nunca elle escar- 
neceria de reliquias, nas qmfes acreditava; 4 o porque se não collocaria cm 
ultimo lugar a palavra bagatellas, se a tal mais expressiva a tivesse prece- 
dido : Tiaras, mitras e bulias podem epigrammar-sc, resumindo-se tudo 
■g termo bagatellas; mas se o resumo epigrammatico já estava feito no 
immundo termo anterior, seria inadmissível diminuir por tal guisa a qua- 
lificação f 5 o porque, como o governo era todo ecclesiastico, e o sacro col- 
legio composto de santos cardiaes velhos, finge o poeta serem elles chama- 
dos para um acto de valor, e corresponderem com jra& de ignominia ; 
mas d'csses cardiaes, muitos tinhão as (aliás inferiores) fenras episcopaes : 
co m jftÉhr iedadc alludc pois Bocage á tiara, insígnia à*b papa ; ás mitras, 
indpBSSpiscopal ; ás bulias, documentos com que Pio VI fulminara as re- 
■ soluçoWda republica franceza ; e é assim que, denominando tudo isso ba- 
gatellas, fecha com chave de ouro; emquanto, nem o termo reliquias 
teria, n'cstc caso, sentido; nem a palavra m... serviria senão para estragar 
o epiphonenaa. 

Pedimos portanto licença para suppôr que, longe de havermos mutilado 
o£ remendado o soneto, o demos na sua pureza. 



J 



BOCAGE. W 101 



»? 



# 



A prole de Antenor degenerada, 
O debi! resto dos heróes troyanos, 
Em jugo vil de asperrinjos tyrarmos 
Tinha a curva cerviz já calejada. 

Era triste synonymo do nada 
A morta liberdade envolta em damnos. 
Mas eis que irracionaes vão sendo humanos, 
Graças, ó Corso ^icelso, á tua espada ! 

t Tu, purpúreo reitor; vós, membros graves, 

- Tremei na cúria da sagaz Veneza. 
Trocão-sc as agras leis em leis suaves; 

Restaura-se a razão, cabe a grandeza, 
E o feroz despotismo entrega as chaves 
Ao novo redemptor da natureza. 

Baldámos esforços por adquirir coidiecimeifljpexacto 
d' este período importante da vida de Bocage. Nas suas 
obras não deixou delle o minimo vestígio. Os que fôrâo 
amigos de Bçcage dizião que era objecto em (jue evitara 
fallar, pois é sabido com que rigor os* inquisidores W- f , 
commendavão o mais absoluto sigillo sobre4Hanto alli 
se passava : só um d'aquelles ^Irfgos nos coníbu o se- 
guinte : 

« Encontrei Bocage ao Espirito Santo, dias depois da 
sua sahida da inquisição, e, abraçando-o, perguntei-l^c 
d'onde vinha, depois de tão lon$f ausência? ^ 

« — Venty)... venho da Hespanha. 

« — Entgjttj jfíie viste por lá? 

« — Não vi homem que me não parecesse ladrão^ nem - 
mulher que me não parecesse. . , ^- *. 

« Por mais diligencias que fiz, tive de mudar de con- ▼ 
versa. » 

No, para as lettras, sciencias e historia pátria, sempre' 

â 



t 



ltj| - LIVRADA CLÁSSICA. ^^ 

calamitoso modo corik) forão desbaratados tantos monu- 
mçntosVriquezas, na suppressão das ordens religiosas c 
de antigas repartições dq fi&tado, ^arios documentos se 
salvàtffcfe^trè os Bulhões de preciosíssimos ; e alguns lá 
jazem, sem classificação nem catálogos, no real archivo 
da Torre do Tombo. Alíi existem, em grande cópia, pro- 
cessos, livros e papeis pertencente ás três inquisições do 
continente, Lisboa, Coimbra e ihora : porém debalde 
procurámos ahi qualquer documento relativo a Bocage, 
comquanto pareça que posteriormente houve quefh fosse 
mais feliz do que nós, achando um, relativo a período 
ulterior, de 1802, como abaixo diremos. 

O certo é qfle a Inquisição se limitou então a dar ao 
poeta uma áspera reprehensão ; a obrigal-o a prometter 
que maja nãf consagraria a penna a objectos irreligiosos, 
e a ir, como cathecumeno, passar uns tempos de instruc- 
ção moral e # religiosa junto a varões sábios e tementes a 
Decfs. 

^Berviojiovamente de instrumento o intendente geral 
da polij» o qual fAfakspdo da inquisição o preso, or- 
denou sTOY de Mai^ju^ff"1798, isto é, mais de quatro 



mezes depoUjk sua <flNpÇãQ nos cárceres inquisitoriaes, 
que Bocage fosse ltfffBo Ào mosteiro de S. Bento da 
Saúde para o de Nossa Senhora das Necessidades, onde 
devia viver em contacW*com os padres, mas incommuni- 
cavel para quaesquer estranhos. 

Essa casa, com ser própria para purflfcacão de costu- 

menos o era para litterarias palestras ; na sala 

laVKplendida livraria se havião dado sessões publicas 



hssa es 
da velha i 



* da velha Arcádia. 

A congregação do Oratório, de S. Felippe Nery, foi 
*^* sempre respeitada como associação tão veneranda por 



BOCMft . 103 

sua piedade e religião* quanto pela sua superior cultura 
de sciencias 4 lettras. A ella pertencerão lumitaares* da 
nossa littera|pra : Bernardes, o ascético e portentoso •. 
escriptór da mais pura linguagem clássica? AntQ|ijtf> dos 
Reis, cultor da poesia latina.; Francisco José Freire*, tra- 
ductor de Horácio ; o erudito D! José Maria de Mello ; o 
sábio Theodoro de Almeida ; o douto Valentim de Bulhões ; 
o celebre e incansavwP§polygrapho A. P. de Figueiredo ; 
o subtil António Alvares; o estudioso Joaquim de Foios. 
Abtoçoacjja porém seja esta detenção, que enriqueceu 
agpbssa litteratura com uma das mais admiráveis tenta- 
tivas que em língua portugueza se hão feito. Por esse 
tempo deu Bocage o maior impulso ao monumento que 
não chegou a poder completar, a versão das Metamqr- 
phoses de Ovidio, como se deduz da epigraphc : . 

Entre ferros cantei, desfeito em pranto. 
Valha a desculpa, se não vale o canto ! 

Muitas poesias, geralmente inspiradas peljkdependén- * 
cia e pelo soffrimento, nos legn^ueriodo d$«flf?i prisão : 
versos a poderosos, sollicitandálffierdade; a amigos, pe- 
dindo auxílios ; a Deos, iÀ?ocft|j&p forçíM; a todos, re- 
querendo justiça. certo é que, em centos de epistolas, 
protestou sempre a sua fidelidade ao rei, o seu respeito 
aos costumes, a sua veneração á fé de nossos pais, des- 
culpando-se je erros de mocidade, queixando-se da 
guerra teiftJrtjue lhe movia a inveja e a calumngte e des- 
pindo-se da responsabilidade de producçòcs <mj§ft %e 1 
"imputavão. í" 

A privação da liberdade era-lhe um peso incompor- 
tável, e por mais que lh'o alliviassem, a imaginação lh'o 



V 



104 ' ' LIYRAlíJl CLASSIff^ ^f 

representava como Siippliçio inS&rnal. Não houve pois 
pessoa influente, conhecida ou n$o cofeiecida sua, a 
quem, durante o período da sua Retenção, Bo^ge não 
end^çasse sentidos versos, sjípplicando 'liberdade. 

Por esses tempos, manuseava elle muito os versjDs do 
exilado do Ponto, com o qual também não erão poucas 
as suas parecenças; e talvez -a^fespirito lhe surgis&e a 
confrontação, visto que Ovidio^prseguido igualmente, 
implorou a Roma inteira, com menos fortuna, protecção 
e acolhimento. Ao Sulmonense têm increfado crijicos 
os versos do Ponto, em que o poeta exora a dou» impe- 
radores um termo ao seu desterro bárbaro. A mesma 
falta de firmeza quizerão também assacar ao vale Sadíno. 
Pois assaquem nas boas horas. Aquelles dous amantíssi- 
mos corações erão assim : debulhavãor-se em pranto c 
supplicas. Que muito! se para ambos se tratava de im- 
plorar pátria e liberdade! 

É este o lugar de transcrevermos varias poesias, diri- 
gidas por Bocage a poderosos, escriptas nos diversos pe- 
ríodos daíiia reclusãcu^, * 

Á SrafD. Marianríjâttquina Pereira Coutinho, valida 
da Sra. rainhají. Manrl^ ejjama insigne por nobreza c 
piedade, escreveu uma epistSía, interessando-a pela sua 
libertação, e cis-aqui algumas^' essas quintilhas : 

Pesado grilhão me opprime ; * 

Duro cárcere me fecha ; . 

Tecem-me de um erro um crime ; 

£ a vil calumnia não deixa 

Que a compaixão se lastime. • 

Eu, desvalido mortal, 
Ludibrio de sorte injusta, 
Amei sempre, avesso ao mal, 



J- 



*£ * BOCACT. ' 105 

As leis cfôviítyle augusta, 

As Jfis da i*cta moral. * ' 

4 Se i^suaes qrros fiz, 

Sócios da idade imprudente, 
Meu desvario infeliz 
^ No coração innocente 

Não teve infesta raiz. 

Da vaidade S ardor, 
Que o peito inexperto inflamma ; 
- Das musas suave amor ; 
Slde implacável de fama 
it Me sumirão n'este horror. 



Ao seu amigo Joaquim Rodrigues Chaves, quando 
tinha dous mezes de oadêa, pedio protecção na epistola 
improvisada : 

A ti, que ás outras leis da humanidade 

já impressa no tomo I, pag. 202 d* esta collecção : 

São mui citadas as epistolas aos três marqueis, igual- 
mente destinadas a supplicar li|Ébade, e delias aqui 
daremos noticia. >JRp 

Era o marquez de Ponte íp Lima fidalgo muito i Ilus- 
trado e influente. Quando, em tempo da Sra. D. Mari$ I 5 
em 1798,. foi creada a bl&liotheca publica de Lisboa, 
sendo primeiro bibKothèeario-mór o sábio desembarga- 
dor António Ribeiro dos Santos, foi aquelle illustrado 
marquez nomeado primeiro inspector de tão impcatapte 
estabelecimento ; dirige-lhe Bocage a seguinte epiiiMfar*: * 

Se aos míseros, senhor, não é vedado, 

No abysmo, em que os confunde a desventura, 

Seus males exprimir, chorar seu fado, 



:-***' 



100 LIVRARIA CLÁSSICA. ^fr 

« 

Minha consternação, nftnha amargura 
Vai demandar em ti sagrado asylo, , 
Acolheita efficaz em ti procura. 

Têm as angustias enfadoso estylo ; 

Mas tu, attento ãs leis da humanidade, 

Tu nao te has de enojar, senhor, de ouvil-o. 

Outros querem louvor eu sójpiedade ; 
Piedade... que a perde*/) gofto à fama 
Até já me ensinou a adversidade. 

De ethereo dom, que espíritos inflamma, « 

A chamma nos suspiros se evapora, 

Ou se apaga nas lagrimas a chamma. * 

Dos louros, que cingi, não cuido agora : 
É meu único objecto o lenitivo 
Da tenaz afflicçào, que me devora. 

Em cárcere, a que o sdUpiedroso, esquivo, 

Seu lume bemfeitor jâaSis envia, 

E onde somente a dôr me diz que vivo ; 

Na idéa, com que apenas sei que ha dia, 
Encarando, senhor, tua grandeza, ,, 
Tua alma genjSjÉft aííabil, pia ; * 



Dentre as sjpPPft da noite, e da tristeza, 
Vendo luzir mil dons, jám que a ventura 
Se unio, por gloria tuá, á-.natureza ; 



A sorte se me antolha menos dura : 
Ponderou) teu favor saudav^porto 
Contra os horrores de procella escura . 

Por vil calumnia moralmente morto, 
Á physica extincção darei o alento, 
Se imaginário for este conforto : 

rumor, que me ultraja, c fraudulento ; 
Senhor, meu coração não jaz corrupto, . 
Corrupto não está meu pensamento. 



!*r 



U 



V 



BOCAGE. 107 

Detesto o falso, o ingrato,** dissoluto; w , 

Do triste, do infeliz não olho ao damno - 

Com férreo desamor, com rosto enxuto. 

Vejo a copia de um Deos no soberano ; 
Curvo-me ás aras ; em silencio adoro 
D' alta religião o eterno arcano. 

Sim, erros commelti, mas erros choro, 
Não com pranto sagaz, úa£ a vista illude : , 
Da abjecta hypocrisia arais ignoro. 

brilhante caracter de virtude, 
Arma contra os aspérrimos destinos, 
Tem cultos meus : o imparcial me estude. 

Na quadra das paixões, dos desatinos, 
Se deixei de cumprir, fiel e exacto, 
Preceitos veneráveis, sãos, divinos : 

Não sou para com Deo^tap eu o ingrato ; 
Muitos, que me ennegre&m, que me afeião, 
São talvez meu modelo, 011 meu retrato. 

Remorsos devorantes não me anceião : 
Mais fraqueza do que indole, mçui vícios 
As forcas da -razão me não i 




Eis, senhor, porque espero aidSp^opicios 

Teus influxos comigo, ejjjue derrames 

Por minhas afflicçôes teus -benefícios. . «, 

De mordazes insectos vis enxames 

Me ferem, me enve|pnão, vão lançando 

Sobre o caracter meu laoéos infames. 

Embebe o coração fleiSbil, brando, 

Na maviosa dôr, que em mim suspira, 

Que em mim por teu soccorro esta chamando. 

Deos, a que um só ai remove a ira, 
Eterno, o Bemfeitor, o Omnipotente, 
Doce clemência na tua alma inspira 



V 



•v 



108 LIVRARIA CLÁSSICA. 

1 Se apraz aos céos um animo innocente, 
m Também é grato aos céos o arrependido : 

Uma lagrima extingue o raio ardente. 

Deixa pousar, senhor, no attento ouvido 

A queixosa tristíssima linguagem, 

As supplicas e os ais de um perseguido. 

Do susto, da oppressãp» do horror, do ultragi 1 , 
Solta, restaura com piedade intensa, 
Os agros dias do infeliz Bocage : 

Teu braço, teu poder, meus fados vença, 
Como atras nuvens de vapor maligno 
Rebate o sol co'a fulgida presençy 

Ganha-me a compaixão do heróe benigno, 
Do príncipe immorlal, que em nós impera. 
Não só de um throno, de mil tbronos digno : 

Tolhe-me ás fúrias da caJuimáS fera, 
ff ue ° premio singular, premio sublime, 

O que o mundo não dá, nos céos te espera : 

Teu peito de meus males se lastime; 
Erros tenho, não crimes commettido ; 
erro exige perdão, castigo o crime. 

|||4 

Inda que da vqjHMpís tão querido, 

f Inda que o céo te erguqu a excelso estado, 

Maisi valer, senhor, ao desvalido, 

MaisY, tornar feliz um desgraçado. 

1£p marquez de Abrantes escreveu o autor a seguinte 
epistola : ^ 



■* 



Tu, de antigos heróes progénie excelsa, 

Ramo de regia planta derivado, 

D'acudir ao pequeno, ao desvalido, 

Tens, benigno marquez, dever sagrado. 

te 
Depois de conferir-te um gráo sublime, #^ 

Ainda não contente a divindade, \ 



BOCAGE. 109 

Unc-te á posso de Ínclita grandeza 

O santo ministério da piedade : 

• 

Occasião te dá para exerceres 

Affabil, paternal beneficência 

Na estancia da oppressão, cá onde o crime 

Caminha par a par com a innocencia. 

Aferrolhada miserável lurJw, 
A quem cinge o grilhão,, e a fome abate, 
Já cuida que te vè na mão prestante 
Dadiva pia e provido resgate. 

Qual per ermos incógnitos perdido 
O lasso caminttntc o dia anhcla, 
Deseja dentre sombras triste chusma 
Ver luzir teu favor nos males d'ella. 

Do numero infeliz, aue te suspira, 
Lastimosa porção qj£ fez a sorte, 
Lançou-me em feio ábysmo, onde parece 
Que entre seus cortezãos preside a morte. 

*■•» 

Que é morte? solidão; silencio; trevas! 
Tudo isto oceupa o lúgubre aposento : 
Silencio, trevas, solidão me abrangem, 
E horrores multiplica o penujbto. 

De atroz perfídia as nódoas não me infamão ; f 

Remorsos me não fervem na tristeza ; 

Em barbaras acções, em negros crimes *^ 

Não tenho profanado a natureza : 

Com ferro alwminabil entre as fúrias A ' 

ímpio golpe não dei no pátrio seio : 
Sempre a cauta razão me tem sustido 
Reluclantes paixões com útil freio. 

Desventurado sou, não sou perverso ; 
Ao jugo de altas leis o collo inclino ; 
E no humano poder contemplo, adoro 
Augusta imagem do poder divino. 



:*< 



110 LIVRARIA CLÁSSICA. 

Torpe, invejosa, pérfida calumnía, 
• Monstro devorador da honra alteia, 

4 Não me prostra o valor de todo ainda, 

Com vêl-a tão cruel, com ser tão feia. 

Os damnos, que me urdio, baldar-lhe espero, 
Nos sentimentos meus, e em ti fiado ; 
Tu, grande, tu, benéfico, tu, forte, 
Em prende a gloria de vencer meu fado : 

Protege a causa do infeliz, que invoca 
Teu nome, o teu fervor, tua piedade; 
Guia os suspiros meus, e as preces minhas 
Ao throno, onde reluz a humanida^. 

Á grandeza e virtude asylo imploro; 
Tu gozas da virtude e da grandeza : 
jj: Estes brilhantes dons comigo apura, 

Terá mais um triumpho a natujreza. 



•'5&v 



'. Ao marquez de Pombal endereçou Bocage a epistola : 

Só conheço de ti grandeza e nome 

que se encontra no tomo I, pag. 197 d'esta collecção. 
Suspeitamos porémji|ue nenhum d'aquelles, nem de 
^outros poderosos a quem Bocage implorou, obteve a sua 
soltura ; e até nem existe tradição de que, durante esse 
período de provações, lhe dirigissem ao menos produc- 
çàes do estro ou consolações os poetas, seus amigos, 
seclldpos ou admiradores. Bem podia ser elle o autor . % 
d'aquelle epigramma : t " • 



Les amis de 1'heure presente 

Ont le naturel du melon : 

II faut en essayer cinquante, 

Avant que d'en trouver un bon. f 

Temos por indubitável que o seu salvador foi José do 



BOCAGE. 111 

Seabra. Era homem de vasta intelligencia, de idéas mais 
adiantadas que as do ateu século, e mui parentas das qqe 
devião triumphar um quarjto de século depois. Era por 
indole protector dos homens talentosos; o Sr. José de 
Torres, no seu importante Ensaio sobre Nicoláo Tolen- 
tino, afíirma, por exemplo, que Seabra estendera ás ir- 
mãs d'este o valimento que ao poeta concedia, despa- 
chando-as com tenças nas commendas vagas. Alémd'isso, 
era ministro do reino, e como tal poderosíssimo. Já atrás 
vimos, n'uma carta que nos dirigio o poeta Bingre, 
quanto Seabra com||ou a obra da sua protecção, que ellc 
não podia deixar em meio. N'aquella mesma carta, dizia- 
nos Bingre, em seguida : 

« Ia Bocage muitas vezes jantar com José de Seabra, 
o qual sempre, no íim r j^presenteãva com algumas peças, 
a titulo de obras que lhe dava para traduzir. » 

E logo após nos narrou uma aneedota, de que adilpte, 
em mais apropriado lugar, daremos conhecimento, com- 
probativa do grande apreço em que Seabra tinha o seu 
protegido e amigo; e estamos convencidos de que á voz 
do illustrado ministro se descerrarão as grades ao emi- 
nente versificador. , * 

Regulando pela epigraplie, a primeira ptUsia dirigida 
por Bocage, antes de ser preso, a José de Seabra, foi a 
ode que principia : % ^ H 

* . A seria , imparcial phitosophia 

Já da prisão, levou á presença do ministro, no seu jj 
anniversario natalício, uma epistola, a que por signal 
antepôz .errád^tíiente, talvez de memoria, esta epigraphe : 

^ In te spes omnis... nobis sita est. 

Te solum habemus; tu es patronus, tu parensf 



112 LIVRARIA CLÁSSICA. 

que diz exirahida da scena 5 a do acto 5 o dos Adelphos, 
V o jue é inexacto. Nesta epistola, de que já falíamos, con- 
. tínua o preso a impetrar a sua soltura, v. gr.: 

Eu, aggregado ao numero fanesto 
Das victimas chorosas do infortúnio, 
Que trago na cerviz, na frente, e n alma 
Seu peso esmagador, seu nome acerbo, 
Em vão com teu formoso, egrégio dia, 
Em vão quero illudir, chorar meus males. 
Por entre os turbilhões de altas idéas, 
Que abala o teu natal e a gloria tua, 
Na mente alvoroçada imagem triste^ 
Negras, medonhas, como d'antes stírgem 
Para gemer, senhor, para chorar-me 
^ Tenho, além da razão, tenho o costume. 

'* v Tu, que em summa virtude és mais que humano, 

Converte a guerra çm paz, e ej^riso o luto 
■ J.' Que do vate infeliz envolve a ItyMe. 

, t Arranca-rae ao penoso, ao férreo jugo 

Da sorte avessa, da tenaz desgraça 



São raros os Camões ; o dom divino 
5 Em raros pôde mais que a desventura". 

NVslas sombras se apaga o sacro fogo ; 
Nas garras da indigência as musas morrem. 

Ainda lhe endereçou a ode que principia : 

Do Lacio portentoso e d'alta Grécia 

oiide ba estes versos : ._ 

A mim, desventurado, 
I D^m cárcere cruel envolto em sombras, # 

A mim, curvo, abatido 
Ao peso do grilhão, da injuria ao peso, 

Ente vulgar, inulil, , v 

De mil tribulações — que recompensa, fy* à^ 

Que futuro me resta? w 



*a|t 



*. 



BOCAGE. ti5 

Mas dignas-te de vir ao triste seio 

Da medrosa masmorra ? 
Habitante do céo brilhar no abysmo? 

Attrahio por ventoura, 
Encaminhou talvez aqui teu vòo 

não raro accidente 
De estar sem crime habitação de crimes? 

Tu vês, ente celeste, 
Tu vès meu coração : não é perjuro, 

Não cruel, não ingrato; 
Ama o dever, a probidade, a honra ; 

Dá hymnos á virtude, 
Aos altares incenso, aos sólios culto. 

No lugar que te aponto, 
Conheces, deosa, de Seabra os lares, 

Seu louvor, no seu nome ; 
Na gloria que descrevo a gloria sua. 

Ao penetrai brjfcante 
Onde os influxos teus dos astros descem, 

Leva o quadro funesto 
Das minhas oppressões, dos meus desastres, etc. 

Suspeitamos que ainda a Seabra fosse dirigido este 
soneto : 

Qual o itálico heróe, o audaz Tancredo, 
Pondo o apóstata infame em vil fugida, 
Gahio no laço da fallaz Armida, 
Na confusa prisão, de mago enredo, 

Tal eu, depois que cnchM» opprobrio e medo 
Os zoilos, a caterva embravecida, 
Fui abysmado por calumnia infida 
Nas efmas sombras de hórrido segredo. 

Nem só n'isto ao heróe sou semelhante. 



..* 



Nize e t* voado tempo na memoria 
São * minM Glorinda, o meu Argante. 

Ah ! tu, que indu has de honrar a \usa \k\*tom, 
a. % 



JU LIVRARIA CLÁSSICA. 

O meu Reinaldo sè, varão prestante ! 
Toraa-me a liberdade, o mundo, a gloria! 

#* Fosse porém aquelle sonetc^ dedicado ou não a José de 

Seabra, o certo é que a este dirigio Bocage fervorosos 
agradecimentos, após a sua soltura, na ode que prin- 
cipia : 

Fantasmas do terror, sócios funestos 

Do queixoso infortúnio, 
Tristes combinações, verdugos d , alma, 

Jã não sois meus tyranno$. 



D'alma rebentão versos, 
Versos que vão luzir, votiva ofT renda, , 

Da gratidão nas aras. 
Tu, Seabra immortal, meu ca|ito acolhe, 

Como os ais me acolhes! 



flmente dirigio por esta occasião uma ode, que é 
valiosa imitação de Parny, e começa : 



^^v*. 



Jazem desfeitos meus penosos ferros. 

Sócios lieis, eis volto, 
Liberto de afflicçõcs, aos vossos braços ! 



Antes de passar d'esta phase da vida (Jo nosso biogra- 
phado, diremos que, durante o tempo da detenção, e não 
havçndo mais noticias dja^jratft, se espalhou o boato de 
ser ellc fallecido, o que ^jplugar a varias poesias àp 
admiradores seus; Bocage respondeu com outras, «ntre 
as quaes figura o soneto : ^ 



Ó vós, que lamentais de Elmano a sof|L..& 



impresso no tomo I, pag^lôQ^Testa collecção 



çao. Hf* 



BOCAGE. H5 



Finalmente, meado o anno de 1798, foi Bocage tfesti- 
tuido á sua plena liberdade. 



CAPITULO VII 

Volta Bocage para a sociedade. — Turba que o rodeia. — Torna-se o Pa- 
nard do Caveau lisbonense. — Indigência e suas consequências. — O 
que n'esse sentido vai lá por fora. — Injustiça da sociedade para.com os 
grandes erfgenjbos. 

Eis-ahi pois Bocage regressado ao seio da sociedade ; 
eil-o temporariamente curvado ante as recordações de 
seus padecimentos ; eil-o cordialmente disposto a uma 
reforma de costumes; eil-o encanecido com tamanhos 
trabalhos, e tendo exhaprido em taça de fel, segurído cria, 
as fezes de attribulada'existeHcia. 

No mesmo anno de 1798, logo depois de lhe serifcor- 
gada a liberdade, compôz Bocage o soneto : * 



Excedo lustros seis por mais três annos. 



que já produzimos no tomo I, pag. 168. 

Voltou pois para o mundo com as intenções Jjtjp* 
puras ; mas aquelle grande homem era fraco ante o im- 
pério dos sentidos, as propensões do habito, e os dicta- 
mes da sua vangloria. PáFjgJpgo se vio rodeado de im- 
mensa turba, composta Ir alguns illustrados amigos,^ 
innumeraveis admiradores, e poucos atrabiliários inimi- 
gos. Não era entre nós e§se ainda o tempo (confessamol-o) 
em que o espirito, devorando-se, se esterilisava em mor- 
tíferas disbutas M)bre ambições mesquinhas, embuçadas 
«&>' pomposo mçnto de amores de pátria e direitos do 
%òmem : a mais úteis e hobrer occUç&<i&£$ c^& ^ \v\s\a, 



416 LIVRARIA CLÁSSICA. 

coiferôca, chamada politica, se consagrava então o génio : 
1 e essa geração, tão outra da sua actual representante, 
resplandecia com a muita instrucção, intelligencia e*ne- 
rito que a opulentavão ; contava pois Bocage, entre os seus 
contemporâneos e amigos, numero avultado, cujo nome 
hão de os tempos respeitar. Porém (confessemol-o tam- 
bém) a maioria dos commensaes e íntimos, dos satellites 
e apregoadores das praças e dos lupanares, dos enthu- 
siastas estrepitosos e delirantes, erão gente s$m educação, 
demáo gosto e espirito máo, impotente para corromper 
tãô alta intelligencia, mas não comtudo para momenta- 
neamente a desvairar. Não podia resistir ás tentações de 
tribuno da plebe litterario. Digno successor dp Panard, 
éajjpunl^m o sceptro do Caveau lisbonense, e, por mais 
que a razão lhe segredasse, nã&âàíitia forças para abdi- 

cal-o$r * V 

Diárias excitações de toda essa desmoralisadora roda 
— carência de bens patrimoniaes — grande dissipação de 
. vida e costumes — e independência tal de génio que não 
í* tolerava sujeição a encargo algum, o conservarão em 
constante penúria, devendo ora á sua industria, ora á sua 
petfna, ora aos seus amigos, uma subsistência sempre 
parca, e em que o dia de hoje interrogava sempre o de 
amanhã. ^ 

Demoremo-nos um momei» ante o quadro d'essa pe- 
núria, visto como foi também ella que exerceu influencia 
no viver de Bocage, arrancando-lhe parte da indepen- 
dência, que era o seu mais natÉ»l. característico, e re- 
baixando algumas vezes seus actos e sua pennifè 

A tal auge chegarão as tribulações daMijjgMpgl^ 
se vio obrigado a converter a a#e divinjf^m orneio vilji$£ 
sevanàijar e prostituir a musa. Foi para comprar pão que 



BOCAGE. 117 



no entrudo de 1802 escreveu as Espantosas octôes de 
Antão Broeya, producção de género desprezível 4 . 



* 






1 O Sr. I. F. da Silva, na sua Collecção das obras de Bocage (VI, 
pag. 409)» duvida de que estas quadrinhas fossem obra de Bocage, dando 
como razão : I o ter-lh'o assim affirmado o Morgado d' Assentiz, 2° ler sido em 
1802 o período mais bonançoso da vida do poeta, por ser então que elle 
esteve estipendiado pelo padre Velloso. 

Se é licito romper silencio respeitoso, pedimos licença para ponderar que 
se o assumpto é miserável, a execução (considerada, já se sabe, á luz das 
respectivas cond|pões) nos não parece merecer tamanha austeridade de jul- 
gamento, pois não é inferior á das glozas á Minha Lilia morreu, ou /«*-' 
tantes afortunados, ou os Trabalhos da vida humana, ou outros ridículos 
sonhos do Homero dormitando. 

Quanto ao Morgado de Assentiz, só diremos que, se acaso algum de nós 
se não engana, procedeu mal o nosso informador. Teve o Morgado conhe- 
cimento prévio de todas as poesias de que fizemos selecção ; e certamente 
houvéramos por nossa parte eliminado esta, se elle a tivesse refugado como 
não bocagiana. Permitta-sjfenos porém ponderar que ainda as|úii o nlo m- a 
ber Assentiz se o seu amigrajtopuzera ou não uma obra (que é o mais que ' 
elle poderia affirmar, sob p§ÉYde o termos pelo. seu inseparável anjo da 
guarda), não é razão para estribarmos um juizo. Não nos conqffte hoje a 
reminiscência asseverar firmemente a qual dos amigos de Bocage ouvimos 
o que no texto affirmamos ; mas nào seria ao próprio Assentiz? 

Quanto ás farturas de Bocage em 1802, por ser então que elle estava es- 
tipendiado por Velloso (com trabalho constante e insano, e salário de cinco 
moedas mensaes), suppomos ser engano, pois esse emprego de Bocagiv 
cremos que só durou de 1799 a 1801. Foi em 1800 e 1801 que ellepu-flk 
blicou : Jardim, Tripoli, Elegia a D. Rodrigo, Elogio ao Príncipe Re- ^ 
gente, Plantas, Consorcio das Flores, na chalcographica. Em 180fptpenas 
lá sahio uma elegia e um elogio, comprehendendo tudo dezoito paginas, e até 
mesmo o elogio é já dedicado por Simão Thadeo Ferreira, primitivo editor 
de Bocage, c que novamente aumk jà em 1802, pois na sua typographia 
u'csse anno se imprimio a (sUfhéa, e editor não era esse que salvasse 
pessoa alguma da indigência, poWse não pejou de dar ao poeta dez moedas 
pela primeira edição do seu 1° tomo de poesias. 

Note-se mais que n'essa ofGcina de Thadeo sahio também en 1802 uma 
edição do 2 o tomo, na qual não apparecem as epistolas de e a Seb. X. Bo- 
telho. Ora, tendo estas visto a luz no 3° tomo, edição de 1804, é de crer 
que fossem escriptas em 1802 ou 1803. N'uma d'ellas diz Bocage : 

• ' '.j^ '• Presa a tantos martyrios, a indigência 
0* apura, os irrita, os desespera. 
É ella, caro amigo, éiájjis que Phebo 
Quem me arranca «lo espirito enlutado 



■4- 



i* <E- 



118 LIVRARIA CLÁSSICA. 

Taiifcem não hesitou em compor, por dinheiro, in- 
suísos elogios dramáticos, traducções de pobres origi- 
naes, e outras insignificantes obras avulsas. Promoveu 
benefícios em theatros, para seu proveito. N'essas occa- 
siões fazia recitar ou recitava ás vezes um elogio á platéa, 
ou ao : 

Congresso bemfeitor, por quem mil vezes r 

Agros destinos meus se tornão doces 



metro carpidor em que a deploro 
Qual nas margens do Tibrc ao Venusino. 

Está no mesmo volume a epistola ao desembargador Cardoso, onde se 
queixa do mesmo mal : 

« Mas ah ! Vincenio! se ws haveres, o ouro, 

*■ " Puxando-nos á terra, origem sua^ 

ÇL .jákç, adejo á fantasia, ao génio pr< 

v ^**Obstaculo mais duro é a indip 





Mas novos para ti não são i 
- Xá tens mais de uma vez amaU 
Meus agres, espinhosos dissabores ; 
Já tens mais de uma vez salvado Elmano. 

#fá beneficência em ti costume. 
MulBDppressa, infeliz, se acolhe a ella. 
Quqptseus ais enfreou, seus ais enfreie. 

£pmo Bocage avaliasse essas riquezas, vê-se n'uma epistola ao conde de 
lOurenço, escripta em 1801, exactamente no zenith da tal opulência: 

Se a beber novo brilho, idéas novas, 
* Nas azas da saudade a li na* voo, 

É que férreo dever, grilhão sagrado, 

No pobre, tosco alvergue mé acantoão. 

Lucro mesquinho de vigílias duras, 

Património dos vates (e não sempre) 

Sentem meus dias, que parecem noites, 

E esteio aos dias são de irmã que lefna 

Curte comigo tormentosos fados */* . 

Eis-ahi os motivos que no animo nos actuão para aontinuanno» a não 
negar a Bocage a paternidade de uma producção que jJLafltejjgjflfente 
nos lhe foi attribuida. "*. V^ 

àm * Este verso vem repetido n'outrt pnrttf. 



ia ** 



'ÍJf 



BOCAGE. 119 

e accrescentava : M 

Ó pátria, que hoje em mim teus dons semeias, % 

Acolhe, escuta com silencio honroso * 

Os esforços de autor submisso e grato, r 

A quem renovão descahido alento 
Louvor e amparo, de prodígios fonte. 
Do publico favor medrando á sombra 
pio sentimento em mim se arraiga. 
Immutavel comvosco, eterna, immensa, 
A minha gratidão será meu fado. 

Chegou a vender, ás vezes, os seus livros, havendo 
entretanto outros, seus mais caros companheiros, de que 
dizia que só com a vida poderia separar-se. Sr. Var- 
nipgen, nas eruditas notas á ultima edição do Caramurú, ■ , 
diz que Bocage, ain dayyo uco antes de fallecer, contefca^ 
poema de Durão conflkpi dos livros mais quJhdofli|Ía 
sua mingoada livrariqHfc -^l 

Esta falta de recurso&fazia com que o nosso pojjjp náo 
só frequentemente mendigasse o sustento (como ó prova 
quantidade de versos impressos, e de bilhetes e gfrtas 
autographas, que por mão de curiosos se ctaservâo)7nias ^ 
consentisse em aceitar a hospitalidade de amigos^ÉWjflr* 
entre si disputavão o prazer de o receberem. 1y 

autor do poema Portugal vingado, impresso no Rio 
em 1811, exprime-se assim, na dedicatória a frei José 
Mariano : 

Ao vate desvalido a sorte escuda, 
Qual jà fizeste de Ulysséa ao cysne, 
Que até na morte, no sepulcro mesmo, 
foste anjo tutelar, ou foste um nume. 

Mual &jf qual foste, Europa, o globo o sabe. 
Sinta Corino o que. sentiu Bocage; 
que Europa escutou, Bfail escute. 



#^ 



120 LIVRARIA CLÁSSICA. 

Pertenceu pois, não ha negal-o, á raça aristocratico- 
mendi^á dos vates famélicos! 

Mas nem por isso venhão os estrangeiros apedrejar-nos 
pela miséria dos nossos Camões e Bocages. * 

Nào nascerão em Portugal os Gilbertos, os Chattertons, 
os Malfilâtres, e tantos outros, que litteralmente succum- 
bfrão á fome. Diz um Francez que isto nos desaira. Olhe 
lá pela sua terra. 

FanciscoVillon, fundador, no século decimo-quinlo, dá 
poesia moderna, foi em tudo irmão da mesma confraria, 
e ainda com circumstancias aggravantes. Dizia este, no 
seu testamento : 

Mais triste cueur, ventre affamé ' ^. 

(ju\ í^est rassasié au tiers. 
Me oste des amoureux se$£ers. 
Au fort, quelqu'un s'en nwpmpense, 
Qui est remply sur les cnji tiers, 
ifc Gar de la panse vient la cfense. 

^»adis Jasmm, pedindo esmola a Carlos IX, com certa 
hombrjtóade, como a do mendigo castelhano, que, por 
er fidalgo, a pede de chapéo na cabeça, acabava assim 
um soneto : 

Les poetes sont des grands róis neveux, 
Et si íouvent ils vivent souffreteux, 
Ayant de Teau pour unique héritage! 

Faites connaitre au moins à cette fois, 
En me donnant quelque bien en partage, 
Que vous penscz qu'ils sont parents des róis. 



Rutébeuf compôz muitas producções analogia a um 



passo onde diz : 

« Nem uma côdea para ,^«eq|És; nem uma acha pai 



^^TL, 







BOCAGE. 421 

fogo. Tusso de frio; bocejo de fome. Toda a minha mo- 
bília empenhada... Desde a ruina de Troya, nunca houve 
outra mais completa do que a minha ! » 

Deixemos os estrangeiros, e reconheçamos que, de 
máos hábitos dos tempos que lá vâo, era este um. 

Outr'ora timbra va-se na ignorância, como hoje na 
sciencia. 

«IV... que por ser fidalgo não sabe escrever. » Então 
o talento era mercenário, e condemnava-se aos misteres 
mais vis. Entre nós verdadeiramente a dignidade do ho- 
mem de lettras é idéa pratica do presente século. Já se 
não comprehendem as farças em que o poeta era repre- 
sentado por uma figura transparente, esfaimada, de ta- 
bardo roto, e bolsos cheios de sonetos. 

Deplorável disposi^p do espirito humano! Volvem òs 
séculos; e nos mais jftstantes lugares e tempos, e nas 
mais desproporcionadas idades da civilisação, appqjrecem 
génio e sciencia quasi constante apanagi^ou das inferio- 
res classes da sociedade, ou da penúria! Por alguns ftpos, 
que incita sede de fama e ardor estreme de gloria^ uinu-^ 
meraveis deixarião nome obscuro, se precisões todas ter- 
renas os não arrancassem ao ócio. 

Contemplai o próprio Bocage, com a sua insaciável 
cobiça de nome, com a sua espantosa facilidade, e acha- 
reis terem sido escriptas entre ferros, ou destinadas a 
produzir-lhe alguns cruzados, as producções em que mais 
se esmerou ! achareis que assim se lhe devolverão oito 
lustros, assaz longos para lhe perpetuarem a memoria, 
mas que, aproveitados, o poderião ter levantado a altura 
inaccesg||j5l! ,, : * 

Mas tm a saciedade direito de exprobrar ao génio o 
io voar quando ellalhe cortoifeas azas? Quem deixa mor- 



122 LI VRAM A CLÁSSICA. ->C 

rer n'um hospital Camões e Santos e Silva, mendigar 
r Tolentino e Bocage, perde todo o direito de censura, 
porque nem soube ser a sociedade christã, á qual o íe- 
vitico ordena que alguns restos se deixem para os pobres 
nos campos, nas arvores e nas vinhas. Pobres são estes, 
que opulentào de gloria as nações! 

Tente o vate converter em metal os sublimes productos 
do seu estro e laboriosas vigílias para deleitação do 
mundo, verá regatearem-se-lhe os seitís! Tal foi a sorte 
de Bocage. Se os seus conterrâneos lhe houvessem pago, 
ainda escassamente, a grande divida; se lhe houvessem 
proporcionado sequer o dia farto e a noite descansada; 
se o nào tivessem reduzido a procurar o pào quotidiano 
para si e sua irmã; oh! então haterião apparecido, nu- 
merosas e esplendidas, essas J^gf' correctas e de vulto , 
cuja falta hoje se lhe imputa 



CAPITULO VIII 



A \ A officina chalcographica e a imprensa regia. — Brasileiro padre-mestre 
frei José Mariano da Conceição Velloso. — Emprego de Bocage n'aquelle 
estabelecimento. — Principaes obras que Bocage então compôz. — E 
denunciado, em M P5, á inquisição, como pedreiro-livre. 




Cumpre agora dizer qual foi a occupação a que Bocage 
mais se entregou por esses tempos, e de que maiores e 
mais bem grangeados créditos lhe advierão. 

Entre os estabelecimentos que por fins do passado 
século, e após o impulso dado por Pombal ás sâencias ejk 
lettras, rapidamente se engrandecerão e apeneiçoáràdSPr 
sobresahe a famosa fypo&Rpphià, conhecida pela Officirtg+ 



/ 



BOCAGE. 123 



do Arco do Cego, ou Chalcoyraphica, ou Typoplastica e . 
Litteraria, a qual depois veio a confundir-se na Imprensa ^ 
Regia, sua herdeira. Hoje, esta repartição, com os admi- ^ 

raveis melhoramentos introduzidos de um quarto de 
século a esta parte pelos infatigáveis irmãos, o finado 
poeta José Frederico Pereira Marecos, e o benemérito 
conselheiro Firmo Pereira Marecos, occupa, na arte, um 
lugar que faz honra a Portuga}. Se nos referirmos ao 
tempo em que lunccionou a Officina Chalcographica, ve- 
remos também muitos de seus productos equiparáveis 
aos análogos em nações mais adiantadas. 

Dirigia esta officina chalcographica o padre-mestre 
brasileiro frei José Mariano da Conceição Velloso, reli- 
gioso Arrabi do, da projincia do Rio de Janeiro. 

Este incansável mofS^^nsionado pelo príncipe re- 
gente, distinguia-se poSBPrior illustração. Dos annos 
de 1798 a .1806 (regresSu ao Rio em 1807), são innu- 
meraveis as obras, principalmente traduzidas, mas tam- 
bém originaes,que este litterato levou ao prelo em Lisboa, 
na máxima parte sobre agricultura, artes e «ciências na-jÉL 
turaes. *PB 

D'entre as obras do padre Yelloso merece mais parti- V 
cular menção uma Flora Fluminense, que o Jornal de 
Coimbra, de Fevereiro de 181 c 2, annuncioJÉfestar ao prelo 
e dever deitar onze volumes in-folio, conTO analyse de 
mais de três mil plantas, classificadas pelo systema de 
Linneo. Sobre esta obra gigantea, devemos ao Sr. Dr. 
A. J. de Mello Moraes informações que se fundem no 
seguinte. 

#» VellosaMascíàD em 1742 em S. José do Rio das Mor- 

^N|j|, proyu&ia cre Jtfinas, e fallgádo no Rio a 11 ou 14 de 

Jtalho de 1 81 1 , acabou em 1 7ífl|j|sua Flora Fluminense, ^ 



* 



124 LIVRARIA CLÁSSICA. 

na qual teve por collaboradores F. M. da Silva Mello, 
J. Corrêa Rangel, J. Aniceto Rangel, J. F. Xavier, J. de 
Souza Marrecos, Firmino J. do Amaral, J. Gonçalves, e 
António Alvares. Foi Velloso mui coadjuvado na sua em- 
preza pelo illustrado Luiz de Vasconcellos e Souza, que 
tanto se empenhava pelo engrandecimento do Rio de Ja- 
neiro. 

Como o padre Velloso superintendia o primeiro esta- 
belecimento typographico de Lisboa, começou nesta ci- 
dade a abrir as chapas necessárias para a obra, chegando 
a adiantar 554, que em 1808, no tempo dos Francezes, 
forão levadas por Geoffroy Saint-Hilaire. 

Conservava-se porém na bibliotheca publica do Rio o 
manuscripto, que foi achado por frei António da Arrá- 
bida. Examinado por este e gate Dr. João da Silveira 
Caldeira, conheceu-se estar ótfKQ$>leto, quanto ás estam- 
pas, faltando algumas descripções; mas empenhou-se 
com o governo imperial, o qual mandou a obra para 
Paris, afim de se fazerem as lithographias na conceituada 
officina de Lasteyrie. 

Era encarregado de negócios do Brasil em Paris o co- 
nhecido poeta Domingos Borges de Barros, visconde da 
Pedra Branca. Ordenou o governo do Sr. D. Pedro I a 
frei António iug se entendesse com o visconde, o que 
elle logo fez,^Bcommendando-lhe que sobre esta publi- 
cação se guardasse o maior segredo, e que ninguém, além 
dos confidentes, leigos na matéria, visse as estampas do 
padre Velloso Era Borges de Barros também botânico, 
achou dura e intempestiva a recommendação, e desobe- 
deceu-lhe, pedindo a um amigo muito competente que 
examinasse os desenhos e,£obreelles emíuisse'^arecer.J$b*" 
consultado respondeu fjjjfc a obra estava em geral boa, 



BOCAGE. 125 

mas linha muita cousa supérflua, <|ue podia supprimir-se ; 
que a vegetação se achava reproduzida sem necessidade, 
o que fazia parecer aquelle livro antes collecção de estu- 
dos do padre Velloso do que obra expurgada, limada, e 
prompta para impressão ; e finalmente que se o padre 
vivesse, por modo nenhum consentiria que os seus estu- 
dos fossem publicados antes de definitivamente corrigi- 
dos. Borges de Barros passou então pelos olhos as estam- 
pas, e convencido da exacção do informe communicou a 
frei António da Arrábida a sua opinião franca e leal. 
Em premio das suas diligencias, recebeu uma reprehen- 
são formal, e novas ordens intimando o maior segredo, 
e apressando a publicação da Flora tal qual se achasse. 
Nomeou-se logo, entre outros empregados, a José Marcel- 
lino Gonçalves para tesoureiro e director da empreza. 

Ajustou-se a obra, âlugárão-se armazéns, pôz-se tudo 
em movimento. Emquanto se apromptavão em Paris as 
estampas, frei António mandava imprimir o texto na 
typographia nacional do Rio, em 1825. Despendêrão-se 
em Paris mais de dous milhões de francos, e vierão para . 
o Rio 500 exemplares, ficando lá 1,500. Os 500 fora»! 
na sua maioria vendidos ao Dr. Capanema para papel de™ 
embrulho ; outros apodrecerão no saguão da secretaria 
da justiça; alguns derão-se a quem mg que os pedia; 
pouquíssimos se archivárão na bibliogpfca publica. Os 
1,500 que ficarão em Paris vendèrão-se para forro de 
barretinas ao chapelleiro do exercito frafceez. 

Espantou-se pois o Sr. Dr. Mello Moraes, de ler no 

Relatório do ministério da agricultura, em 1864, o se- 

^cuinte toerca d'-esla Flora : « Esta obra, de incontestável 

4(||perito,lcha-|iS em grande Mrte por imprimir, e a parte 

impressa é hoje tão rara, Jwiáo permitte aos homens 



J#pí 



126 LIVRARIA CLÁSSICA. 

da sciencia obterem facilmente um exemplar. Ponde- 
rando estas e outras considerações, dei as providencias 
para que se faça uma impressão de toda a obra, por conta 
do governa imperial. » 

Eis o que era o padre Velloso. Comprehende-se que 
quem assim cultivava as lettras, sentisse vivas sympathias . 
para com os homens do officio, e se tornasse protector e 
amigo dos engenhos desvalidos. Se o príncipe regente o 
havia pensionado, suppunha elle ter obrigação de pen- 
sionar os outros. 

Constando a Velloso a indigência e o talento de Bocage, 
c com especialidade a sua singular distincçáo na arte dif- 
íicil de transpor as riquezas litterarias de um para outro 
idioma, propôz-lhe um contracto, que o nosso poeta 
aceitou, náo obstante a insignificância da remuneração 
de táo valiosostrabalhos. Devia ser o seu emprego rever 
acuradamente as provas de obras importantes, appli- 
cando as sobras do tempo a versões de bons autores ou 
composições originaes. 

Foi João Nunes Esteves, a esse tempo conhecido de 
Velloso e Bocage, e guarda-livros da officina chalcogra- 
íica, o que nos conimunicou estes pormenores. salá- 
rio de Bocage era de réis 24^000 mensaes ; e a primeira 
edição das suas obras ou traducções, ricamente feita á 
custa da casa, e jnr ordem do príncipe, ficava proprie- 
dade da mesma casa. 

Se estas sóiíiente forão as relações entre ambos, mais 
nos parece Velloso o favorecido que o bemfeitor ; e toda- 
via a exaltada dedicatória do dram^ A virtude laureada^ 
impresso no anno da morte de Bocage, induz a cçer que 
o seu amigo lhe era credor de muito maiores otèequios, J^ 
como se deprehende dos sa^knt^L versos : 



BOCAGE. 127 

*if' Em ti, constante, desvelado amigo, 

Demando contra a sorte asylo e sombra, 

Ó das musas fautor, de Flora alumno ! 

(Rasgado o véo da allegoria) estende 

Ao metro, que desvale, a mão, que presta. *» **■ 

Se azas lhe deres, em suave adejo, ^ 

De Lysia ao seio, que a virtude amima, 

D'ella cultores voaráõ meus versos, 

E o pátrio, doce amor, ser-lhe-ha piedoso. f 

E entretanto, n'uma epistola ao conde de S. Lourenço, 
a que já atrás alludímos, deplora Bocage ver-se obrigado 
a consagrar o tempo aos misteres a que assim se ligara. 

Aquelles ajustes litterarios com o padre Velloso somos 
devedores das obras de maior dimensão, que parece 
haverem sido limadas por Bocage com Ímprobo trabalho. 

Impressas na officina do Arco dó Cego, muitas em 
virtude daquelle contracto, ou sob a^direeção de Velloso, 
ou por esses períodos, forão as traducções" dos Jardim, 
das Plantas, do Consorcio das Flores, do Canto de Tri- 
poli, do Gil Braz; e bem asssim o tomo II das Riflas, 
a Elegia a D. Rodrigo, o Elogio aos annos do príncipe, 
o drama Virtude laureada. +^ 

Em rneip pois de seus trabalhos se achava então Ma-jfc 
noel Maria, quando sob os pés lhe rebentarão inespera- 
das as minas surdas que lhe urdio o fanatismo. 

Um dia entrou na inquisição de L^ra uma denuncia 
contra Bocage ; era formula escripta aWjuea opinião pu- 
blica já de muito murmurava por portas travessas, sem 
ousar declarar-se ; a mão que descerrou ao poeta os cár- 
ceres do Rocio, foi a de uma mulher ! 

Tivemos occasião de examinar no real archivo da Torre 
do Tombo o^asqueroso, mas importante documento, que 
bastou ao tribunal do janjj^fiicio para instauração de 



r^fi! 



128 LIVRARIA CLÁSSICA. . 

processo contra um tal cidadão 1 ; e ainda hoje não pode- 
mos dar conla do que nos assaltou ao contemplarmos 
aquellâs regras miseráveis, rachiticas e foscas, com que 
uma beata^Wiscura, ignorante e malévola, atassalhava a 
um tempo a orthographia, a calligraphia, a grammatica, 
o juizo publico, a igreja catholica, atassalhando ao mais 
aSlíínbroso génio poético do seu tempo. nome d'esta 
fanática enredadora solapada, d'esta incorrigível calum- 
niadora da nossa augusta religião, conservou-se, para sua 
gloria, até nós ; era Maria Theodora Severiana Lobo. Que 
terião (perguntamos) um com o outro o dia e a noite? a 
águia e o verme? o génio, que tudo, descortina, e a estu- 
pidez, que nada enxerga? o sublime autor da Nereida, e 
a stjjjjjbastarda denunciadora? (fuerti ensinara á venenosa 
tarântula fiandeira a urdir a teia informe onde havia de 
enlear-se a formSsa borboleta arcadica? Não o sabemos. O 
que nos* cumpre é registar n'este cartório bocagiano a 
façanhuda pagina com que a estrige pretendeu conspur- 
cafjRouxinol. Entre pois em scena a Sra. Maria Theo- 
dolflr A sua denuncia diz assim 8 : 



« Eíi Maria Theodora Severiana Lobo, filha de Roque 
Ferreira Lobo morador na rua da era fr. de S ta Catarina 
ot sidade de Lisboa, atendendo ao preceito e obrigação 
que impõem o Tribunal do S f Officio aos que souberem 
alguma das coisas conteudas nos interrogatórios do Edital 
do djto S. Tribunal ; declara que ouviu diser a Manuel 

1 Todos os documentos relativos a isto forão pelo Sr. Innoccncio F. da 
Silva descobertos na Jorre do Tombo entre os papeis da inquisição para 
alli mandados cm 4821. 

* A orthograpliia vai intacta ; ha quapi asco cm por mão cm tio immun- 
do documento. • . T% 



>•■ BOCAGE. 129 

Maria do Barboza do Bocage, que elle, e Jozé Maria de 
Ouliveira„e hum fulano do qual nâo sei o nome, «as sei 
que lie filho de Matias Jozé de Castro, o qwáf^uso diser <W 
que he Cristão novo, que todos os três referidos, Bocage, 
Oliveira e Castro, do qual não sei nome próprio erão pe- 
dreiros livres ; e ainda que o dito sugeito o dice deb^jpfe 
de segredo, ella o denuncia ao S. Tribunal, obedecéfrâo 
a seus preceitos. — Maria Theodora Seveiuana Lobo. » 

« P. S. — Declaro que sou Filha do Admenistrador do 
Correio do Reino, ô que os sobreditos morâo Wf: M a 
nhum beco que esta na rua fermosa, Jozé M a dentro do 
Correio, do qual he escriturário, não sei bem a fregugsja, 
mas pareceme que he das mercês, e o dito Capitàójps- 
tro na traveça da Condeça do rio, é tãoJpm não sei de • 
sertodeque fr. he, mas pareceme que ne S ,a Catarina 
tàobem declaro que o dittejá el M a não sei que? tenha ou- 
cupaçâo, e creio que vive das suas obras em verço, #£ão 
sei se tão-bem em prosa. » -y^* 

Agora, o próprio santo officio que responda por boca jf. 
dos seus ministros. Dá-se seguimento ao processo; a 
Sra. Maria Theodora exulta no fundo do seu mestiço jCO-j^ 
facão, e entrevê para gloria de Deos acender-se de longe 
o auto-da-fé. £ * 

officio que em seguida estampamos é a recommen- 
dação estreita que ao padre José dos Reis Marques diri- 
gem três inquisidores. Eil-o : 

« Tendo Maria Theodora Severiana Lobo ferreira diri- 
gido á mesa d4 santo officio jjTesta inquisição a represen- 
tação inclusa, se faz preáw)$p? a bem de causa que corre 
vii. ^r < s> 



. 430 LIVRARIA CLÁSSICA. ' .- . 

n'esto tribunal, e da justiça do mesmo, attendcndo ao 
fcftado d*.*declarante e o ser filha família, que por isso 
deferitifoa ■ cfef^cr por ora perguntada judicialmente, que 
Vm., vendo que a mesma expõe a sobredita denuncia na 
prijnéira occasião que ella se^ôr confessar, lhe peça 
JèiíjÉíça para fora da confissão tratar com a mesma sobre 
<& abjectos da denuncia que deu ao santo officio, seguran- 
do-a que pôde livremente expressar e (kfifarar tudo que 
souber a respeito dos particulares da tal denuncia, e sem 
o menor receio que perigue levemente o seu credito e 
reffòtaçno, nem offender as leis aa santa religião e da 
mais pura christandad% antes que este é meio nnico de 
acabar de sanar sobre este jaegpcio a sua consciência. E 
Ig$q rMjLConfessionartp,' ou eiti outro lugar, com toda a 
OBiirela^disn|É«c segredo, que muito lhe encarrega- 
mos, (k nossàjjpdem e autoridade se" informará da dita 
Maria Thgpdora sobre as circumstancias seguintes. Quanto 
tflKffiRbhá que*ella ouvio dizer o que temiJ^clarado, por 
<|Gj|pKasiào e motivos entrarão os três sujeitos men- 
cíopados na dita denuncia, a tratar na presença d'ella 
*. declarante sobre mater : as tão impróprias e incompetentes 
ao seu sexo, c á profissão dos mesmos sujeitos; se 
estes lhe persuadião aTgurna doutrina que competisse 
particularmente á sociedade de que elles se difcião sócios, 
ou se disputavâo entre si approvando as vantagens da 
mesma sociedade, abonando as suas doutrinas, e susten- 
tando ser ella licita e boa; se sabe que elles se ajuntem 
c formem assembléas particulares para tratarem dos ne- 
gócios da tal sociedade, onde as facão, se sào em dias 
certos, e qimês sejão estes; se mostrarão algumas insí- 
gnias ou cousas que sejãp? privativas para se darem a 
conhecer por membros áf^hieéfrta sociedade, e mostrar 



} 



--*'t 1J0CAGE. 131 

as prerogalivas (Telia. E ultimamente a advertirá que 
pôde, e deve declarar tudo que souber relatigp aos ob- 
jectos acima referidos. E havendo Vm. pro'$guid& n'esta 
averiguação, com toda a prudência e disfarce, «osxlará 
uma individual informação do que alcançar, lançakdo-a 
por escripto no reverso doesta, e a fará entregar n*<í*í# 
mesa com a mesma denuncia. Confiamos que tudo expolffe. 
na forma teçcramendada, não só pelo zelo que deve ter 
pelo serviço de Deos Nosso Senhor, mas também pelo que 
interessa a justiça do santo officio e o serviço do prirçcipe 
nosso senhor, avisandò-nos de assim o haver cumpridfrjjÉa 
resposta sua. Deos Nosso Senhor guarde a Vm. — Lisboa, 
no santo officio em mesa, 23 de Novembro de 1802. — 
Manoel Estanislao Fragoso. — FiUftcisco >Xavieí\£E Cp- 
veira de Mattos. — António Velho da GtfÊp» * ♦ * 

Entra de novo a Sra. Majjfo Theodora. Eis a consulta 
que ao tribunal faz subir o padre interrogador sobrei 
depoimentos da fanática : 

. « Em observância d'esta. ordem do santo tribunal, de- 
claro que tive licença da sobredita denunciante Maria 
TU^eodora para tratar e averiguar fora da confissão o que 
pertencia à sua denuucia, e para dar parte ao santo tri- 
bunal do que fosse preciso a este respeito, e sem que eu 
lhe desse parte de que sabia de antes da sua denuncia, 
declarou fem tudo conforme como n'ella se contém; de- 
mais, ^isse que não estava certa no tempo em que o, tal 
Bocage lhe tinha dito, mas que estava certa que tinha 
sido depois da quaresma de 1802 em casãK de uns vizi- 
nhos da sua escada d^llaJenimciante, e onde elle e o tal 
José Maria também algtig|a»)jj||)ps ião de visita; e disse 

V 



i 




132 LIVRARIA CLÁSSICA. 

mais que na mesma casa achando-se ella preçgnte, em 
que estarão a dito Bocage e o dito José Maria, o tal José 
Maria desenhara em cima de uma banca um triangulo, e 
l um angulo d'elle um olho, e dentro d'elle o sol, a lua, 
furnas estreitas, e duas màjjáiiadas, e que dissera se 
ia céo n'cste mundo era aquèlUrç e chamando o tal Bo- 
fe para ver, elle se escusou, que não gostava de dese- 
nhos, mas instando o dito José Maria veio com effeito 
ver, e disse que d'aquelle que gostava, e apagou-o logo 
porque não viesse alguém que entendesse, o que fez sus- 
peitar á dita denunciante se um sujeito da dita casa es- 
crivão do crime da corte, é casa, chamado Joaquim Ma- 
noel ', seria também cU mesfna sociedade, visto que não 
:çscòndéj&$ò isto iáPôfte, B qurf se tratavão por manos, que, 
Segundo lheitfítoo. dito, era costume nos da ^sociedade; 
e que não csftva certa no dia em que isto succedeu, mas 
que^^a depSs do meado díaate Março passado; e que o 
^Éjybge qu&i&o lhe declarou as cousa»)iâo lhe decla- 
flPolugar nejÉto tempo das suas assembléas, mas sim 
qjea tal socieáflHe tinha muitos sócios, tanto n'este reino 
como em outros, e que se communicavão," e que tinhão 
muitas vantagens, que se ajudavão uns aos outros, e 
, q$e tinhão varies signaes com que se entendião, mas 
qidfella çs nfò sabia, e que nunca a persuadirão a cousa 
alguma pertencente á dita sociedade ; e que além d'isto 
que tem declarado, nunca lhe observou cousa que conhe- 
cesse ser opposta á religião. Esta é a informação que 
gchei, que fielmente sujeito ao «títito tribunal. — Lis- 
boa, 28 de Abril de 1803. — padre José dos Reis 
Marques. » 

1 Este Joaquim Manoel era Jog&uim ^Manoel de Moura Leitão, morador 
na rua da Atalaia. (Almanak de*fW3, pfeg. 220.) 



<■ . BOCAGE. 133 

Veio Deos em auxilio a quem, acoimado de impio, ar- 
dera sempre na mais verdadeira e santa piçdade. pro- 
cesso não foi avante : ou porque os motivos fdlegados 
pela intrigante não parecessem bastantes aí) santo offi; 
cio; ou porque amigjafedo poeta lograssem intervim 
decisão do tribunal ; |^porque o tribunal antevisse] 
longe que $g eras da summa libertação (e, por desvtí 
lura, da licença também) se approximavão. 

Em mais de dous annos que Bocage ainda viveu, nunca 
mais se lhe bulio ; deixárâo-o poetar á vontade, tangei* a 
lyra de ouro e immortalisar-se; nem parece que as Marias 
Theodoras se atrevessem mais a levantar a voz contra o 
descomprehendido e indómito cantor. 

V <»•**. ; 

CAPITULO IX ' * 

Constituição e ináog hábitos de Bocage. — Sua ultima residencial 

envolve-se-lhe o aneurisma. — Sensação geral nb^tablico. . 

que então compôz. — Adeos. — Anecdotas- raiVÉipns do 

TftdoflRt ] 



sua alma. — José Pedro da Silva mentHgf&doVMi Bocage. — , 
Agostinho de Macedo classificando José Pedro. — (fAgulheiro dos ; 
— Publicação dos Improvisos. — Versos a amigos. — A Nelson. — Os 
seus últimos amores. — curandeiro. — Sentença de um medico. «•» 
Bocage fulminado. — Morre de terror. — Retrato do poeta, feito m& 
seus últimos instantes. — Suffragios. — Sepultura. — Versos reciUÈti^fof 
Torresão ao baixar o féretro á cova. — Os despojas mortaes 4A tào 
grande homem confundidos e perdidos para sempre. — • UltiiÃo sonnde 
Bocage. — Soneto composto por um amigo durante a agonia de Elma- 
no. — Epicedio por Filinto. — Lapida. » assento em Setúbal na casa do 
nascimento do nosso poeta. — Projecta-se-lhe uma estatua de bronze. 

Et mon hiver s'est tpproché, 
Quand mon printemps s'écouIe à peine. ■ 
Millevòye. " 

Somos chegados ao cume da vida d 'este homem tão 
notável, cuja fama no sef£te^jf igualou a dos mais fa- 



154 LIVllAHIA CLÁSSICA. 

vorecidos. Temol-o idolatrado de uma sociedade nume- 
rosa, e ávida de versos, ouvida e festejada a sua voz, aca- 
tado em todo o reino o dom divino com que, a exemplo 
de Orphéb, maravilhava e concitava as turbas, e vai, nào 
O&stante, e na curta idade dos seus quarenta annos, 
trnncar-se-nos entre as màos o estame de uma tal exis- 
tência. 

Corria o anno de 1805. Da casa do conselheiro José 
de Andrade de Carvalho mudára-se Bocage para uma ca- 
sinhota na travessa de André Valente n° 11, terceiro an- 
dar (hoje n° 25). A rrmà fiel, a sua Antigone, ainda o 
nào desamparo», nem defcmpara; camifaha com elle 
are o fim; admirou-o nos dias da gloria, estremece-o 
nos dias do infortúnio £ 

*„- Na pobre habitação 06 poeta solução cada dia tristezas 
muito amargas; allucinada a irmã percebe a passo e passo 
o caminhar da doença que tem de arrebatar-lhe o com- 
panheiro; Bocãgtfdc dia a dia je jtf, definhando; os 
&nigos, os admmffiires, encarào pPWmT ptn desgraça 
tremenda, e nem puíerão crer ainli^í* , 

Era débil e doentia a compleição do poeta ; fraco de 
membros, pallido e mortiço de còr, dir-se-hia que o es- 
tro Qjie o devorava lhe sugava toda a seiva da átnargu- 
nuHPfeiistencia. Alanceavào-o habitualmente dores in- 
comportáveis; diz-nol-o elle próprio : * 

% 

Ferein-uie os ceni fmnhaes do rheumatismo; 

e frequentes vezes esteve nas ultuft|s. Da grave enfermi- 
dade, em que perigou na índia, jã falíamos. Nào raro 
acerta de queixar-se Bocage de pfssima saúde : e, cousa 
. digna de attençào! aquelle, a quépi alcunhào de impio, 

* e, sem cjtae, cheio de con- 



!t +^ v BOCAGE. ' 135 

trição, invocasse o auxilio divino. Nà enfermidade que o 
acommetteu, pouco depois da sua cheg^ja da índia, 
corapôz elle o seguinte soneto : ' Jj tf 

Pouco a pouco lethifera doença X ^ ^ 

Dirige para mim trémulos passos. ^ yí 

Eis seus cahidos;wÉcillentos braços ; * : "Vsr"> 

Eis a sua terrífica presença. > 

Virá pronunciar fatal sentença; èk.- : 

Em meu rosto cravando os olhos baços? " 

Visa romper-me a vida os ténues laços 
A fouce, contra quem não ha defensa ? 

OhlJÊpi, deidade horrenda, irmã daaprte! 

Vem, que esta alma, avezada a mil dífmictos, jà 

Não se assombra do teu, bem que mais forte. 



Mas ahj mandando ao céo mfjjifi ais contritos, 

Espero que, primeiro que o teu cÔrte, " , w 

Me acabe viva dor dos meus delictos. : 

De Bocage, àjtfno ijá de AnacreonlÉji de Horacioj.de 
Béranger^ :, s e jff eitegu e nunca jámj0^|lg|flespeito dcrtygfó 
rosnão pragiptygjppl deixou cahiftt&emi-jporto nos braços 
da desregrada embriaguez; mas o que. é certo, e nos 
affirmárào testemunhas, é que d amnjfi cava usualmente p 
estômago pelo continuo e quasi exclusivo uso de v ceçtas 
bebidas espirituosas e estimulantes, como ponj^Bte ge- 
nebra, e o peito pelo abuso incalculado dl fumo^Esse 
desregramento, a sua constituição invalida, as privações, 
fadigas e peregrinações, por climas inhospitos, mas sobre- 
tudo abalos moraesjje todo o género, forâo minando e 
ai lu indo tão estafada saúde, e precipitando-lhe o termo. 

N'esta casa da travessa de André Valente, para onde 
vqs apontamos, ex$eétbou-se-lhe a moléstia ; baqueou a 
grande árvore, exhausta,do syypco da vida, e c^pobre can- 

% 



136 LIVRARIA CLÁSSICA. 

tor nem suspeita sequer que já o está abraçando o anjo 
da morte. Èjgs incommodos habituaes do doente accres- 
ceu um AM horrível, de que nào ha esperança : uma 
dilatação da carótida interna, próxima ao ponto da pri- 
mem bifurcação da carótida primitiva, do lado direito, 
convertida rápido em aneurisma;: Assim lamenta Bocage 
A sua triste sorte na ode a Pato Moniz : 

Eira ano, do que ha sido 
Qual no gesto desdiz, desdiz nt mente. ' 

Diástole tardia 
^T* Já da fonte vital me esgarge a custo 
)jt/ÊL circulant^J 

Chorão os amigos ;fiprtão-se oí recursos e posses da 
aciencia :Jflft, debaliu^ahi se fina a olhos visto o ho- 
mem qdQBÉK *W*$z s antes &inda ep um luzeiro. 

Passou $ ^primavera, com a sua arregjfead^ de flores e 
esperanças! pasáftf tddo o verão, com õs seus dias cal- 
mçsos e creadores! sahio o pallido outomno, com a sua 
phjsionòmia suave e melancólica! entrou^ inverno em- 
fim; o inverno carrancudo, desconsolado e áspero, como 
um adeos de lagrimas ! v , 

Durando toda essa longa e penosa quadraEttgftiouvera 
príncipe mundano sabido inspirar sympatnwF profurtdas 
como e&te príncipe de poetas. Á mesquinha porta do 
quasi mendigo batião de minuto a minuto, inquirindo, 
com lagrimas na voz, os progressos da enfermidade^ ad- 
miradores, amigos, desconhecido$^$ji*ersarios. Lá em 
cima, junto ao leito da dôr velava sempre não só a incon- 
solável irmã, dentro em pouco ^orphanada de segundo 
pai n este irmão querido, masCfecthorte sajgÉàa e co^A^ 
stante do» amigos. Vêde,\vèd# quem s^* afÇp n'es*a » 



4 

"* 



> 
'■**• BOCAGE. 13? 

poBre camará nua e desconchegada ; são : Cardoso, Mor- 
gado de Assentiz ; Macedo; o illustre Bingr^D. Gastão 
da Camará; Paz; Mancschi; Almeida; o io^flne melo- 
dioso Pato Moniz; o laborioso Costa e Silva ;y ftuina ; o 
sábio Velloso; Blancheville ; Santos e Silva, patric^do 
poeta moribundo ; Torrç^ Soares; Sampaio, depois t'vjs- 
conde de Laborim ; e outros mais, de renome litterartfo 
não menor; .os amigos de infância, os companheiros dos 
trabalhos, os-irmãos na gloria, os discipulos, os efithu- 
siastas, todos alli con&rrèrão espontâneos, a prestar 
digno preito ao génio, a orar em coro nfiisonfr^pjilo 



áquelle grabato illustre, comtfrjtfum teinfe. 

Passão os dias; passâo as nôités^a JHpria casinhola 
nunca se vio tão perfumada e afâBra de ljemquerenças ; 
uns após outros os devoto! amigri^rom$<Y0«|^"uçosa^ 
por que se lhe^nigÉ apague nem ifcaorqa|^Wip sacro, 



que os desWa «fesatina, se altem%jun|p|Bfjenfermo. 
Passão os 4fngofcdTas, e nem um raiòÀ melhora; pas- 
são as tristes das noites cortadas de dôrce nem um sils- 
piro, nem um&irreligioso se escuta ao moribundo. Como 
foi ermvida, assim é nas portas da morte : poeta sempre. 
Pobre poeta! No meio das suas angustias, procura pa- 
gar desvijjgttretribuir em verso os versos que inspira ; 
improvisa ; tWaneia com a lyra cheia de uncçào f tqsteza 
resignada, já porém desornada daquelles çiplendentçs e 
fulgidos movimentos em que outr'ora consistia o seu 
tfrungpho ; é o sol no pécaso : grande, immenso ainda. 
Bocage é sempre J$ty&§£. 

Chegado aos marcos da eternidade, não tremeu; antes 
soube, com olhos já não jpportaes,deyassar as regiões sem 
JM^I? alimj|ter-se poeticá*e profundamente do mais su- 
Tbírme aijjp^to^e Qjn hymnos de \\\e^V^& Wsfcaarcx^ 




458 LIVRARIA CLÁSSICA. 

próximo a subir á morada dos anjos, decantar em lin§ua 
de anjo. 

São adtaíraveis paginas, que por si sós tornarião im- 
marcescivel a gloria de um poeta, alguns dos sonetos que 
então compôz ; por exemplo : 

Não mais, ó Tejo meu, formoso e brando, 
Á margem, fértil de gentis verdores, 
Terás (Talta Ulysséa um dos cantores, 
s Suspiros no áureo metro modulando. 

Rindo não mais verás, não mais brincando 
\T Por entre as nymphas, e por entre as flores, 
Ojô ro divinal dos núfi( ; amores, 
wRzephyros azues o affavel bando. 

Co'a fronte já sejfc myrto, e já sem louro, 
O arrebata de rojo a mão da sorte 

t salutar, e á margem de ouro. 



Eil-o em fragas de horror, sem luz, J! stói4TÍotte; 
Sôà d'aqui, d^alli, piado agouro : • *•* 
Sois vós, desterro eterno, ermos da morte ! 






Nestoreos dias, que sonhava Elmano, 
Brilhantes de almos gostos, de áurea sorte, 
Pomposa fanlasia, audaz transporte, .*. 
As azas cerceai do orgulho insano. 4 -^ 

Plano de um nume contradiz meu plano, * ■: 
E quer que se esvaeça, e quer que aborte : , 

Eis, eis palpita, precursor Ja morte, * * 

No túmido aneurisma o desengano. 

Adeos, ó génios que Ulysséa admira : 
(Cantor que honrastes, honrareis, cantores) 
Versos, prantos* lhe dai, que Elmano expira. 

\ ' ■ . 

Deixai-lhe a cinza emfb, fataes amoras .">• 



*? 



? 



BOCAGÇ. 139 



E vós, do extineto. vate a campa e lyra, 
Virtudes, que exaltou, cobri de flores. 



Se o Grande, o que nos orbes diamantinos 

Tem curvos a seus pés dos reis os fados, 

Novamente me der ver animados 

De modesta ventura os meus destinos ; , 

Se acordarem na lyra os sons divinos, 

Que dormem (já da gloria não lembrados) £. 

Ao coro etbereo, cândidos e alados, 

Honrar com elle um Deos ireis, meus buímos. 

Mas, da bumana carreira inda no meio, 

Se a débil flor vital sentir murchada , # <Èfc 

Por lei que envolta na existenck veio ; wf 



Co'a mente pelos céos toda ^smiada, 

Direi, de eternidade ufano e chljio : r ^a»., 

« Adeos, ó mundo! ó natureza! ó nadafflS** 

#Kjf — ' |- 

Meu ser esporei na lida insana 
Do tropeV-de paixões que me arrastava : 
* Ab! cego eu cria, ab! misero eu sonbava 

Em mim, quasi immortal, a essência humana : 

De que innumeros soes a mente ufana 
A existência fallaz me não dourava ! 
:£ Mas eis succumbe a natureza escrava, 
•! Ao mal, que a vida em sua origem damna. 

«* Prazeres, sócios meus, e meus tyrannos, 
Esta alma, que sedenta em si não coube, 
No abysmo vos sumto dos desenganos. 

Deos... ó Deos! quando a morte a luz me roube, J£ 

Ganhe um momento o que perderão annos, 
Saiba morrer o que viver não soube. 






r 



140 jf LIVRARIA CLÁSSICA. 

Se na que, morna e lúgubre, murmura, 
Corrente averna, como as sombras densa, 
Der queda enorme a sôfrega doença 
Que â vida quer sorver-me a fonte impura! 

De eleitos vegetaes sagaz mistura 
Não foi rigido estorvo á morte infensa : 
Só pode aos olhos meus virtude immensa 
A do horror ferrolhar morada escura. 

Arde, ó estro ! Fulmina o monstro humano, 
Que origem vil a si chamar presume, 
E á causa divinal repugna, insano. 

■.v Salve, principio d^lma, ethereo lume!... 
Se um Deos não fora, que seria Elmano ! 
i q vate porque existe o nume. 



Não multiplicaremos transcripções. Ao admirardes 
essas linhas, não estais vós lendo n'aquella alma? Não é 
para estes hymnos, para estas palavras de uncção, que 
foi traçado o Sursum corda? \- 1* 

Arranqúemo-nos porém ás reflexões que na mente nos 
tumultuão, e continuemos a historia de Bocage, n ? esta 
fúnebre quadra. 

Exacerbára-se-lhe o génio irascivel, como uma anec- 
dota o mostrará. Contou-nos o visconde de Laborim, que 
tendo-o visitado poucos dias antes da sua morte, só dia- 
logarão palavras de religião e fé. Alumiavão apefras o 
escuro quarto as velas de um oratório, armado aos pés 
do leito. Querendo o amigo lerlihe a conhecida ode, que 
em seu louvor compuzera : Jfc*. ^ 

Se pôde um mocho piador nas selvas 

lançou mão de uma das velas do oratório. Ao ver aquelle 
movimento, Bocage, que até alli parecera .prqgtrado, 
ergm-pe a súbitas, tenta debalde ajoeU^*, e tendo bra- 



* 



y-ag 



BOCAGE. \ç 141 

dado, com vfcz de Stentor, contra o impio, o perverso, o 
athêo, que assim vilipendiava os symbolos da crença, 
dirige-se fervorosamente a Deos, como despindo-se da 
responsabilidade de um attentado nefando! 

Tudo, n'aquella ardente imaginação, produzia impres- 
são medonha. Aos 28 de Março de 1805 falleceu, no 
mesmo prédio onde Bocage agonisava, uma sua sobrinha, 
de cinco annos; celebrou elle essa morte em duas qua- 
dras, que improvisou : 

Trocando amargas horas 

Por doce eternidade, 

Gemeu co'a natureza, g 

Folga (x/a Divindade*. ^^ 

O que é nos céos contemflrofc 

Contemplo o que era aqui. : 

Gemi ... porque gemia ! 

Rio... porque ella ri! 3 

Pareciio anáuncios que lhe mandava o céo. Com pouco 
intervallo se finou também na mesma propriedade um 
homem de sessenta annos, e uma menina de dezoito; 
como estes golpes repetidos o impressionarão, manifesta-o 
o espavorido soneto que por então escreveu : 

No abysmo tragador da humanidade 
• (D^ella, d^eíla não só, de quanto existe) 
; Go'a mesma rapidez, Elmano, ah! viste 
Sumir-se a florecentee a murcha idade! 

Olha em muros, qjgjfeste a escuridade, 

Olha a còr de teu Sb, a côr mais triste! 

Talvez (e agora, agora!) elle te aliste 

No volume cm que lê a eternidade ! < 

ÕJothas funeraes! Clarão medonho! 

.^B3rmorte~á mudas, solitárias scenas ! 

Em vós apfpiado os olVxos ^ou\\o\... 



1 



142 ^ LIVRARIA CLÁSSICA. 

Aftí porque tremes, louco? Ah! porque penas? 
Sonhas i^um ermo, e surgirás do sonho 
Em climas de ouro, em regiões amenas. 

Quão religiosa c contrita se ia esvaindo aquella alma 
puríssima! Escutai-o murmurar : 

Já débil, tíbio já, meu estro adeja, 

E eutenebrece a mente, e poe-lhe espanto 

A morte, que no peito me rouqueja. 

Esta melancolia amarga que ás vezes o pungia, disfar- 
çava-a outras vezes,'© génio galhofeiro, que nem a defe- 
cada mão da enfermidade conseguira demudar-lhe. Eis- 
aqui uma d ? essas raras estrellas que softriem no tene- 
broso céo d' aquella vida erma : 

Chalaça minha, que chibavas tanto 
*Na sucia dos tafues! és uma feia. 
Deixas-me andar talvez por língua alheia, 
Ou lá njto sei por onde, e eu cá n'um canto ! 

Vem para casa, vem, que me ataranto 
Sem te ver ao jantar, sem ver-te á ceia. 
Da 4(ferma historia minha urdindo a teia 
Dè-se a folguedo o que se deve ao pranto. 

Contem-se o vai melhore o não é nada ; 
Seccos bons dias da hyperborea mana, 
E a roda viva da vivaz criada. 

Amolleça-se o fel da vida 
Até que a morte, de broi 



Nos leve á cortezia até Panf^' 




Muitos o soccorrêrão ; mas era a moléstia dispendiosa, 
e cahíra o poeta na pobre barra sem possui? com kgne j 

mercar o medicamento d'aquelle dia/Qumpre aqui da? * 



í 



BOCAGE. A* 143 

algum relevo ao nobre procedimento de um homem do 
povo, tanto mais merecedor de ver seu nome exaltado, 
quanto mais singelos e desinteressados forão seus actos. 

José Pedro da Silva, homem sem instrucçâo, mas de 
coração angélico, timbrava em proteger muitos homens 
illustres do seu tempo, para os quaes tinha sempre bolsa 
franca. Desde os fins do século passado, teve a honra 
de ver, durante vinte annos, a sua casa o quasi domicilio 
de todos os talentos, e ponto de reunião de uma socie- 
dade escolhida, sanctuario de espirito e de gosto. A loja 
de bebidas de José Pedro, ao Rocio^tinha uma casita, 
ao rez da rua, onde nem um, só dia deixava de ir Bocage, 
a qual era geralmente designada pela honrosa alcunha de 
Agulheiro dos Sábios. E como qualificava esta reunião a 
viperina lingua de José Agostinho de Macedo? prologo 
«l.o Poema dos Burros nol-o dirá : » f 

« O espirito da Asneira preparou, no centro dcíisboa, 
um domicilio, onde quiz levantar o throno e dilatar o 
império dos sandéos. Uma fatal força centrípeta para ftlli 
puxa os mais asneirões de todas as classes ; e d'alli, assim 
como do club dos jacobinos de Paris se (repararão c 
dirigirão todos os golpes contra todos os governos que 
não fossem revolucionários^ se dirigirão todos os gol- 
pes, todos os tiros, todos os ataques contra o império da 
razão, do gosto, da critica, da poesia e da prosa, em que 
reluzisse um vislumbre % siso commiim. Fallo de um 
botequim, ou café de urajjflpé Pedro da Silva, no ffocio 
He Lisboa, sanctuario còipecido, não só aos vagabundos 
tle Lisboa, mas aos estúpidos e alarves provincianos, que 
se persuadem figurar no mundo, quando, entre calotes, 
app|recem3seis mezes no immundo e sebento theatro de 
ílna estalagem, *nde, entrarão tom x^tóm íy 3 ^ ^ 



i 



W -^jf LIVRARIA^CLASSICA. 

sahgm embrulhados na manta que (Telia furtào. Uma ne- 
ceasiíj^de fatui, que nos arrasta n'este século para o cahos 
da ignorância, desde a desgraçada installaçáo d'esle bo- 
reqlmn, fW^alli presidir a Asneira, desde que o qpte 
Itacage^levántade de motu próprio e poder absoluto em 
siíltào do- Parnaso portuguez, alli começou a beber e a 
gritar. Alguma cousa se susteve ainda a razão, nos dias 
d'este jjnentecapto ; mas erâo já muito dobeis os ef feitos 
dásUa resistência, etc, etc. » 

tnesmo J. A. de Macedo pòz ao pobr^ homem a al- 
cunha, pela qual até a morte foi conhecido, de JosétPedro 
d^mminarias. Eis o que deu lugar a esta graça. 

No dia 16 de Abril de 1811, cdebraiiáo-se em Lisboa 
a expulsão dos exfercitos francezes, José Pedro mandou 
armar na frente do seu botequim no Rocic^uma brilhante 
illuminação, com innumeraveis lufces, quadros allegori* 
cos, aWos, flores, etc. N'um quadro, por exemplo, estava 
Wellington coroado pela fama\j. levado á immortalidfrde, 
e«ste verso:' 

Vales em Lysia, quanto Fábio em Roma < 

r 

e uma porção de quartetos.» 

Tendo nós, em 1847, consultado este bom José Pedro, 
a tempo em que era cttefe de contínuos na camará dos 
deputados, narrou-nos, com a modesta §ingeleza, apaná- 
gio da verdadeira beneficência, o modo como oçcorreu 
ás necessidades do seu pobJJinvalido. É elle quem dieta 
o que em seguida transcrevemos : •;• 

« Desde o dia em que Bocage adoeceu, nâo lhe desam- 
parei o leito, visitando-o todas as fordes, e a tínal per- 
manecendo ao seu lado qu$$i sempre. No progresso da 

{ «: * - * * % 



k 



BOÍAGE. «l* ^5 

moléstia, incommodadb de observar tamanha inJigçncía, 
e notando que todos* <fe afhigos lhe dirigiâío prod^Ôç8(ís, 
a que geralmente respondia com Ijons Sonetos, ^i^t"" 
lh^eu: "^tJSS 

« — Ó senhor Bocage, dá-me èslefe versos dãJultiiços 
dias? M' 

•< Não m'os recusou, e sahi logo de sqa casa para a 
inyjrensáf reg^, a dar ao prelo a collecçãoqUe ç«re 
com o titulo : Improvisos de Bocage, na suq mui péfigosa 
enfermidade jjfãedkados a seus b'ons $ amigos. Pa$sad*s 
três tfas, andava eu por toda LisÊoafjtyedhido a qttptos 
encontrava um cruzado novo, por cada folheto, para Bo- 
cage. No primeiro dia^passei 112, noeegurçdo 64, e assim 
seguidamente; o que de dia chegava ia colher, na mesma 
noite lhe en^gava. Depois oírriguei-o a incluir axem- já 
•piares a muitas pessoas ricas, em cartas do seu JM*opria 
piolho, efue tinhão geralmente em resposta, dez, vinte 
mifréis e mais ; de fótfna (Jbe, não só até á morte subsistio 
d'esses recursos, masiffihaáí durante §nnòs viveu d'elles 
sua irmã ; e declarava*%ocage que nunca gQq sua vida 
vira tanto dinheiro junto. » 4 ' ■ 

No dia em que Bocage recebeu a .primeira remessa, 
mandou a José Pedro o seguftite soneto : 



Jasino anlavef, qub zeloso eil 
Bens que mesquinho Apollo aos squs permittc; 
Que os, m> longe ta\\M do ermo limite, 
^jlgros meus dias comp^fe adoças ; 

t)o honroso* plectro meu com jus te apossas : 
Folga ! Os fados me dão que 4p sombra qrite 
Em que altas famas some o negro Im, 
liia^me ás tonres fatal é como ás cíoças. 

Ptffebéa prepotente <& tempos doma. . « 

vil Él Yfc 



I 1? livraria Clássica. 

f 

'Com teu nome, por mim, que cinjo t o louro, 
^tyv Alvo pldrao na eternidade %sãam. ^ * 

* n* D^fcátfaJJe, abrindo o génio o seu thesouro, 
\j4Qufr'dra n'alta Grécia e n'alta Roma, 
.Pagava em metro o que devia em ouro. 



Com afeito, todos os poetas e versejadores do seu 
tempo lhe dirigirão então poesias, ejencarniçados inimi- 
■goSjflom elle se reconciliarão, Doeu-H&jporém na alma 
não rêcefoer iguaes provas de syippathia de Pimentel 
Maldõíiado, ^kFájraz de Campos, coimo o\evelou ja'estc 

Melibêo ,me cantou , cantou-me Oleno , * 
, Nomes que vai dourando á famafo gyrb. 
^ GloriatAmphriso me deu,, me deu Belmiro^ i 

ffe [., ■* Olivo me cantou com metro amefto. f 

SolW do vil, misérrimo terreno, j 

Aos astros fui nos extase$4 e Elmiro. ' * 

Por mim de, Tempe o flori)ío^r3$ro 
Teu»gons oúVio, Pierio; ófíteus, Álmeno. 

Junto a Phebo, ou a si, me pôz Tomino 
E outrife... las entre o. numera inspirado 
Não tive Ismçno (oh dm, nâo tive Alcino! , 

Jaz mudo aquelle (e jmfrtáe ignoro, 4 fado); 
Este, absorto emleji prosperoi destino, 
Se eifeece de que JDlmano é desgraçado. 

Parece porém que Maldqflulo se lhe chegou depois, e 
ainda a todos fez Bocage estffílespedida : ^ 

r Garo a Pnçb«rç ^ Phuinto, a Lysia, â Fama, 

Ha bcia fonte e argiva immerso Alfeno; * 
Pelas deosas irmãs fadado lsmeuo,** 
Em que é numen ratão» *e*<Mfe fc tesflHBA ^ 

* 



I» 



, * BOCAGE* '* - *I47 

** 
Canoro Meh*k£<VÍK)r quenT derrama '/ 

Inveja e gk>rj|<£ $ectar e o veneno; r ju£ f 

Ptylosopho cãnfror, meu doce Oleno, f ,£" tf . 
Doce ao sócio infeliz, que em ais tectaÉBft 1 ?" . *-* 

* * % * * ^V f 

Elmiro, que de Sophia o gran thesouro ^ J . 

Revolves, possessor, com mão suprema, .%^* » * 
E outros, que o Tejo honrais, o Vouga e oDiríira! 

Dai-me queJfcLethes sorvedor nâp tema; if i\ 
Por vós «jjjRprado ao tempo em versos d'ourb, | * 
Cyshe talvez que soe a hora extrema. " 4* 

Entre as poesias que então élflBpjífcmentí djrigio 
aos seusjQais particulares amigos, tonhw eáte &netf : 

Terno Pa|, bom, Maneschi* Aurélio caro, 
Alvares extremdfeo, Almeida humano,. „ 



Ferrífo prestante, valedor Montatkf* M .fltj 



Moniz, que extrthes teu nfme ao. tempo avaro . . ^ 

A^ Freire, Vianna, Blancheville, ó raro,' 

Moral thesouro-.que possue Elmano; 
Sócio de Flora'; e t\| de som thcbapo lb> , 
Ó cfsne! E tu, Cardoso, em lettras«lar<S$ 

Monumento honrador da humanidade, 
(Se o fado me sumir d* nforte nol&rmof 
GraJ» vos deixa cordial, Jteudade. 

Ireis nos «ersos meus do globo ao termo, 
Por serdes, com benéfica piedade*, , . . 
Núncios, núncios de um deos ao vate enmo. 

De vez em quanto comópaha Bocatjjfe 1 ,- por distracção, 
prcsias a objectos estranhos. Pouco mais de um mez antes 
4f sua morte, pagou Nelson com a exjjj&encia a esplen- 
dida batalha de Trafalgar, ganha atfbYàaç, esquadras hes- 
panhola e francéza unidas^ o que inipirou ao cysne mo» 
rifcundo este soneto i 




dt 8 



ÍW* * ■' LIVR^IA CLÁSSICA* 

•Pree-avend&^os vaivejtgria instar * 
a v^JE do brfrajno heróefelanéo ; 
■ \^ÍHpí ^Jpha, sem desar dJl-< 
i Pelaa ondaj fataes jurou Mavorte. 
*^ , • " * » " . m 

;Nôlson! raid do sul! raio (Jo noTtój* * * 

- * t|]eptas qp lide ao Gallo a ov8nte*htstoria. 
* "?,£ Jpfctífror* paç de ti surge a vietoria, * 
í íf 16urtsn|iiniortaes te cinge a morte. 

4 % I ltao*co» dòr, não çom ais, o ThracSRume 
Nojjjhor^funeral te vê lançado, w. ■ . >, 
a ^ wL teus olhosextinc^ o Rareio lume. 

^/Sl^dMjH^HtOlympo, alumno ímado! % 
y WHg^vSSffiJpf fci teu costume : ♦ * Éá 

• Bo^Wèra.tèu obstujpe eu fiz teu faío. * 

Tend<$|e pltap" ejtoalhaSo que Nelson havia sido as- 
sinado por unr jjftioneiro francez, eis como Bocage 
lificlb' este acto?^ * vijfc * 

1- * * * * * * * 

*D instrumenta brutal da acção mais crua, * 

Que ejnisaitfá» o louro -a N#ltori*purpureia : 

\ ÇVoflMi^^gloriá, óf^forfe » (audaz vozeiau 

DesfeitW golpes mil, jí sombra nua). C* 

* * 

Primeiro a deesa altdfcta recua» ' 

Assim depois o espectrt*sentenceia . v. 

« Em caracter sánguineOSS mundo leia •* 

« Do mundo nos annaesíí historia tua; 

« Em ti ujg^injrasffQ mais o Averno alcança, 
« DetiofiágLo fejo algoz i» (diz co^m gemido), 
E o lemufjBf|fclo ás fúrias lança! ■■- *" * 

+Z*"* -*■ f 

Cahe nos fjafernos com feroz húmido. t , ■* 

' ^ Eis sobrgjfle sacode Alecto a trahça ' * ^ 

E de ^sjfloes sem conto eil-o mordido. ' 

♦ ■ ** * * ■ 

Este momentbHL^assumplo lhe inspirou^ainda qs se- 
guintes sonetos : ~ * , » . t„ , \ & 



# BOCAGE. * t f*9 

De pâÇ impenetrável seimSft) 

Ledo en 4^VÍÉ as ' K&Êk no P' 1 
Ó França, teuJHnafnmo^mmigo, 
Por timbre te^ não triumphou sei* 

Ardendo cm gldlgja o t coração robus^> * • 

Onde teve o yojméo leve o jazigo. - c; 

Nelson venceu... venceu por uso antiço^JSíK^ •• 
Mas da victoria foi desconto injusto. ** i M** - ,* 
« <^*> ,* A 

Bem que «MfcQte a Gallia em rubrNft Fago 
(DomandoJpmorte quem seus brios ilonSÍ) * I * 
Crí reparar com isto immenso estrago 

# Ah! d^onda.um Nelson cabe, 
Assim, d&heróes privando-je. 
Sferóes feinriâo no teu seio,jp 

' * .* _ " 
.Mãi de chefes heróes, de her< 
A Gallia herdou de Romano 
Seus "filhos no igrteo jogflK 
*Vírâo márcios lifles tremer curvado^ • 

Mas alta lei dos pgnetraes sagraq&L . * * ■ ♦■ 

figuou, que o fatal inípeto i*eport^jÉfc ."* '«■ ^ 
JírVcndo em raios no opeano au môrléJP*- * * 
Te obedece, ó Britannia, ao mundo, aos fydos- 

t m 

incontinente o Gallo ò4>eos da gtfèrra ; 
miglo audaz sobre o. pélago iracundo* 
Da victoria os pendões, troando, aferra... 

Ah! nutrão' sempre assim r:Aw% profundo. % t 

Um triumpba no mar, outro na teVrt^ 
* Se ai mãos se derem, que ser^^Hundo * 

> ■* . * '** 

Co'um diadema de luz no Elysio enttya ? *. 

envolto Nelson em sanguíneo manto : • . j* 
Lavflou rica manes desusado espanto, '- " * 

• E a turba dos heróes o rodeava/Ç 




Ift) , # LIVRARIA CIÂ*llCA. # 

Grita Alexandre (^Rlle os olhos crava^J^ 
<f Quem és 9 fiiie^nt4temrtae^U^lterlinlo? j 
<$ i Sou (lhe iTz) quem remiifiçde fAgKmnto 
. «|purojptffeurva, oppressa, e quasSácma. 

« Deixei de sangue o pego rubicundo; 

* « Trophéos em meu sepulcro a pátria arvora ; 

* i1i8tp(li sobre o Gallo furibundo.*.. » 

i. 5n§/Wde fljrvx» o Macedónio chora : 



que immflnsà extensão venceu do «puído, 



# Quem #neêra um só povo inveja agof 



* 




umido oceano ^ 
Impjjjtto guerrttro, nauta ousado, ^ v 
MB valor e jortuna sempre armado 
jylHWJb se. ostenta o heróe britanno. 1 * * 

Sem da morte ^rfher a fúria, o damno, * 

JÊBBárc as aguas éo ftilo£plebrado, ' 

flj^ois de o>stf%ito Sunda ter passado, . * 

Foi terrifr do Francez, do Castelhano. 

tSlAs ^iterfindendo ousado 'e forte, 

Seus diaíricabòu, mas combatendo -** 

No mareio jogo, que preside á morte. 

Louros ganhando, a #4J|f defendendo, 

('«deu da parca horrenda jjjj> fero corte. *J* 

Tnumphando viveu; morreu vencendo. 

Dir-sé-hia, pelos Sonetos que precedfem, je por oulfros 

lugares, que BocaÉta esquecendo a sua estirpe, renegava 

*as glorias da fraqja, apenas exaltando a Inglaterra. Nlo 

era assim, como o mostráo um d'essca mesmos sop£typ : 

Max de chefes hefôes, e outras poesias. 

Os ultifto* amores que lhe cncantájão a^. existência 
farão os de uma <Ja$a, que julgamos çejrmos ainda co- 



nhecido, e a *flPSj, já quasi nogpnjies paroxysmos, en- 
dereçou o sej 



q, já quasi noAiaes p 



Be um nume aos ais de Elmano, oh ! dom mimo 
Thesouros meus! Aljôfares desamores!" ,» 
Ao ver-vos deslisar, cahir nas flores, 
De um gesto como os deoses milagroso, ~ fe~ 

Orvalho pareceis do céo piedoso, jç ^ 
Qae meigotflivio influe em agras àfc&, 
Que humedece estes áridos vapores, . 4 - 
Este hálito da morte, infesto, ancioso. 

Sentindo o coração por ti regao^/f. 
Gomtigo, ó néctar, a existência jbÍQS 
E brando para mim se ri meu fafift" 



* .V 



Arfada ! Jtove e tu só podem tanto ! i 
Meu mal dorme... repousa embriagado 
Das iml delicias que me dá teu pranto.- 




3* 



Desde que reconheceu ser-lfíé a mortç inevitável, 
a querida utopia de*se unirem em vida Já4he não afagava 
a esperança, como talvez tivesse eH* ment| ? jfcrigio é 
mesma o seguinte sonQjto : * 

Comtigo, alma suave, ahna^formosa, 
Celeste imagem, de qp&WÊÈh me priva, 
Qwfòu vivesse não quiiftnão quer que eu viva, 
Cei (s^endo ethérea!) ao coração penosa. 

Vendo sumir^-me por morada umbíosa, 

. * Ah ! Não desmaies, a constância ávivajL 

E por artes do amor, de amor, ó Divia, 

Do não gozado amante os manes goza.-* 

* * Mais doce orvalho de teus olhos desça 
Á (linda como tu) melhor das flores, 
Que em .terno â campa se abotoe, e creôça :* 

passôa entre os meninos voadores** 



*» - .* 



* - 

.152 LIVRARIA CLÀ&IC 

<$ One a mai aos fiMfcfcos ; e pare 
Da morte a s<fltò%^rd|pa de ai 

Note : sc poaím que errtdamentrffemtrfcurai ao pe- 
ríodo dá ultima enfermidade algumas poesias, e até das 
^jue alludem ao boato da sua morte. A saúde de Bocage 
era naturalmente precária, e empeiorada ainda pelo viver 
desregrado^ No jtomo III, dado á luz y *sob suas vistas, 
em 1804, estão duas bonitas epistolfè, uma éH f Sebas- # 
tiào Xavier Botelho a elle : 



wf Sobre ergiudà&Haontanhas que rodeia... 



* 




a resposta : " ' 

Se lúgubre existência amargurada... ^ 

es só assentão na gravíssima doerfÇa^jue o tq^fc^ás 
da morte, e na noticia que gradou /le hsroer falle- 
cido, o que por censeguiAteJfoi em jpraâ^alg^p anjps 
anterior., ao passamento, como já atráf dissemos*! • 

A noife Se 20 pára 21 de Dezembro dê 1805 foi de 
tormenta no pobre (fuarto da travessa de André Valente ; 
reconheceu-se o doente ua&fWtimas agonias, mas nem 
por isso deixou de admirar çedificar, por sua piedade e 
resignação. ♦ * ♦ 

« Será chegada a hora? » murmuravão entre» si ater- 
rados e a chorar pelos cantos os consternados amjgos, 
que lhe erão todos família, e da mais intima. « Será cfie- 
gada a sua hora? » 

O que iria lá por dentro no grande espirito, duráhdo 
taes momentos amargos (Jp pranto! Se víssemos o que lá 
ia por dentro! Que si^tej^ntraposiçã^Éfete id?as! que 
antevisões! que antegosUjjfãa bemaventurança! 



*4J^ 



+ 



*DOCAGE. 153 






Junto ao lcitofãe&liiiftno, e e^^j^to um sopro vital 
animava ainda aquHl£fc)sto sublime, se via, debuxanHo- 
lhe as feições, entrem lagrimas aos circumstantes, um 
pintor cheio de coração, um amigo do poet* o saí Ilen- 
rino. Era para ver o sôfrego enthusiasmo com que o ar- * 
tista se esforçava por exceder-se, resuscitando, com a 
magia $> lápis, o jjpeta moribundo! f . 

sol àç terra, o gallido sol de Dezembro entrava tam- 
Gem cada dia, mas á*mcflo, e soleinnejba estancia lacri- 
^sa da poeta moribundo, e trazia para o ultimo acto 
d'aquelle drama singelo da penitençi*run*como rlDexos 
benignos e melancólicos da despedida èiò anno! 

Ás dez hor^s c um quarto da manhã de 21-, recebida 
a absolviçjfif final da boca do venerável Dr. José Ma- ^ 
ria, depois bispo do Funchal, e de Bragança, passou áfl 
poéd||... jiãojáíó o poeta, o christào fervoroso e ^ÊÊÊm 
blime, os numbraes (Já vida eterna, contando apenas qua"* 
rent|annl|e t^maies. , > 



f «? Comparecerão, no dia immediato/espontaneamente, 
*■ na igreja de N. Sra. das Mircês, muitos ecclesiasticos, 
para celebrarem missas e suffragios pelo repouso eterno 
" «Ja alma d^deÇunto. 

Sepultáfào-o, pela direcção e á custa do m^smo José 
-í^dro^outro e melhor Jáo), no cemitério das Mercês. 
Ujxi poeta, que poucos mezes tinha dd^sobreviver-lhe, 
í^*ei José Botelho Torrezão, recitou, no momento de 
^^ixav o corpo á cova, o soneto que principia : 

Nq^iensg^éo da noite o pranfbJiscorre... 

Ver n inserto na Tíollecção de pomas á fnorte de Bocage. 



•%■ 



*&* 



154 LIVRARIA CLAlfs^A. 

Haviàó sido fallazçs as esperanças que x> mesmo amigo 
expressara, pouco antes, n^estoutfojMBeto : 

Se á*morte afoga de Bocage o canto, 

Se as forças promptas do Immortal não descem. 

Se os céos á voz da dôr não se enternecem, v 

Perdes, ó Lysia, teu melhor encanto. ^ 

Jr * 4à 

Ah ! Vê que um 4ate assim merece tanto * ^^ 

Como os heróes que as eras ennobrecem ! "^ „ m 
Faze votos ; as supplicas não cessem : 

Impéoé o luto enifim, a mágoa, o pranto. £ 



& 






Eu vejo Lysia aos pés do altar sagrado,- 
hálito de um Deos sorvo e respiro, 
Bocage à morte, á campa está salvado. 

Parabéns, Portugal, mundo \ Eu deliro! 
Não deliro : nos céos está mandado 
Que de Ulysséa o sol não finde o gyro. 



a que Bocage respondeu pelos meimoAeonsotfntes ;• 

Dê Elmano antes da morte é morto o canto. 
Do Pindo inspirações já lhe não descem ; 
Mas inda aos que em s^us males se enternecera 
que somente é dòr, parece encanto. 

Ah ! ditoso o que deve á pátria tanto, 
Ditoso o que altas musas ennobrecem : 
. Bem que afincadas oppressoes não cessem 
De abrír-lhe mais e mais a fonte ao pranto ! v 

Da mente, em que fervia o gaz sagrado, 

Um Deos, que respirei, já não respiro*, 

Um Deos, por quem do nada estou salvado : 

Nos versos, quente* dou, talvez deliro; ... • *, 
Da sorte aos mjÉÇrpoxisar foi já njatoáàdo, 
E aos teifs impra seguir da fama o gyro. 



% 



lqp 



•OCAGE. 155 

Eis-aqui a ultinja ppesia compota por Bocage; possui- 
mol-a do própria guj^p do Morgado de Assentiz : 

Já B^fcge nãowu!... Á cova escura 
Meu estro vai parar, desfeito em vento... "* 
Eu aos céos ultrajei ! o meu tormento 
Lqjfe me torne sampre a terra dura ! 

jfcpheíjjo agora já quão vã figura 
rim prosa e verso fez meu louco intento... 
Mysa... tivera algum merecimento, 
Se um raio de razão seguisse pura ! 



Eu me arrependo : a língua quasi fria, 
Brade, em alto pregão, á mocidade, j} 
Que atrás do so)q fantástico corria : % 

Outro Aretino fui ! A santidade 
Manchei... Oh! se me creste, gente ímpia, 
Rasga^meus versos ! crê «a eternidade ! 



w 



* 



Aqui daremos outro soneto, que também possuímos 
por lettra de Assentiz, e cujo valor consiste em têl-o 
composto quem acBava de ser amanuense do moribundo 
para o qift se leu, e haver sido começado emquanto Bo- 
cage era ainda vivo, e terminado já depois da sua marte, 
os versos de Manoel Pedro de Araújo Ribeiro : 



s ^ 



Mordeu Bocage ! e fez a despedida 
Gomo cysne christão ! Ah ! na passage 
Mais em quatorze versos fez Bocage 
Para a gloria immortal, que em toda a vida. 



Re£pBheceu, no orbe diffundida, 
Da eterna mão a sacro-santa image; 
E quem, em vida, ao céo fez duro ultrage 
Chora na morte a penaiinerecida. 



Do Pindo r gs musas, lúgubres, descendo, 

De louro ffSqtt verso coroando* *g 

Vão sobre a pejra, este lettreiro erguendo : 



t-.r 



# 



155 LIVRARIA CLÁSSICA. 

\ 

b < Cantou, chorou Bocage. E assim chorando, 

« Como chrislão morreu, de dòr gemendo ; 
o Cóiho cysne acabou, em paz.cjafffido. • 

Tivera aqui talvez cabimento transcrever centenares 
de produções que este desastreso successo inspirou aos 
vates; mas para^ fecharmos o capítulo com chave de ouro, 
escolhemos entre ellas o epicedio de Philinto Eljsio : 

Dá-nos,£usto o morrer, do sol radioso 
PetAer a amada luz, passar d , umíerelro 

A Styx e ondas do olvido, • 

'*, Deixar honras- e bens, deixar o alcáçar 
De prazer summo, o poslo que acarêa 

Acatamqplo e mando, ' 

Que inveja induz nos Grandes... Descuidoso 
O alado povo cane no mortal laço ; 

Cahe, cada dia, a turba 
Que habita o bosque, o rio, em nada súbdita 
As cruas mágoas, aos til mil sossobros 



Que nós so Aremos, míseros 



■» 



N'estas almas" humanas acurvadas * 

De infortúnios. *Desfructão melhor wta! 

Tyranno de annos verdes 

Nos apunhala amor. A sede avara * 

D'esse ouro insultuoso nos subverte, 

Por lucros, a virtude. K. 

Vai-se após honras vãs, ensanguentado ^ Jj 

De abrolhos, o ambicioso. Outro, que a taça * * ^ 

Esgotara da inveja, 
(Paixão infame!) as veias se empeçonha. 
Quem não sentio, no seio, os crus verdugqà 

Da tristeza, ou despeito? 
jfe ódios? de iras? ou de rancor que ultraj 
terno dó do fraco, a quem opprimem, 

coração nos fende,. 
Na terra, no ar, no fraudulento oceano, 
Não ha animal que igual tormento sinta, 

Qual dà Natura aos homens. 
Da essência divinal o raio eterno, / 



m *fP 



►*# 



bocagj;. íw 

Que nasce e anda comnosco, os dias turvos * 

Da vida nofcespinha, m 

Com paixões ÉMvNem farto de áTáncear-nos 
Vivos, na morte ensopa a lança inteira. 

Mais agra, alli a morte, 
No espelho da lembrança, nos ameaça. 
Labora o juizo. E # morte é mais medonha ^ 

Pensada, que sentida. * 

Teste- a a mente de espantos. Mais affavel ~ 
Foi co^as feras Natura, não lhes dando, 

Na imprevidente idéa, •- ^ 

C^antegosto da dor, que os homens bebera, |T 
Trago a trago, na taça que lhe emborca, 

A cada instante, Erynnis. 
E a nossa vida c assim. Mesquinhos homens! 
Nascemos para lanço de ruins fados, 

Emqu/wto a alma em nós mora. 
Quando o céo põe seus dons, suas virtudes 
N'um lindo peito, a morle (essa invejosa) ^^ 

Nol-a rouba, apressada. J£ 

verde, o esmalte d , um risonho prado, * f^ 

A purpurina tez da fresca rosa, 

Assim os come Syrio, 
;sim do anno se acanha a juventude, 
lando gelado o inverno, o aceso estio, 
* Mais que "enfadosos, durão. 
Sim refloresce a airosa primavera, 
Se outr'ora se murchou. Mas não Éemoça 
4 ^ As cãs verdor da idade; 
Que nos ferra a velhice eíiferma e triste 
(Tetra hospeda da morte) e ás sombras ocas 

J)a campa nos despenha, 
^É^de enojo infindo. — Tu, Quintilio, 
"Hpn as musas favorecem, honrão 

w Entre os que a Apollo seguem, . ^ 

E as lições lhe ouvem no fendido monte. 
Olha um Bocage, t gloria do áureo Tejo, 

N*esla éra alto prodígio, 
Brazão d , e*te orbe. Ascosos vermes pasce 
(lltragc inB\jtpvel !) no jazigo: 

Nada lhe' aproveitarão 



158 LIVRAM* CLÁSSICA 

Raios de Phebo, mimos das Piérides, 

Bem «que, por IJje assistir, deixado houvessem 

vocal gemeo cume : 
Quando elle, à lusa terra, todo o coro 
Harmónico attrahio, porque entoasse 

Da Elysia o engenho, a fama, 
Proezas de seus reis, de amor proezas, 
Como £ôde esse Dcos, que infante o amara 

Não o arrancar á morte, 
Deos que as canções lhe amou salvar divinas. 
Vir-te-ha, Quintilio, assim, também; lapplauso, 

Que te esclarece no orbe, * 

jCahirá, comtigo, no jazigo, mudo; 
Grandezas, honras não terão mais polpa 

Que a pobreza do vulgo. 
Teus sacros versof, que silencio e pejo 
Plantão nas línguas, plantão nos sembjpntes 

Dos mestres do aurco plectro ; 
Que as dextras lhe entorpecem ; que, de inveja 
Lhes deslisão das mãos papel e pluma, 

Perderão a toada, 
Que lhes vinha do peito altivo e forte, 
Onde as musas os sons lhes afinavão, 

Co'o delphico alaúde. m 

Tu, não menos verás estofas ondas, 
Que todo o humano avista : ao nauta avaro 

Tens de pagar teu óbolo, 
Afim que à adversa margem te navegue. •A 1 *» 4fc 

Porquê aos elernifluos, vagos rios, " ^ ^^ 

Que o leito nunca mudão, 
Não semelhamos nós? Nem aos balancem 
Do oceano coevo aos céos? aos céos sem terj 

Não cabe lastimarmo-nos, ' 

Que, em despeito de Eólo, e de Neptuno, 
De Jove iroso, c dos fendentes raios, ' 

Entone audaz a cima* 
Ponteagudo penhasco, e eterno jaza, 
E se ufane seguro, altivo seixo ! 

Que ás sevas mãos das Parcas, 
Morrão engenhos grandes, quaes Bocage! 
E o ferro não tremeu na mfio de Clotho, 






9-*m 



ÊOCAGÊ. m 

* f. 

Quando cortou tal vida? 
Lamentável destjrío ! varão, que altos 
De engenho ^tybmòs logra, nd$ furtão ! * 

E deixão fe era em éra 
parvo blazonar co' a calva"fronte ' 
Quem, desd'ora entoará, como compete, 

Com sons marciaes, na tuba, 
Do luso braço a gloria, já que ó extincta . 
A musa que a cantava altisonante? 

Quem dirá seus combates? 
O desteggdo arjrojo de Pacheco? 
A intrepidez de Nuno? o^ forte Castro? j» 

% rigido Albuquerque? 
Quem o ousará, Quintilio? Â tua musa 
Lhe aceitafia a tuba;- se (fugindo 

Todo o terreno assumptip) , 

Não tomaSse por alvo o céo, e os hymnos. * 
Quem nolso Homero, quem Virgílio nosso 

Heróes cantará lusos? 
Senão Er mini a, que o seu nome espalha „ # 
Na amplidão do orbe; como quando PBebo, 

Sentado sobre o Pindo, 
Toma a lyra nas mãos, modula os versos ^ 

Com que, a saudarem Jove, ensina as musas. 

A voz, que em cheio solta, » 

Vai desdptondo o som de longe em longe, 
£ estendenío-o — as folhas estremecéç m 

Nas madeixas dos troncos. N 

Erminia, Erminia, as musas te convidão, * , 

Ciro o seu alaúde te offerece, 

E para ti o afina- r , 

Junto de si te quer. Oh ! que alli podes 
4Nflfef louvores dignos de Bocage» 
^^Com voz igual á sua. 

Onde estás, Sapho? Aonde estás, Corina? * 

Sapho e Corina, ó Ettainia, em ti concorrem : ' 

Concorrem melhoradas* • 

Erminia, suecessora tu só restas 
Da lyra de Bocage. Tu çonsola-nos 

4 Da poria do grão vate. 
Clio não queira ; ohj não consinta Apdlld, ^ 



160 LIVRARIA CLÁSSICA. 

Que (daoj á fouce da impia Libitina 
", Bocage) um vate falte, JÊC±. 
• t}ue nos cante a mtude! OhMRiha Ermfeiia 
Enternecer as penhas, prados, selvas, 
Com saudosas endechas, 
' Em memoria de Elmano, aos Lus^s caro! 

^ . ERMINIA. 

« Elmano; oh! vede! A abelha, em teu moimento 
« Sempre o seu mel componha ! 

« Manná dos céos, e bálsamos da ArabiS; 

« Alli dislillcm ; louroí enverdeçâo, 
« Heras, nevados lyrios ! 

«■ Basto rosal, com mil botões o abrace í 

« Mangerona, tomilho, c ajtfr vermifta, 
« Que annunej| em queixumes 
1 « Çe Ajax a dor, n'um ai tinto em seu *eio ! 

i Do Sado as nymphas, oymphas do áureo Tejo, 
E as indicas Nerêas, 



'\ 



« Com lagrimas a campa lhe humedeçao ! 
*« cíof 



ottofcom fria mão, cortou-te o fio 
Á rida — desbotado - 
«^Pélo infortúnio, pelas manchas lívidas 
* « Da dpença importuna, precursora ' 

< 1)0 angustioso gume. 
'« Ouve, ó Bocage, as quehas lastimadas, 
« Que entyp as^graças, que Elysia matada ao Olympo * 
? c Pelos dons com que a exalça, 

r « Mescla arrojados Íntimos suspiros : +*Ét 

* « Ai! falta-me um Bocage! um igual canto*. 

« E a voz alli desmaiaria : 
« Que ao romper das entranhas magoadas 
« Lh'a entala a perda do cantor sublime, ~i /* 

« E a fronte inclina e geme. » 

Solta, ó Quintilio, o nó £ie te ata os hymnps 

* . Na melica garganta^ teu Bocage - « * , 

^Desfructa a luzido Elysio, — 
Feliz Elmano, Salve! As negras roupas 
Da amargura as rasgou a mesma fouce 
— Que te ceifou a vida. 



*• 






BOgAGE. % 161 

Já arraiada de luz tua alma illustre, * 
Á sombra dos«fediferos loureiros, 

ÀijpirandAW^ aromas 
Dos hesperidcs pomos, na alcatifa 
De esmeralda que, a fio, dà de rosto £ 

Ao bochèrno, á geada, ^ 

Heróes te vêm saudar, heróes, que o néctar * t jkW 

^Comiigo bebem, festivaes convivas. \' 

Vêm-te saudar os vates, \ 

O tão famoso Eumolpo, o Orphêo divino, ., 

Lino, Àmphião, Musèo, e.p que, aquecendo 

A tuba, abrasou Tçoya ; 
Vem deMantua o Cantor, e Horácio, e Pindaro; 
Com mil jpplausos, ledos apregoão : 

Não%ede a Itália, á Grécia - 

A lusitana musa. — Tecei Proas v * 

De hera e louro a Bocage. Nós, saudosos, • . 

* Dizemos : a Vale, Elmano ! » 

Essa poesia, c vibrada de tal lyra, é já uma apotheqsflÇ 4 
* mas a posteridade a, quem Bocage instituíra testamenteifa 
Jf de sua gloria, tem-se ido, por todas as formas, desempc# 
í5 nhando do encargo. 

A seiva nova que as modernas instituições fizèrão cir- 
cular no grande tronco social, toda rebenta em fructos «r 
flores de benção. Nossos dias estão satisfazendo muitoí 
jfebitos de^nossos avós. A Camões, além de outros mo- 
numentos litterarios, e^pios levantando uma estatua 
condigna. A quem tanto se lhe assemelhou, a Bocage, ou- 
tro tanto sUccederá n'este século, para" o que já um ten- 
tame brilhante se anticipou. * 

No dia 10 de Abril de 186$, ás cinco horas da tarde, os| 
Setubalenses, unidos todos nrflmesmo sentintento, pres- 
tavão já um primeiro Jributo de homenagem ao grancle* 
poeta, assentando uma lapida commemorativa na frente 
da casa onde o berço de^Bocage fora embalado. Caq^aS 

vii. W 



102 LIVRARIA CLÁSSICA. 



de nuàAft, hynftos, girandolas, repiques, poesias, flores, 
enthusiasticos applausos de multidií&s attrahidas de longe, 
tudo abrilhantou uma festa nacional, que sem duvida 
gera seguida por outra, quando no meio da praça de Se- 
túbal se erguer o vulto em bronze de Elmano. 



CAPITULO X 

#■:. 

Bocage considerado pbysicamcnte. — Retrato do poefa po£«llc mesmo. — 
Outro do mesmo autor. — Quináo em Montaigne, — Outro retrato do 
poeta (eito por um seu inimigo. — O verdadeiro è authentico retrato de 
Bocage. — Quem o descobriô. — Historia d'essa preciosidade; sua des- 
cripçâo. — Elenco dos retratos que do nosso poeta se têm publicado. ^ 



.... Cromo se desconfiasse da pericia dos pintores, .ieve 
cuidado o próprio poeta de nos deixar o seu fidelissii&o 

^transumpto, pela própria mão debuxado com estranha 
firmeza de linhas, e felicidade na semelhança; eifc-o : 

Magro; de olhos azues; carSo moreno; ^ 

*l Bem servido de pés ; meão na altura ; . * "St 

Triste de facha; o mesmo de figura; 
■* Nariz, alto no meio, e não pequeno ; i- f 

incapaz de existir n'um fl&terreno ; k 

Jíais propenso ao furor dQfue â ternura; 
Bebendo, em nivcas mãos, por taça escura, 

De zelos infernàes lethal veneno ; 

■* 

Devoto incensador de mil deidades. . 
(Digo, de moças^mjl) n'um só moflrento ; 
Inimigo de hypocritas e frades; 

Eis Bocage, cm quem iuz algum talento. 
Sahirão delle mesmo estas ^verdades, 
^ N'um dia. em que se achou i&ais pachorrento. 



* 







É 



» 



BOCAGE. » 163 

Por temor da cenanra, imprimio-se* 11° troo: 

£ somente no altar amando os frades ; 

e por decência deixou o autor de publicar o ultimo verso 
como o compôz : 

• N'um dia em que se achou c... ao vento. 

A, hoje finada; amável e espirituosa poetiza Sra. D. Ánna 
Marecos,|gie presenciou muitas vezes os improvisos de 
Bocage, nos recitou este soneto (inédito) , que, estando 
n'uma sociedade, cm Santarém, ella lhe vio fulminar: 

te cerúleo gabão, nâo bem coberto, ,« * 

ftttseia em Santarém chuchado moço, 
Mantido ás vezes de succinto almoço, "\ 

-» De cêa casual, jantar incerto. .. * 

Dos esbrugados peitos quasi aberto, 
Versos im|jínge por miúdo e grosso; *?r 

^ E do que^fem phrase vil, chamão caroço, 
Se o quer, c vox clamantis in deserto. 

jfr Pede ás moças ternura... c dào-lhe moles! 
* Que, tendo um coração como-estalagc, 
*. Vão n'elle accommodando a mil pcixotcs. 

Sabes, leitor, quem sojfre tanto ultragc, 
Cercado de um tropei|Bifranchinotes? 
É o autor do soneto : é o Bocage. 

Dizião todos, os que forào seus íntimos, que raro des- 
pontava sorriso na jj&acilenta face do poeta ; só os olhos 
azues, vivos e grandes, lampejarão íntelligencia; erào elles 
por si sós a admirável expressão de lodo o rosto, suave 
e enérgica expressão, que para logo sabia alliciar-lhe os 
ânimos. Os cabellos, longos c soltos, andavão sempre 



#4 LIVRARIA CLÁSSICA. 

desgnjÉfefdos, e*fts mãos sempre a augmcnUr-lhes a 
dcsorflh. Bocage camft liava curvo e inclinado, com 

€)açencia e porte de rachitico. Pendia-lhe o tronco ao 
ver-se, coriio se as extremidades inferiores lhe não pu- 
lsem com o peso do corpo. 

Com a estiolada e mísera saúde que já mencionámos, 
pôde Bocage desmentir sem custo as doutrinas do bom 
Montaigne (Essais, liv. III, rap. 5), que para tudo quanto 
se refere á intelligencia e imaginação requer alegria e 
muita saúde : ■ kà 

« Errão os mestres, diz elle, quando attribuem os 
" rasgos sublimes do espirito ao enthusiasmo, ao amor, ás 
rudezas da gUcrra, á poesia, ao vinho, esquecendo a 
saúde :ma lá cousa como saúde forte, cheia, descansada, 
con^sem interrupção a logrei cu no verdor dos annos ! 
É esse fogo de alegria,, que em meio dos mais arrebata- 
* dos, se é que não dos mais extravagantes transportes, > : 
excita na alma lampejos vivos como natural espirito não ?' 
tivera força para creal-os. » K *? ■ . 

Todos fbmos nossas fraquezas; havia uma no nosso 
poeta sobre que elle não admiUia chufas; era a enormf- 
^dade dos pés, ainda mais conspieuos por monstruosos cal- 
canhares. Um dia, por desgraça, vendo-o D. Gastão, de 
calção novo, de sarja, á porlp de uma loja, comprimen-^ 
tou-oi^Ó Bocage! estás mafgnifico, mas lembra-te do 
pavão, n#o olhes paia os pés ; » gracejo que a poela muito 
tempo não perdoou. * m i*' 

Um dos antagonistas de Bocage qpereveu por baix:o de #* 
retrato d'elle estes versos : 



r 



Esqueleto animal, cara de fome, 
De timão, e chapéo á LolIaWeza, 



BOCAGE. íte 



Olhos espantadjços, boca acesa, .-, 
D onde o fiímo, que sahe, $, todos some, 



Milagre do Parnaso em fama e nome, 
Em corpo estuporado alma franceza, 
Com voz medonha, lingua portugueza, 
Que aos bocados a honra e brio come. 



N*este esboço o retrato tenho feito : 
Eis o grande, o fatal Manoel Maria, 
Que até pintado perde o bom conceito. 

EradeTima lividez sepulcral, e (salva a exageração do 
crime) com razão dizia de si mesmo : 

se trago escnplo A 

No rosto cor da morte o meu delicio... • W" 

homem nào se andava sempre a namorar, cumpre 
confessal-o, c a cada passo reconhecia a sua fealdade, 
como se vò na Satyra a José Agostinho. Os seus dolos 
physicos certamente os não tinha na conta em que ava- 
liava os moraes : 

Nào devo á natureza um grato aspecto ; * 

* É verdade. meu mérito consiste ** 

N*um claro entendimento e puro affecto * . 

E todavia, ao estudarmos atlentamente oa.Oaços phy- 
sionomicos no seu retrato, sentimo-nos abalados a suppôr 
que pelo seu aspecto se adivinharia o caracter das suas 
obras, como pelo caracter das suite obras se lhe adivi- 
nharia o aspecto. * 

De todos os retratos que d*elle exhtcm, afíirmav^ os 



1 A Nereida, idyllio. 



\ 



itS LIVRARIA CLÁSSICA. 

que o hayiáo tratado, que só um era de veras semelhante; 
esse ponSfti desapparecêra. Referimo-nos* ao penúltimo 
que Henrique José da Silva executou, e não ao que dese- 
rtou perante o poeta moribundo, e que acima mcncio- 
4 nárnos. 

Tivemos a fortuna de descobrir essa verdadeira pre- 
ciosidade artística e litteraria, cuja descripção e historia 
vamos bosquejar aqui para os curiosos. 

Pintado este retrato por Henrino no anno da morte do 
poeta, pertencia de propriedade a seu autor. Efte, vindo 
ao Rio de Janeiro, onde foi professor da academia das 
bellas-artes, o trouxe comsigo. Por morte do pintor, passou 
o retrato, com o mais do espolio, a séu filho, porteiro do 
musêo, op cousa assim; e depois, por fallecimento d'este 
herdeiro, o receberão no inventario suas (ilhas, netas de 
Henrino, e já nascidas no Brasil. 

Não deixa de merecer cspejIÉfmcnção a circumstancia 
de que no inventario foi o retraio avaliado em 1 04060 rs., 
c por suas donas adjudicado, como premio de serviços de 
advogado no inventario, ao ribsso arnigo o Sr. Dr. Joa- 
quim José Teixeira, distincto homem de lettras brasileiro, 
cjfie hojer por caso nenhum consentiria em desapossar se 
de um tal ornamento, sem preço, da sua já avultada ga- 
leria artística. 

Eis agrada descripç.ào minuciosa do quadro. 
* E a oleo> e mede 00 centímetros de altura, sobre 00 
de largo. Mesmo para quem não ||[o o jífe^ se afigura 
dever sor este o seu Authentico retrato, poS^omquanto 
como obra de arte não seja um primor, transverbera-lhe 
no?|osto uma não sei que vMa~ expressão de verdade e 
- vida, que a todos, até aos profanos, incutirá convenui- 
^ mento. jj 



BOCAGE. 167 

Em fundo de côr terrena se destaca a figura dojweta, 
enchendo todo q campo, menos na parte supeírar obra 
de pollegada e meia. Figura elle sentado n'uma cadeira; 
a cabeça encostada á mão esquerda; o cotovelo descan*£ 
sado na mesa, da qual se divisa pendente uma folha de 
papel, onde se lêm estes três versos *: 

Honra Elmano o pincel, e o plcctro Henrino : 
Compete aos vates dous, aos dous pintores , 

Correr na eternidade igual destino. 
^ Bocage. * 

Segura no papel pela parte superior um livro encader- 
nado, em cuja lombada se vê : Rimas de Bocage. Em cima 
do livro um d'aquelles antigos tinteiros redo^os de 
metal amarello, com uma penna de ganso. 

A attitude do braço direito do poeta está apontando para , 
os versos. «í. 

Descotre-se-lhe todo o corpo até ao joelho, pois, 
estando o poeta sentado, a coxa, em posição horizontal, 
serve de base ao quadro. 

1 Sào o segundo terceto do soneto de Bocage : - * 

Altas filhas rio génio, irmàs formosas, 

ó poesia ! Ó pintura ! Ó par sagrado ! 

Que nos jardins do amor rolheis mil rosa>, j. . 

Arcados mil, nos ponetraes do fado! • •*? 

Em vós absorto, cm vós extasiado, « 

Da sorbutào me acurvo ás leis penosas! 
iami Poramhaqpb mortal é dado 
(jHpgrem homens, o que cm german gozas. 

Forçando ao pasmo as almas superiores, 

Transluz um ar, um estro, um ser divino 

Do plcctro e do pincqhwMyons, nas cores : £ 

Honra Elmano o pincel, e o plec^ro Henrino : 

Compete aos vates dous, aos dous pintores | 

Correr na eternidade igual destino, v 

%- - 
^ ta * 



168 LIVRARIA CLÁSSICA. + 

O cabello é castanho .escuro, muito corredio, desali- 
nhado^ cahido pela testa, que é alta e estráta. Olhos 
grandes, e muito azues; sobrancelhas não bastas, curvas, 
assafe*Íntervalladas, e o intervallo entre ambas algum 
tanto enrugado. Nariz enorme, e de longo cavallete ao 
meio. Boca muito pequena, e lábios bem vermelhos. Vê-sft 
pelo azulado da face que a barba é espessa. A face está 
de tftdo rapada, e apenas mostra uma pequeníssima suiça 
jdnto á orelha. olhar é penetrante e perspicaz; a tez 
entre morena e pallida; avultáo porém nas maças do 
rosto as cores tào frequentes nos achacados de aneu- 
risma. 

Bocage veste casaca azul á moda do tempo, collete côr 
de canna, do feitio que hoje se chama á Napoleão, mas 
desabotoado em cima ; calças còr de canella. Ao pescoço 
traz enrolada em duas vollas uma como manta de lã ver- 
melha ; o collarinho não apptfece. 

Entre os pés da mesa se lê o seguinte : « Henrique José 
da Silva pintou. 1805. » 

Não tardará que o piaft^ a lithograpfiiajÊa gravura e a 
photographia vulgarisem este retrato. Pocferáó então os 
..curidUte, comparando entre si as diversas estampas que 
com o nome de Manoel Maria têm sahido a lume, julgar 
se o preciosíssimo quadro de Henrino merece ou não a 
palmijljljjfre elles todos. 

O Hosso respeitável confrade e amigdío Sr. Innocencio 
da Silva, recopilando as not1ci^q«R|té então existiâo 
acerca de retratos do poeta, disse o seguinte no seu mo- 
numental Diccionario bibliographico : 

« Cumpre dizer duas palg^ÉÉrcom respeito aos retratos 
que existem do poeta. O mais nel e aprimorado de todos, 
e até superior na grandeza do formato, é o de gravura 

; ■ *• 



# BOCAGE. Ifi9 

em cobre, delineado por Henrique José da Silva, c aberto 
por Barthcíozzi, logo após a morte de Bocage. $s exem- 
plares sãò raros. Por este se fez o de lithographia que 
acompanha a nova edição das Poesias de^ 1853^ e que 
sábio mais que soffrivel no seu género. Já ^lludi acima 
#aos que se achão no Panorama e Archivo pittoresco, e é 
que pouco ou nada valem. Além desses possuo mais três, 
de gravura em cobre, todos de pequenos formatyp, e a 
qual d'elles menos exacto e de menor mérito artistico. Ha 
ainda outro lithographado (cópia também do de Bartho- 
lozzi) que sahio com o artigo do Sr. Mendes Leal acima 
citado. » 

José Maria da Costa e Silva (Passeio, c. 1), fallando Jío 
retrato feito á hora da morte, diz : 

Henrique, 

Que de Elrmno as feições roubaste â Morte, 

Para que sempre os pósteros tivessem 

Seu rosto em teu pincel, a alma em seus versos. 

Também (noc. II), deseçpyendo os pensamentos que 
lhe lumtltijWô, ao vagar ií'urfi cemitério, exclama : 

Olho rasteira campa, envolta em musgo. ^ff- 

Digo comigo : — Aqui talvez repouse 
Algum novo Camões, novo Bocage ! 
Um, que levasse heróes a estranho mundo . • ^ 
Por mares nunca d'an tes navegados ; "% $£ 
OutrofTOie extemporâneo aos céos voasse 
Sobro wgpfc, de fogoi Abandonou-os 
A 9f£nethf$ forfena; em flor murcharão. 

Ha também um retrato de Bocage, superposto ao quadro 
da sua morte, á frente dàkPoesias Selectas, impressas no 
Porto, em 1864, precedidas de um esboço biographico 
pelo Sr. J. V. Pinto de Carvalho. * 



W 



170 LIVRARIA CLÁSSICA 



CAPITULO XI * 

Qualidades mornes de Bocage. — Alma contradictoria. — Seus sentimentos 
enr matéria de religião. — Devoção a Nossa Senhora. — Amor de pá- 
tria. — Politica. — Suas idéas sobre a liberdade. — Poesia por occasião * 
da morte da rainha de França. 



Perscrutemos agora as qualidades moraes do poeta; 
peaetremos com o escalpello alé ás ultimas fibras, desnu- 
dai! do-lhe os íntimos arcanos, e não poupando censura, 
nem louvor; contemplemos esse caracter multíplice, 
vario, tauxiado (por que assim o digamos) de elementos 
tão diversos! 

Foi a vida de Bocage a um tempo ardente e fria, des- 
cansada c irrequieta, humilde e sobranceira; subjuga- 
vão-o as paixões; eniouquecião-o os applausos; admirava 
os heróes, e os rasgos sublimes; dera o sangue pela pá- 
tria; as mulheres e Deos erifcos dous grandes ou I tos do 
seu coração. ■ ^ Jfc. « 

Não nos circumscrevambs porém a edjpvagas re- 
flexões^isto como a opinião prevenida injustamente 
cstigmatisou um vulto que tem direito de ser encarado 
á sua verdadeira luz. Nem sempre a justiça dos contem- 
porâneos tem collocado os homens no lugar que lhes c 
devido: Corneille foi condemnado; Racàflttoateado ; Mo- 
lière chamado impio; Lafontaine imrÉBB^Shakspeare 
selvagem ; Victor Hugo bárbaro ; Alfredo q£ Musset liber- 
tino; Bocage infame! Dar-se-ba caso que semelhantes 
adjectivos .sejào títulos ás poltrfoas académicas? 



ExaminemQs pois os fundamentos em que o julgamento 
de Bocage deva assenlar. - ™ 



BOCAGE. Vt\ 

Religião. — Era Manoel Maria, por natureza, crente, 
devoto, beaffc... supersticioso. Mil factos seus o áfemon- 
strárão, pofém até nas suas obras nos legou muita prova 
da piedosa disposição do seu animo. Pana assumpto 
quantas vezes escolhia a religião, sua grandeza e s#is 
mysterios ! palpita em quasi todas as poesias religiosas 
que escreveu profundo recolhimento, meditação im- 
mensa; dir-se-hia de muitas, que são verdadeiras ora- 
ções, escriptas de joelhos, para serem cantadas dáfjoelhos. 
Ouvi esta por exemplo : 

Ó rei dos reis, ó arbitro do mundo, 
Cuja mão sacrosanta os máos fulmina, 
E a cuja voz terrífica e divina 
Lúcifer treme no seu cháos profundo ! 

Lava-me as nódoas do peccado immundo, 

Que as almas cega, as almas contamina ! . c 

rosto para mim piedoso inclina 

Do elerno império teu, do céo rotundo. 

Es t Qnde o braço, a lagri mjfcp ropicio, 
Solta- me osjferros era que^ttoro e gemo 
Na eiftÉbâSde já do precipício ! 

De minf^roprio me livra, ó Deos supremo, m. 

Porque o meu cordão, propenso ao vicio, 
É, Senhor, o conlrario que mais temo. 

Demos na collecção diversos outros analogoaâç bellis- 
simos sonetos, ugíkexemplo os que se lêm notomo I, a 
pag. 5, 25 e 5ttHpmeção : 

« Qual novo «pestes, entre as. fúrias brada 

Os milhões de áureos lustges coruscantes..... 
Senhor, que estás no dflfquc vês na terra 

E para írotar o cuidado que Bocage emprega cm acudir 
V • \ * 4 



172 LIVRARIA CLÁSSICA. 

com certas notas, ás vezes pueris, quando as circunstan- 
cias o constrangem a pôr na boca de terceiro qualquer 
apparente impiedade. • 

Aaeim, na versão de Prvgne, Therêo e Philomela (das 
M$tamorphoses) ao verso : 



i 



E um Deos, se acaso um Deos no céo reside. 



apressojt-se em observar : « Linguagem própria da deses- 
peração; e vertida litteralmente. » 

Era Bocage particularmente devoto de Nossa Senhora. 
Aquella Mãi Sagrada, cuja pureza é o symbolo da per- 
feição, cujas glorias sobrelevào a todas as glorias, cujas 
dores pungem céos e terra, cujo reinado é sem termo, a 
Cuja prece tanta vez se mitigão as iras do Supremo Autor, 
cuja protecção é a esperança mais fagueira ; ella, a for- 
mosa pomba de Sião, que adeja sobre os ctípies da Pa- 
lestina, não podia deixar de inspirar delicias ao vate 
christão, e ser alvo de immenso affecto em peito natural- 
mente propenso a amor. r 

Por isso, muitas de suasfffoducções; afinais sentidas, 
as mais espontâneas, erão dedicadas á Torre Ebúrnea. 
Tal é, por exemplo, a ode a Nossa^enhora da Encarnação, 
que principia : 

.Acatamento cm si e audácia unindo 

c este soneto : 

Tu, por Deos entre todas escolhida ; 

Virgem das virgens ; tu que do assanhado * 

Tartareo monstro com teu pé sagrado 

Esmagaste a cabeça enUMcida ; 

Doce abrigo, santíssima guarida 

De quem te busca em Lagrimas banhado; 



BOCAGE. 175 



l 



torrente, com que as nódoas do peccado * 

f ' *\ Lav»uma alma que geme arrependida;. . ^ 

' ■ * . • '** 

\ i' Virgem, de estreitas nítidas cVoada; 

To Espirito, do Pai, do Filho eterno, * 

Mãi, filha, esposa, e mais que tudo amada; 

*■ Valha-me o teu poder e amor materno ! 
Guia este cego ! Arranca-me da estrada 
Que vai parar ao tenebroso inferno. 

Ê Nossa Senhora da Conceição a padroeira *o reino, 
da universidade de Coimbra, e de varias corporações sa- 
bias. A Velha Arcádia igualmente a lomára por protectora ; 
e nos dias das suas assentadas no monte Menalo, trazião 
Í os árcades por divisa um lirio, no qual a Virgem Maria 
£. % era mysticamente figurada. D'aqui veio o culto á Celestial 
V Senhora. A Nova Arcádia o renovou, c o dia 8 de Dezem- 
bro era por essa assembléa consagrado a içma sessão 
£► especial, em que de nada mais se tratava que de enco- 
*j mios á Virgem lmmaculada. 

*..* Por isso existe, no tomall do Almanuk das Musas, 

pag. xxv, uma cânçoncta<fc?jpinmedo á Divina Senhora, 
lida n'um d aquellcs anniversario # s, principiando : 

Que fraudes, que enredos, 

Que horrirel estrago, 

Famélico nrago 

Semeia entre nós, • *^* f 

Ocollo. escamoso 

jMtydo feroz? 

1 Por terra alongado 

Um'hòra serpenta, . 
E a cauda cqÉÉpta ' 

Enrosca emaneis, 
Outr'hora corisca 
Dos olhos cruéis. 



'* 



< 



& 



174 L1VRAHIA CLÁSSICA, 

e conchie : 



Celebrem- te sempre 
©o Olympo os cantores ; 
Perennes louvores 
* Te dêm os morlaes ; 

Teus cultos se vejão 
Crescer mais e mais. 

Da torra discórdia, 
Da inveja sedenta, 
* Benéfica isenta 

nosso Athenêo ! 
Mil graças lhe alcança, 
Mil bênçãos do eco. 

, Não olvidado d'este piedoso cullo, ainda em 8 de De- 
zetybro de 1847, Bingre, o derradeiro supervivente do 
Menalo, fônsagrou este soneto ao mesmo augusto as- 
sumpto :'w £"■' 

m Era n'este celeste augusto dia 

Por dever social, Virgem Sagrada, l: 

Que a vossa conceição immaculadu 
Cantava a minba antiga academia. 

Mu, alumno também, a voz erguia 
Para troar na olympica morada ; 
E co' a mente em fervor incenâWa 
Três vezes pura vos louvei, Mana. 
'V: ' 
D'aquella vossa Arcádia eu o primeiro 

Que, voando nas azas do meu canto, . im 
Era da vossa gloria o pregoeiro. 

Mas hoje que do chão me não levant#, 
Recebei d'esse alumno derradeiro 
A lvra, sem cantor, banhadaí em pranto; 
»' 
Nào podia Bocage agxar de ser dos mais assíduos ser- 



BOCAGE. 175 

vidores da Virgem Santa, em cujos louvoresfse inspirou 
para taes solemnidades, lendo a 8 de Qezembro de ^790 
o seu primeiro canto á puríssima conceição de Nossa Se- 
nhora, — de 1 791 , o segundo canto, — de 1792, a can- 
tata, ao mesmo objecto. 

*Teve entretanto momentos (mui raros) de espantosa 
aberi#ção, apezar de ser, de todos seus sentimentos, 
mais duradouro e vivaz o da religião. 

Com que humildade não reconhece elle e deplora 
aquellas propensões da parte material do seu ser, não 
para um atheismo dogmático, mas para o atheismo pra- 
tico; nào^para desprezo de Deos fructo de, convicções, 
mas podre fructo de vicios! 

Contra esta disposição terrena se lhe insurgia a intelli- 
gencia pura, que sempre lhe promettia emeiyja : 

"Á-í 1 

Hás ah ! mandando ao céo meus ais contritos, 

Espero que, primeiro que o teu corte, 

Me acabe viva dòr dos meus delictos. * 

A* flucluação de um espirito superior, a contradicçào 
que elle mesmo deplorava entre o eu mcfral e o eu phy- 
sico, collocava-o, segundo parece, na posição* horrível 
que o orthodoxo Racine revelou de si próprio n aquelle 
admirável cântico : 

Mon Dieu, quelle guerre cruelle ! :/ 

Je trouveíteux hoinmes cn moi : * " 

f I/un veut que, plein d'amour pour toi, 

Mon coeur tc^oit tpujoucs fidèle ; 
L'autre, à tes volontés rebelle, '*" 
Me revolte. contre ta l#i. 



Uélas ! En guerre avec moi-m§mâ. 
Ou pourrai-je trouver la paix? Sj|F 



17(5 LIVRARIA GLASSICA Jft 

Jejfeux, et n^acoomplis jamais; . v 

Jc veux! mais (ô misère extreme!) •» •■* 

"i 1 ** Je ne faisipas le bien que j'aime, * t 

Et je faia je mal que je hais. ir 

* jáí grâce, ô rayon salutayre! * 

Tiens me mettre avec mòi d'accord ; - & 

Et, domptant par un doux effort 
Cet homme qui f est si contraire, t ' * 

Fais ton esclave volontaire 

• De cet esclave de la mort. 

I/un, tout esprit et tout celeste, 

Veut qu'au ciei sans cesse attaché, 

Et dcs biens éteriiels touché, . 

* Jeltempte pour rien tout le resle; * 
> Et Fautre, par son poids funeste, í* 

♦ *. Mc ticnt vers la terre penché. 

\ ' * ^* "* \ - 

AmorJÉÊÍatria. — Parec$ que eA este èud^^^age um 

sentimento real e intenso, a julgarmos por r J8uitas <lc j£, 
suas procjucções. Já ponderámos haverem sido as glorias Êk 
de PortugaLna Ásia o que mais vivamentefo impressio- jH 
nava. A figura dos Albúquerques terríveis e Castros Cortes ™ 
se lhe antolhava gigante á imaginação. Ouçamos como 
clle se exprime acerca de Affonso de Albuquerque vin- . 
gando-se dos Agarenos traidores aos Portuguezes, e to- 
mando Malaca : * ■ 

^ Em bando espesso, em numero infinito, 

'^Defende aponte o bárbaro Malaio. *. A 

Eis que, entre horrores, emulo do raio, 

Albuquerque immortal vòa ao conflicto. * 

Assim que assoma o claro chefe invicto, 
Terror da prole do feroz Sabaio, ** 
Gela os netos deitar frio desmaio, 
Os Lusos soltà|j|a victoria o grilo. 

1 - * 






rM BOCAGE. 177 

■ ~ * * 

Victimas são do postuguez Mavorte 9 

Inda aquelles que mal na fuga alcança; f .* 

leva no ferro transmigrada atnorte. *' ; ■ vir? 

Mas já sobre trophéos o Jieróe descansa; 
Havendo, por seu bfaço illustre e forte, & • 

^; A pátria, a natureza, os céos vingança. 

Ao* salvador de Diu, D. João de Castro, dedicou o se- 
guinte soneto : 

Blasphema Rumecão, jura vingança . # * 

Aos manes infernaes, ao pai maldito, 

E contra Diu em pertinaz conflteto 

£f industrias esgota, as forças cansa. £ <* 

tk ' 
Munrdo de magnânima esperança • \ 

portentoso ctafp, o Luso invicto, 

t veneráveis i 



* 




craveis nraros infinito Jk. « 

ro trojfa mil vazei lança. <W - 

iunjna caterva as armas mede ; 
fíhcui&ltflo ás do Rhodope a memoria $ 

Sobi%"&stil multidão raios despede ; 

E quando finalmente a lysia gloria 
Vê o extremo fatal e inda nao cede, 
Eis Castro ! eis a virtude ! eis a victoria ! 

% Sempre com o pensamento n'aquelles dous heróes, la- 
mfliita a decadência do dominio ptfttugucz na índia, com 
o soneto que demos no tomo I, pag. 16, e começa: '■■**► 

1 Por terra jaz o empório do Oriente - 

Como idéa associada dos males que' Portugal padeceu, 
a troco das glori^ colhidas por siiàs "navegações longín- 
quas, e pelo dobrar do Cabo Tormentoso, compôz este 
valente soneto : W 

VII. >«k 



178 LIVRARIA CLÁSSICA. 

* . Adamastor cruel! De teus furj 



jMfeX|uantaÊtaes me lembro horrorisado i 
^MfTOi! m|^rô"! Quantas vezes tais tragado 



» 



*■ ^r Do soberBBflríente os domadoçes ! 

•jm Parece-mè que, entregut a vis traidores, ** m 

* . Ea|Du vendo Sepúlveda afamado, .£ • * 

* *" Co' a espete co'os filhinhos abraçado, ■** * J 
Qual Mavorte com Vénus e os Amores. 

Parece-me que vejo o triste esposo, 

Perdida a tenra prole; e a bella dama, % . 

Ás garras dos leões correr furioso. fc# 

Bem te vingaste em nós do afouUT Gama ! 
Pelo» nossos desastres és famoso : 
Maldito Adamastor ! maldita fama ! < 

9 

£ Restauração de Portugal dedfem & soneto qdfe se lê 
á pag. itjj/jtp tomo I d'esta^idlecç^ e começa jfi. 

Cesarôes , Viriatos , Apimanos » >'.^ \ * 

- V éí 

A pátria, em geral; agradecendo as sympathicas provas IwS 
de affecto que .recebera, dirigio esfoutro, por occasião 7 

da enfermidade que o arrebatou : 

De Elmano a musa, que entre imagens vela, 

Emquanto, ó nattireza, estas calada, 4fc 



JL. Carpia do áureo Pluto abandonada, 
^rjlE Pluto era de bronze aos prantos d'ella : 

* ▼ite Elmano a musa, que a memoria anhela, 
^ Conforma o plectro em dôr co' a Voz magoada ; 

* E dos piedosos%il8 tu apiedada, 

Gemes, ó Lysja- ^Mpãi suave e bella. <^, 

Qual arde avara sede ante um thesoufíP* 
Pátria, amor ant£ o metro *me flammeja, 
E o que em verso me extrahe, me volve em ouro. 



i 



BOCAGE. 179 

D'alma em torno a^orrir-sc a gloria adeja; « 

E (mercê de alta Dfsia) immunc o tauqÉÉK' à^ÚâÈk 
*Êntre as sombras letfiaes inda verdefa.flB» ^Uf 

Em muitos elogios wams^ticos, odesf<ele$ias, etc, se 

tintáo iguaes sentimentos de enthusiasmojpara coia' 
a dcv seu berço, expressos em pafeyras análbgftStg 
estas : 

Lysia! 

% Ó plaga superior ás plagas todas, 

Qu^déste ao mundo antigo um novo mundo, 
Que, ímmensa no valor, no espaço curta, v 

Transcendeste os confins da humanidade, 
Ijfeaste execução lá onde apenas * 

Ousará* abalançar-se o pensamento ! 

Er* tal emfim a «f&geração, que parecia sahif-fheMa 
alma aquelle verso% j^ Sh# % 

Se^ Lysia baquear, baquêa o mundo. 

Note-se mais que os assumptos épicos ou trancos, de 
que a sua musa se enamorara, todos os extrahio dos fastos 
nacionaes ; fácil é pois reconhecer quão vivo ardia no 
peito de Bocage o amor da sua pátria. 

Politica. — Esta palavra, na moderna accepção, ainda 
nflft existia em tempos de Bocagje. Já o volcão francez 
toma feito a sua erupção tremenda, mas ainda a corjranje 
cUt lava não tinha invadido os campos do Douro^T^. 
As^luas tendências porém erão toBas liberaes,<|KfaQ j£ 
tivemos occasião de observar; e se houvesse fallecido dj|- 
zeseis annos depois, sem duvida noS* teria legado hymifos 
e cânticos á libenjade. N'csta matfcífri, bem para si mesmo 
compuzera o vèrao : 

Em século de infâmias, sou Romano. 



180 LIVÇARIA CLÁSSICA. 

Comquanto o seguinte soneto ge nos afigure pouco bo- 
cagi|go^aqui o transcrevemos ,*visto fearçêl-o o Sr. Inno- 
ce^cio da Silva ftdmittido como autiientfco : 

* Sacudo, inexorável despotismo, , *3í' 

jg • 'f Noftstp) que em pranto, em sangue, a furía cevas, !Jj* 

Que em mil quadros horríficos te enlevas, íf 

Obra da iniquidade e do atheismo : ** 

4 Assanhas o damnado fanatismo ,,J — 

Por que te escore o throno onde te elevas; 
+ Por que o sol da verdade envolva em trevasr 
£ sepulte a razão n'um denso abysmo. 

1 Da sagrada vittude o collo pisas, Jf 

. E aos satellites vis da prepotência ? 

■t > De crimes infernaes o plano gizas; . , . -jfc 

^ Ma§ , apezar da barbara infplencia, %# 
Reinas só no exterior ; n«t tyranmsas 
Do livre coração a independência. 

% 

Mas a liberdade dofcciíito, das aspirações fie Bocage, 
era a que une a sua imagem á fraternidade dolSvangelho, 
ou ainda a que engrandece um povo até eleval-o ás altu* 
ras de uma Roma; não a que, gerada em sangue, só de 
sangue- se alimenta; não a que vive de derrubar, sem 
eyjgir monumentos sobre as ruinas dos abatidos ; nSi a 
gdpboçverte o homem em fera, e que o denomina irmão, 
\piuraJ|jfeiiartnais negro ainda o crime de prostral-o;^âo 
á&ue proclama igualdades, á moda dos Tarquinios, de- 
tjjpando cabeças de papoufas ; não a quê serve de degráo 
a ambiciosos, ou de^manto a tyrannQ»; não a que pro- 
screve todos os grandes e eternos princípios da religião, 
da verdadeira liberdade, ou a^tes dignidade do homem, 
da familia, da propriedade, dos mil respeitos humanos; 



BOCAGE. „ 181 

não a que substituem existência pausada e nobre das so- 
ciedades por um* dansa macabra, çm que todas as|trar- 
chias, sexos, idades, «osições, se vão fllocessionalm^te 
despenhando no fundtrao mesmo golpnao. 

|o podião portanto as scenas da revoluçãg francefa, 

contemporâneas, deixar de encher^etoãígntçlb^ 

ror a alma suave de Elmano. 

. Que ardente de Ímpeto, que látego de Nemeste, que 

tfòrmosa de linguagem, que delicada dé sentimento, não 

é a cttrta elegia, escriptp ao chegar a Lisboa a n<M£ tra- 

gica da morte da rainha 3e França! 

jU /•" 

SeculfrRòrrendo aos séculos vindouros, v 

ue ias inutilmente accumulando v^âu J* 

as artes, das sciencias os thesouros: *> ' * 



Século enorme, seculp Jparído, 

Em que das fauces âf> espantoso Averno 

Dragões sobre dragões vêm rebentando : 



Mancado foste pela mão do ! 

Pare estragar nos corações (Sòrruptos 
O dom da humanidade, amável, terno. 

Que falaes producções, que azedos fructos 
Dás aos campos da Gallia abominados, 
Nunca de sangue, ou lagrimas enxutos ! 

Que horrores, pelas fúrias propagados, 
Mais e mais esses ares eno^evoão, 
Da gloria longo tempo illaminadíli! 

Crimes soj^os do inferno a*terra atroãa, %* 
£ em tomo aos cadafalsos lutuosos 
De sedenta^ 'Yiganga os gritos soi|. 

Turba feTW de monstros pavorosos 

ferro íeTftnpias leisfíramindo, encrava 

Em mil, que a seu sabor faz criminosos. 




f 



182 L1V&RIA CLÁSSICA. 

» 

A brilhante nação, que blasonava ^ 
De exemplo das nações, o throno abale, 

■:■'* E de um sanado atroz se torna escrtfar; 

g ^. 

Por mais que o sangue ei#x)ndáf|e desate, 
Nada, nada lhe acorda o sentimento, 
^ it. # Que as insanas paixões prende, ou rebate} 

Vai grassando o fidÂr sanguinolento, 
*lavra de peito em peito, e d'alma em alma, 
• Qual rubra labareda exposta ao vento : * 

, ÍÉMão cede, v \i^ repousa, não sejjíijflàja, 
1 ^^ E a funest^l&solente lmerd^,"- ^ 

^JSrgue no punho audaz sanguínea palma. 

* é oarbaro templo ! Abominosa 3Êfa ^fm 

Aj fÊÊÉ^ outras eras pelos fados pre(F 
J- 3 ^ Jara labéo e horror da humanidade ! i ' 

* '. Flagellos da virtude < 

Réos do infame e sacrileg 




[e que treme a razão e a nai 





Não bastava esa^crime? Inda o damnado _^ 
Espirito, que em t^está fervendo, mÊ& 

A novos parricidiof corre, ousado ! ^^ 

Justos céos! Que espectáculo tremendo, 
Que imagens de terror, que horrível scena 
Vou na assombrada idéa revolvendo ! 

jjue victima gentil, muda e serena, 
[rilha entre espesstfJtolestavel bando, 
tas sombras jjHalumma, que a condemna ! 

Orna a^Jp: da innocencia o gesto brando, 
É os olhos, cujas graças encantarão, ^^ 
Se volvem para o ceo de quando Çfl|flpido; 



As maios, aquellas mãos, que semeai 
Dadivas, prémios, e na molle infância 
Com os sceptros auríferos brincarão, 







BOCAGE... * 

Ludibrio do furor e da arrogância, 
Soffrem prisflife servis, que apenas sente 
O assombro "áj belleza e da constância. 

Ó justiça dos c&s 1 Ó mundo ! Ó gente ! 
■*¥inde, acudi, çíprei, s^rai da morte 
A mal|adada victima innocente'..^ 

Mas ai! Não ha piedade, que reporte 
* - À raiva dos terríveis assassinos ; K 
Soou da tyrannia o duro çórte; :-' 

Jâ cerrados estais, olhos divinos*; " v \ 
"♦* Já toando cé$$ti$e, alma formosa,- 
A férrea lei de aspérrimos destinos... ? 

Do oflÉos reis na corte luminosa 
RevèP^pio hertefcpor nós chorado, 
gQue da excelsa virtude os lauros goza. 

Náf mente vos obseryoi^ro a teu lado 
Implorando ao Se^gBnfros máos ílagella, 
Perdão para seu poro TTãllucinado. 

H 

* Despido o véo corpóreo, ó alma bella, 
Naseio de immortal felicidade, # 
ÉHkntes não voar mais cê& a ella. 

Emquanto aos monstros de hórrida maldade 
Murmura a seu pezarno peito iroso 
A voz da vingadora eternidade, 

Desfructa summa gloria, ó par ditoso, 
Logra em perpetua paz jubilo immenso, 
Que o mundo consternado ^respeitoso, 

Te aprompta as aras, te dispõe^fncenso. 



Eis-ahi quai 
arvore de li 
pjyra : os sei 
afogava -lh'a 



183 



»« 



..•* 








s nobres sentimentos de Bocage : a ília 
precisava alastrar as raizes por terra 
tos odientos definhavão-lhV, o sangue J 



184 LIVRARIA CLÁSSICA 



CAPITULO XII 



Continuação das qualidades moraes. — Caridade, sensibilidade. — ^ 
dotas. — gratidão. — Melancolia. — Independência. — Henow m 

$#tteraria. — Análogos exemplos, portu?uezes. — Excessos baechicos. — 
Bocage e Ovídio. — Effcito dos vapores alcoólicos no espirito dos poetas. 

Caridade, sensibilidade. — Estes dotes em subliafl Ur rào 
esmattavào aquella alma 'formosíssima. Os próprios de- 
feitos de Manoel Maria podem considerar-se como resul- 
tantes do excesso d'aquellas virttwjfjs. -*-*■ 

*PatoJáoniz,que o tratou de pertojfexprime-se d'fist'arte: 
«Ah! eu nào achei rTelle o homem que muitos accusâo. 
Sim achei o homem demasiadamente sensivel, e por 
isso guitas vezes fraco ; porém quantas virtudes rutilavão 
entre esse defcito ! Eu nunca me arrependi de sef^seu 
amigo! » ^. \ 

Accrescenta Costa e Sj&a que n'este homem tinha a 
natureza depositado o gérmen das virtudes moraes ; qual 
elle mil vezes chorou sobre a sorte do infeliz; que mil 
vezes se privou do necessário, para soccorrêl-o. 

Quantos o conhecerão exaltavào com effeito o gráo de 
bondade d'aquelle coração de pomba, que não podia pre- 
sençjtotor, ou privação, j&p desejar allivial-a. 

O^Hmte facto fòt-nos contado pelo finado Francisco 
títoça^Mcial da junta do credito publico j 

•c Um íhvalheiro, cuja casa eu frequentava muito, con- 
vidou-o para ir com elle "passar a noitt^jrecusou. Ave- 
riguando o motivo, soube elle que faltavão a Bocage 4jn£o 
jíi e sapatos decentes, e mandou-lhe logo o preciso vestua- 



BOCAGE. 18$ 

rio, rogando-lhe o nãj) privasse do prazer da sua compa- 
nhia. Prometteu o poeta, mas faltou. Ao outro dia, um 
mendigo explicava* omissão do poeta, de um modo que, 
natural da parte de Bocage, deu brado por toda Listila. 
Contava elle o que se segue. Ei^trára o mendigo pela sua 
po^È, implorando caridade. Respondeu-lhe*w>cage : 
« Meu agrigo, estamos companheiros, que eu,tambeiç 
«não tenho ceitil» Já se voltava o mendigo, lançando- 
lt^e a benção, e íftubiando : « Morrerei pois de fome e 
♦frio.. ^a Não, o deixop Bocage proseguir, pois obser- 
vancfo-lhe os andrajos que, na estação inclemente lhe 
deixavão o corpo nú, lhe exclamou : et De frio, não queira 
« Deos! Ahi tem você êjk fato e estes sapatos. » E deu- 
lhe quanto acabava de receber, ficando mais pobre que <S 
pedinte, e impossibilitado de comparecer na festa p&ra 
que fora convidado! » **$ \ 

Disse-nos D. Gastão que muitas vezes jantavão juntos; 
poréq|íquando o fidalgo o comidava, sendo, dia em que 
o pqfítonão tivesse na sua casa iwa^ farta, com remorsos 
de ir banquétear-se, deixando ájnbã com fome, respon- 
dia ao convite : « Iria... mas oiftiifcado novo para o jantar 
da minha irmã? » Recebia-o, e logo partia satisfeito. 

poeta Bingre, na carta a que alludímos, narrou-nos 
um caso, de qúe foi testemunha presencial, e que basta- 
ria para conquistar as sympathias, de todo o coração bem 
formado. Eil-ò aqui, litteralnjj^jje copiado: , jBw^ 

(( Andando nós ambos a pãé&éar, em uma ma "fjBP' a ti 
no Passeio Publico de Lisboa, fomos dar cd|ni ui^hometif* 
asseiado a chorar, sentadq, em um banco de pedra?E per- 
guntando-lhe BQjg$ge o que tinha, respondeu : «*Teriho 
« fo^ie... porém não é a minha que eu pranteio; é a da 
« minha desgraçada família, qjie me ficou* em casa des- 



186 LIVRARIA CLÁSSICA. A 

« fallecida! » Bocage de repente, dando um grito, mette 
a mão na algibeira, e tira quanto dinheiro n'ella tinfia, 
que, segundo minha lembrança, erfto quatro cruzados 
Dfvos em miúdos, e lh'os deita no chapéo, bradando : 

«— Oh ! qugnão tenhst eu agora uma» poucas de peças ! 

« EjSftdo enthusiasmado, yirou os bolsos do avèçso, 
gizendo para o homem : jí* a 

a — Vê que não tenho mais ? Se os sfcptòe cheios, todos 
lh'os vasava no chapéo... Mas venhl^' venha cá! 

« E mettendo-me a «mão no bolso, me tirou ^reuni^ 
cos Cruzados novos que eu tinha, e lh*os deu-^Wtrou 
em altas vozes a invectivar conyraiva e furor contra os 
ricos egoistas e avaros. » jft 

Que vos parece isto? Um^orriso e uma lagrima-, no 
Semblante de um colosso, é uma originalidade quasi di- 
vina. Foi para Bocage queM me Valmore compuzWa aquelle 
nobre verso : 




Tant que Ton^H^Bier, on ne peut pas moi 



«J» 



* Aos assumptos qur^Jpptoente lhe impressionavão o 
coração, dedicava por instincto os mais primorosos pro- 
ductos de estro inspirado. Escolheremos um, entre mui- 
tos exemplos. " ff, 
. No dia 11 de Julho dfcl797, um mez antes de Manoel 
Mqfifòser preso, conòâ^Bao patíbulo um réo, devida- 
mente condemnado , mf^Wja sorte enlutava n'es& dia a 
cídariÊHELisl>oa. vate, sobr'excilado aelajidéa do pavo- 
roso ^Hraro, improvisotf o afapado soneto que se lê a 
• pag. 156 do I o tomo d'esta colleçção£ 

v 

T i r ** 

Ao crebro som do luyubi* instrurftigto ^§ , ..' 

*2 • 



fo 



^ t BOCAGE. 187 

Ainda dedicou ao infeliz esfoutro, menos citado, mas 
cuja chave é também de ouro : 

Sobre o degráo terrível assomava 

O réo, cingido de funéreo manto. ** 

• Avezada ao terror, aos ais, ao pranto, % 

Da intrepidez a morte se assombrava. T^ 

JÍI firme oôfcjcão não palpitava 
0*precuHoJfc parca, o mudo espanto ;, 
E, ufana d^pbir no esforço a tanto, 
Um ai a humanidade apenas dava. 



wí 



Mortal, eme foste heróe no extremo dia, 
De idéas carrancudas e oppressoras 
Nao soffreste o vtiwjjt na fantasia. 



Co' as vozes divinaes, consoladoras, 
Só a religião te embranfíecia... 
Mras de ferro, se ehristao não foras. 

Gratidão. — Ahi se dava uma das terríveis contraposi- 
çõesjflhtseu caracter. ConsenAfcjnuitos amigos até á 
mo^nfpias com a mór parte jBHBho padeceu eclipses. 
Benefícios e provas de cordi|jmmB8ftancavão-lhe exal- 
tados testemunhos de reco^jigprento ; mas tal impulso 
era fugaz ; a um bom dito sacrificava um amigo, e, salvas 
poucas excepções, o intimo de hontem era o indifferente, 
quando nãp é^o dos epigrammas de hoje. Era da opi- 
nião d'aquelle Inglez que diziajpie a gratidão é a virtude 

dos cães. " ; Bbx l ^ Ji** 

Melancolia. — Este homeraPSfoe vivia sempre eip pra- 
zeres e orgias, entre amantes da bonacbira JêÉfcfaciP 
viver anacrSmtico, era pelo contrario naturalm^fe me- 
lancólico. Podia dç&er, com Alfredo de Mussct : 
•* . ' 

Le seul bien qui meyreste au monde -*■ 
EstVavoir ftilquefois pleuré. 



4& LIVRARIA CLÁSSICA. f 

Logo no primeiro soneto, que o poeta nunca publiòou 
(e que se lê no tomo I, pag. 1 (Testa collefcção), mSi- 
festa elle o génio triste, aíferesíentando que os seus versos 
alegres erão fingidos, e provenientes de dependência. 

É porém certo que a volcanica imaginação lhe converte 
em caieis pezares os mais singelos acontecimentos da 
vida numana; é certo que n'aquella alma voonstante- 
mente : "i** " 

Post equidem scdet atra cura ; ^ 

pois já em producções da sua quasi infância se lamenta 
da sua baça tristeza, e denunciado estado do seu peito, de 
gemer cansado e rouco. 

Este nosso philosopho porém era um meio entre Hera- 
clito e Demócrito ; a sua musa ora chorava dajundo da 
sua alegria, ora sorria do fundo da sua tristeza. 

Elle sourit pourtaqjt du fon^ de sa tristessc. *S* ?* 

; ' y/i'- . t*< 

(diz algures Polonius, fstó é, Labenski.) 

Se porém raiavão frequentes as horas da musa desen- 
volta, mais e melhores despontavão outras em que o visi- 
tava a sempre amiga musa de Lamígtine, a quem 
inspirou as Harmonias, e especialmente 4çsÉt>limes No- 
víssima Verba. 

Independência. — Gcfíip impaciente de freio, não tole- 
rando sujeição ao minimo encargo, antes queria a indi- 
*gencia£Qm todos seus horrores do qu% opulência com 
quebra de liberdade. Esse o motivo por quí?*se não con- 
servou na carreira de serviço que escolhera, e rejeitou 
quantos offerecjmentos lhe fizerão de. pingues emprfcbs. 

Na já citada caft* de 5 de Jmho de. 1 847, quó Birigrc, 



j 



fc 



BOCAGE, *&9 

* 

o constante amigo de Bocage, nos dirigio, depois de nos 
réjlfetir quanto José de Seabra era apaixonado do nosso 
poeta, e seu protector,. cootinutf assim, fazendo-nos co- 
nhecer uma anecdota característica d'aquella singular 
impaciência de jugo : 

« Ia Bocage muitas vezes jantar com José de Seabra, o 
qual sem,pre, no fim, o presenteava com algumaárpeças, 
a titulo de obrasjjue lhe dava para traduzir. 

« Um dia, jantando ambos, em companhia de D. Fran- 
.ci&jo dp Almeida, também intimo amigo deBocage, disse 
aquelle para José de Seabra : 

« — Admira-me que, sendo V. Ex. tão amigo do Sr. Bo- 
cage, não achasse ainda "um emprego decente em que o 
occupar! 

« — Pois diga V. Ex., em que? respondeu Seabra. 
Sr. Bocage não quer sujeição. * 

« — Uma cousa sei eu, que elle ha de aceitar de certo. . . 

«HI^Então o que é? 

« *- Bibliothecario na Livraria Publica, que V. Ex. vai 
crear... **f * 

« — É muito e muito bem lembrado, disse José de 
Seabra, lançando mão do copo para brindar á saúde do 
futuro bibliothecario ; ao que logo acudio Bocage : 

« — Obrfgjjb, Sr. José de Seabra! Mas, que encargos 
tem o tal emprego? 

*« — Oh ! muito leves e sem cansaço. Lidar com hojnens 
sábios e estudiosos, três horas de fnanhã e trea de 
tarde * ; 

« — SafsPT Seis horas! e então com os taes homens sa- 
bias ! e por obrigação ! livra, que escravidão ! Não aceito ; 
nájfcltòeito. Obrigado, Sr. José de Seabra, não captivo a 
minha liberdade por quaíito ouro tityHft Creso. 



1» LIVRARIA CLÁSSICA. V* 

*\> c< — Então, Sr. D. Francisco, que lhe disse eu? Ao 
Sr. Bocage não ha nada que dar, senão remiinera<Jres 
pelas composições talenÉÍsa% . ** ,-* 
« E entrarão todos a rir... » ' í 

Já se %ê que Bocage, em taes casos, antepondo a inde- 
pendência a todas as vantagens,* respondia como João 
LafoJnne: * ^ 

Prenez le titre et laissez-moi la rente.* 



Mendicidade litteraria. — Aquellá independeria, 
aquelle impulso nascido de impaciência, ou de volubili- 
dade, ou de preguiça, trazia comsigo o inevitável resul- 
tado, penúria; e a penúria, ao contrario, outra vez a de- 
pendência, de que elle em versos recem-citados não 
menos se queixava. 

Com as nossas idéas de hoje, com o senso intimo da 
dignidade humana, e principalmente dá do homem de ■ 

génio, que sente em si o mais opulento dos partnírid|fios, J| 
invade-nos Certa indignação cjbntra a sinecura da mendi- 
cidade litteraria, que tinto esteve em moda nos tempos jjfl 
de Bocstgfy Parece um luxo*dos poetas da quadra a osten- 
tação do seu sestro mendicante: serião uns terríveis 
concurrentes aõs pobres dos Asylos, se iáexistissem, e 
certamente o erão dos frades franciscanqpp 

Que ha mais repujaiante qufe as paginas pedinchonas 
de Nicoláo Tolentino? . 

Malhão escrevi!, entre cousas semelhantes, ao princi- 
pal Camará : 

V '" '" 

•• N'ellas te explica o Malhão, 

Na phrase mais natural, . # j^JWji 

Que se acha sobre um colchão, K^-iPÊ, 

*■ Côxo^^e ièm ter um rei. ^jjj5 ""'*' 

9 



BOCAGE. 101 

Bingre,Jambem victima de Apollo, e chorão até á 

incite, i\ão menos escreveu este soneto : 

* "* % '* 

Morfeu pobre o Gamões, pobre o Garção, 

Quita e Mattos viverão na pobreza, 

Bocage teve lances de escasseza, 

Muitos dias soffreu falta de pão ! 

Santos e Silva tinha uma ração ^* 

Do hospital na botica por fineza. 
Parece qu& capricha a natureza 
Em fechar â poesia, a dextra mão. 

Aquelles forão vates de alto espanto 
Que deixarão no mundo eterno nome 
Muitas vezes comendo .o próprio pranto. 

Tal o Bingre mirrado se consome. * 

Se os não pôde imitar no doce canto, 
Elle os imita victima da fome. 

Bftcage, portanto, igualmente padeceu cTaquella mo- 
lestifc endémica ou epidemica, d'aquelle cholera-morbus 
inteUectual ; pedia esmola em prosa e verso, com a mesma 
facilidade com que daria quanto possuísse. 

Excessos bacchicos. — Farão unanimes quátitos con- 
temporâneos de Bocage consultámos, em asseverar que 
elle u&va em demasia de bebidas espirituosas (particu- 
larmente fqwbp o genebra), mas também em repellir a 
accusação de que fosse, uma só vez, encontrado em 
estado de embriaguez. '^ 

Em contrario, apenas se nos deparada um documento, 
uma própria vergonhosa confissão de Bocage, num s(h 
neto que lfite attribue o tomo IV das Pòáthumas^ ediflSo 
Desiderio, onde o autor se confessa frequentador ;;de 
ionl tabernas, dizendo embriagar-se então em tal ex- 
cSSSS qu^comra trabuzàna, sahia de iá a remos e á ba- 



^ 



192 LIVRARIA CLÁSSICA. 

* 4ina ! O soneto não está mal feito ; foi sem duvida inten- 
cionalmente destinado para correr como pro^ucçãcT de 
«ocage, o magro, de olho azul, de dír .jporena ; mas afi- 
gura-se-nos ser isso uma estratégia d#' inimigo, que, 
abusandfo da iinmensa influencia qufe exercera no espirito 
do gibboso Desiderio Marques dte'Leão, lhe iria successi- 
vameme entregando para archivar, e depois publicar 
como de Bocage, versos não d'elle, e só^déstinados a em- 
panar-lhe a reputação. Como declararia Botiage de si 
irífesmo semelhantes torpezas, elle que timbrou semnre, 
como se vê na Satyra e em outras producções^ em não 
ser tido por homem de máos costumes? elle que em ne- 
nhum^ outra poesia se accusou da vicio torpe? elle que, 
no prífco em que se diz isso composto, á beira jla sepul- 
tura, só estava absorvido pelo culto da religião e da ami- 
zade? elle que, se ainda então algum dia pôde sorrir, 
seria em gracejos innocentes, e não em declarações cy- 
nicas? elle que, com os ol$os fitos no céo, não podia 
revelar ao mesmo tempo aspirações terrestçes e enla- 
meadasL 

Até,MTyèrsificação, suppomos reconhecer meias pro- 
vas de qWò soneto não é de Bocage. Aquelle desdobrar 
do I o para o 2 o verso; aquelle a tal cigana; aquelle mar 
roxo (arroxo, e cojj^onancia de rr); aquellltondar aflaino 
(será o anti-bocagiano g^licisflio flâiier?); aquella chave 
não de ouro, mas d^chumbo, indigna na intenção, 

fsem graça na forma avaliem os entendidos se isto 

pede ser Bocage; e se o condemnarem como afpocrypho, 
táli desappareíftlo o único documento que n'este sentido 
0:|Jesabonasse. Ouçamos o íeferido soneto>, ao qualypçr- 
que?) puzerào o titulo de Furta-cÔres, quando^fiJTs 
apropriado seriado* de Furta-estylos : * * 



«■- BOCAGE. 19% 

' " Í I" 

Sfc eu pudera ir de tralha, ir á surdina, ■* 

#■ Por ahil Forte sede, e forte gana .* 

De zuriUpa, oe atum^de ti, chanfana, 

Dl ti |jie d$ pingoes és gulosina ! 

Que tempo -em que eu, com sucia, oít gíossa ou' fina, 
Para a tia Anastácia (a tal cigana) 
Ia e vinha depois co'a trabuzana * 

A remos, no mar roxo 1 ? ou à bolina ! 

Quando nas m consentir, cruel fortuna, 

Ao magro, de olho azul, de côr morena, *• 

O bem de andar a flaino, e de ir á tuna? »■, 

*Mas, ai... maldito som que me condemna! 
Dize, ó fado, ao bizouro que não zuna... ;. 

Ahi me chama algum : Alma pequena ! ■ im 

t 
Se este soneto fosse realmente de Bocage, e ainda as- 
sim não um simples brinco, mas uma confissão cynica, 
poderia dizer-sè do Sadino o que de Molière dizia Cha- 
pelle : que elle / 

buvait assez 

Pour, vers le soir, être en goguette; 

mas, ou muito nos enganamos, ou esta producção não é 
de Bocage. Quando ás portas da eternidade, alongasse 
olhos por sua accidentada existência, elle o crente, elle o 
supersticioso, elle o compassíl^ elle o enamorado, elle 
o orgulhoso, certamente que o seu oh ubi campi não seri% 
a casa da tia Anastácia, nem o seu dulces moriens remi- 
niscitur Argos a taberna de zurrapa m chanfana, ^fcr- 
doem-nos os manes de José Agostinho, se os calunnjja- 
WjjLdtotrevendo aqui o dedo do seu ódio. 

«fida n'este assumpto houve* pois paridade entre e^e 
e Ovídio, o qual, sem jamais embriagj^-^e, pfdia enfco* 

VII. ^ 



£94 LIVRARIA CLASStfA. * 

tanto ao sueco da vinha mais delicias para o afcor,' mais 
iitíípirações para a poesia. Como já d^íjOrfitío^iáfeemos, 
diremos do Portuguez : das sepsuali(k^»da|hiesa foi, 
sim, Bocage devo^p ; não raro lhe jgm o^tó|nago um 

• vestíbulo do íemplo de amor, e^çvezes chegava a ser 

* o templb mesmo, e o saneia sanctorum. 

>Com razão diz Th. Gautier haver estros que, para exfflf 
tar-se, ganhão com um excitante physico. N'esa*s natu- 
- rèzès obra o vinho como um philtro maravilhoso ; o ge- 
riferoso sangue da videira mistura^ com o sangue das 
veias, accelera-o, brota na mente a Jnspjfaçào. Surge no 
eu outro eu que lá jazia.; estremece, vibra, derrama elo- 
^fuenciaJ sahe de um jacto a nobre estrophe, revestindo 
a idéa, formosa e esplendida ;*cahem sem custo as rimas; 
a palavra flammeja ; compõe-se o grande todo ; e o som- 
\ nambulo dedilha as harmonias magicas, que ao acordar 
hão* de a elle próprio maj»yjpihal-o. 

Não basta porém* beber '^ara que taes maravilhas 
surjão à luz. Nem sempre os Ganymedes trazem estro e 
immortalicbjd^ias taças do festim ; a certas organisações 
nunca owSénhes dará versos. * m " 

É fatat.a inspiração alcoólica; são os espíritos umas 
como cantharidas da intelligençia. Bocage, como Hoff- 
mann, como Edgard Poe, como tantos outros, apressou a 
morte. ^ 






*9 ._- l ^'i" 



BOCAGE. 40» 



J Í^j. CAPITULO XIII 

Continuação das qualidades riír^es de Bocage. — Amor. Inconstância. — 
Tropas de namoradas. — O sentimento nos dous sexos. — BÍrutalidade 

ife paixão em Bocage. — seu amor considerado geographicamente. r— 
Delírios a que elle o arrastava. — Imprudências. — Amor notarial, em 
publico c raso. — Ciúme. — Anecdotas. — Zelos também na amizade. 

í 

Amor. Inconstância. ^ — É curioso que estas duas pala- 
vras antípodas 4ios eahissem instinctivamente da penna 
como inseparáveis, ao fallaririos de Bocage; maripos^ 
que recorda o velho poeta Tabourot, o qual, por esquecer 
o nome das namoradas, as designava pelo seu numero 

ordinal, como se faz aos condemnados na casa de cor- 

â 

recçãodoRio : «A minha. 7 a , a minha 26 a . » Compôz 
um soneto a uni rival, que àndav^atrás da sua 50 a con- 
quista, ácèrca da qual diz èlle : « Que dó nào tenho eu do 
pobre homem, que ficou in albis, assim-como eit! mas 
quanto a mim^ foi caso f de parabéns, porqíj£m£U tivesse 
de possuir quintas sujeitas namorei, ondfi^ÇÍ? alojaria 
eu? » . r 

Bocage não lhe ficou 1 atrás. Ao pintar-se Incensador de 
mil deidades peccou por modesto. Se n'esse ponto não 
fora a chronica fecundíssima, bfetaria abrir ol° volume 
das suas Rimas, escriptas antes da idade de vinte e qfuatrofl 
•annos, e onde, postas de parte innumeraveis jaculatórias 
sem nome, ou sobrescripto,-se ostentão carmes, repleflbs 
do mais intenso ardor, e dedicados a Marilias, Gertrurias, 
Elmjras, Thirsalias, Philis, Marfidas, Floras, Nises, Ina- 
liasj Mareias, Encp ras 5 - NaterciáS, "Phílçpas, Ulinas, Ar- 
maniaS) Lemnorias> Anatdas, Armia^Lilia^ ^\aupÂ>.> 



196 ' LIVRARIA CLÁSSICA. < v 

Felizas, Crinauras, Isbellas é Ritalias ! copiosíssima fo- 
lhinha, cujas santas não erfk) fabulosasjffejgue ficara inter- 
minável se a enriquecessem aifcda og jppmts de infinitas 
outras incógnitas, que o inspirarão, muitas veies 4diga- 
mol-aao ouvido) sem saberem sequer que erão as Helenas 
d'aquelle endiabrado Paris 'de Setúbal. * È 

Pommier, na sua epopéa burlesca O Infamo, apresén- 
*, tando cada vicio punido por um supplicio principalmente 
■ tiraâo dos instrumentos do respectivo prazer, castiga as 
relações culpáveis d'esta forma : % «^ 

Comparez leur de$tin au vôtre 
.fc ^ t Époux enchainés pour un jour ! 
,- * lis sont là, rivés Tun à Tautre, 

Éternels forçats de Famour ! 
Quelle soufirance et quel cálice! 
Le commerce intime, ou se glisse 
Un froid, qui se chaage en supplice, 
Ne date souyent que d'hier ; * 

On maudit tòut bas sa cbnquête, 
On la trouve ennuyeuse et bete. 
"* jáil " dté du tête-à-tête f 

ouvait manquer à Tenfer. 

ParewfÔej£o espirito de Bocage estava <ji todo o instante 
presente aguella infernal perpetuidade do dia immeiiato 
ao de um prazer equivoco . 

E de páfèagem, antes de mais nos determos sobre esta 
^ prostituição de coração, não nos é possível resistir ao 
incitarâento de exprimir uma idéa, assaz desairosa para t 
o nosso sexo : quão longe nãp vai este sentimento super- 
ficial doliomem, comparado com o delicado e sincero da 
mulher! Ha umas pouca| de linhas,* que só ellas saberião 
'escrever, em que^M^^ííalmore alumia num relâmpago 
muitos de sentmje^to : . 




BOCAGB. 197 p 

.• ■•' * * 

Quand i| pâlit le soir, et que sa voix tremblante 

S'ét'eignit tout-à-coup dans un mot commencé; 

Quand ses yeyj, soulevant leur paupière brúlante, j* 

Me blessèrent a'un mal dont j8 le crus blessé ; 

Quand ses traks plus totchants, éclairés d'une flamme 

Quine s^teint jamais, 
S^mprimèrent vivants dans le fond de mon âme, 

11 n'aimait pas : j'aimais ! 

Vejamos ent que consistia o faimais de Bocage : 
Este amor, segundo os tempos e as pessoas, era puro, ^* 
casto e. platónico, ou impuro, brutal e pervertido. Eis ' 
um exemplo do primeiro, no idyllio a Flerida : 

Vis amantes, 

Corações inconstantes, * # 

De sórdidas paixões envenenados, 'v 

iVós, a cujos ardores, 
. Â cujos desbocados 

Infames appetites, • ■„ 

k virtude, a razão não p8e limites, 
Suspirai por illicitos favores, 
Cevai-vos em torpíssimos desejos, 
Tratai, tratai de louco um amor casto, ^y *^ 
Que eu, nos grilhões que arrasto, *ÍVvSS£í.- ' 

Tão lippos como o sol, darei mil bejos#. '}' ■** 

Peçonhenta alliança, fc -/ff» 

Vergonhoso prazer, de vós não curo. i ■■-»?** 

De ti, sim, porque és puro, 
Amor sem fructo, amor sem esperança. 

Quereis agora viajar até os antípodas? E fácil, lendo o 
^ soneto que estampámos no I o tomo, pag. 157 : 

Nos torpes laços de beHeza impura... 

I$m todo o caso/ menos pg^ece alheio que próprio o 
pensamento d'aquelle t madrigal:* * / 



» 19X LIVRARIA CLÁSSICA. *• 

^ Eu tinha promcttido á minha amada * 

Constância até morrer; e esta promessa 
^ Foi na folha de um álamo gravada ; 
* Mas quebrou-se %£ressa; 

Ergueu-«e um pé de vetfc. 
Adeos folha, e com ella o juramfnto. ■•- * 

E como podia deixar de ser, se o homem andava/ se- 
meando affectos pelas quatro partidas ^io mundo? Já lhe 
■ .viynos cincoenta namoradas em Lisboa, outras em Setu- 
& Sfl/^outras em Santarém, outrafl^em Gôa, outras em 
Macáo. Ha mais uma Arselina A* 

•N. 

Lá onde em fofa espuma se despenha 
gárrulo Alviela trêrasparente * 

4 rDealcantilacla ruidosa penha. 



Também em Óbidos, ' *■ . . 

As» margens do Rfigaça crystallino * ' * 

. m Aos olhos de Tirséa ardeu contente. * M 

- • /' t 

Item cm Sacavém : g ^ 

Praia%de Sacavém, que Lemnoria 

jOíaa êo" os pés nevados e mimosos • 

- -*í^ • • : • 

Mâsjnda lá de longe os meus gemidos*^ 
Gumtfs por amor, cortando o vento, 
Vifto, nympha quârida, a teus ouvidos. 

Item eid&edroiços ? • 

. De Pedroiços na praia extensa e fria 
, perdera a libel^adao terno Elmano. 

Item em Colares : 

j^ A améha, salttifera Alares... 

'^! R ante a iaUi^iléáÇro, alli pairando. . 

■ A K * 



» * 



' •• BOCAGE. 190 

T Já se vê qqe o amor, em Bocage, era uma*Iatiça de* 
Telepho, sarando a ferida que fazia, ou antes, em lingua- 
gem vulgar, eurava-se esta omn o cabello do mesmo dftj. 
DilrO-hieis uma teia dflfPenelope, a fazer-se e desman- 
chfcr-se ; um pêndulo, o^pillando em extremos, sem nunca 
parar a prumo. Elle*singelamente nol-o confessa n'estes 
lindos versos : 



Quantas vezes, amor, me tens ferido? 
Quantas vezes, Hfcazão, me tens curado? 
Quão fácil de uii\ estado a outro estado 
mortal sem <(aerer é conduzido ! 

TaJ, que em gráo venerando, alto e luzido, 

Como que até regia a mão do fado, * 

Onde o sol, bem de todos, lhe é vedado, * 

Depois com ferros vis se vê cingido : 



* 



* * Papa quQ o nosso orgulho as azas corte, 
' • < Que variedade inclue esta medida, 

ifcte intervallo da existência á morte! . r 

• * Travão-se gosto e dSr; socego e lida; 

É lei da natureza, é lei da sorte, + 

Que seja o mal e o bem matiz da vida. •^'■; 

•* Entre os numerosos factos reveladoras dtfoialtação a 
que o arrebàtàvão as suas epilepsiâs anJjágrias, trans- 
creveremos o seguinte da já cilada carta áçSiingre : 
« Em uma noite, numa aí^dade brilkuite, em que 

estava a sua Analia, deu -lhe uma senhora este mote : 

« 

A minha Analia adoradal - ^ 

•» 
a que elle fez sem interrupção trinta e quatro decimas; 
e no arrebatamento do estro, ^endosubido acima de uma 
cadeira, com os brados abertroiíKattitudc de voar,$hi 



200 LIVRARIA CLÁSSICA. , i 

mcio"ne estrondosos vivas e palmas, levantou-se Ariáíia, 
e c(ft^reu para elle, dizendo-lhe : 
- l * « — Quer voar? quer fugir-me? * 

« — Não ! respondeu Bocage* \^oa comigo ás esjtf ell#s ! 

« ... E notando que era isto um verso, começott*de 
glosal-o, com tanto affecto, endeusado, que assombrou 
toda a assèmbléa. » 

E oumpre confessar que o amor era em Bocage um 
fogo.!?, mas de palha. instantp em que, por abundân- 
cia de oco alimento, levantava ás ;*uvens chammas en- 
novelladas, mentirosas, era precufSbr do outro instante 
em que do incêndio só restava furtio, cinza, nada. f ■* 

Entre exemplos numerosos d'esta versatilidade, apon- 
taremos o idyllio Armia, onde o poeta sem ceremonia nos 
conta coma' e quando conheceu esta sua namorada ; que a 
sua morada era em Lisboa, no recosto de um valle, par# lá 
do sitio "de Arroios; que tinha uma irmã (Delisa)íão di- 
versa d'ella como Abril do Agosto ; que sua mãi eryjrande 
admiradora do poeta; quiquem o apresentou eím casa 
da moça forão os amigos Montano e Pacheco ; que ainda 
lá havia fittípttnãos, muito seus amigos ; que um d*elle$ 
era AnseSfpQY que houve outro poetastro, a quem chaim 
Domicio^v^SyL#oltando após ausência, convenceu ? 
,mãi de q^fklcage seduzia a filha; que n'estes termos 
até o Montano e o Pache(% se virarão contra elle ; que o 
deitarão pai|tfóra a páo ; que havia tanto ou tão pouco 
fundajnento para esta injustiça, que ainda continuarão *àâ 
relações dos amantes; que a meninaílhe pedia que tivesse 
paciência : „ 

A furto não deixava de animar rinc, 
' Dizendo-me :« Tolera a mãi raivosa * 

* « Até que o*Jtempo £ farias lhe dgsarme. » t 

*•* * 



BOCAGE. '. 20Í . 

V 

mas que elle achou preferível ir fazer idyllios para San- 
tarém, onde sabia que ia encontrar um amigo, forma do 
e mesmo pé, que lhe havia de dar taes conselhos e conso- . 
lações, como isto : 

"* De amor o actuo incêndio se modera 

•» *Co' os auxilios do tempo e da distancia, 

e <jue conseguintemente ficava aquelle idyllio sendo-epi- - 
taphio d'aquelles amores. 

D^lle não menos *e concilie que não era a circum- 
specção dote de Manoel Maria. Um passaporte não dá os 
signaes*do portador com mais miudeza do que o idyllio 
descobre a moça, a família, a casa, os amigos; era um 
namoro notarial, arcana cordis, por instrumento, em 
publico e raso. 

CitJMg, — Prende bem este objecto com o precedente, 
visto que o ciúme em Bocage (e adiante veremos que nem 
msò no aitfior) antes merecia nome de paixão, phrenesi, 
delírio. Foi o sentimento a que deveu mais brilhantes 
paginas. E com tanta mestria o descreveqA|fib.uxou c 
eotyrio, que a não ser o autor do modern^rWpna Os 
cintmes do Bardo , nenhum outro P oet ^tfBWÍHf soube 
^inda elevar-se a tamanha altura. " * "* 

Nem precisavão seus zelos dp alimento exterior, que 
dentro do próprio peito erão ílles um foggftde Vesta 
(perdôe-nos a deosal) inextinguível. Tornava infelizes ás 
namoradas e a si mesmo, não porque lhe dessem motivos, 
mas por obra e graça da sua própria imaginação: 

E pelo ardente excesso com que adoro, 
*Ào clarão de medonhas conjecturas 
., yejo o fantasma da traição que ignoro! * 



k 



tf i *2 v^, LIVRARIA CLÁSSICA. 

^Vío-se jamais uma /rí de suspeitos tãç-Jbraya-, ctítno a 
d'este Peyronnet do amor? 
■ y Contou-nos um amigo de Bocage, que tendo êlle adqui-» 
rido, em certa occasiào, provas plenas dtf in£u|pdado de 
uma sua brutal accusação contra uma de suas conquista- 
das, e persistindo não obstante em «eus ciúmes, Jhe-dis- * 
* ,sera : " * 

— Que justiça é essa ! Pois vês que não tens fhotivo, e 
insistes? * 

— Não sei (redarguio o energúmeno); mas podia ter; , 
Tenho ciúmes, até de um candeèSfc, por ser masculino ! 

Actos de insânia, provenientes de amor e de # ciúme, 

contavão-se aos cardumes. Uma noite, em casa do Sr: Be- 

1 * «... ' 

nevides, em Santarém,- fião podendo resistir ao accesso 
dos sejjíf zelos, fugio da sala sem chapéo, correu até o 
cáes, fretou assiqj mesmo um barco, e não parou ^enão 
em Lisboa, vindo todo o caminho a contar aos bârqSeiros 
+ asua desgraça. 

Todos os Ímpetos contra as namoradas de quem sentiaV 
zelos o convertião n'um porco espinho, e as pobres moças 
tornavão-se mais alvo de verfinas que de explosões de 
affecto. Nunca achareis ahi Orphèo perdendo a suji 
dice, mas upa Erostrato incendiando o idoJo e o altar. 
*f Encher-se-hia um alentado volume das composiçõeÉ 
que elle no& legou inspiradas pelo ciúme ; e todavia só 
diminutá^irte d'ellas lhe sobreviveu, pois era o mais 
usual assumpto dos seus perdidos e instantâneos impço 1 » 
visos. 

Na carta de anecdotas que Bingre no$ dirigio, e á qual 
por vezes temos alludido, lê-se esta : ' 

« N'uma noite, em casa das filhas do marechal Werne 
(que morreu no Bossilhão),Toi tão aguilhoado, flflo ciuiti^ 



i 



BOCAGE. -^ 205 

qué teve da férrea Ullina, que sobre um mote que lhe 
deu uma das ditas senhoras : 



• A- negra fúria, Ciúme, 

fez tantas glosas estrondosas e sublimes, que foi preciso 
ir eu agarral-o, dizehdo-lhe : « Basta, basta ! Não te leve 
« a furiá desesperada para o Orço. » 

% todavia nos intervallos lúcidos ninguém melhor < 
que Bocage sabia raciocinar contra a malfadada propen- 
são do seu peito, cq$o o mostrou n'este irrespondivel 

soneto : 

* 

Que idéa horrenda te possup 4 Jiknano ! 

Que ardente phrenesi teu peito inflamma ! 

A razão te alumie, apaga a eh anima, *r 

Reprime a raiva do ciúme insano ! 

' ' w 

esperanças consome, ou arive ufano! 
Ah ! foge; ou cinge da victoria a rama. 
^ -áma-te a beila Armia, ou te não ama? 

Seus ais são da ternura, ou são do engano? 

Se te ama, não consternem teus queixumes 
., , "« Os olhos de que est£s enfeitiçado, ^; 

■ Do puro céo de amor benignos lumes. Â 

* Se outro na alma de Armia anda gravado, ^ 

Que frueto has de colher dos vãos ciúmes? * 

Ser odioso, além de desgraçado. 

. Bocage, ápezar destas emphases, aceitava o amor a 
beneficio de inventario ; ao passo que assim punia todas 
suas namoradas .com látego de Nemesis, ao mesmo tempo, 
por pensamentos, palavras e obras, dogmatisava a in- 
constância e pregava a infidelidade. 

♦ Outr^ vezes, batia nos peitos, entoava o mea máxima 






I 



g 204 Afr. LIVRARIA CLÁSSICA. 

culpa, e beijando os grilhões que espedaçára, supplicava 
ásbellas a graça de com elles lhe roxearem de novo os 
^ pulsos. ' * 

%■■ '* Esse abrasador ciúme não só no amor o inflammava; 
era zeloso na reputação ; zeloso até na amizade. Quantos 
o conhecião e o amavão (não ha n'ifto um pleonasmo?) 
tiverão alguma hora occasião de lamentar injustiças do 
génio de Bocage, muitas das quaes forão objecto para ellc 
de arrependimento e remorsos. 



CAPITULO XIV 

Conclusão das qualidades morãés. — Orgulho. Sede de applausos. — Estas 
chanças <Iè poetas nem são raras, nem modernas. — » Tristes consequên- 
cias de tal orgulho. — Bocage e Ducis. — Quiz applausos por todo o preço 
e infelicitou-se. — Cantos de anjo e de sereia. — r fendencias actftíes da 
mocidrfle em Portugal. — Deve o-fructo amadurecer antes de ser co- 
iWo. 



Orgulho. Sede de applaijsos. — Mas a aura popular, a 
opinião, a fama, a gloria, esse foi o primeiro dos seus 
ardores, eíèe foi paixão, delírio. Applausos de énteUâl^- 
dos... què dizemos? exaltação de néscias turbas j tanto 
bastava para fascinal-o, embriagal-o. Por uma d'essart 
ovações sacrificaria o seu melhor amigo, os seus mais 
caros sentttfentos, e fortuna, e vida, e salvação : furador 
um triumpho liiterario, capaz de praticar o maior crime^ 
a maior virtude, ou a maior baixeza. E entretanto, a opi- 
nião, essa buzina que engrossa os sons, esse écho d'ondc 
se repercutem, a opinião, geralmente justa eom elle ainda 
em vida, qualificava-o de um modo que o pungia : 

Opinião, rainha do universo! 



' 4 ♦'•% 

BOCAGE. -4» 205 ■; 

Ante o teu tribunal omnipotente 

Sócrates impio foi. . . e eu sou perverso ! . * 

m 

Justa emquanto vivo, dizemos, não obstante as queixas 
do poeta, que em si mesmo fitava os olhos ao pôr estas - 
% palavras na boca da,sciencia : 

V- 
'De vigílias mirrado o sábio morre. 
Almas corrompe do egoismo a peste. 
Camões, Homeros na penúria cantão. 
■* Eil-os co'a gloria temperando a sorte! 
' Soão prodígios de wn, prodígios de outro, 
Férrea caterva os ouve. . . admira e foge ! 
„ Só quando o va,te é cinza, o muito é nada, 
Por elles se interessa o munda iftgrato. ■ * 

Na gloria estéril de epitaphió|£Í6te 
Sólidos bens o bárbaro compensa. 
Contradictoria humanidade insana ! 
si No insensível sepulcro os sábios honra, 
E os sábios não remio na desventura ! 
Quaes elles forão diz... não diz qual fora. v 

Nem qual elle fora precisayão os contemporâneos pro- 
clamar; porquanto ninguém, mais do que elle mesmo, 
fa^ja justiça ao seu génio. *^ **' 

talento é frequentemente pérfido ; segíeda-nos ao 
^amor-proprio umas suaves lisonjas, moeda falsa que 
tomamos por ouro na idade das illusões. Consideramos*" 
nos uns seres privilegiados, com que a Providencia mi- 
moseou a terra, em hora de affavel humOTrNascemos 
sabiás e rouxinóes, para, sem mestre nem esforço, modu- 
larmos as mais sublimes endechas. Aprender! para que? 
Estudar I para que? Saber! para que? Temos o estro, a 
natureza, o saber innato ; o mais bem se dispensa. Vamos 
aos grémios, frequentemos os passeios, visitemos os locu- 
tórios, botequins, clubs e pasmatorios, e cantemos! A 



*; 206 WV, LIVRARIA CLÁSSICA. - r 

educação de um poeta da nossa polpa nada mais requer;- 
a nossa sciencia é infusa; sobre esta. cabeça baixou o ^ 
Paráclito em línguas de fogo. 
*"• ' Assim pensava Bocage. Considera varse rei; entéfidia 

■r que a realeza lhe vinha de si mesmo ^ nascia d'elle e era <* 
^ » elle; e, como Napoleão I ao sajp.ar-sé, collocava por suas 
próprias mãos sobre a fronte a coroa indisputável. 

Às phrases com que elle formula o elogio de si mesmo 
são por tal arte empoladas, que poucos se atreverião a 

* seguil-o em tão audaciosos voos. Orgulho insano lhe cha- *" 
mariamos, se não víssemos tão frequente, entre os 

i(A poetas, esta adoracao.de si mesmos; pois, a ser'verda- 

* deiro o dito de Aristót^e, de quantos operários existem, 
nenhum tanto nas suas obras se revê como o poeta. 

Menos pomposo era porém o (nesse ponto desigual) 
Horácio, quando invocava a sua Melpomene : 



sume supermam 

Quaesitam meritis, et mjhi Delphica 
Lauro cinge volens, Melpomene, comam/ 

'*' ■ .> «■ 

Dá vontade de lhe endereçar aquella sextilha com 
que Mellin 3e Saint-Gelais respondeu a outro que tal : 

##■ 

. t £ j te plains, ami, grandement 
n !Htf cn mes vers j'ai loué Clément 
Et que je n'ai rien dit de toi ! 
Comment veux-tu que je m'amuse 
A. louer ni toi ni ta musé? 
r Tu le fais cent fois mieux que moi. 

Em innumeraveis versos de, Bocage transluz essa, quasi 
diremos, insolente ufania* 



BOCAGE. ■'* 207 

Apontemos um ou outro, entre centenares de exem- 
^plos. Escreveu num idyllio : 

o meu mérito consiste 

«ji íYam claro entendimento 

* Se a compasso da lyra o verso triste 
Entoo alguma vez, aojiom canoro, 
Ninguém... ninguém resiste. 

N'um soneto : 

Contra os annos, que morrem, que renascem, 
Deu-me Phebo, em seu dom, penhor seguro, 
Com que do esquecimento o pego escuro 
Meus versos e meu nome afoutos passem. 
Não temas ser do nada infausta presa; 
Além dos tempos viverás comigo ! 

Neutro : 

Eu, que obtive das musas farta herança, 
Pago-té em verso o que te devo em ouro. 

Neutro : 

mi Ave da morte, que em teus ais a escuto, _ " r 

Meus dias murcharás, mas não meus louros; ' 
Doou-me Phebo aos séculos vindouros ; jm 
Deponho a flor da vida e guardo o fructo. 

Escreveu, no prologo das Plantas : ^ 

■^ 

* ' Me fortalece o pé na estrada immensa, 

Que vai da natureza â eternidade. 
Soltas de umbrosas, subterrâneas grutas, 
O meu dia invadindo, aves sinistras 
Em vão de agouros e de peste o manchao. 
Em vão corvos da inveja á gloria grasnão. 
Elles malignos são ! Tu, pátria, és justa ! 
Vedas que defraudado o génio seja 



5K 



208 ^ LIVRARIA CLÁSSICA. 

De seus haveres — o louvor, a estima, — 
Haveres por que engeita os da ventura. 
Aos versos meus posteridade abonas, 
Ouço a voz do futuro, ouvindo a ttía... 
Ouço-a! lã me prantêa e lá me applaude! 
Em sendo morte e cinza o que hoje é fogo, 
As musas, meu thesouro, amor, lyuu fado, 
Hão de com myrtho e louro >%r»ar-me a campa. 

Inveja nunca sobe e quer que baixem. 
Emquanto que cila ruge, o sábio canta, 
E juiz não peitado o escuta, o c'rôa. 
Se cm podre lodaçal negrejão zoilos... 
Entre essa escuridão reluz meu nome! 
Se ás musas não pertenço... 
Eu, que, cem veies, concebendo o Olympo, 
Ou de olhos divinaes divinisado, 
Sinto no coração, na voz, na mente, 
Tropel de affectos, borbotões de idéas, 
E eis o Deos! eis o Deos! exclamo... e v^o 
De repente, onde mil nem vão de espaço, etc. 

Numa epistola a Sebastião Xavier Botelho : 

Contra a nobre altivez què em mim resjurge, 
„, Uive o zoilo mordaz, injurias ladre! 
De rojo pela terra, a vil serpente, 
D 1 águia, que arrosta o sol, deteste os voos ! 
Scjao, no tribunal do vulgo inerte, 
»<r Sombra o fulgor, o enthusiasmo insânia... 

Que eu, tu, e alguns (quão raros já!) vingando 
Cqu/Q^e cumes de interpostas serras, 
Tribunos fadigosa estrada immensa, 
Que vai da natureza á eternidade. 
Dignamente de nós fallar podemos : 
Não se ata o desar nosso ao nosso alarde. 
Quem de celestes dotes se gloria 
Honra menos a si do que honra aos numes. 
E se a turba sem nome, avessa aos vates, 
Este firmado orgulho em mim condem na, 
Bem da minha altivez meus ais a vingão. 



BOCAGE. 209 

Próximo a expirar, fallando de si mesmo a Pato Moniz, 
brada : 

Outrora experto, aceso 
De santa agitação, de ardor sagrado, 

No cérebro em tumulto, 
(Estancia então dâjDm Deos!) me borbulhava 

Respiração divina, 
Entbusiasmo augusto, alma do vate. 

Que rápidos portentos, 
Portentos em tropel, não deste á fama, 

Não deste à natureza, 
à pátria, ao mundo, a amor, na voz de Elmano ! 



Oh ! êxtase ! oh ! relâmpagos de gloria ! 

Faustos momentos de ouro, 
Com que meu gráo comprei na eternidade ! 

Phebo, após mim, te augura 
Vasto renome, que sobeje aos evos. 

Estas chanças de poetas, augurando eternidade ásisuas 
obras, não sao monopólio do nosso; manuseava elle tanto 
os grandes clássicos, que até só talvez tivesse em vista 
imital-os n' estas audácias. * « 

* Hoje não se perdoarião ; mas os antigos não deixavào 
seus créditos por mãos alheias. 

Lucano, no canto IX da Pharsalia, exprime-sc assim-* 

Taes sagraçõe8 da fama escusas, César, » "** 
De as invejar a alguém ; porque, se é dado 
is lacias musas assellar promessas, 
Emquanto houver seu preço o vate smyrneo, 
Hão de ler-me, e hão de ler-te os porvindouros. 
Cabe á nossa Pharsalia eterna vida ; 
Não n'a pôde evo algum sumir nas trevas. 

Veja-se igualmente Ovidio, no fim das MetamorphoseSj 

vn. AV ^ 



210 LIVRARIA CLÁSSICA. 

e noutras partes! Veja-se Horácio, em trinta lugares! 
Veja-se o fecho da Thebaida, de Stacio, c um sem nu- 
mero de casos semelhantes. 

certo é que estes acertarão, e nós cá estamos com 
effeito a lèl-os e a traduzil-os, depois de tantos séculos; 
mas quantos outros, com merecimento igual, e talvez 
superior, se não afundarino na corrente dos tempos? 

Voltando porém a Bocage, diremos que fácil é com- 
prehender como alma tào valentemente formada, e tào 
entranhadamente cônscia de sua immensa superioridade, 
exigia approvaçào, enthusiasmo, culto; e como a tra- 
teava a recusa de um. tributo de vassallagem ao génio. 
Dizem que Nero, como cómico c cantor, levou a vaidade 
c sede dos applausos a ponto de nrganisar a mais espan- 
tosa cabala para o victoriarem, e de condemnar á morte 
um senador, que teve a desdita de adormecer, não ob- 
stante o estrépito da turba dos arregimentados para ac- 
clamar... Pois em Bocage, com menor intensidade se não 
formulava o furor dos applausos, declarando mortal 
guerra ao que se contentasse com o testemunho de muda 
admiração. 

E por íim, que lucrou 7 Um viver sempre attribulado, 
pobre, perseguido, preso, dependente, pouco digno; 
prazeres fallazes e sempre envenenados ; saúde sempre 
péssima ; aspirações sempre frustradas ; o assombroso ta- 
lento, pelo qual vive na posteridade, originando-lhe tor- 
mentos ; fama grandemente maculada ; vida de tribula- 
ções, e morte prematura! 

A contraposição a quadro tào melancólico, faz lem- 
brar a sorte patriarchal do seu contemporâneo Ducis, 
que, fechando os olhos, aos oitenta e tres annos de idade, 
querendo, poucos dias antes, examinar qual o produclo 



BOCAGE. 211 

liquido de sua philosophica e ordenada vida, fazia d'ella 
este balanço : 

Grand philosophe économiste, 

Du produit net admirateur, 

Tu me dis : a Montre-moi la liste 

« Des choses quifont ton bonheur. 

« Tes plaisirs? — Dcs amis dn coeur. 

a Ta santé? — Cest la tempérance. 

« Tes travaux? — Téciis et je pense. 

« Tes désirs? — Ne faire aucuns voeux. 

« Ton trésor? — Mon indépendance. ■* 

* Ton produit net? — Je vis heureux. » 

E d'onde provinha, em Bocage, a disposição tyrannica 
para decretar ao mundo que o exaltasse? Em grande 
parte, da tempera d'aquella alma eminentemente poética. 
Ébrio do seu trabalho intellectual, exigia que os ouvintes 
se remontassem á sua esphera, espreitassem como elle os 
movimentos da maravilhosa machina do seu espirito, 
compenetrassem as almas na sua alma, fundissem às 
admirações na própria consciência da elevação. Ninguém 
mais do que Bocage gozou nunca a suavíssima sensação 
do que se lhô afigurava, quando compunha, um pedaço 
perfeito, uma obra inspirada : o qui me mihi reddat ami- 
cum, de Horácio, fora traçado para elle. 

-Não cabe pois ao compasso prosaico da critica terrena 
condemnar impulsos inherentes á poesia de tão poética 
organisação; mas cabe apontará mocidade inexperta para 
os escolhos em que tem de uso naufragar orgulho insano 
e vão. Bocage era Bocage! e todavia áquellc arrebata- 
mento deveu seus erros, seus padecimentos, e as paginas 
onde a historia litteraria tem de ser severa para com a 
sua memoria. 






• 



212 LIVRARIA CLÁSSICA. 

Sedento de louvores, por todo o preço os comprava. 

Quiz applausos ! e para isso o mais sincero dos crentes, 
cahindo como Lúcifer das regiões supremas, renegou 
Deos e combateu-o ! 

Quiz applausos ! e a musa que, por sublime e cândida, 
devera ser casta, atascou-se no lodo « prostituio-sc ! 

Quiz applausos ! e a nobre penna, defraudando a fama 
de outros beneméritos das lettras, molhou-se vergonhosa- 
mente em fel ! 

Quiz-f pplausos ! e a alma justa, caridosa e grata pol- 
luio-se ridiculisando seus bemfeitores ! 
' Quiz applausos, e de que modo? Não como animação, 
mas como tributo ; não como honrado salário do génio, 
mas como fim, sanctificador de todos os meios, por mais 
baixos e ignóbeis. 

Mal.se satisfarião pois estas despóticas exigências do 
orgulho com o mero apreço dos homens de instrucção 
e gosto, sempre em minoria, ç sempre adversos ás osten- 
tações e ao estrépito com que se decreta uma opinião. 
Mais grato e saboroso lhe era promover o irracional en- 
thusiasmo*das turbas, — das turbas tão fáceis em deixar-se 
arrastar para o piai, ou em victqriar a expressão eloquente 
e subjugadora dos vicios quedas deleitão : enthusiasmo 
contagioso é esse, que, ainda quando fictício, se propaga 
electricamente e se converte em delírio. Deslembra-se o 
vaidoso, n'esses êxtases de fraudulenta victoria, de que 
ha applausos que nobilitão, e applausos que desdourão ; 
— cantos de anjo ou sereia, que ora guião pelo caminho 
da gloria, ora desvairão pelo da infâmia; — jardins der- 
ramando os mais inebriantes perfumes, ou charco exha- 
lando os mais deletérios miasmas; — raptos que exaltáo 
aos céos, ou turbilhões que arrastão aos abysmos. 



BOCAGE. ' 213 



Se jamais houve período 'em que se devesse invocar a 
attenção da mocidade para os perigos d'esta gloria fallaz, 
é o que hoje pesa sobre as lettras em Portugal. Um quarto 
de século esperdiçado em theorias politicas, e a suppres-* 
são de muitas fontes de instrucção, têm retardado para 
longos annos os progressos da intelligencia. Oh! na ge- 
ração que se eleva achareis a índole, o fogo, o génio de 
nossos pais e avós... que sangue e céo não se haviâo de 
desmentir. Mas, por estrella fatal, inda nas faixas da in- 
fância envolvido o génio, luta por hombre&r já com o 
saber custoso e a experiência longa. Já os lustros se não 
revolvem sobre os lustros antes de ousar-se esclarecer os 
outros. A penna com que se aprenderão os primeiros 
traços, audaz se espraia pelos mais recônditos mysterios 
da humana comprehensão : prostra as millanarias socie- 
dades, para lhes alçar sobre as ruinas utopias de escan- 
descida imaginação; ou se entranha pelo coração do 
homem para explorar direitos novos ; ou se remonta além 
dos astros para averiguar a existência do Eterno ! E (o qu* 
mais e peior é) todas essas temerárias e pueris tentativas 
achão logo, para acoroçoal-as, o enxame de vorazes admi- 
radores, outorgando, ao pobre ícaro, os foros de im- 
mortal : que muito que o amor-proprio se deleite com 
estes triumphinhos? que muito que o perGdo persuada 
ser ouro o ouropel? Só resta lastimar os corollarios : 
quem enceta por onde os outros acabão, quem de tão 
comesinho modo ascendeu a immortal, para logo menos- 
preza sendas só trilhadas pela mediocridade, posterga 
estudo, cre-se perfeito... e taes vemos com frequência e 
dor estioladas e perdidas plantas que a natureza houvera 
creado giganteas e viçosas, fadado a altos não realisados 
destinos. • 



214 LIVRARIA CLÁSSICA. 

Creia-nos a juventude! Resguarde-se de intempestivas, 
traiçoeiras acclamaçòes : accorde-se de que a natureza a 
cada fructo deu sua estação de madurez ; de que, antes 
de instruir, é mister instruir-se; de que scribendi rede 
sapereest et principiam et fons; de que a experiência é 
mestra que importa consultar; de que as aspirações á glo- 
ria, faltando base, s;lo miragens da imaginação, Junos 
dos Ixions; de que emíim a modéstia centuplica o verda- 
deiro mérito ; e de que os bravos de má roda são a mais 
acerbadas condemnaçõcs. 



CAPITULO XV 



Bocagiana. — Se a gravidade tolera narrarão de aneedotas. — Blair e as 
biographias. — Cabe a estas tlescrever suecessos familiares e da vida 
privada. — A quadra de Bocage f i de transição. — Viver engrinaldado 
de rosas. — Escolhemos algumas de entre muitas aneedotas de Bocage. 

— Idêas d'elle sobre os frades. — O padre-mestre e o leigo, ou os co- 
pos de vinho e agua. — Improvisos de Bocage e de outros, contra fra- 
des. — A procissão de Terceiro'*, ou o frade á pancada com a tocha. — 
A declaração e o bofetão, cmfroantes. — O mote sem rima. — drama 
roubado. — pregão do le^o. — habito do Serra. — Motes to- 
los. — duque de Lafões. — Frei João de Pousafolles. — Bocage c a 
patrulha. — poeta esfaimado e pedinte. — A eslanqueira do Loreto. 

— nariz de Antão Broega. — Lpitaphios a si mesmo. — O homem 
florete. — A offerta do baptisado. — Sinos e porcas. — boléo da Pa- 
nasqueira. — A véspera do corpo de Deos. — Formosa, bella o honrada. 

— mulato da viola. — Operação obstetrícia feita a um improviso difficil. 

— A Zargueida. — João Soyé. — A historia de Malta. — Alerto for- 
çado. — Bocage e Maynard. ou a memoria milagrosa. — Bocage e a 
camponeza ; impossibilidade vencida. 



Ao emprekender esta Memoria, hesitámos se a gravi- 
dade de uma collecçào, tendo por titulo Livraria clássica, 
toleraria descer-se á narração de aneedotas, o a porme- 



BOCAGE. 215 

nores de género mais leve, mas julgámos ser isso n'este 
caso, não só um direito, mas um dever. 

Diz Blair, um dos mestres da arte de escrever, que as 
biographias são composições mui úteis; menos formaes 
que a historia, mas para a maioria dos leitores talvez 
não menos instruetivas, por isso que lhes proporcionão 
occasião de verem caracteres e génios, virtudes e defeitos 
dos homens eminentes; e mais que a historia admittem 
os leitores a uni commercio mais intimo e completo com 
taes personagens. Diz ellc ser licito a um biographo 
descer, sem impropriedade, a circumstancias miúdas, e 
a incidentes familiares. Espera o leitor que se lhe repro- 
duza tanto a vida privada como publica do seu heróe ; 
sendo até certo que da vida privada, familiar, domestica, 
das oceurrencias em apparencia triviaes, é que muitas 
vezes recebemos mais luz sobre o real caracter do indi- 
viduo. APlutarcho devemos o principal conhecimento de 
muitos personagens antigos, sendo a matéria d'aquelle 
escriptor melhor que a sua maneira, visto não haver em 
seus escriptos peculiar belleza ou elegância. 

Se pois estas Memorias, além da sua parte critica, 
devem igualmente applicar-sc a uma secção i)iographica, 
entendemos que não é rebaixar o assumpto revelar uma 
porção de anãs, isto é, de repentes e bons ditos do nosso 
poeta, que denuncião a direcção do seu espirito, a viva- 
cidade do seu exprimir, e mais intimamente muitos dos 
seus pensamentos e sentimentos. Xenophonte, nos seus 
Memoráveis, Diógenes de Lacrcio, nas Vidas dos philoso- 
phos, Aulo Gellio, nas Noites Atticas, não julgarão exau- 
torar-se abundando em ditos chistosos, em narrações 
graciosas, cm suecessos notáveis de diversos homens il- 
lustres. 



216 • LIVRARIA CLÁSSICA. 

E poisque entre os nossos principaes intuitos figura o 
de n'esta collecção dispormos uma anthologia litteraria, 
aproveitemos os muitos subsídios que nos forão propor- 
cionados, assim como os que nol-o são pelas próprias 
poesias de Bocage, o qual tinha por manha fallar muito 
. de si ; e nem negamos que a tal manha de litteratura 
pessoal e egoísta torna acerca de muitos autores fácil a 
biggraphia, de que são elles os mais valiosos, comqugnto 
nem sempre os mais fidedignos, collaboradores. ^ 

Foi a quadra em que Bocage veio ao mundo èm de 
singular movimento e desenvoltura; período de agitação, 
controvérsia, transição. N'esses dias distinguia-se geral- 
mente a sociedade litteraria por gostos leves ; parece que 
só se oceupavão de fazer resvalar sobre as ondas do 
viver as silas barquinhas engrinaldadas de rosas ; inundo 
era esse, onde só imperavão os prazeres de dia, e os 
amores nocturnos, como diz Dryden : 

The world was then so light !...., .^ 
Joy ruled the day, and love the nightTÇ 

Volumes encheria a parte aneedotica da vida do nosso 
espirituogissimo poeta : Bocage era uma dobadoura de 
bons ditos, girandola de epigratnmas, azenha de graças, 
■ machina de repentes. Não descaberá pois esboçarmos 
aqui algumas scenas, que todas nos forão narradas, já 
por testemunhas oculares, já por cordiaes amigos de Bo- 
cage,^ desprezámos ainda centenares de apocryphas his- 
torias, que o vulgo lhe attribue. Já quando escrevemos 
a primeira edição d'esta Memoria, em 1847, poucos 
restavão d'aquella brilhante sociedade ; os então septua- 
genários a nonagenarios, que havião tido côm elle trato 
estreito, hoje, em 1865, todos pagarão já o seu tributo 
f V ^ 



BOCAGE. 4 ?^217 ■ 

á humanidade, e apagou-se até á ultima voz que pudesse, 
por testemunho pessoal, informar-nQs acerca de um ge- í f 
nio singular, que não só nas suas obras, senão também 
nos seus actos e ditos, se retratava. Em relação a Bocage, 
nascido em 1765, é este em que nos achamos o anno do 
carmen secular e. 

Grande parte dos versos, que no presente e no seguinte 
capitulo teremos de divulgar, são inéditos; e aos que 
correifi impressos (geralmente aleijados) importava dar 
cabimcffito aqui para restabelecêl-os com dignidade, e so- 
bretudo para se poderem avaliar, pela exposição dos casos 
a que devôrão origem. 

."* Repetiremos pois singelamente' essas anecdotas, dei- $ 

xando-as na desordem em que nol-as contarão amigos 
de Bocage, anciãos venerandos que tanto se comprazião 
na reminiscência de bons tempos, tão outros da lúgubre 
sociedade de hoje; e*vereis não ser sem razão que Bocage 
exclamava : , 

Chalaça minha, que chibavas tanto 
Na sucia dos tafues! 

i 

Era Santarém a mais cara residência de Bocage,V pro- 
vinha essa particular attracção de vários amores que alli 
cultivava j tivemos a satisfação de conhecer a dama que 
n aquella terra mais justamente lh'os inspirou, em rea- 
lidade distinctissima por talento, e mostrando ainda ter 
sido mui formosa; mas além d'essa, outras lhe ferirão o 
cosação ; tal foi a Feliza do respectivo idyllio : * 

Como qtjfco pobre Élmano ainda escuto, 
Que ao céo volvia o rosto amargurado 
Nunca de acerbas lagrimas enxuto. 



218 LIVRARIA CLÁSSICA 

Como que ainda observo o desgraçado 
Lã nos campos do Scaiabis antiga, etc. 

Comquanto Bocage levasse as suas idéas religiosas a 
ponto de superstição, e cultivasse relações com frades, 
taes como frei José Mariano, D. António da Purificação, 
frei José Torrezuo, Joaquim de Foyos, etc. , não podia levar 
á paciência a instituição monástica; cncarava-a, não pelo 
prisma religioso, mas pelo abuso real ou possível dos 
meios que os monges tinhfio á sua disposição. Conside- 
rava-os parasitas, enliçadores, confessores nómadas, vi- 
sitantes de moribundos ricos, medianeiros de negócios 
mysteriosos, corretores de transacções clandestinas, ma- 
nobradores impudentes, velhacos e viciosos; disposição 
de animo esta que importa ter ein vista, para apreciar 
o que se segue. Eil-o pois em Santarém. 

Tratado como irmão em casa de Salinas de Benevi- 
des, lá se esquecia durante mezes. Era chegado o tempo 
da feira, em que, segundo o uso, grande multidão con- 
corria a Santarém. 

Á hospitaleira porta de Salinas vão batendo, sabedores 
do benévolo agasalho, amigos e estranhos : são onze horas 
da manhã, quando pela centésima vez se tange a cam- 
painha ! Dous Vara toj anos, moídos e suados, mas o padre- 
mestre hercúleo e nédio, e o leigo moço e mirrado,, en- 
trão para a sala commum. Trazendo-se-lhes dous copos, 
um de vinho, outro de agua, o velho, sem dar satisfa- 
ções, precipitou-se sobre o rubro liquido, que o leigo vio 
com olhos de inveja emborcar até meio, resolvendo-se 
então humildemente a pegar no copo de agua. Mal nãa 
arriscara o movimento, quando, irado o padre-mestre, 
por ver a audácia com que o seu subalterno, faltando ás 
regras da santa obediência, bebia a agua de motu-proprio, 



BOCAGE. 219 

empertiga-se, ainda cm cima, para o estafado moço, ber- 
rando-lhe : « irmão já me pedio licença para beber 
isso? » 

Bocage, que, de toda a scena, nem um meneio per- 
dera, alevanta-se furibundo, vai dentro, e apodera-se de 
um cajado, com que sahc para a rua, a desancar frades. 
Esteve divino : vociferações, epigrammas borbutavão em 
cachão. 

Quiz a fortuna que, a um canto da feira, lobrigasse 
densa mó de gente, ralhando, ameaçando, rindo, gri- 
tando. Encaminhou-se para a mullidào,-que rodeava uma 
loja ambulante de bonecos de barro. E ahi lhe contarão 
como a mais rica peça da loja era um frade de louça, 
de Estremoz, atacando uma freira; que passara aquelle 
frade de carne, que ainda lá se avistava ao longe, o 
qual, encolerisado, arrebatara o escandaloso grupo, o 
esmigalhara e concuftára aos pés, impávido continuando 
em seu caminho. 

Imagine-se como 'Bocage ficaria! Entra a correr, cla- 
mando como possesso : 

— Cerquem-me o frade! agarrem-me o frade, que 
ahi vai uma saraivada de sonetos ! 

E com effeito, á queima-roupa lhe desfechou uma dúzia 
de sonetos, de que se segue amostra : 

Esquentado írisão, brutal masmarro, 

Vagava Santarém na pobre feira 

Eis que divisa ao longe, em cova ceira, 
Seus bons irmãos, seraphicos de barro. 

bruto, que arremeda um boi de carro 
Na carranca feroz, parte á carreira; 
Os sagrados bonecos escaqueira, 
E arranca de ufania um longo escarro. 



220 ** LIVRARIA CLASSICV. 

Na alma o santo furor lhe arqueja e berra 

Mas vós, enchei- vos de intimo alvoroço, 
Povos, que do burel soffreis a guerra! 

Que dos bonzos de barro o vil destroço 
É presagio talvez de irem á terra 
Membrudos fradalhões de carne e de osso. 

PTaquelle soneto foi Bocage propheta ; e muitos ou- 
tros improvisou, como o seguinte : 

N'esta cuja memoria esquece á foma, 
Feira, que a Santarém vem de anno era anuo, 

Atacava a uma freira um franciscano 

Erão de barro os dous, de barro a canto. ^ 

Com mão, que á v injurias trama, 

Pretendia o c..*... f o panno : 

Eis que um negro barrasco, um frei Tutano, 

espectáculo vê, que os r lhe inflam ma. 

*. *» 
« Irra, vens-me atiçar, gente damnada ! 
« Nàp basta a felpa dos buréis opacos, 
« Com que a carne rebelde anda ditada? 

« Fora, vis tentações, fora velhacos » 

Diz ! E ao ríspido som de atroz patada, 
escandaloso par converte em cacos. 

Continuou, além (Teste e idênticos sonetos, a dispa- 
rar aos frades epigrammas como este, que nós demos 
primeiro^ ao publico : 

Entre um frade e entre um burro 
Ha tanta conformidade, 

Que ou o frade é pai do burro, * 

■?: Ou o burro é pai do frade ! 

Lêramos nós, sempre com espanto, altribuido a Bo- 
cage, outro soneto que os editores das suas Posthumas 



*\ „ 



BOCAGE. X* 221 .? 

davão como seu, e que por ser sobre objecto análogo, 
aqui transcrevemos : * 

Encontrei certo leigo franciscano « 

Com os olhos no chão, pedindo esmola, w 

Dos hombros lhe pendia alva saccola, * 
Celleiro que dá pão p'ra todo o anno. 

Queria o leigo armar-me o tal engano, ^jfc 

Pregando -me p'ra isso a corriola; ' s -~ 

Mas eu, que sigo esta moderna escola, 
Só vergalbo daria ao tal magano. 

Como é possível que a nação contente, 
Em paz mantenha, e liberal soccorra 
* A tão inútil e ociosa gente ! ! 

Tem que comer o frade á tripa forra, 

Já eu, por mais que trabalhe, ando indigente ^ 

Se o encontro outra vez, faço-o em borra ! 

m 

Nada d'isso é o dizer de Bocage! Emittiapaos esta opi- . 
nião a Costa é Sil^a, o qual nos declarou que tínhamos 
raaão, pois elle sabia com certeza ser este soneto de José 
Caetano de Figueiredo, ão que não ha motivo para deixar 
de crer, pois que, propondo-se elle a escrever a biogra- 
phia do traductor da Alzira, devia ter conhecimento de ^ 
um facto que affirmava como certo. 

Não levantaremos d' aqui a mao sem delatarmos tam- 
bém^ segando nos foi asseverado, ser de António Lpbp 
de Carvalho (de quem se publicarão varias composições 
no Jornal Poético de 1812, e em 1852 uma collecção 
de poesias satyricas e obscenas, em Lisboa, pondo-se-lhtò 
a localidade ei^rCadix) outro famoso soneto contra frades, 
que indevidamente se costjhia imputar a Bocage, e é (Jo . , 
teor seguinte : . ^ * 



22* LIVRARIA CLÁSSICA. 

Christo morreu ha mil e tintos annos : 
Foi descido da cruz, logo enterrado : 
Mas de pedir-Ihe aqui nâo têm cessado 
Para o santo sepulcro os franciscanos. 

Surgio Christo outra vez entre os humanos : 

Subio da terra ao reino afortunado 

E à saúde de Christo sepultado 
Bebem, à tripa forra, estes maganos! 

E cuidao quantos dào a sua esmola 
Que elles a gastão cm acção mui pia? 
Quanto vos enganais, ó gente tola ! 

altar com dous cotos se alumia ; 
E o fradinho, co'a m... que o consola, 
Gasta de noite o que tirou de dia. 

Acerca (Teste soneto, dissemos nós, na primeira edição 
(Testa Memoria (Liv. 67., XXV, pag. 162), o seguinte : \ 

« Vem no tomo IV das obras de Filinto Elysip, sem 
que alli se declare quem seu autor seja. N'uma nota, 
lc-se : « Este soneto é a relação histórica do que suc- 
« cedeu a certo frade, com quem eu, c outro estudan- 
« tinho, meu camarada, andámos pedindo para o sepul- 
« cro. Nem tudo o que os poetas dizem se deve tomar 
a ao pé da lettra ; c muito menos o que elles zombeteando 
« escrevem. A relação que vai no soneto é em partes ver- 
« dadeira, cm partes não. » Segundo esta amphibologica 
nota, e pela circumstancia de se esquecer Filinto (como 
lhe acontecia com frequência) de declarar que o soneto 
não era seu, muitos lh'o attribuirâo indevidamente : boa 
resalva lhe é a declaração que algures fez de que elle 
próprio a vezes se esquecera se varias obras que publi- 
cava crão suas oii alheias. O nosso exemplar está muito 
superior ao de que se sérvio ^Francisco Manoel, como é 
faál de ver, confrontando-os. » 



BOCAGE. 223 

Os quatro seguintes sonetos anti-monasticos forão-nos 
de Setúbal enviados, em manuscripto, pelo Sr. Theotonio 
Banha, que nos affirmou serem de seu preclaro primo; e 
acerca de cada um d'elles .accrescentaremos algumas 
palavras : 



Ao sacrosanto templo fui um dia, 
De pia inspiração reconduzido ; 
Aos pés do confessor, arrependido, 
Minhas culpas enormes repetia. 

Entre soluços e ais : « Padre ! dizia, 

.« Padre! com Mareia a Deos tenho offendido; 

c £ adoro Mareia, tanto que o sentido 

« Nunca d'ella (ai de mim!) se me desvia! » 

Range um vestido... olhei. É olla! é ella! 
>; Mal n'ella os olhos deslumbrados puz, 

«A causa do meu mal, disse, é aquella! » 

No olhar do padre o pasmo lhe reluz, 
Prorompendo a final : « Céos, como c bella ! 
« Ama-a, meu filho, e vai-te com Jesus! » 

Quanto ao soneto que precede, sabemos haver quem 
o attribua a Alvarenga. Um critico, a quem muito respei- 
tamos, diz que esse estylo o não autorisa a tomal-o por 
de Bocage; todavia sendo certo que ha muitas poesias 
d'elle inferiores a esta, não ousamos desmentir um res- 
peitável parente do poeta, que os conservava inéditos, 
e nol-os confiou. 



Nâo deves consentir, príncipe augusto, **': 
Que este bicho infernal, chamado frade, 
Cyre na côrle, gyre na cidade, 
Enchendo a lodos de terroj e susto. 



v* 



224 t LIVRARIA CLÁSSICA. 

Qual leão tragador, forte c robusto, 
Nas moças quer cevar sua maldade, 
Audaz atropellando a caridade, 
Que lhe dieta o preceito santo e justo. 

Não é ódio, não é, que assim me obriga 

A maldizer a corja viciosa, 

Que vive de vileza, infâmia, intriga. 

Se a tal vida do claustro é virtuosa, 
Vivão no claustro, atulhem a barriga, 
Que, sem trabalho!... é cousa preciosa. 

■♦ 
Foi sobre este feita observação igual á anterior, a que 

respeitosamente redarguimos da mesma forma. . 



Se quereis, bom monarcha, ter soldados, 
Para compor lustrosos regimentos, 
Mandai desentulhar esses conventos, 
Em favor da preguiça edificados. 

Nos Bernardos, lambões e asselvajados, 
Achareis mil guerreiros corpulentos. 
Nos Vicentes, nos Ncrys e nos Bentos, 
Outros tereis, não menos esforçados. 

Tudo extingui, Senhor! Fiquem somente 
Os Franciscanos, Lóios e Torneiros^, 
Do Centimano aspérrima semente; .%"' 

Existão esses lobos carniceiros, ; 

* . PYa não arruinar inteiramente 

P..., p..., c..., e a... 

Este stlppõe-se andar impresso n'uma collecçào de 
poesias analogàS, publicada em Paris por um sujeito do 
JWaranbão. cavalheiro de' quem acima falíamos acha 
rfeste seus visos de «émdfeínpa,- mas expunge-o; o col- 



BOCAGE. . 225 

lector porém do denominado tomo VII transcreveu-o, á 
pag. 136. 



Do throno excelso nos degráos sagrados 

O patriarcha Assiz ajoelhava; 

E consla que desfarte se queixava 

Ào Deos, que rege o cqo, que move os fados. 

« Grande Deos! côm que pejo relaxados '""^ 

« Vejo os filhos que outr*ora abençoava ! 
« Já entre elles o vicio se pescava, 
« Já de Chkisto não são da fé soldados: 

« Eu te imploro, Senfior, que aos loucos brades, 
i 4 « Que lhes apontes a via ao paraíso ! » 

* fyrrio-se Deos, e disse' : c Não' te enfades ! v 

« Frades não fiz, de frades não preciso, l 
• Quando o mundo souber o que tfo frades, 
, . « Ha de acabal-os, se tiver juizo. • 

Diz o estimável critico supra indicado que o precedente 
soneto é indubitavelmente de frei José Torrezao. Não 
ouvindo razfles que nos demovão, pedimos vénia para 
não retirar confiança a um illustrado parente de Bocage, 
tanto mais quanto 6e nos afigura improvável que tal 
verrina contra 4 frades sahisse da penna de um frade! 

Um amigo nrôrc que, passeando Bocage e Malhão na 

praça das Caldas, um sujeito lheg^dera o mole : 

*" . ■ . * 

Um burro, um frade e uma freira, * 

iverso que foi glosado por Malhão : 

Sahio um garoto á pressa £ 

A buscar uma parteira, 

Porque rio estarem juntos, 

Um burro, um frade! &typ\& fmv*. *" 






226 LIVRARIA CLÁSSICA. 

e por Bocage : 

Casou um bonzo da China 
Couma mulher feiticeira : 
Nascerão três filhos gémeos, 
Um burro, um frade e uma freira. 



seguinte soneto não o achamos publicado senão no 
'ri 57 do'Velho Liberal do Douro^mzs com as seguintes 
palavras : 

« Lembrei-me de um soneto de Bocage, pintando o 

heroísmo de desesperação de .um frade, que, com uma 

vela na mão, deu muitas pancadas em uma procissão de 

Terceiros Franciscanos que disfjputavã» preferengiair : » 

* * . 

Qual tropa regular, a fradaria 

Investe a sacra estúpida ordenança; 

A paz, filha do céo, calada e mansa, * ■ * 

Dos couces, das patadas se desvia. 

Preside alto furor â lide impia, 
De serpes infernaes toucada a trança ; 
-*■■■ Pançudo frade Borra a tudo avança, 
£ furor marcial nos sócios cria. 

De um cirio desenvolve heróicos feitos ; . . 
D 1 este rompe o nari# cTaquelle a çway 
Adeos hombros ! adeos olhos e peitoi jj# 

Do sacro phrenesi ninguém lhe escapa 

Oh! que bem 4o Alcorão cumpre os preceitos 
O revoltoso exercito do papa! 

Devemos esta anecdota ao nosso amigo o Sr. Dr. An- 
tónio Dias de AzèVedo. 

Em Santarém, havia assenlbléa em casa de Benevides : 
uns jogavão, conversavão outros» Ia**servir-se o chá,. 



BOCAGE. 327 

quando, ao passar uma menina junto da porta a que. o 
poeta estava recostado, ex abrupto lhe pergunta este : 

— meu amor gosta dé^nim? 

A resposta não menos abrupta foi uma estridula bo- 
fetada! 

Alaridos geraes, espantos, satisfações, recriminações, 
confusão e desordem na sociedade, estes estranhando o 
acto da senhora, o maior numero criticando a audácia do 
insolente, até que um dos circumstantes, desejoso de j 
abafar tamanhas iras, teve a idéa feliz de explicar ambos ^ 
os acontecimentos por simples e mutuo gracejo. Admit- 
tída a interpretação, arvorou-se a coippanhia em tribu- 
nal semelhando as antigas cortes do Amor. Ouvidos os * 
depoimentos das testemunhas, interrogatórios dos réos, 
e allegações dos advogados, o tribunal condemnou sum- 
maritaente á dajna a cantar uma mbdinha; ao poeta, a 
fazer um soneto sobre o mote que lhe fosse ^dado pela 
offendida. Cumprida a sentença pela senhora/ deu -lhe 
por mote : 

Das almas grandes a nobreza é esta ; 



que o offensor glosou do seguinte modo [inédito) : 

-* . • 

Apertando dè Nise a mão nevada,, - - 

A furto lhe pdr.gunto : De mim gofta? ■ ^ 4 

Cala-se Nise e manda-me resposta 

Nas azas d'estrondosa bofetada I 

c Que è isso? » grita *m|i. « Senhçra, ê nada. • 
Lhe responde com voz branda e composta. 
Ferve susurro aqui; e jt parte opppsra 
- Rebenta insultadora paleada. 

ir Caki-vos, lhes gritei, Ameas vaicxfita»\ 



328 LIVRARIA CLÁSSICA. 

• Achei Nise guardando o lume a Vesta, 
« Quando julguei que a Amor rendia cultos. 

« Sou nobre! sou heróe liamos á festa! 
c Amar, e por amor soffrer insultos, 
« Das almas grandes a nobreza é estai » 

N' outra assembléa, após os mais extraordinários im- 
provisos aos mais extravagantes motes, quando já por 
toda a sala corria não haver impossibilidade que o fosse 

# para semelhante estro, uma menina que tinha toda a 

* t noite porfiado em crear os mais exóticos versos, diz ao 

circulo das amigas : 
i t — Eu é que lh^vou gregar; havemos de ver como sp 
elle ha dè sahir, com uma palavra que não tem consoante. 
E alteando a voz, exclama mui ancha : ^ 

' ". — Ó Sr. Bocage! 

meu amor foi pVa a índia! 

\ poeta, percebendo a intenção, torna-lhe incon- 
tiqjjgte: 

— ^Pois, minha senhora, quando elle voltar, vá V. S. 
bugiar e mais elle ! 

(A resposta foi ainda mais enérgica.. Fqtçpi é confessar 

que, apezar de todas as precauções 0ratorias, vários dos 

seus, rájjentes jrâoájd para d. prelo, pois a sua desbocada 

liberdade fferfÇfe tolhia, nem pelcrrespeito devido ao sexo, 

, nem ás considerações sociaes.) 

Foi victima (mormente depftjs de morto) não só da im- 
putação de muitas más obras "alheias, mas do roubo de 
, muitas, próprias. ' * .* 

<•■ Tinha Bocage imposto o I o acto,^m verso, cfè um 
drama original, intitulado : A Restauração de Lisboa, 



BOCAGE. * • . 229 

quando o arrastarão ao Limoeiro. Um padre, José Manoel 
de Abreu e Lima, que vivia de escrevinhar para theatro/ 
esperando, como muitos, que o pdeta ficasse em ferros, 
para toda a vida, e senhoreando-se do manuscripto, pôl-o 
em prosa, completou-o como soube, e representou a y 
peça por sua, no theatro do Salitre. EnraivecidcrBocage, 
dardejou-lhe no Ímpeto da sua cólera o seguinte soneto : 

* 

Em vão, padfe José, padre ou sacristã , 

De magra cachimonia, estéril penna, fc 

Encaixas do Salitre sobre a scena 

D' alta Lisboa a celebre Conquista, 

Bocage, jff entre grades, pede- vistfljt 
jftíConíra um roubo mais certo que o de Helena ; * 

E a comicd Thalia te condemna 
* Dos plagiários vis a andar na lista. 

■■ .. * 

D'Affonso houveste às mãos acto primeiro, * 

Fructo do pobre autor encarcerado, " 

E deste a consciência por dinheiro. 

Roubaste-lo , por vèl-o encantado*. .... 

Cuidas talvez que é cova o Limoeiro? **; 

Ora treme de o ver resuscitado. „ -)&$ 

Apezar de ser o ultimo terceto idêntico em quantas 
cópias temofr viato, juraríamos que Bocage o não còm- 
pôz assim. ^ % ■ m 

A Hespanhola Ingleza á um conío dejffioecacà). Eatava 
elle de cama, quando ouvio um cego apriSgoar cfcúi gcande, 
emphase : « A magnifica novella, iíititylada Hespanhola * 
Ingleza, producção do idÇigne Bocage. » Gomo o pobre 
cego cahíra em desitalianisar o norrte, ergue-se Bocage 
exasperado, e brada : " tJf ' ■' ; 

— Ainda est&fvivo, e já me-me^^^^^wsv^^wswsi^. 



? 



'^50 « * LIVUARIA ^CLÁSSICA. 

Cneira,me isto a agouro : é a posteridade a passear-me 
"diante da porta! e logo dictou o seguinte soneto : 

« 

Mercenário pregão de cego andante, 

Quixote de fantástica donzella, 
* Audaz impinge semsabor novella, 

"Munida de um Bocage altisonante. 

Jíos flóreos tempos em que fui chibante, 
** Ai do Ingl^z# da moça, inda que bella! 
Ai do que ousasse, com venal ballela, 
i * Pôr-me em pardo papel, e em vil barbante ! 

Deploráveis mortaes! não somos nada! 

Meu nome que esparziste, honraste, ó fama 

Meu nome em Aerraria, em assoada! <£ 

* A gloria me insta; a cólera me inflamma. * 

Eu.. eu brigo... ó Perpetua, dá-me a espada ^ 

m Mas ai ! Hercules só brigou na cama ! 

Em 1804, logó depois da coroação de Napoleão, aca- 
bavão de dizer-lhe que um N. Serra, de quem formava 
frouxo conceito, acabavade ser condecorado com o habito 
de ÇKÊisto, e de chofre exclamou (inédito) : 

Sempre os Lusos iguaes forão 

Nos feitos grandes da terra. 

Virão c'rôa em Bonaparte, / 

Derao o habito ao Serra ! ç 

. Couâafcora qte desadorava, quapdo estava em maré de 

. improvisar, era com o que elle chamava motes tolos. Não 

asseveramos positivamente ser d'elle a seguinte aneedota; 

* mas dizem-nos que «tendo elle classificado como tal o « 

( mote que lhe acabavão de dar : 

• * * • 

Almas, vidas, pensamentos, 



BOCAGE. *' * 2M* 

respondera logo com a seguinte décima (inédita) * * 

Calções, pJlainas, sapatos, 
Persovejos, pulgas, piolhos, 
Azeites, vinagres, molhos, 
Tigelas, pires e pratos, - .. * 

Cadelas, galgos e gatos, •' ■ 

Pauladas, dores, tormentos^ 
Burros, cavallos, jumentos, * 
Náos, navios, caravellas, v- * 

t Corações, tripas, moellas, 

Almas, vidas, pensamentos. 

Tanto esta, como algumas das, que irilmediatpimente 
se seguem, foràj>-nos fransmittidas «pelo Sr. Banha, de 
quem já»" tivemos occasião de fallar . 

Em 1801, por occasião da guerra de Hespanha, no- . 
meW 6 principe-rêgente general commandante das tre- 
pas portuguQzas a D. João de Bragança, duque de Lafões, 
de idade de oitenta e quatro annos, o qual foi em Por- 
talegre assentar o quartel-general. ííos poucos mezes 
que durou aquella' campanha, apparecêrão alguns pas? 
quins pregados nas esquinas de Lisboa, e entre^les 
este soneto (inédito) de Bocage : » 

Méu príncipe e senhor! Sé Vossa Alteza 

Quer o seu reino ter bem governado ; 

Se anceia ser temido e respeitado 

Da nação hespanhola e da francezf; rf * 

jl • 

Mande o duque talhar là co' a duqueza^ 
E ponha em seu lugar um bom soldado, 
Valente, homem de bem, capaz e honrado, 
 Inda que seja povo e não nobreza ; ■» 

O Seabra pYa Angola, que é bem quente ; 

O Pinto passear pela Inglaterra ; 

E o visçoàcle? deponha-o por demente. 



t. 1 

t 



*232 , . LIVRARIA CLÁSSICA , ' 

?* Ministros faça quê na lusa terra 

SaibSo, sem mendigar de estranha gente, 
Crear heróes na paz e heróes na guerra. 

O erudito critico a quem já por vezes alludímos, refe- 
rindó-tfe^a este soneto, diz : « leitor avisado veja e 
julgue. » Só diremos que o soneto é fraco, mas não infe- 
rior a alguns outros dê Bocage, que x para não dormitar, 
não tinha mais privilégios do que Homero ; e ainda este 
nos foi dado pelo Sr. Banha, primo de Bocage, precedido 
da nota que transcrevemos. 

Tinha por habito fumar constantemente emquanto 
poetava. Um dia, estando hospedado, no convento da 
■ Boa-Iíora, escrevendo na cella de frei João áé Pousa- 
folies, com um candeeiro na mesa, para aceudér o. ci- 
garro, apagou-se-lhe; pédio ao amigo {[ue lhe fosse lyiSfear 
lume, e como este se recusasse, representando quanto 
lhe era nocivo tão immoderado uso jle tabaCQ, asqueroso 
Vioio de que se devia abster, redarguio Bocage : 

Amigo frei João ; cuidas que é barro 
*" O famoso tabaeo por que berro? . 

Um nigromante me transforme em perro, ,* 
Se ha cousa para mim como o cigarro. 4 

Elle me arranca pegajoso escarro, 
, Que nas fornalhas doeste J>eito. encerro : 

* ' ^0 frio, as affliccões de mim desterro, 

Quando 4he beto a mão, guando Ijfie agarro? 

De vicio tal, se é vicio, não me corro ; 
..£ só tomo rapé, tabaco, esturro, "J* 

Quando quero zangar algum cachorro. % 

Amigo frei João, não.sejas burro ! 
Traze-me lume já, que se não, morro !. 
Dize bem do cigarro... ou dou-te um murro! 



BOCAGE. 233 

Recolhendo-se Bocage, uma noite, do botequim do 
Nicola para casa, foi encontrado por uma patrulha, 
que, apresentando-lhe ao peito as pistolas engatilhadas, 
lhe perguntou : m 

— Quem é Vm.? D'onde vem? Para onde vai? 

Respondeu-lhc (inédito) : 

É o poeta Bocage; 
Vem da loja do Nicola; 
E vai para o ouíro mundo. 
Se lhe dispara a pistola. 

Afigura-se-nos ser variante do que precede a seguinte 
historia, que lemos numa cojlecção de aneedotas : 

Tendo os espiões da intendência ordem de prender 
certo sujeito morador no bairro da Mouraria, em Lisboa, 
andavâo rondando a rua dos Cavallciros, no momento em 
que Bocage ia chegando á sua porta. Os alguazis mandá- 
rào-lhc logo fazer alto com a sua costumada delicadeza; 
mas o poeta, vindo com a caveira um tanto escandecida, 
nâo fez caso da intimação e continuou a approximar-sc á v 
casa, onde começou a bater. Os esbirros, zangados, en- 
gatilharão logo as espingardas sobre elle, ordenando-lhe . 
que parasse e dissesse para onde ia, quando nâo desfe- 
charião immediatamente. « Se assiip é, respondeu Bocage, 
irei para o outro mundo, e se não desfecharem, irei para 
minha casa, que é no segundo andar : escolhâol — Nada 
de casa, Vm. é suspeito, ha de ir para o Limoeiro. — 
Então, replicou o poeta, se sabião para onde eu havia de 
ir, para que diabo m'o perguntarão? » 

Era frequentíssimo achar-se exhausto de meios, e até 
curtir forno. Uma tarde em que elle não jantara^ &e\ui& 
convidado por um amigo para irem cowxev ^^\\t\s\ wa»^-, 



«* 



• • * * * 

234 . - LI.VRARIÀ CJjfcSSICA.* ?*'. ,„ 

■ ■ ■ * 

f * 6 perguntande-lhe este se tinha vontade, respondeu-lhe : 

Se alguma palavra digoi ,* * 

* • . E o hálito á boca puxo, *« . 

. • Sobem-me as tripas e o buxo • 
A. escutar se mastigo. 

Westas repetidas crises, dirigiõ muitas cartas singelas 
e versos, cujos autographos algumas' pessoas conservão, 
> a artigos que o soccorrião: Uma das producções mais^ 
galantes n'este género é o soneto que elle remetteu ao 
Dr. Montano, pedindo que o favorecesse com a importân- 
cia da' semestre das^asas ía travessa das Mercês, cujo 
4 senhorio, um tepdeko gallego, exigia o* "pagamento, sqb 
pena de despejo, soneto que teve em resposta qyatro* 
peças de ouro :%■■-« „ , \ 

Demanda-me usurário «enhorio i * 

Do já findo semestre a somma escassa ; 
Enjoado de esperas, sei que^traça * 

«Pôr-me em Janeiro a passear ao frio. 
■* *..*''* V1 * 

^ Elle, em taes casos, para maãílem brio, 

- Que é homempé de boi, vilão de raça ! 
Já creio que o mandado extrahe, e o passa * 
Á mão ganghosa d'alguazil bravio. . 



*» Tú, que detestas esta» corja horrenda, 
Que deveu a ganância inútil sua 
Primeiro ao chafariz, depois à tenda, 

O avaro alegra que um semestrelamua ! 

Acode ao triste amigo, antes que aprenda, 

De cães vadios, a dormir na rua! ' 

Á 

Tinha a loja pegada com a.igreja do Loreto uma mu- 
lher que vendia tabaco ; fredíõnda, com uma intérmina-» 
vel cara, e um descompassado nariz, què ficou histórico, 



f 



m ■' \ * iv BOCAÇE, \ 9 ^ 235 

e deu mais que fazer aos poetas de^nagrammas eriepi-* *•• 
grammas que o nariz do padre Genest rtoswltimos tem- 
pos de Luiz XIV. t .■>;.' . * ♦ • 

Esta mulher, de um génio rápido, vendo-se alvo das 

* constantes chufas da populaça, eniurecia-se a porilo de < 
commetter- despropósitos. Chamou assim a attenção dos 

* travçssos da roda de Bocage, os quaes começarão a ir 
comprar tabaco á*estanqueira do Loreto, despedinflo-se* ' 
4^'ella com chocarrices novas| ou chistosos epigr^mthas. . * 

Tete a pobre* Helena a imprudência de tomar a peito 
estas reiteradas scehas, aue por isso mesmo se^ multipli- 
carão, de forma que, já perdida a^abeça^arrettiessava 
qipnto achava ante si, a todo^hometti a^eiado que lhe • 
entrafa na loja, por se persuadir de qtfe &ô alli o levava 
curjpsidade oú injuria. * -* ^é '' 

Apenas sé estabelecerão as moedas de 4 cobre de qua- 
renta réis, constando á autoridftde^mje^ estatíqueira as 
recusava recebei 4 , fojfesta Jevada ao ^Limoeiro, e a$sijn 

* perdeu o seu estabelecimento. Quando a soltarão, veio/já ^ 
velha* sentar-se rfum mjapho, na praça do Calhafiz, onde* w 
até á morte apparecáu todos os dias, sem que $ soberba 
lhe pçrmittisse mendigar, porém recebendo esmolas de* 
quantos passa vão, em lugar dos dicttÉfrs dos antigos 
tempos. " %. 

Tev$ festa mulheí portanto a honra de inspirar a musa 
dos poetas da quadra, e entre centenares, de èpigrammas é 
que juizes mui compfcfòntes nos asseverãç ser de Bocage,* 
citaremos estes, todos inéditos, á excepção de quatro ;„ 

j^ Cara, cara, cara, cara, 

Cara, cara, e contigua 

% . ■ Todas estas caras jtfrtfa£t 

Não são tanto comera tu&! 



• 






236* 0% LIVRARIA CLÁSSICA 

Cara, cara,' cara, cara, 
Cara, cara* e continua....; 
-. (íie revolução, é esta? 
Anda pela terra a lua?'* 



v 
« Salvo- te, » diz Deòs ao demo, . 
« Das masmorras infernaes, » 

* et tf 

« Se meUeres esta cara . ' 

c Onde ~accom modas as rriais. » * • 



«Salve-se! » diz o diabo % * 

Nas masmorras infernaes.. 
«,£e eii tibspedara essa cara, < "# 

« . « Omte ia hospedar as mais ? » r ' .. * 

s 1 iip 7: • ji . 

£ Ctfeta a ver qualquer planeta 4 *** 

* ■ " • Com telescópio de cá ; 

Ver-se-hia a cara da Helena t 

Sem telescópio de lá. 

m- '■■*.■ 

t 

^ Quando Bocage improvisoú/este» epigramma, ia com 
W Santos e Silva, nftp/lhp. rpdarfffljo ; * # .•• ^ » 



Santos e Silva, qte*lhe redargílio : 



* 



Não se observa o tal planeta,* 
PdnSÉyie lá não vem cá; ^ J> 4 

Víijpjmnariz da estaaqueira, t : * . * • 
Porque de cá chega lá . * * 

— '** . ' , 

A cara da estanqueira « • • 

Por um milhão a comprara ; *JP 

Se fosse cara de assucar, 
Um milhão, não era cara. <* 



Domingo, dous do ctrrente, 1 

Se faz, pela vez ^primeira, * 



*\ 



W - 



' * V - '* ,BQCAGE. ./, 

* brinco dos cavallinhós * â 
■ . . * ** Sobre a testa da estanqueira. 

* 


4 

* 

• 


* 

237 


A estanqueira tem marido 
?Çp Que quando deitarge intenta, . 
Gomo não eabe na cama, 
Dorme dentro de un\a venta. 


#. 



Dizem os da Encarnação : •' \* "* 

« Que em morrendo *a estanqueiro * * 

« Faz-se a obra è o cemitério 

«. Tudo 'dentro da caveira. » ^ 

- • f — r- * ' \ 

,* . ■■*.%* 

8âo nádegas ou boctaphas ! ! > 

Arrenego do diabtfyT 3KÍ ' * 

*tf Tem^a cabeça no chao^ ...^^ • » 

E sobre o balcão o r....) *a ' ' $f 



#■ 



i 



Deu a estanqueira um espiarq^ ' * i 

tritão os vizinfcps seus, 

Julgando sèp terremoto : ^ * ^ 

*^t llisericoraia?meu Deos! » '» - *& 

♦ 



* _Disse-lhe certo estrangeiro, £J|£- 
* #0# ajunta papeis com maa NNNã*90t * 

^ ff Quero pôr a sua cara ^^^*^ 



« N^etffcloia de caraças. » - 



"^ Disse-lhe uni serio taful, * * 1 
Que tabaco lhe comprara \ ? 

« A sua loja c pequena; 
r a Porque não % vende itídíara?» 

■*. : , * -77- ' 

9 Quer vinhos? NãS tà que errar. 

*%* • >- ^Trepe pdr esses tÔ8wios\ • > 



238' p# * LIVRARIA CLÁSSICA. 

- Bata nas Tentas, que dentro 
*Tem doo/annazenj de vinhos. 



Nariz, nariz e nariz; « 
Nariz que nunca se acaba; 
Nariz que, se elle desaba, 
4P Fará ornando infeliz ; 

Nariz que Newton não quii - 
Descrever-lbe a diagonal; 

Nariztde massa infernal,^ r a 

Que, se o calculo não cfra, ^ 

Posto entre o sol e a terra i* 

* Faria eclipse total ! 

Esta implicaofcia com os narizes descômmunaes era 
em Bocage maqj^jlTumas quadras chulas, <$ entrudo, 
deiicadfls a Antão Broega, memorável narigudo, ha /bui- 
las parecidas fom os versos á estanqueira : 



%n 



a oitara maraTilha 



le apparecea no umrerso; 
Ê credor de eterna fama ^ -- 

Tanto eor||rosa^omo em Trtrso. 

*! % 

Tal era o fatal bisarma, 

Tal era o nariz maldito, ^ 

Que djfgi para Tergonha ■ JL 

DaspflkttdesdoEgypto, W . 

Ou antes para serrir -,.* 

De inteira e completa somma *£ f 

A^piantos narizes oruzão Jf 4 

Desde Judéa até Roma. ' 

Sahio à. raz, deu-sejio prelo ■ 

A penca do tal Jagodes, * 

Para ser pasmo de Anax, 
Para ser terror de Herodes. * 



# 



J * V BOCAGE. ** 239 

« Nariz aquillo?! É mentira? * ■ * . 

<( É mentira; não» ha tal, » ♦ . L 

Clama o ouíro,' e n^lsta teima * 

Foi parar ao hospital. ■/• 

•* 

Por mais que sôe% chicote * 

Nas palhas, aos sócios diz 

Que tinha visto o diabo 

Transformado n'um nariz, etc. * V 4 

• # " . . . 

'Para si mesny) preparou vírios epitajAio$, uns sérios, 

outros jocosos^ por exenmkreste (que ainda era um tanto 

diVersc* vp ultimo teréelK : * 

■ * * 

^ Lá quando em mim perder fc humanidade 

* Mais w d'aquelles que não fazem falta, 

♦ ^ Ve^i gratia, o theologo/o peralta,, * 

Algum duque, marquez, ou conde, ^qrirade; * 

é *~*- * 

Não qiiéro funeral communidade ^ 

Que engrole os subvenites em voz alta; 4» 

* Pingados gatarroes, gente da malta,* * 

Eu também vos^dispenso a caridade.^ fL 

" Maa quando ferrugenta enxada idosa * 

* A Sepulcro me cavaiw em ermo outeiro, * 

Lavre-me este epif&phio mão piedosa : ^ 

« Aqui dorme Bocage, um bom bregeiro ! 
Quejassou vida alegre e milagrosajjL 
Conreu, bebeu, pimpou, sem ter d9Jfp|o. » 

Também os fez sérios, como são estes dous : * 

* EH^com quem se ufana a pedra erguida^ 



+ 



Ah! se encantou com sonorosas cores., 

Jâ Bocage não é! nãojfcois, amores! 

Chorai-lhe a morte e celôbrai-lhe a Tida! 



^ De Elmajao eis sobre, ojmarmore sagrado 
^ A lyra em que chorava Qtt Jfo giftOTeÃ.». 



4 



1 



240 ék LIVRARIA CLAStICA* $ 

«>■ Ser Telles, ser das mysas foi seu fado! * 
Honrem-lhe afjra vates eflmadqfes! ■• 

' Çous dial antep de morrer*entrando no quartç o Sr. 

. :* José^edro da Silva, a terapWem que sahia uni sujeito 

* altíssimo e delgadíssimo, ttiz-lhe Bocage : « Você foi um 
^|aqjo que me appareceu, homem! Morrer poí morrer, 

' 'itttes de aneurisma, que Hspetado qp ponta de ujn flcK^ 
rete. » ■ ± • J 1 / * * 

A seguinte damol-a por nosjiaver siclofj&or três vias, 
attribuida a Bocage; mas sup^BSj-a mais anAjaJ.e^A- 
vavelmente de Camões : « *• * ■ ■/'*/-. 

Era noite fechada, quando, nhima rua disertu,* accjpi- 

* mettido de uma dor urgente, se demorou em çitio escçio. 
{Jma criada do prédio a que estavaf encostado, chegado 
com ofsku toucado á janella, divisou umiiómem em feia 
attitude, e para ftzef pagar a audacíS^mborcou uiga 
tigela da ca^a sobre o vulto, que saltando ^a pé ê 'pef- 
filando-se com a janella, exclámaí „•"**" 

' Ó menina do toucado, v V t * , 

Já que tem a mão tão cerfe, s " ■ 

Venha buscar a offerta * " 

Que Çcou do baptisado. 

% *fo: ■■ -**^ ' .« 

N*um outeiro Ue abbadessado, em que estavão muitas 
>s^[i "* 

spSíi 
— Nada! 4gora-não faço mais versos : quaifdo muito, 
dare^motes. 4fc 

Pedírão-lhe pois um motejpc Bocage, olhando pajçgt 
os badalos e porcas dos sinos, deu o seguinte : 

Jí Que sinos ! com Y tan*es porcas ! 



freiras tocando os jri nos na torre, Bocage, aborreciflo já 
de .improvisar, respwideu a um que o instava jC 

ando 



ét 



* * BOSÀGE. 'Éh 241 

+ ■ * . ** • ™ 

fle um tio nosso, o Sr. jfoaguim Carreto de CasjSho, 
amigo de Bocage, recebemos um soneto, que elle mesftoo ^ 
lhe vio improvisar, e que ? apezar de nãase|dos melho- *" 
res, daremos aqui, por riikandar impresso em colleSçãô-* 4 * 
alguma,*de que tenhamos nottáia. " *** 

Em uma casa, á Fundição, se achavão ambos, # quaock^ 
pela rua passou, a trote, um^picador da casa*real, pqr* 
'nome João Dias Talaia, a quem Bocage havia viáto, Jia 
* semana antecedente, ser despejado da seita, numa cor- 
rida de touros, no lugag&Pa&squeira. Bateu as palmas, * 
e, exclamou instantaneamente : _ A 



f. 



*L 



Esgalgado bucepbalo montava 

Q jncador ou peccador João Dias ; 

E, a duros golpes das esporas frias, k 

As ôcap Jtripas do animal furava. à ^ 

Largo ctpote o cabeção lhe ornava 
Ouro infiel, que tu, Brasil, não crias:- 
E um moço das Jfcaes estrebarias 
Em bratofaria peior o acompanhava. * 



Empertigado o cqrpo, ia de trote; 
E ao vêl-o campear d'esta maneira, 
Lhe diz um tal gaiato de bom lote : * 

> « Ui! montado outra vez ! famosa^|j|^u3f ! 

' « Já se não lembra o nosso D. Quixote , * ^ 

« Do estrondoso boléo da Panasqueira ! » 

x 4 ' **% 

nobir% critico a quem nos ternos refejido diz a res- 
peito d'este soneto o segqjpte : « Pertence a António Lobo 
de Carvalho, acérrimo aptagonista do Talaia, e já foi 
incluído como tal em uma collecção que das obras d'este 
poeta sahiô h^fouco impressa (Cadix, 1852). »- 

Ifeste lugar, não podeHftS;%ui opfc yl^ \raifc-A*»» 

* ■ ' v* 



242 ^ - LIVRARIA OiAS^ICA. * 

de discordar de tão competente autoridade. Nós dissemos 
haver recebido este soneto de unrHio nosso, que ç vira 
improvisar* e após tal asserção admira-nos a negativa. 

. E em que razões se estriba ellá? 
, Em ter havido um editor, que, em 1852, isto é, se- 

^teqtt annos depois da morte de Lobo, se decidio a attri- 
buir t este um volume d§ poesias obscenas, e muitas 
talvez com lanto fundamento como aquele com que se* 
affirma que todas as bernardices sahião de lábios dos Ber- 

* nardos. * ^ * 

Se é prova de ser de Lobo o ter aqufelle editor dsyjo 
como de Lobo o soneto, em 1 852, muito anterior e maior 
é a prova*d# ser elle de Bocage; visto que nós, desde 
1847, lh'o attribuímos. 

^5e q vazão de ser de Lobo o teç sido este antagonista 
de Talaia, também Bocage não mostrou a esse Talaia 
grande respeito quando n'um soneto escreveu: 

Fervem correios ao loquaz Talaia, 

(sé é d'e)le, o que não affirmamos, o soneto publicado, 
na ultima collecção: Oh! triste, malfadada Academia!) 

Finalmente Agremos que a discussão é impossível, 
quando, dbmo ftpft.o fizemos, se cita uma origem que não 
ctave ser posta em duvida. 

A véspera de Corpo de Deos, ijjaquelles mui poéticos 
tempos da folgazã Lisboa, era uma noite deliciosa. As 
ruas da Baixa£ por onde, ao outro dia, tinha de passar a 
procissão, estavão armadas, iHuminadas, areadas, flori- 
das, cheias de povo, com as -janellas todas enramalhe- 
tadas de flores e damas, no ultimo extremo da gala e da 
. riqueza^Os bons engenhos para trovas, desde o cçrrar 
d^Jjoite até á madrugada^ gyravão, de rua em rua, pe- 



BfôCÁOE. 245 

dindo motes, glosando-os*, recebendo âpplausos, que pa- 
$ gavâfe com rasgos novos de enthusiasmo, oiTchascose < 

i epigrammas«, a que tinhàp por ponto dê honra retribuir , 

com. cem por um. A tráaíção, que nos conservou a phya * 
sionomia geral doestas bellas scenas, Jfêo características, 
tem ido deixando cahir, coqjo é seu costume, puifoáMflÉ 
' mais brilhantes esmaltes de tjfue ellas se vião ornadas. 

* Que Bocage era o rei d'aquelle povo de poetas, rei sem 
* rebeldes e áá ^ezes tyçannico, por si mesmo se enten- 
deria, se tantas presenciàes testemunhas nol-o não attes- 

. Ifissem. N' essas noites era elle mais que admirável : a 
immensidade do auditório ; o estampido das palmas, 
desde o apertado pavimento das ruas até As quartos an- 
dares ; as luzes ; os aromas; e o espirito infuso, exaltando- 
lhe ainda o natural^ davào-lhe uma promptiJãò; $ma 
felicidade de a pensamento, t de formas e de rimas; uma 
subtileza para vencer dificuldades ; ou uma destreza pai$ 
as saltar, 'quando invencíveis, ficando ainda mais airoso ; 
que muito é para sentir que, de taes e tantos portentos, 

* só uns échos mal distinctos nos ficassem ! Que pena que 

a tachygraphia, que tinha de voltar em nossos dias para # 
rechear de chamados discursos pq^itiJSfe centenares .de 
in-folios, qne a posteridade só ha d$ .peitar como lastro 
de livrarias, não madrugasse um pouco mais ! *. 

Só podemos rabuscar hoje, d'aquellas ceifas opimas, 
uma ou Jbutra espiga, imperfeita e raij : as paveias, 
gradas e formosas, levou-as o tempo, e já lá as atirou 
sem ruido para o golfão*que tudo engole ! 

— Venha mote ! exclamou Manoel Maria, debaixo da 
janôlla de„um primeiro andar, onde, entre duas formo- 
sas, se pavoneàVa um cavalheiro, já seu cwv^\SJR<fcv\& <s«s: * 
'Waeios amorosos, e que Smfco ttoswvo ^«w»»> ^wSwff* 



244 ^IVKARIA CLÁSSICA. * 

a uma d'ellas... <ffce mais era necessário para que o poeta 
se irritaJ&e? * »■ * 

— Lá vai mete, exclamou o .seu rival feliz : 

► 

Formosa, bella, engraçada ! 

Bocage, para quem a jtipfànçá, em casos taes, valia % 
mais até «pe a mefedia métrica, substituo ao verso dado, 
e muito de industria, esfoutro, a todos os respeitos in- 
ferior . *' 

Formosa, bella e honrada! 

— Formosa, bella, engraçada! insiste o outro. 

« ' — Formosa, bella e honrada ! iÇ6^te também o poeti> 
c^tfi dobtada intimativa. 

— Engraçada ! engraçada! Não é, honrada f 

— Ah! bem me parecia a mim. Pois então^se nã3 
nonrada, eu a... não faço versos! • ^^ 

E foi avante, pedindo motes, e improvisando. 

Naríra o Sr. InnocencioF. da Silva que achando-se Bo- 
cage em uma assembléa, e recitando a sua traducção da 
Metamorphose ãe Mj/rr/w, aconteceu que, estando tam- 
bém presente unT^elebre mulato Joatpiim Manoel, grande 
tocador de viola, e improvisador de modinhas, as spnho- 
ras- preferissem escutar o mulatoajLouvir Bocage ; que 
este, não podendo supportar o quejulgaw mqjs que in- 
jurioso deáBr para o seu amor-proprio, rompeu de repente 
com o seguinte soneto : 

>. 
< Esse cabra ou cabrão, que anda na berra, 

Íue mamou no Brasil surra e mais surra, 
vil estafador da vil<hgidurra, 
O perro, ^uena^corí|f4unca emperra; ^ * 



4 



BGCAGÇ. J*H ** 245 



4 O monstro vil, quf produziste, ó terr^ 
4 Onde narizes natureza esmurra, * 9- 

* Que os seus nadas harmónicos empurra * *" 

. . Com parda voz, das paciências *5guerra; ^ 

- * - * O que sahe no focinhtf á mãièachorra, ^ 

O que néscios applaudentenais que a Myrrhf, » 
O que nem veio de prjÉJHif forra; -* 

O que afina inda mais JfKnão se esfltíra ' V 
* Merece á philosophica pachorra ™ * ífcl 

Um c..., um passa-fóra, um arre, um irra. 

Tyranno da intelligencia, exigia, nos omros, milagres 
dejapidez, iguaes aos do seu estro. N'uma dessas noites 
famosas, em qué ÍJocage tinha já improvisado bastante, 
qptrou a passear, seguido da turba dos satellites, do 
claro auditório sei&ae espaço a espaço parav^ inter- ' 
rompendo a conversação, para escutar os improvisos tos 
trocistas, que o procuravão liújftr. 

Deu-sieairtima janella esterflbte : * 

Bateu as azas; fugio; i9í 

Iftío me ha de mais apanhar. ^\ 

Um dos vates, impondo silencio im mediatamente comj) t * 
brado : « Lá vai gloáa ! » Começou logft com a maior 
emphase : * * '* 

Qualfòb SPkthenas sahio 
** Argonauta valente ^ 

c estacou, por lhe nâo acudir a musa com a necessária x 
presteza. Repetio pois, já em tom mtis vagaroso : - * 

Quando de Athena&|ahio ^ • >fc 

í w 1 Argonauta* valeti flK*., . v 



% . 



t 



24ft> * ^lYIURIA CLÁSSICA. * ' 

Nova pau&, que já fazia suar de impaciência Bocage, o 
qual apegas ouvio, pela terceira tez, a sentença : # 



Quando de Àthenas saln£. 
O Argonauta valente, 



grita 



Ficou muito descontyte 
A «3..., que o.... 



Entra João Soyé no quarto de Bocage, depois de uma 
crise do aneurisma, que lhe havia feito curtir horríveis 
dores, e sentando-se, diz-lhe : 

V—I Não sabes, meu rico Manoel? VamosHer um poepia 
épico. 
. t |^enta-se o doente na cama,*«$cancára os olhos, b 
exclama : 

— Um poema épico I 

— É conio t'o digo. Já Atonio Ribeiro dos Santolta 
mandou copiar para imprimir-se. 

— Então ae quem ? é d'elle ! f ^ A '«■ 

— Não : é do Medina... ^f 

A este annuncio da Zargueida, torna-se a deitar mui 
* socegado, dizendo : 

— Conheço, conheço; eryaste-lhe o nome; isso é 
poema ethico ! 4 -j. 4 v 

E havia n'isto ingratidão^, pois fyi ao nroprio Bocage 
que Medina dedicou o seu poema (composto, diz o autor, 
em quatro ^fiaezes! publicado em^fDflff, precedendo-o 
do seguinté$oneto : 

■^ fi A ti, vate sem par, qujo estro infiíamma ; 

Do numen Pa^areo o sol fulgente, 
^ *.■ A ti, grande Bocage,. cuja frente 

De sacros louros delphict se enrama, 



*$ 



< BOCAGE, ^ j| %fl 

Cumpre o levar o meu poema à chamma * 

Da tua sabia critica^prudente : * 

^ ^ Ninguém mais do que tu independente ■ ■* ■ * ** 

Lhe pôde grangear perpetua fama. * * 

1 Segue tu pois da sã justiça o trilho ; • 

Castiga os cantos 'meus-; dá-lhes belleza: f 

Á tua correcção é que os luimilho. * ■•£ 

Sejamos immortaes na redondeza : ♦ *% ** 

Tu, dando ao meu poema eterno brilho}* v * 

E eu só porque tentei tão grande emppeza. 

Tendo-lhe Medina lido, durante a moléstia, vários 
fragmentos, B^age passou a formar d'esta obra idák 
diametralmente opposta, a ponto de a equiparar aos Lu- 
síadas ^ como o prova e§4| soneto : 

De Zargo o heróico ardor que luz nkfama . -* 

Cantas em metro altisono e fervente. 
ff Náutica, lusa*gloria em sfgt oriente * 4 * 

Por ti, qual no zenith, espraia flamma. 

• ■ i ♦■ » ' 

ero Machim, da triste dama ' 

jlo infausto amor t&r docemente 
Que ofronco o sabe, que o rochedo o sente, ^ 

Que a terra geme... e que fará quem ama? 

A que, de Homero a par, no Elysio avult^ 

Sombra do grão Camoe^ alta e divina, 

Crê queria em teus gafe ; attende, exulta : . 

A face pgra ti sorrindo ijkjina, 

E ao tettjdiBto.vivaz, que o tempo insulta, 

Grão hã^onlMfo seu já lhe destift». «. -*.. 

Quando Bocage enfermou g&vemente* e$ João Soyé 
dirigio-lhe esta poesia : r ^ J m 

* \ ■■*" 

De Elmano aura vital ameaçada . ^ t 'v^s 

D'Afropos fera está; mas jtó\\*&te * 

* «V* *^ ■• 




90/ tUVgARlA CLÁSSICA. 

^ Dèa fesoqra fatal fechar, o instante 
A seu pezarkswnde, sossobnda. 

* De egflggios >ates turba deáòlada 

Ao sõpremo dos«umes imperante 
Mil ais e mil suspiros in<^Épnig* 
' Exhala, de terror sobresaK&ia. 

X * Da Bhehcia^co^o pesof esfallecido 

4 E de pungentes dores trabalhado, l 

trist&Jonjp exclama espavorido : 

« rtfeimjfero, potente Jove irado ! 
i Se és bom, se tens poder, compadecia 
jik « Dá que Jonio são veja Elmafk) amado ! 



Era José Ánastacío de Figígiredo mui presuiflpçoso. 



Quando sàh\g o pririeiro voluifte da sua Nova Historia da r 
Ordem de Malttífvtèa um exemplar a Bocage, e encon- é 
trand8-o passaddfe dias, tratyou-se entre elles o íeguiftte 
dialogo : ./ , • ; . 

— Entào, V Bqc^e, leu?. ' / /?* . 

— Li um pedaço. ; - j; 

— Gostou?-qtie tal? 

— Sim^pnhõr, pareceu-me bem. ^ 

— Ôra miíWWimo. Até onde leu? 

— Li as 4uas priruei jas pafefaas. jf 

— Òra esfca! Pois "Vm. frjBfli a obra, não tendo lido 
senão duas paginas?- +^P *&' 

— Ê que, dou ajfm. a certeza^ que ninguem*lê 
lis ! *^-. ■ £ '■ * 



nkis! *^ ■■' < .^ 

jsÍ jííunca figueiredo lhe tornou a fallar. 
■ 4rem 



* <Wftnn admira esta ifti[0tessão profunda em Figueiredo; 

esmo anno que Bocage, diz 
succumbido ao desgoáe, e, 



*^&J> qrarfendo falledmjfoo mesmo 'anno que Bqfage, diz 
o Sr. I. F/da Silva haver succii 



BOCAGE. * \m 

apaixonado pelo frio acolhimento que a «tia Historia *ãe 
Malta oh tivera do publièo. \ ' ' ' % 

Posto que o seguinte sopetç seja attribuido a $(Hfcgft 
ha quem julgue ser da .viscondessa de Bblsamão. Em 
todo o caso, comquantfí. riâfe bello, e com toda a appa- 
rencia de original, não q é, mas sim imitação de um de 
Hénault, que vem em hes bijotfc des neufseeMfa pag. 95, 
e no Diccionario deis homens illustres. É Teito a ujp 
aborto forçado [inédito) : 



4 



Tu qug* agíes de nascer, morres forçado, * 
Triste alKto, imperita creatura ; úê 

Do ser e do não ser porção* Impura, v 

Do ser desprezo e do não ser coida<k> ; 

Tu és de amor o fructò* malfadado, ^ 

Fructo que a honra aniquilar procuJÉ;^ * 

D'amor obra funesta e sem ventura, " • -. 

Da honra triste victima e ao fado. * 

Perdoa; ó anjo, a culpa commettida ! 
Contempla a mâi. a esposa sem cojporte, 
Não a culpes de ingrata e de homicida. 

Dous tyrannos decidem tua sorte. .« 

£ontra a honra o amor fez dar-te a vida ;__ *&* 
E a honra contra amor fez dar-te* a morwP^ 

Ao Ex rao Dr. Joaquim wW>el de Macedo, um do9 
primeiro^ ornamentos dalinfritura brasileira, ouvimos 



um* aneedota, qu#ipm poucas^ariantes nos terisido 
repetida por varias pessoas do Rio"3re Janeiro^qpde elht %> 
é mui conhecida. *? í* 

João Pedro Maynard, homem cpej)ccupou eleyada pP * 
sição, sen^o até, durante a minoriKk. indigitadÍFfara^^j^ 
regente, tinha a mais estupenda ^teSwxv^yv^ \*&NxríS. N *• 



.gffl LIVRARIA CLÁSSICA. 

&£smo sem meios artificiaep fazia os mais admiráveis 
cxeroicios mnerionicos. 

Qffiando Bocage se demorou no Rio, em sua* escala 
para Gôa, seifBo apresentado a Maynard como rei de im- 
provisadoresj este desejou oiMt/9. Com pffeito, n'uma 
reunião, íoi dado um mote, ao qual Bocage redarguio 
sem demojILcora um exceljente soneto. Findo elle, diz* 
ifie Maynard: \ 

— que ék desejara, era ouvir obra nova, pois isso 
que Ym« recitou é «conhecido. * 

. — Comolassim/se eu agora o improvisei? 
Jr — Queira desculpar : 8* velho, e tanto que* eu o .sei*, 
de cór. * ' í* * 

Desafiado por Bocage, Maynard repetio a poesia litte-" 
ralmente, já com q^urmurio do auditório, e confusão do 
p^ta, que, indignado, bra<}pu : *\ v 

— Não sei como é isto, senhores ; foi um improviso ; 
e se o duvidão, venha outro mote. Í^JLa 

Sendo dado outro, ainda, com m^o^rapufw) glosou, 
seguindo-se a mesma scena, e repetindo* ^fualmen te 
MaynardsEnffi&ffocage abraçou-o, dizendo : 

— qfe o senhor é, é um grande maganão, 4 a mais 
portentosa memoria que eu tenho encontrado. 

E assim eraS ** 

Sr. conseltiliro Junqjfeira, cultor das mQsas, nos 
escreve, da Bahia, em 10 de Junhoyíe 1865, o que pas- 
j^ samos a transcrever^ que lhe foi narrado pior iim amigo 
^ que se defc muito com o ipoeta : j 

,*it Bocftge, que pretendia ser amado por todas as moças, 
AA fonilh? outras damejou'a uma saloiazinha que lhe não cor- 
respondeu. Elle despeitou-se, o, algum travesso, com in- 



% 



9 BOCAGE. * «Mjp:* 

tuito de ro eníçzar^ mandoí* á^sajoia o mote seguintojfr* 

para ella dar ao seu arrastado : * * j * 

• ■ * . V 

«Para amar não tenho tempo. 4ft . _ " *■ 

« Bocage comprehend^o o estratagema, visto dar-se-lhe 
uma palavra que quasi não tem rima ; ef nãg. obstante, 
hnprovisou logo umas poucas' de décimas, qfl&*eu soube* 
porém a memoria nato me conservou senão a seguinte 
{inédita) : m jti 

**■ ' M , ■' * ' 

« Eu por mulheres do campo * 

Nem um par de solas roaapo. ^ 

14 Bem basta quanto me estroalpo 
Á caça Co'© meu Melampo.* ^ 
Ás vezes os toneis tampo v 

Do sueco das uvas que empo : 
M S outras, por passatempo, * *J ju 

Às ruas dos bosques limpo ; ^ 

Depois a dormir me chimpo. 

Fará amar não tenho tempo. » A 

;:■+/. > • * 

Retrahiipòâtift pénna, para não darmos a este capitulo 
exageradas dimensões, quaes alcançaria sejhouvessemos 
de descrever todos os felizes repentes to Bttage e as 
curiosas%iecdotas que lhe são attribuidas. Baile porém 
o que deixamos dito para,-jCjjpjunctamente com os dous 
que se seguem, darmos por completo o refrato moral do 
poeta, % Ir * 

* * * «r 

4 ; 



■* 



?**■ 



v*. 



♦*■ 




SSI* 



CLASSI 



CAPITULO XVI 



« 



Será este^gpityglo verdadeira continuação do antece- 
dente. 'SceMtof*privadas, da intelligencia dofthomem su- 
perior, díjgbos d'elle mais, cabal idéa que todas suas 

•^roducções; e accresce que as anecdota* áe Bocage se 
re\estem sempre de multiforme interesse. 

Se nfrtica houve mais jovial e aprazível trato <jue o 
seu, também jamais a terra vio tão ingfata e volúvel 
•íffízade : o mesmo homem, á mercê desuppoôtas offen- 
sas, ou antes das vagas do animo do pÍK&U Qfil em seuR 

lábios sapientissimo ou imbecil, àes^^mm^fSL^* 
tuosissimo, admirável ou réprobo. ^^Jít^feVsSo 



neste sentido, as relações de Bocage com JOiMgostinho 
de Macedo," J$|, suppondo dever dar-lhes mflípr deqen- 
volvimentp, as reservamos para um capitulo espééW, 
assim como consagraremos outro ás relações dó nosso 
poeta com a $ova Arcádia e os árcades, por considerar- 
mos esse assumpto a um tempo^de interesse liUerario e 
social. Passemos pois agora a relatar desorderifaamente 
alguns .successos ocçorridos entre Bocagete outros ho- 
mens conhecidos d'aquelj$ fecundo período, MfHbe o 
estro, tão raro hoje, borbotava de todas as intelligencias, 
Hem que seja matéria para que devamos buscar methodo 
* ou Classificação. Estudemos, em suas relações com ou- 
tros, o homem inquieto»,* que, figurando sempre na van- 



# 



Relações de Bocage com vários dos seus jójjlèmportTieos avulsamente. — 
"Tbomé Barbosa. ■— - Os iiqP Bersanes?!» O canapé do preguinho. -- 
O giiarda-nÃfírgBÍi.-^Galina. — Nicotóo Tolentino. — Aitonio Ri- 
beiro dos Sajtos. 



i 



BOCAGE. W 255% 

gtiarda, nunca, soube deixar descanso nem a seus admwf* 
radores, nem a seus inimigos. h *■ 

THOMÉ BARBOSA Dfi^FIGulmEDO ALMEIDA CARDOSO 

•O polyglotto official áè^inguas da secretória dos negtf- 
cios estrangeiros, que, a ser certa a affiSaffinfa de Balbij 
na Te7itativa Estatística, sabia perfeitamente as linguas 
grega, latina, franceza, italiana, hespanhola; ingleza, dl- 
namarquezàj sueca, allemã, hollandefò, 6*ca, árabe % 
russa, e não menos a litteratura da mór pjfoe d 'estes 
idiomas, era um dos mais illustrados admiradores de BoJ* 
cage. Assim devia ser; que possuía, além de mty vastos 
conhecimentos em todo o género e grahde cabedal de 
juizo, muito particular noticia dos poetas antigos que o 
nosso mais conversava, e alguns dos quaes nào só intei;- 
t gretou, mas pètf/Vezes excedeu. Convidou-o pois, com 



todog ra^elí&dòa melindres de um coração verdadeira* 
mente fceH^o, v jriúPá lhe honrar alguns dias a casa, como 
hospede. EraPcorijunctura em que Bocage andava de todo 
dest^tuido de recursos : pousada, boa me» excellente - 
liaria, trato cordial e franco, com amigo iffiístradis- 
simo; e, por cima de tucjo isto, completa liberdade, até 
nas mínimas circumstancias do viver, não erão paraíso 
que ao naenos se deixasse de experimentar. 

Durou^isemanas, com mutuo contentamento, a convi- 
vência... De repente, um dia de madrugada, entrai o hos- 
pedáwno aposento do hospedeiro, e acordârO, agrade - 
cendo-íhe o bom trato e despeaindo-se. 
. Thomé Barbosa, que esperara ter para annos, senlo* 
para a vida, aquelle commercio, tão do seu gosto, e*dc 
parte a parte tão vantajoso, soVrce%9\\&-*fe ^wsv ^ \*s3iv- 



t * 




f ' ■• 

\$K LIVRARIA CLÁSSICA. ' JK/Jfc 

^dfcde, e pede, auasi assustado, a raaão de ião súbita mu- 
dança : o poeta- não responde : o amiao insiste, aperta, 
supplíca... até que finalmente constrange o oráculo a JÈL 
descerrar-se : . ™ 

— Não é {fossivel ser' mais Êjçui tratado do que eu 
if esta casa, obtenho ydo. Tudo quanto JÍor boca se 
pedir, aqui o tehlto... Mas tfma cousa me falta, que 
desassocega, me tira o somno, cuja privação me não deixar 
ser feliz, e que entretanto me éeria defesa emquanto 

jequi me conservasse. Não posso passar um dia mais sem 
dizer mal àç V. S., ou arrebento! «' 

Debalde o generoso bemfeitoriheíyespondeu, rindo e 
com o Goração nas mãos, que permanecesse e o epigrara- 
masse quanto (juiz esse*; que gosto da sua companhia 
assaz a desforrava do pungir das suas sátyras. Mas tal 
partido é que não podia cpnvir ao pundonor sui generis 
jtTaquelle espirito em tu da excêntrico. Abraçpu-o; sábio,; 

*e como primeira amostra da longa teia de sççetqs oom 
que o regalou, escreveu com lápis n f ám .mbjreácnpto, 
logo ao sahir da porta, este, que parft' dentyBÍ) lhe re- 
metteu por ^criado. Reproduzimo-lo, cabendb advertir 
que a substituição, que os editores fizerão, do verso íi 



guano charlatão Thomé Barbosa, 



por : * 



^ P guapo charlatão, novo Spinosa, 



foit provavelmente devida uma excessiva deliipfeía ; 
arreceiando-se de que a declaração do nome próprio 
^damnasse á merecida reputação do satai$ado; receio tão 
injurioso pelo menos como o soneto, pois não leva por 
desculpa o enthusiasmò do poeta (se é que a causa da 



BOCAGE. 



♦ 



mudança não foi, como se nos affirmpu, exigência d£ 
censura). ^ • \ ■ 

Dos tórridos sertõe»^ pejados de ouro, 

Veio um tal sabicfcjk) de hpuÃda fama, ^ 

Que os livros preá? os cartapacios ama, 

Que repartem das línguas o thetmiro. J* 

* * 4 
Arranha o persiano, arranha o mouro, 

Sabe que Oeos em turco Alá se chama, 

Que no grego alphabeto o G é gama,, 4 

* Que iajurus em latim quer dizer touro . , ^ 

fará papagaiar^sahio do matto ; " fk 

Abocanha taJMffttos que não goza; 
* £ mono, e prègj| unhadas como gato. 

£ nada em verso, quasi nada-em prosa* 

Não conheces, leitor, n'este retrato, " ■ tf & 

guapo charlatão Thomé Barbosa? ' , " 

(Nas ngfté frCollecção d& Botiage, pelo benemérito 
ffr; I JF. máilva,, achamos esta variante aos motivos que* 
]nd^írã0yBçK3§gç a romper com o seu amigo : que, tendo 
Manoel |||Kra;feSbripto ou traduzido alguns artigos, com qf 
destino de serem insertos no Mercúrio, fflPto estes, no 
toío ou em parte, rejeitados por Thomé Barbosa, que éra 
um (Jos redactoflps, ou r^risor do Oito periódico.) 

Igual desfecho tiverâo outras aemelhjl|ies hospeda- 
gens, todjs cordiaes e frequentíssimas, por casas abasta- 
das e titulares. * ., 






^V ANTÓNIO C JOSÉ 1f MANE LEITE 4 

I 

Erão estes irjp$ãos (Tionio e Josino) de singulares dotes, 
e poetavão coro harmonia, naturalidade, singeleia^ *. ^ 
graça, sendo Bocage constante '$VrV\t&& «ssxv^ ^ft%s^o*s>- 



%6 * " LÍTRARIA CLAsSftA. 

* Bop occasião armorie Se seu pai, João dos Santos Ber- 
sanej dirigio-lhll Bodàge fiarmos a eleàja que^epppduzi- 
mosno fom. I, pag. 181, e. principia : 

O sábio, não vai tocUjl sepulfcnjfc. 

A José Berágne de^cou Bocage ujpK|fde, na qual sg 

ambos* É a 
e começa : 

m isuro, natenao as azas proceiiosas « 

TambAi de Gôa escreveu ao omíd a epistola que 
começa : * S!? * 

Josin^meu Josino, a pujo lado 

^ A Arçlbnio fiersane, da^quem alhures disôe Bocage : 



xi. «puac ueisvut; uujpiuuu uwt<i^; ulu^^uc, j 

conhece quío sua¥es^rãOjpí c "relações entre ai 
que se lê no tomo I o , pág/7, d'esta collecçao, < 

v Euro, batendo as azas procellosas 



"^ Do meu Tionio a ly ra milagrosa % y . . * ; v 



% 



dirigio a seguinte epistola.: ^:?C^ * 



XV* 



♦ 



V Os amores ha níuito, ha muito as graças, 

v E a deosa d'e(to inãi, mãi dos teus versos, 

Instpo que à patyía os dês, que os dês á fama. « ^ 
Tardecedeu Tiogiò á voz divina : JL • * 

TardHjpiâ, vezeBSento a Paphia turba^, 
(Nas Bom btfandas, em que aos ais me acode) 
Carpindo-se de ti, me^ disse, ó vate*: V. 

^fcJteP ingrato, que inttframos, foge à gloria^^ ^ 

flP^Gri 



gkAo publico louvQTjíí^squiva e furta. ;S^ .fc i^, 
• Grinaldas de aARafi^, e myrtho, e rosas, JÊp 



« Dos maternos jard*i9«for nós colhidas, 
« Soffrc que as murche, que as (J$fíltò o tempo, 
« Na fronte, onde borbulhão, fei^eioflBíncão 
^ « Gentis idéas, e exaressões mimosas. 

« Aos numes do pHhr, de Gypria aos filhos, 



Tl 



BOCAGE. 

• Que pgra eternisal-o os sons f lh^perâo, 
^Utemissjfe deleixado asajn respo/id4&4 



J?7 



« Os deoj^ nos mortaè$ mui .mais anunao ' 
« Ás vezes corações/de ferro encontr» ! 
« Cantor d#Teiostj|s têugjrityfe vivem* 
« Yivão cttí ellej^ft TiomS^s versos ; . * 
« £ oJHBn faffador, que gyrao globo^ 
« N^eQ^p^ndo-oSj^amaciáWs wes, -- 
«Colha brandura do aj^ave^^áiAp. » *t 

Assim, queixosos da, tenaz modéstia 
4 Com quf teu nome a teu louvor negavas, 

À "ftâea, tejra lace, os ôjjpês nossos 
-W^e aljofaiMkoso humedecião. ^ 



* 



ir 



Emfim, cedE jjyg bnip á voz divina : * w 

Já vè com jHftt 9 litterario mundo í .» 

Que brilha um génio ittus no cço das artjà. 

Versos formosos, adejai sem susto, ^ ^ 

Meigos amores, escoltai-lhe o vôo. . ri m 9 . 

Embora ladre o zoilo, eikftpra os mord* 

Dente&tnjfco d^ÀristarchCme^. ± 

Q^I^Blfirustrem da escumante inveja, 

íf seu^nada quer sumir o engenho, 

*V apodrentar-lhe a<flôr e o fructo. 

fÍ0Íe dos numes, quasi nome, ^tate * Jj^ 
Vive no tempo, na memoria yvfrfr ' / 

E vai do tempo e da memoríajHrastros 
* Conver te sse em porção da etgjpdade. 

Oh! sefpo ferrenho, a teu 1 

Ha* quem yréze a razão, quem preze aí 

Ha mão que avive e galardoe o génio ! 

Mp de Phebo espirjj^mjjnosos , 
FolfsyTionio, seu que^AJBbno ! 
Dentre as furnas da inwpSmi tarde, ou cedo, 




# 







Surge autoria em triumpho, e nunca morre. 

Por occasiãocre enviuvar Aitonio Bersane.> Boca^g^&& 
mdoueste soneto : **» * 

1ê w 



Wb\ 



LIVRARIA CL^SS 



iK. 



iuto em ai& na coração gerados, 
Não dês ácar^inza, fc^Él esposo: k 

Roção da vida o circulo qpnoso „.,, ^ 
* Caminhos ffcrescentes e ejtrellados/ " 

Espíritos gentis j>qr7ãvl amaNMfe, 
Volvendo a seu principio luminoso, *ty ij ' 
Olhão sornãí crestante, e mais formtfft, " 
Vagulão sem iembr por entre os fados. 

Com alta fantasia, e Jpto enxuto, 
1 Vê nos Elysios a immortal consorte, , ^ 

* Vê da virtude a nôlr tornar-se em fructo. ; * 

Dope, augusta verdade, amor conforte : < 
Em vós, 6 impios, a existência é lutoy m 

m Ê nof eleitos um sorriso a mor te. * 

idyllio Atinia, que se figura escripto em Santarém, 
e em qu* o po^ta declara ter querido imitar o ^tylo de 
iJ^Fernão Alvares do Oriente, tem por interlocutores El- 
mlno e este seu Josino. 7^ 

Era José Bersane mui feliz em chistpso^ • ÃMgWHiias . 

\% Como o irmão levasse o requinte da cortei^lí ponto de 
* exageração, sgndo c^Aiecido pela. antonomásia do Ber- 
sane comprime7iteiro±fei-\he José muitos epigrammas, 
por exemplo : ♦ * 



#W 



^VÉfô mè ^ caro ú™* ' 

Dá^oimci é portento ; 


Tr 




• 


Quando não encontra alguém 






. 


Faz cortezias ao vento. 


" V 




i 


Não ! ninguém eftí ser cortez 






Venceu António até'qui : . ^t 
Quando se vê ao espelho, * 


^» 






Faz cortezias a, si. 








+\ 




V 


* 



f 



% Lá na loja do Nicola 
^g A António um cUÉnròÉ deu. * 
* Êntrf um; diz : ^tas-^oites! » 
Torna a si... ? tiraí> chapéo. > 

Na coMecgMBidft Sàtyr{cas, feita por A. M/do Couta, 
apparece, á pâg?5j>0, attríbuido afiòágé, segundo a opi- 
* nião vulgar,|jim famoso soij^tp, que* o compilador julga 
ser d'elle, peio esft/Jo ejíor djjfír fom /ieifo. Enganou-se 
porém, pois é de António Bersang, que o compôz, poí 
occasião át representar-se a Eímre de Miguel A. d^Bar- 
ros, tragedia em Hype um rei da Thracigy apngrecia com 
os dedos ensanguentados de os haver enterrado pelos 
olhos que arrancara á filha. Aqui o reproduziremos, por 
estar n'aquelle folheto coalhado de erros, ao ponto de ter 
versos inteiros substituídos aos do autor tf 

Gritava mestre Braz : « Filha traidora ! • 

AHeâ dçarrancar-te os olhos, vil cadella ! 
;^*ypíU^$ftrancas de ferro na janella, 
- «SÒ5por não ver o biltre cfue a namora ! » 



N'isto a moça infejbz suspira e o^« ^ 

'» Suspirão graças, chora amo/SÃella : *M 

Ah! tão meiga não é, não é tãoTella, 4^ 

Quando "(%-olas verte, a linda aurora! ^. *** 

« Ser sapateiro ou grande o fado ^ptífm 

« Sou um pai, que da honra a estrada trilha * 

« Tragedias nunca vio quem me condemna! 

^kw « (rwchar-lhe as janellas não me humilha/* 
« Qu# v ha pouco o grão jtí/Q mostrou na sced 
« Que um rei da ThraciaTez o mesmo á filha. » 

Do modo qde precede nos exprimíramos u& ç&^& 
de l$47*N'uma nota da Collecçao òa V^^^ímcA* 1 » 



a* 



•*4 



260 LIVRARIA CL^SSltA. 

áquella declaração, é dito : « Como todavia se nã^deílara 
qual o testemunho Jou fundamento da .affirmjjtiva* e o 
soneto ande em pome de Bocage desfle 1 81 % julgámos 
dçver coBserval-o na pM^eA que o achámos. » 
a Se a questão era de uti possideiisfffirefce qu| a ultima 
posse pertencia a. Bersane. 

Não é razão bastante o andar no tomo^V^s Rimas de 
Bocage, sahido á luz tréz^annos depois que este era pasto 
de vermes. 

Tombem Couto, na*s J^aty ricas, diz que o julga de Bo- 
cage, pelo estylo e par estar betfi feito 1 e assim mesmo 
só noticia ser elle attribuido ao nosso autor, única poesia 
da collecçãí a que pôz semelhante nota. Sf taes razões 
procedessem, teria a Livraria Clqssica dado mais dezenas 
de inéditos, que recebeu com visos de bocagianos* 
jÉk A nossa asserção positiva proveio de sei; a coJpÇjue se 
^Vnos exprimia algum frarçdigno amigo do poçfa, cujo 
nome já não é possivel rememorar. Permitta-sp-nos pois 
repetir que o soneto é de Bersane. . »'■ ; í *: 
*fc Indo um dia Bocage visitar José ítersane, còm os seus 
* calções novos de seda p£ta, atirmjf-se para um canapé, 
j- que se desfazia de Caruncho, entendo além d'isso um 
traiçoeiro .priminho, mie, logo ao primevo moviíhento, 
de alto a baixSpgrdmpeu os calções . Lefcantou-se Bocage 
desesperado, & pérfilando-se com o decrépito canapé, 
com ttfJL a dar-lhe uma grande descompostura." 

— fljitens vergonha, interrompeu BersanSe£ de insular 
aquele velhusco em pròif jil ! Ha quanto Jpimpo cuidas 
tu qiie eu tenho aquillo? ^ . jff 

V Fugio do incêndio de Troya, 

Lá d'esse incêndio voraz, ffr * 



% "* BOCAGE. w Mt 



V 

* Enéas co'o pai ás costas, ~ 

* * E o moço co^quiBp atrás. . * 

« — Impostura ! redargue Bocage, quer fazer este diabo 
f só da idade de Troya ! * s * v ^ 

'a „ ,. . ^ 

Lá qu&Deos forfhou o mundo T^ 

* Em seis dias, é de fé ; - * * 

* íl at set * mo descansou* 

Aqui n\ 



qui n'eite,çanapé. ** * 

— O mundo! o mundo! poisdsto é láJfo principio do 
indn! inlp.rrrirnnp.il Rp.rsanp • 



* 



mundo! interrompeu Bersane 

Inda antes de existiç mundo, 

!& ind^ antes de haver Adões, * . . 

á eu tinha este preguinho 
Com que rompia calções*. 

4 ** 

— r^p consequência, desengmemo-nos, torna Bocage :jfl| 

* Qiianctaa velha eternidade ^^ 

irfSf- Mf^resta^casa passou, 
'^Sfi&e^â eite canapé : 

f ' « Sua béafcão, meu avô? » ^ 

Ainda continuarão jf este ri^kisgimo tiroteio, mas não • 
se copserva mais; e só d'estes epigrâmmas conhecemos jf 
impresso um 1 ^ ^ Jt 

Tendo^Antomo Bersane vindo pa|5flR|rasil em-18(|£, 
transpo|tou-s£ para Minas, onde falleceu, deixando des- 
cendência^ parentes em vários lugares doyimíÉio, e 
paríícularmente*em S. Gonçído da CampanTiá.í)r 

1 Narrão outros enl*ffiiprcfei*os como feitos em Gôa, e dirigidof ao ce- 
lebre canapé histoJ^^maVboje conservado em poder de um curioso, e 
que figurou tantòVji* exposição de Lisboa em 1850, antes de brunido, en- 
vernizado, empaltiaoo, profanado. Quem quizer conhecêl-o Veja o doenlio , 
qtfe dfelle apresenta o n° % do tomo II do Archifõ pittoresco. tf 

% 



m LIBRARIA CLASSOA. *^ 

Sr. Franciscgide Paula Bersana, seu neto, residente 
no Rio de Janeiro, dtsseW)s ser tradição na sjfà façiilia 
què o conhecimenfòlfiijlte Tionio e Elmano se verificara 
com singular jjbcir cu rnsíkn cias. Já Bocage tinha&puvido 
4^giar o eSrlrde An tonio Bersan^J|Éfcndo casualmente 
^^encontrarão n'uraa reunião.*Ahi, passando-se,á dis- 
traio do improviso, enfclo tanto em mod^ pedia Bfer- 
sane que lhe dessem mote; Bocage (yra omperimentar 
lhe deu o seguinte : * 



* 



Aquella pedra^pe lá. ^ 

t *■ ■ 

Tionio glosfu-o logo por^este modo : 

Quiz erguer sl^erbo altar 

A minha Nise. Eis amor : ^ 

« Presta-me, diz, teu favor : t ji*'*' 

«(Benigno veogjme ajudar. » ,. - - K 

Ouvindo-me recusar, *•«* 

Irado ás fúrias me dá ; ^ ■ 4j ^ 



¥ 



E eu lhe grito : « Aflflbr , vem câ - ■* *■ j 1 
' « Mais máo génio nunca vi. * *>jr X 
« Dke, que mais faz aqui „ 

t « Aquella pedra^que lá? » ^ 

O mesmo Sr. Francisco de Paula Bepsane nop asse- 
verara que aijÉfc, existia na Campaph^ uma sua tia, 
filha dê Antouir Bersane, a Sra. D. Maria Vicencia Ber- 
sane ^eite, a qual fora namorada de Bocage, com quem 
até esiyg^gj^pafra casar. Presuppondo que em poder d'esta 
senhora existissem ainda. |>qr acasoalguns ^in éditos de 
Elmano, dirigímo-nos a pessoa d^Bpfonfiançafro Sr. 
Francisco António de Lemos, AMKHm&lo da Campa- 
nhã ^província de Minas, o qual teveniWndade de in- 
fonpar-nos do seguinte : os noventa invernos que pesão 



# 



^ BOCAGE. ' ^03 

sobre a Sra. D. Maria Vicencia (aiflcU contraparenta do 
Sr, Lemas) a prostrarão por fltode^ jfoe nem pôde ligar 
converaação alguma, nem leimisar-spde particularidades 
que tanto interessarião hoje. que porém é certo, pois 
nol-a ffffrma o tflpo obsequiou infogjflfcal, é que^go- 
cáge frequentara nhmo « casa ífe António Bersane, $Hfe 
ga^do até ^estabelecer ahi poj varias vezes o seu qdfertel- 
general; d'9de prpvierão sem duvida as relações estreitas 
entre o poeta e a sua Mareia, J^oje nonagenaria. 



JOS^JDA CRUZ JfARONA ^ 

pobre José da Cruz Yarona, guardador do tabaco, 

ia- 



foi tsypbem alvo de um tirotettfepigrafrimatico da phj 
lange ^ocagisma. ^* 



Se injectarmos no que elles diziáo (#não é caso de 






juramento) o' velho Yarona não passava de um gebo m 
trapilhj£*cuja caaÉ se achava*mi$eravelmente mobiliada? 
e estupro a pontade dial* que tinha umji égua fêmea," 
e qiifc, á força ae magro, era chato coirio um capacho. 
Uma filha JbKdionda^chamada Rita, batia no pai, sem * 
respeito á idade, dp sexo, á paternidade, ás^perninhas,^ 
nem á cabelleira. Havia mais em cala três criadas, e um^ 
garoto, que alpunhavão de CupidinhâfcCoraqpanto este 
homem fosse condecorado com a ordoBde Chrifctó^ não 
fazia senão queixar- se das injustiças de que era victima, 
e da escassa contemplação em que ,tinhã**1ratòdl servi- 
ços. Diz o Sr. Innocencio ter-lhe asseverado o Sr. cónego 
Freire que < ^MNv l il n ^ possuia um só dente, sendo 
essa a a\lmãQ$ojfflk£êiachas de um dos sonetos* Agora, 
' fácil será já fljnprehender a intenção dos seguirias : 



¥ 



264 LIVRARIA CLÁSSICA. 

jl O guarda-mór%a calva para baxo 

É mais msjppprtavei ,que um capucho, $ 

Não tem bolinem tgado, nem buçjk}, ' * 

" Mais chat(vn%J«rece que um capacho. Jg» *-> 

As«sta^S|pcav$imas à7um patacÉÉfr £ * 

Os (fSeixosUb a8«gii(elra? d'um QQjEehOy *% * 

Tem fqpra d«j|fragidD, ou de bruxo y w% / 

Na eabeça miolos lhe não ac/io. . . 

Affecta no exterior santo de nicho, * 

Por dentro é mais sttistro d* que um mocho, 

E aloja mais peçontyç do que um bicho. 

qufros outros t|3 cheio, elle tem chamo, 
qua,é nos fkais vassoura, n^lle e lixo... 
E anda jsto entre nós? ah,! bom arrocho ! 







.*■ 



Com habito de fora, e de capote, 
Varoriá, tratante sem limite, * 
Deixando as frescas margens de Amphitrite, 
Em pratica foi pôr^ubtíl calote : a 

A rua ^ugusta caminhou àp trote, 
(Passo jq*e a velha idade não permittejj* 
E vendo um mercador, teve apoatite . 

De encontrar n'elle crédulo picflK^è : jQfk 

Entra, curgando o tremulo gasnate, 

Requer de baetão covados sete, 

Qiif .o máfcador lhe fia, annoso orate ! 

, Pega doJfrdo, amigos acommette, 
Em rifa o põe, augmenta-lhe o quilate, 
Pilha og^inheiro, e falta ao que promette. 



Com rosto o guarda-mór mes| 
Vendo àj^rta um credor, que 1 

' apre (disse ao Cupidni 
Lpagar, na rua o ponho. 





^ BOCAGE. 2Ôl 

'« Nunca fui de íllusoes : não lhe envejgonho, ' fe 



* ,. «^e^m se me faz vermelho*e|te fotinS. . 

*. « Chamem-4£ cafre, chamem-me 55!^*" ;,lV, ^ 
3$m Que eu fico irhiito lépido e rijptifc 




# 




« Nãd?me pilhão vintém Dezembro e Junho, 

t E a favor d'estas cans e çrbz que tenho, * 

« Todo, todo em calores me^teannho. » 

Ha outro sAeto, qtie, senàomedito, nó^publicámos 
na primeira edição a'esta memoria, principiando : # 

* Já resolvi! Em agarraA embirro... 

* ^ías cuippre confessar que ess^estylo não é cio nosso 

"grande versificado!*.* Comquanlo fosse, fèproduzido na^^â 

Collecçllb de 1853, com muitas variantes, que lhe nH^H^ 

dão máÍ3 merita^referimos r qg"udial-o, por espurio!^F^ 

VejaúJBQf%utro, de mais milito-: * * 

'%' ■ ■ *"*"* ' ' . *«. 

™ Cauteqkl» todò#Wubres endechas 

*** ^ÇjtttÈ*' ca PflP* ^ s ^ emeas chochas, 

Ao ''descárnadc^fâi , de gambias frouxas, * 4fr 

As sacrílegas mãos pôz nas bochechas.* ' 



roxas 



*t 



Redobre o écho lutuosas queixas. 

Piem té rebentar mochos e mochas. 

E, ao ver do amo affrontado as faces roxas $ 

Gupidinho leal corte as madeixas. 

De raiva o guar da-mór moa bolachas, , 

As três cr^JBnMttão-se capuchas, a 
E as paredwBKror abrão mil rachas. 

E tu, <tttf0W cans paternas puxajttjlW^ v 

Vai no ffiitro voraz de acesas achgf@fóp j| £ 

Ter o trágico fim que têm as bptóte* 



* 



f 



266 LIVRARIA d/sSlCA. 

pjFuma noite, lendo Bocage e José Bersane estado de 
camaradagem nTjin mesquinho sárço em caSfe do pobre 
epigraipmado guard^-mór, Voltár|g> para a mq^ad^ de 
Bersane, e como a céa náo estivessejprompta, «desafiou 

fia a Bpc^e to|p um quafAeto, qilffiogo foi cApJetado 
I soneto pjjr Bocage, do seguinte ftiodo (ined#fyf 

BgRSÀNE. 

Jà que grita a taAfôe a céa tarda, 
Aqui. em verso SHt| humilde e humapp ' 
4 Vamos todos fa^Tfafigo Elmana, ' 

Leilão dos trastes que possue o guarda. "* 

**• ' * j * * 

Casaca velha, rota, suja, parda, 

Feia, ruim, de amarellado panno ; ^ 

Sapatos, que solou ha mais de um anno, 

De que inda o remendão o importe .aguarda. 

Rouxinol, codomiz e dofs cochicha, & 

Seis paftellas, três tremes e doJHnAfefc Jgt 
Dez perrucas viuvas de rabicho^, w ^^^P m. 

Quatro cadellas fêmeas, dous cãeémachc^^ 

Uma filhannais feia que três bichos, « 

""''"aqui seus serviços e despachos. * 

•%*■ *^ GALINA 

Este^upilitar compôz varias obras, especialmente uma 
carta sobre* o suicídio, e uma Jkaducção de Heinecáo, 
que os contemporâneos aprecia^ohjftroô navio onde vol- 
tava da índia', tropeçou, cahio aS^fraife, morreu afogado^ 
Çerdendo-se-ttíè*^obras. •# ^^ 

Foi elle, em Í798 1 , nomeado ajudante do caduco Ma- 




« 



» 

* % % B0CAGE. 267 

rinho, <£*e, de oitenta annos, acabava de ser desppójbo 
gofernadof.de Solorfc Timor. Dizia ejatífo Bocage : 

— Encontrei hoja^o Marinho, cjue me deu pjirte do 
4espa(^o; dizendo-me : « Sr. Bocage, cá vou, farto de 
ragazigk^, ganháSíljio para a velhice!»* J ^ _ 

Quwab Galina deu no theatro uma sua peçg origi^jj^ 
não f aliava Bocage de outra cousa a quantos encontrava : 

-4- Ora o Galina! o Calina ! Vm. já vid a Iãene? pois eu 
lh'a conto. Cogvopa-seo divan pira decido* do casamento. 
Ha um Catão desde o prinâ^Kfã peça. O Solimão II 
faz uma fallánpra capear os tPJ^eitos^ a vêr se (idejxao 
casa^com a wega, e quem se seguilf a votar era o Catão. 
NSsto exclama todo jgsmado^« Jjoia grega mulher no 
sólio turco ! » E vai-se e acabaie a peça ! — Ora o Ga- 
lina! o Galina T* * " 

Foi a Galina que Bocage endereçou o seguinte soneto 'JÊÊt 

Quem é est^ boneco empertigado, * 

De laçarrao J^peito, e £rda ruça? 

irn solo úqglez escaramuça, *" 

indurra o seu bocado. 



* 




bre?^^0 seu solar e o seu morgado 
Tem no^asto capote em que se embuça. 

— De que vive? que faz? — Geme e solui 
E de amantes paixões anda mirrado. 

— E -ha moça que o affecte? — Olé ! quarenta 
E uma (de aspecto máo) tanto o cobiça, 
Que cedo a mão na igreja lhe apresenta ; 




E para a briM 
Dá-lhe liçWÍf 


ijyPft, em que é noviça, 
|H)olorenta, 




Á carunclIÉH 


Wje a mãi sediça. 




Apezar de todos estes emgranuSas^Bocage 

ff 


lhe fazia 



268 LIVRARIA CLaSsiÍK. * 

eí^ptento justiça, em momentos lúcidos, saindo o 
costume. ff . 

NICOLÁO TOLENTINO DE ALM0DA 



*r° 



*v* 



jSntre estes dous homens parecia dever ser grande ^ 
atracção, pela multidão+de semelhanças ue seus g$Mos 
c destinos, fc tyque e^ta circiimslincía ao contrario não 
devia motivar ãhtipath^L . t * 

♦Tolgptino, nascido TO»*e quatro ann^tptes de Bo- 
age, comtudo aind£lhe sobreviveu seis;Srtant^|orão 
ontemporaneos, e a^feidencia do official de secretaria 



* 



ca| 

contemporâneos, e 

foi sempre em Lisbpa, oritfe também Bocage quasi sempre 

ássistio. ' "* 

Forão aijbos poetas estimadíssimos como taes. 

De nenhum ficou obra original de grandes dimensões. 

Ambos tratarão de preferencia o género satyrico, epi- 
grammatico, elegias e poesias lyricas. 

Se Bocage cansa, pela indelicadeza con^<ju£ f]fj^jj^>ua 
musa a mendigar, mais intolerável .£ ess 
Tolentino. 

Se aquell#pedia inspirações á genebra e ao ponche, 
este br 

Das escumas do Madeira 
Vejo nascer a alegria. 
Com as azas afugenta 
A rainha melancolia. jf. 




Já se perturba a cabeça 
Já tento emprestadas cores , 
Já começai? a esquecer-me 
As moléstias e os credores. 




# 



* * BOCAGE. 



* 



Ambq| elles se o s te n tão frecheiros, inconstantes efljfc- 
dores de mil deidsuM£ - 

Ambos sujarão as peryias em assumptos de natureza ' 
demasiaÉunente livre. „ 
4':.Jfe umjlescompfc o ouro, pelo qual faz baixezas, do» 
Hfinrado-ífalsim: Ji m 

$ Faço a paz, sustento jfguerra ; * * ■ £ 

Agrado a cautos e a rudes; ^» •. 

Gero \icios e virtudes ; ^ " *■ 
*" V Torço as leis, domindjjpterra ; 

k dl **'"^ '* 

o ouVo faz^£ coro, respondendo íf* 

Dinheiro, invicto dmljfero, r 

Só em ti é que eu me futído : 

Tens o direito da força; 

És o tyranno do mundo ; ^f JÊÊk 

c portanto, n'este sentido, o que não podião haver, daváa 
pelojamor de Deos. ^ ^ 

íiç&fto até á morte solteiros, apezar de tão mul- 
ias |[fflfees. 7* 
tbos siffitentárão suas irmãs e famjliâs... e d'isso^ 
fizer ão titulo para, em proveito de sua tJte&mendici- * 
dade, excitarem compaixões. MÈm 

A final, Bocage morreu nos braços ^^^MgMaria J 
Francisca; Tolentino nos da irmã Joaquina. AÍj^na era 
reconhecida por Manoel Maria como a sua predilecta ; a 
esta tinha Nicoláo em tal conceito que respondia, a quem 
lh'o perguntava, naSteruerer casar por ser prohibido casar 
kcom irmã. jÈr^ 

'Ambos protegidos por José de SçaljVa. . 
Ambos caridosos; ambos de espágltfta memoria; aiq- 




r**> L11BABU CLiSSfCl. 

m/jkm* latinista*: ambos cultores da 
* poetía claseíca. # 4 

Ambos finalmente, e com pequeno intervallo, sepul- 
tados no cemitério das Mercês, perto um do oitro; a^ 
tas fallecídos hontem, sem quejá seja possível »|mL 
tty* os restos. « > /^ 

Homens que tantos títulos ap^roiimavào, pareeiâo 
todavia estramSos um ao^outro^; nem Bocage falia ima 
só fez, nas ltia# obras, de Tolentino, nem Tolentino de 
Bocage! j. ** ^ 

^ajklnltando sobre esub singularidade alguns amigos 
a^oeta, foi-nos dito* por Assentis e D. Gastão (os quaes 
muito conversarão amboftos autores; que nâo só tinhâo 
feito a mesma observf|ão^quanto ás obras, mas notado 
que, nas suas conversações, nem Tolentino nem Bocage 

•fallaváo nurica um do outro, em bem nem em mal, le- 
vando este cuidado a ponto de affectação, pois quando 
de tal objecto se tratava, calavão-se elles! 
^ A Sra. D. Amu Marecos porém, dama de altíssima in- 
telligcncia, qu^a ambos os poetas conheceu, aaaávtacm- 
nos que elles tiverao relações estreitas, ^jpjtan jjfp áj 
por essa ocAisião, esta anecdota. ^* 

Estava, Bo&ge encostado ao umbral da porta de uma 
L loja dOj^^tata, apparentemente pensativo e absorto, 

I quaqdáj^lenmlo, chegando-se-lhe ao ouvido, pergunta : . 

filmano, a lyra divina 
Por que razão emmudece? 

s* B* 
ao que logo Bocage respondeu : %-fk*& J^i 

\ Porqup mais cala no mundo ^^ 

Quorajnais ó mundo conhece. 



1 ' ♦ 

» * BOCAGE. 271 

tornou Tolentino: ^p 

Que tens achado no mundo 
Que mais*assombro te faça?' 

ocage sem hesitar : 

Um poeta com ventura,- , 
Um toleiraí com desgraça *' 

Dentro em poucos minutos, estavâo os improvisadores 




rodeados de centel|pres de ouvmtes; e, influídos pejp 
emulaçãoPcontínuárão longo -rampo, sem 
fraquejar, n'este foriçoso i 
também Bersane sido eminé 



sem ced^j jÊÊÊ^ 
fraquejar, n'este foriçoso écho, jpro que já vimojjj^P 



Sr. Banha, parente de^pocsce, deu-nos conta de 
outro écho entre ambos. Tanto mn como outro tinhãò 
pés monstruosos, que mutuamente epigrammárão. Só se ^ 
tonservão porém os seguintes versos ^de Bocage : jm 

Se o padre santo tivesse 

Um pé tão longo e tão máo, •*."4|. \ 

.#. , Pg^era mesmo de Roma W 

v • i ^ m jÊÊf beijar-pé em Macáo. 

Tolentino fez-lhe este (inédito) : 

#■ 
Erão três juntas de bois, 
£ £ d^aqttelles^mais selectos, 

A puxar pelos sapatos 

E os sapatos quietos ! 



* 



*> 



ANTÓNIO RIBEIRO DOS^ANTOS 

TtplNO DURIENSE — 



eruditíssimo phíloSopho era mui respeitado por 
Bocage; porém, nas suas • obras, • ájrôtas . uma vez o 



272 LIVRARIA CLÁSSICA. 



* 



aciona. É no tomo III, pag. 17, nk carta sT Riy 
cardo Raymundo Nogueira, sohre a Brevidade da vida 
humana: . « • 



Onde o ardente hoftnonico Bocage? 
Pergunta a esA lousas pavorosas 
Que já cobrirão seus mortaes despi) os, 
Que foi de tantos génios sobera^te, 4 
Que nem as cinzas nos sepulcros restão, 






Jomemos aqui um respiro.' No seguinte capitulo fal- 
aremos das relações d&JBocage com outros flfcntempora- 



^Ípitulo XVII 



* 



Continuação das relações de Bocage com os contemporâneos. — Morgado 
d'Assentiz. — Auxilio que esta obra lhe deve. — O segredo de Bocage. 
— Theatrinho da rua de S. José. — Ericia. — Epistola d'Assentiz. — 
Morgado e o Sr. Castilho fjptonio). — D. Gastão. — Sua coadjuva- 
ção a esta obra. -^Os sete sonetos de D. Gastão. — O soneto : Ah! 
meu Gastão, o JjflÉlenhoreia. — Padre Joaquim de Foyos. — Con- 
dessa d'0yenha3pBr— Filinto. 



MORGADO D*ASSENTIZ 



Francisco de Paula Cardoso de Almeida, um dos mais 
caros amf^o^fle Bocage, hoje é piorto, e jaz sepultado 
ao WKjla marqueza d'Alorna. Este homem, de vasta 
capacidade, nunca foi lembrado por governo algum para 
nenhuma occupaçãol Pouco antes de fallecer, subindo a 
escada de D. Gastão, Uate, lembrapdferse -do epitaphio de 
Piron, e*fHz ao amigo : • Meu Ga^áj& já me custa a < 
deitar : isto está por um fio, e encárrego-te o meu egjj 
taphio, que vim- jazendo pela escada: 




BOCAGE. 275 

O Assentiz aqui jaz. 
Que nunca foi deputado, 
Nem seauer juiz de paz. 

fcijicla em Outubro dé 1845 gozáramos, com elle, uma 
t ^vJ&Ête formosas iribnhãs que legão inextinguíveis im- 
v pressões. Convidarattos para praticarem de Bocage (ern 
$'' proveito d'esta Memoria) os dous poetas, os dous joviaes 
e doutos anciãos que tiverão com elle trato quotidiano, 
Assentiz kD. Gastão, sendo presentes a este deliciosoJR- 
moço littérario nossos irmãos António e Adrianodn) 
6r. conselheiro Viale. Com o sal JRtico, a vivacidade^e 
imaginação e memoria, que os annos não havião esfriado, 
a mais exemplar cortezia e be4^1a paciência, singu- 
lares dotes d'aquelles venerandos representantes da ge- 
ração que lá vai, porfiavão ambos em invocar tão gratas 
recordações, e do choque de suas reminiscências resurlio 
grande parte dos feitos e antedotas que narramos, de- 
vendo nós a Assentiz dous autograpUçgáie Bocage, um 
quinto volume, por elle corrigido de muitos erros que 
o deturpava*^ e a emenda da satyra, de que foi ama- 
nuense, bem como a approvação, e em parte collabora- 
ção na escolha dos#xcerptos preferidos. 

Sempre que o Morgado e Bocage se encohtiiávão, re- 
petia este : r M^ 

— Cardoso, por amor da politica é que nós nos co- 
nhecemos ! 

Alludia esta referçncia ao modo.singular como havião 
travado amizade.. ijgpteo ao pé um do outro, esperando 
-missa, na igreja cBpSPomingSs. Voltou-sc Bocage para 
um com quem viera, e disse-lhe: 
x — Medoro torce il mso, 

vn. V*> 



& 



274 LIViURIA CLÁSSICA. 

o que ouvindo Assentiz, rédarguw^cqptiftiifendo o texto 
its^iano : ' * 

— Politica ! politico, ! 

Derão uma gargalhada, começarão emj^radavel.con^ 
ver sacão, e nunca mais se deixarão. Eis-ahi porqu^elks\ 
se coohecião por musa da politica. ? 

Jíoi Assentiz amanuense de Bocage , # com muita fre- 
quência- e n'ugia loja de bebidas, ao Rocio, como no 
ite capitiilo vyeíios, lhe escreveu a famosa satyra 
ttkda P#na de Talião, 
it Gontou-nos este cavalheiro, que, liberalisapdo-lhe Bo- 
cage a maior predilecção, e fazendo-o sabedor de todos os 
seus segredos, *teve entretanto um singular capricho em 
lhe excitar n'um ponto, sem jamais lhe s^isfazer, a cu- 
riosidade. Parecia muitas vezes absorto, gjuasi extático: 
perguntava-lhe Assentiz a causa, e elle respondia : 

— Peza-me, amigo, peza-me! Ha uma asneira gray$- 
diqpima nas minhas obras I 

— Que asneira? 

— Deos me livre de denuncial-a, nem a ti. Vê lá se 
a achas; o que te eu sei, dizer, é que me envergonho 
sempre que lhe passo por cima. 

Este mesmo dialogo se repetio amiudadamente : dizia 
Assentiz ter \ido, mais de uma vez, as obras todas do 
seu amigo, só com intuito de descobrir ao que elle se re- 
ferisse, mas frustrou sempre as suas meditações. 

Com Assentiz ia Bocage, por Bhtre-muros, quando ao 
passarem defronte dpjpalacio dos Guiões, que se acabara 
de edificar, interrompeu a conversação, bradando : 




Vendeu vinagre o pai! fez isto o filho! 
neto, que fará, seguindo o trilho? 



I 



^OCAGE. ■ 275 

Foi © Morgai^Hfiaattiflco por theatro, que lhe levou para 
cima de cem mil cruzados. celebre theàtrinho da *ua 
delS. José (erecto naasquina da travessa Larga), vasta 
&ala,,de dimeffeoes iguaes ás da rua dos Condes, eondç 
íteen^çio, vestuário e liiais pertenças, ostentavão asiática 
magnificência, tudo isso pendia somente do poderoso 
braço e intelligente gosto do MorgWo çTAsséntiz.JFafias 
peças de Bocage forão compostas para eese <palt^ 
A versão de Attilio Regula foi encetada&fjrfo Moi 
de quem, com leves alterações, ç o I o actf, pii 
pela primara vez no tomo IV de 1815. Ha n'esta vepftâto 
(ou mais propriamente imitação) oiuitos tersos cujo 
pensamento é de Bocage. drama foi depois «apresen- 
tado no theatça da rua dos Condes, onde actores e espec- 
tadores observ^ão que descahiâ de vez em quando, e 
exigirão em vários sitios bombas (linguagem technica do 
teçapo). Fez-lhes o dócil traductor a vontade, nem sem- 
pre sem sacrifício da razão e do gosto. * 
A traducção da tragedia Vestal também foi feita para 
o theàtrinho da rua de S. José. Uma edição que d'ella se 
publicou (tomo V de 1822, 3 a parte), apezar de feita com 
o original de Assentiz, vem deturpadissima : a que demos 
porém na Livraria Clássica foi composta sobre um exem- 
plar onde aquelle amigo fez as convenientes attêrações. 
Tem este exemplar uma nota curiosa, do punho do 
Morgado, ao ultimo verso da scena 7 a do I o acto : 
* 

No altar morrendo, revelou meu crime, 



e é esta que litteraffflPKfc transcrevemos : 

« No original francez, cujo autor se ignorava, termi- 
nava o primeiro acto no verso acima, e com esta divisão 



« 



276 LIVRARIA CLÁSSICA. 

de acto a ofíereceu o traductor a^çu amigo FVandtsco de 
P^ula, Morgado d'Assentiz, para á'ffevar á scena en^eu 
theatro, na rua de S. José. Porém depois accordfrao 
ambos que produziria melhor effeito o*áÍÍj$ftiar a peça, 
para se aproveitar 6 golpe de theatro da scéha de Veluria 
e das outras sacerdotizas ; sendo mais natmçgl que o re- 
batexjue Emília projluzio, participando á Summa Sacer- 
dotiza o desastradmdcmtecimento de se haver apagado a 
lufc sagrada, e da |hpça dç4p|t homem em tão sacro- 
sa«$ lugar* fosse segfrido immediatamente da concur- 
rencia de Veturia e das mais sacerdotizas ao templo, onde 
se perpetrara tão horroroso crime. — Assentiz, » 

Quaftdo appareceu esta peça, como ninguém tinha visto 
o original francez, correu ser ella original de Boca^b, 
que escolhera o assumpto para hostilisar os mosteiros; 
mas é traducção do francez, e asseverou-nos Assentiz ser 
de Danchet, até em geral traduzida ao pé da lettra, cò&> 
nos provou por estes versos : 

Detesto os deoses flràps, que adora ojgtflo, 
Filhos do engano, ^Éjporte honrados, 

correspondentes a : 

Je deteste les dieux par la crainte adores, 
Enfantés par Terreur, par la mort honores. 

A censura modificou muitos versos, e para se conceber 
o espirito que a regulava, apontapemos um d' esses casos. 
verso : 

Summo bem dos mortaes é serem livres, 

teve de ser trocado por essoutro : 

O Humano coração tende á ventura. » 




. BOCAGE, * P 277 

Tu^P i^to nos foi asseverado por Assentiz, porém o 
certo é que, tendo itò$ examinado a collecção das obras 
dA)anchet, em qualío volumes, e as biographias deste 
poeta, nâottájti&uos cousa que se assemelhe á tragedia 
Ericia ! Estudando os títulos de tod^js as peças francezas 
que se sabe haverem sido representadas em Paris, desde 
o século decimo-quinto, só uma se nos deparou, qjjfft pro- 
vavelmente será a procurada, isto. èJ£ f tragedia Cornélie, 
Vestale, representada fcm 1 7 ISMStó passa, com duvi- 
das, por ser de Fusilier. "^ ".'".■" ., l r 

Baldámos esforços por achal-a nó Rio de Janeiro, e 
por isso nada podemos affirmar; mas eis-aqui a nossa 
suspeita. ^ 

* Bocage, com o seu apurado gosto, e escrúpulo summo 
no .41 so dos termos, já ao traduzir um drama de Árnaud, 
a Eufemia, trocou em Sophia o nome de uma freira, 
jÇhamada Melaíiia, dando como razão a necessidade de 
evitar um equivoco bem palpável- Do mesmo modo terá 
sido impressionado pelo nome de Cornélia, a que terii 
attribuido um radical muito duro, chrismando assim em 
Ericia a protogonista e a trljj|j[dia. 

Voltando porém ao assumpto de Francisco de Paula 
Cardoso, diremos que este dedicou a Bocage a seguinte 
epistola : 

Tu, que á lusa nação, que à pátria nossa. 

Dás gloria, dásbrazão, dàs ufania; 

Tu, que fazes marchar com pompa ovante, 

A par da lacia e franca, a língua lusa ; 

Tu, cantor da razão, cantor das .graças, * 

Que umas vefejLruindo ímpetuosoy 

Transpões, nono em estro, antigas margens, 

E dando essência nova a sons humanos, 

Pensando como um Deos, como um Deos falias : 



•m 




41 



LIVWRM CLÁSSICA. 

Ora brincando co'os louçãos 
Risos, prazeres de teus labioaj 
Foge a raiva, a fereza ao canil 
E languida se ri. a natureza : ' " 

Outra *ez, legislando imperioso, 
ftámaveis tornásseis, moral e culto; 
Õ tu, vate de Lysia, Europa, inundo, 
Salve, Elmano, uma vez, mil vezes salve! 
Lá d'esse immenso, radiante estádio, 
Aonde Olivo^roja, Sbiiane yfa f 
Lá do ^caSHfcgJoria, a ialdes invio, 
Presta m 4HK^° aos ternos votos, 
Que mil vesfflormei, que hoje te envio : 
São de ardente amizade estréas ténues, 
De vfkude provêm, são de ti digios. 

Ah! §£ dado me fora ã honrosa cròa, 
Que tecendo te estão de Lysia âs génios, 
Juntar mais um raminho a tantos ramos, 
MinlValma, acesa em fogo desusado, 
Excedendo-se a si, cantar-te ousara. 

Afigura-se à mente extasiada 

Ver Lysia com seus filhos afanosa 

Exultar, dando pressa ao teu triumpho ; 

Lá diviso na frente, Antesignano, ^J. 

velho honrado, o va^* o grão Fitinto, 

Co'a c*ròa triumphal asmãos pejadas, . * 

Magestoso avançar, e os sons augustos ji 

Soltar assim da boca veneranda : W 

a Eis a cYôa, que Lysia te decreta : 

«Quando Lysia t'a dá, Elmano, aceita- a. 

« Se o futuro avistar é dado aos vates, 

« Duração de Nestor te auguA e fado : 

c Tcns-lhe a lingua de mel, terás seus dias. 

« Nunca a vida é mor bem que quando a cantas : 

« EUa escude o cantor, que tanto a exalta. 

• Ah! Feliz o mortal, feliz três vezes, ▼ 

« Que essa cròa te herdar, correndo os evos : 

« Quando fôr morte e cinza o que hoje é fogo, 

« Saudade, fama e gloria a essência tua ! » 




BOCAOB. .* W9 

A esta jftesi* retinto Bocage com estes versos, que 
tanto exprimem de Sp&ideraçâo como de affecto : 

Mjmo^flfcgraças t$ florece o canto, 
De tenras sensações inda orvalhoso ; c ' * 

De alma, que em néctar inundei saudoso, 
Foge a dor, foge o mal, foge o quebranto. 

São melodia os ais, delicia o pranto, ^ 

,Que excita o verso teu, gentil, m 
Por elle jura anfiofájÉr mais pi 
E sente a natureza um novo en 

Estro do coração! Teus sons, teus lumes, 
Dos montes de jperenne amenidade £ «. 

Tentem no longo adejo os flóreos cumes : +\ 

Versos, não vos merece a férrea idade ; * 
Gozai no Olympo, 6 musica dos numes. 
Vosso ouvinte iinmortal : a eternidade. 

Na epistola (vide Excavações poéticas) em que o Sr. Cas- 
tilho (António) persuade o Morgado d'Assentiz a escre- 
ver acerca da brilhante roda dos seus finados amigos, 
exprime-se assim g-respeito d* este : 

E o que brilhou qual sol, brilhou qual raio, 
Otfneo Bocage, o príncipe de todos, 
iflo em Lfria, a não tolhêl-o as Parcas. 

Acerca da vida do Morgado merecem ser consultados 
os do\js curiosos artigos que no tomo I, pag. 300 e 507, 
do Archivo pittoresco, ifeserio o Sr. Innocencio F. da 
Silva. 

i 



280 LIVRARIA CLÁSSICA. 

D GASTÃO FAUSTO DA CAMBIA COUTINHO 

— ANFRISO TAGITANO — * 

- - ¥^ 

Em 1847 escrevíamos nós : . 

«*Quem ha ahi que não conheça o sábio j& amável 
velho, quasi derradeira relíquia de tão florèjjlfente quadra! 
Quem melhor do que elle jf^ia, no génio, na jovialidade, 
no estro, na instrucção, na urbanidade, personificar a 
geração passada? Mal haja a impertinente modéstia de 
tão delicada penna, que tem privado o publico de nume- 
rosas produções de óptima cwg>la, as quaes ajuntarião 
uma jóia preciosa á coroa poetiflp-cle que sejgptaa a fronte 
d'esta nação; As suas cantatas,**ffljátf^onetos, idyllios, 
elogios, epigrammas, farião a gloria^ um illusfre poeta; 
mns sobretudo as suas paraphrases de Horácio, do seu 
autor querido, que tegi estudado com um áHffinco, um 
amor, uma superioridade tal, que ha feito desenterrar 
centenares de bellezas novas, n'aquelle opulento veio da 
intelligencia humana, d'onde já paj^ m^ í^e a alluvião 
de hábeis mineiros de todos os le^KpHfc de todas as 
nações tornava baldadas explorações ^tas. » 

Então promettiamos incorporar n'esta colleçção a iné- 
dita versão da Arte poética, de Hora^jttpta pelo mesmo 
fidalgo, e seguida dos seus abundftnt&Tcommentarios. 

Hoje, tudo está mudado. D. Gastão já não pertence á 
terra. Por iniciativa nossa, tivemos a satirfação 3e ver 
sahir do prelo a sua Paraphrase da epistola aos Pisões, 
todavia sem os commentarios, que constituião a sua mais 
valiosa parte; e suppomos que os seus restantes manu- 
scriptos não verão mais a luz. 

Ora pois; fallemos d'este nosso finado amigo. 



BOCAGE. 281 

O interprete deHbracio era digno da amizade do in- 
terprete de Ovidio; o poeta, o satyrico, da do satyrico e 
poefe. As intimas relações entre ambos nunca arrefece- 
rão, apezár das apparencias em contrario, de que abaixo 
fallaremos.' ^ •?* 

Por occasião da molestiáàe Bocage, dirigio-lhe D. Gas- 
tão sete sonetos, a alguns dos quaes o poeta respondeu 
pelos mesmos consoantes. Èisrjqui um dos inéditos : 

Dos estragos cruéis que o tempo faz 
Ninguém té agora zombaria *fez: 
Nada lhe impor tão fugitivos pés, 
Saia de malha, rigidó carcaz. 

AferrMb ao poryit^uáo torna atrás, 

Por mais e mais rodeios que lhe dês : 

Kslas nevadas cans, estas que vês, 

Mostrlío signaes de que já fui rapaz. 

*? .... 

Enr férreo -throno impávido juiaí 

Lança por terra, sem valor, sem luz, 

Nymfljias mimosas, campeões subtis. 

Tudo a dtâHJkfrarbaro reduz... 



E só tufRjj^^p, por um triz, 
Cysne dos ipBes, grão cantor do truz ! 

Perdeu-se uqy^aciosissimo soneto com que Bocage 



un^tfacio 
is-3PP5ut 



pagou este. Eis-SpPCutro, cujo autographo possuímos 

v" 

Formosa Ânalia ! e mais formosa e pura 
No expressivo pincel do vate amante, 
Quaná> nos céos de amor, no teu semblante, 
Graças%5preila, e perfeições mistura. 

Salve, nympha, que lá da immensa altura 
Vês o mundo rolar, solta e distante ; 
Por milagres do metro altisonante 
Que daf-te eterno sol promette e jura. 



4 



282 LIVRARIA CLÁSSICA. 



♦ 



*%g 



Se, forçando os umbraes da eten 

Aos pósteros te dás em lettras de ouro, 

Passando o nome teu de idade a idade ; .. j. 

Do guiaste, que te dá phebêo themaro, 
lagrimas de dor e dejaudáae 
ilha a fronte que eiiftpâra o louro. 






w 

dfâos cheia, v* 
pppria moracjjp 



Vendo o Grande, o fi^-jfê^rbes senhoreia 
(A Ente que òs orbe:; extrahio do nada) 
Qrc sobre a terra, a pratos avezada, 
Cysne dos numes, os mortaes recreia ; 

Cala; e co'a mente, de prod 
Ma^da que volva aos céos^J 
Eis negreja entre nós fúria 4 
Fúria, que esp^anças lúcidas so^éST 

suave cantor, em verso amigo, 

Dá novo brilho aos céos, dá ser ás plantas, 

De cá das margens do árido jazigo. 

Sorprendea morte por maneiras tantas... 
Dizem que menos fez no tempo antigo 
Thracio amador ao cão de três gargantas. 



Génio mordaz, que o mérito golpeia» 
Nadando em ondas de sulfúrea flamma, 
fe Leva de rojo a musa que do Gama . ^ 

Cantou prodígios mil, de gloria cheia. ^ 



Sem luz o triste, e sôfrego da alheia, 
Razões fallazes imagina e trama; 
Porém risonha nSo suecumbe a fama, '" 
Que entre os luzeiros immortaes vagueia 

Não eu assim, que attonito e curvado, 
Teus sons adoro, magestoso Elmano, 
Pelos salões phebeos extasiado ; 




«* 



BOCAGE. . 285 



Vate, jpredÒr <fc século romano, £ 

Digno d'aquelle, a cuja sombra e lado 
•í Cantava outrora o cysne mantuano! 

A este respondeu Bocage, pelos mesmos conAp||^ 
com p seguinte : - 

*'*■ 
Dor, que afiada o coração golpeia, 
Se não toldasse o brilho à Delia flammà, 
E o tom do vate, que endeosa o Gama, t ^ 

Inda a voz me alongasse, altiva e cheia : 

Com alma solta, e do vil globo alheia, 
(Onde inveja o desarmo génio trama) 
Nos trilhos esmaltados de áurea fama 
Tentará os orbes, que immortal vagueia. 

Aos hombros de Aquilão, por mim curvado, 
Subira céos e céos : já nume Elmano, 
Bebera soes e soes, extasiado; 

E, revocando á mente o grão Romano, 
Pelos climas da luz, comtigo ao lado, 
Hymnos te dera em metro mantuano. 

Transcrevamos o que em seguida dissemos na edição 
de 1847 : 

« Dous crimes imperdoáveis para José Agostinho com- 
mettêra pois D. Gastão : ser amigo de Bocage, e hostili- 
sal-o a elle, copk) n'estes sonetos se vê. Protestou pois 
vingar-se; e fêl-o de uma sórdida forma, que nos obriga 
a entrar em desagradáveis pormenores. 

« Qual fólMtâtaerdadeiro impuls*de Macedo, tão figa- 
dal inimigo d^Bocage, apresentando-se em casa d'este 
logo queá.8ua moléstia se tornou mortal, foi para muitos 
problema ; e quasi todos os que o rodeavão asseverarão que 
o fim do padre fora captar-lhe a confiança, e apoderar-se 



I 




284 LIVRARÍA CLÁSSICA. 

^dos sflys manuscriptos, sob pretex^íe coordenal-os, e 
dal-<» dignamente ao prelo. Suppõe-se pois que Macedo 
se fossou de quanto ahi havia de mais valor, apenas 
|u 9 convencendo a irtíaí do pctiwde que ia 
*^— w ~r ação dos inedMús. Presidio depois Maq^do 
á impresSò de dous volumel^dè obras iposthum*; em 
que introduzio versos j^jm^os, em pro^MN^ua vin- 
gança, elle que tâly^.seiipM|prasse de versos alheios, em 

« QuuPfwtanto punir $Mpkdia de D. Gastão, e assim 
tentou (mas em vão) imíStóli estylo de Bocage, no 
soneto 4& M ^l 

4fà\ meu Gastão, o Pindo sennojw-- 

attribuindo Macedo a Bocage uma producção que era 
d'elle e só d'elle; tendo entretanto a imprudência de zom- 
bar n'esse soneto, do outro do cão das três gargantas, 
que D. Gastão compuzera, em honra do seu amigo, o que 
para lego devia a priori revelar a falsidade. A idéa que 
de Gastão formava Bocage, mostra-a este terceto : 

Nem tu me esquecerás, Gastão cadente, J 

*. Lustnbso a par de mim, quando de chofre 

Jjífc, Ígneas canções brotei, co'um Deos na mente. 

g Antes de passar avante, transcrevaméfíp tal soneto de 
J* José Agostinho : 

Ah! meu Gastão! o Pindo senhoreia; aV$j#. 
Riscos nao temas, não periga o nada yjw y 
Franquêa a mente â musa, que, avisaíá/t : ,_ jCV 
Turbas rasteiras a grasnar recreia : 

Narra os^ltos portentos de que é cheia, 
No vulgo, e em botequins dá-lhe morada; 




BOCAGE. 285^ 

Se é pois (Theíóes a critica esfaimada, 

Contra asnos' charlatães golpes sopeia : "ftÇ : ...£* 

Alhos porros, em vez de louro, amigo, ^ 

Nos. mornos versos, que imprimiste, planta», ^Çí^ 

Qufc eternos cobrirão o teu jazigo: */'■:■ -/«jí» *jPI 

Ficarás immortal por formas tantas, *' ^ 

Que-£-.pjfhrir ninará no tempo antigo, 
CSwi nSedo do tal cão dás três gargantas. 

■* •* 

respeitável Sr. I. F. $$ Silva, çojacedççJóTa autoria 
d'este soneto a Bocage, a v^nto de o inserir na sua col- 
lecção, pondera na resp^tiva nota (I, pag. 401) — não 
ser exacta a^ccusação q^e contra José AgostijaJio se for- 
mulou; quèlb estylo e maneira métrica d'é§te se nào 
confundia com o de Bocage; que José Agostinfiò nào foi 
quem dirigio a publicação dos tomos IV e V das Posthu- 
mas 9 e sim Marques Leão e Costa e Silva ; que, ao con- 
trario, a esse tempo José Agostinho se nâo corria com 
qualquer d'elles; e que considera o soneto como do nosso 
autor. 

Recordamo-nos perfeitamente de que a nossa asserção 
foi écho da de D. Gastão, com quem trabalhámos muito, 
com quem conferenciámos sobre os factos, e que ainda 
sobreviveu cinco annos á publicação d'esta Memoria. Se 
nós o consultávamos acerca de cousas estranhas, comd 
ignoraria elle^è passo que a si mesmo se referia? Gomo* 5 ' 
deixaríamos n'este de exigir o seu concurso? 

Se havemos porém de dizer toda a verdade, o soneto 
para ser dee$Qj|é Agostinho parece-nos excessivamente 
bocagifyop; c^pV a ser de Bocage, extraordinariamente 
força^jáíí defeituoso. ' 




«ÉS*.**' 

livharU, clássica. 

PADRE JOAQUIM DE FOYOS 



'■** 



1 



o, deputado do Santo Ogiciq^fficial de 
ítaria de estado, òwrmiissáTOaa Bulia, 
chroniíSSvda cpsa de Bragança, censor régio do desem- 
bargo do paço, sócio da academia, etc ^^uç^lém d'isto, 



passava por hei leniste/ titífia aspiraçóW^wpbeta, e a 



quem 
Foyos, 
mento *?i vi 
assemelha 




re co^^r^^jilpino chama o sábio athleta 

re ^éntpniiidos considerado como docu- 

e que o estudo ^mprobo, invita Minerva, 

uva sobre areais 




£^ 



Quand^oçage esteve detidtflfe casa de Jfegsa Senhora 
das NeccSáidádes, da Congregaçí|$Ép Orlnorio, foi este 
padre um dos encarregadas, de o wnverter. Dizia eg$ão 
Bocage : *-'* ' * 

— O Foyos ! O Foyos ! É pena que estudasse 
tolo se perdeu alli ! 

Parece ainda ser a elle que, á queima-roupa, disparou 
este epigramma : 

Longe estás de ser patela, 

Foyos, tens varias noções : ? 

Entendes bem a selecta, 

Lês, estudas e compões... 

Por um triz não és poeta. 



CONDESSA DOYENHAUSEN 

— ALCIPPE — 

{}. Leonor de Almatàa, condessa (TOyenhau&fr&As- 
stiínar, marqueza d'Álorna, a elogiada 4Í J^jB8fMfo, 
aquella de quem Bocage,' Almeno, Filinto e^^bfi^ ele- 
varão a summa^altura o viril talento. Á piedade filial 



4- . 

)i 

BOCAGE. 287 " 

devemos a formosa çollecção, em 6 volumes, de suas va^ 
riadissimas obras, precedida de uma curta biographtt. 
tomo III das Rimas de Bocage foi precedido"da se- 
guinte dedicatória a esta illustre dama : , tf ^ 

Á cantora immortal, deosa da lyra, 

Que exprime em áureos sons, em metro augusto, 

O qtte é digno de Jove, ou digno frella ; 

Á cantora immortal, de Lysia esmalte, 

A mente e o coração consagra Elmano. . ; 

Mulher deidade, magestosa Alcippe, 

Ó grande ! ó primogénita de Phebo ! 

Prospere a gloria minha á sombra tua ! 

Abriga os versos meus, que vão meus versos"; ^^ 

De honrosa eternidade a ti sedentos. ♦ i - v 3£\- 

Foi-lhe respondido com a seguinte epistola, que a con- 
dessa enviou de Londres, mas que só chegou depois da 
mortefâo autor : 

Desgostosa de um mundo espedaçado, 

Vagando co'o ligeiro pensamento 

Nos serros, quç o Penêo banha e fecunda, 

Fui buscar uma gruta accommodada 

Para entregar a Phebo a mente e as penas. 



Aqui, disse, amansou o Thracio vate 
Com meigos sons as feras e os penedos ; 
D'aqui par tio a demandar a esposa, 
E quebrantou do Averno as brônzeas portas. 

Alli se elevão dous soberbos montes, 
Que avistão Phebo apenas deixa Thetis. 
Entre os dousjdicerces dos gigantes 
4?oielo horrível dos Antheos d , agera) 
Repousa o valle aonde as musas brincão. 

* Aòítorte surge o monte sacrosanto, 
D'onde dimana a luz aos génios altos... * 



í 



J5p 

■fr'tt8 LIVRARIA CLÁSSICA. 

i. Ó chimerica Tempo, a ti me acolho, 

^Sr Senão com os membros, co'a alma fatigada . 

Nos teus bosques frondosos articulào 
As folhai, que meoéa o vento leve, 
."?■' Jfarmonico susurro, o metro nasce 
■ ■' Jdo compassado som que nos recreia. 

Torrente argêntea entorna o fresco Eurotas, 
Que altivo não mistura doutras aguas ; 
Altêa os hombrfts mesmo o pai de Dapbne, 
E respeitoso os*eus crjstaes transporta. 
Assim taml>em me arrojo na desgraça ; 
s Ep vou sozinha entro a corrente escura 

Que a todos leva... aonde? A)i! não sei onde! 

E Imano, com teu canto, ouro tTApollo, 
Mfcgieo dom das musas, me ergues templo/, . 
^ejn v|o sansoneas mãos arrasar querem. 

Vem junto ás fontes da^ Thessalià illustrc .^. 

Cantar aonde eu buscò?algum conforto ; : .;£, 

Brinda as cantoras que estes sitios honrão, 

Com teus versos de fogo, com teus versos. 

Em que renasce Ovidio, e que sossobrão ^ 

Nos lares immortaes o Mautuano. 

Alcippe, dirás tu, Alcippe a vate 

Fiz com meus hymnos deosa, e com meus hymnos 

Lhe afianço sem susto a eternidade. 

Eltnano, jura Alcippe, vence o tempo, 

Vence as serpes da inveja ; e transformado 

Em cysnc voador, qual outro Fia eco, *j^ 

Tem por Mecenas o seu próprio engenho, 

Por juizes os numes e a verdade. 

PTuma epistola, dirigida a um amigo chamado Salda- 
nha, diz da condessa, que de Portugal, onde tudo era 
silencio, se transportara para Paris e Ital^sOnd^ndo 
era vida : , *■ 4&:--j('' % 

Ou, coino, abrande, a magestosa Alcippe 



BOtoL£E. 289* 

Com pejo do^íxistir cá onde ba morte, 

Ousara demandar no afouto adejo ''." * 

Pia gâíi immensas, onde tudo é vida. 

e adiante : , .;.- V^t %+.i 

ftnova irmã de Phebt»! AltippeJ Alcippa! ■;■ '?*' 

raia do Tejo, altisona canton1 H 

Contra ò gelo tenaz, que sobre $Ca alma 

À amenidade, o viço ao jgenio Jttprra, 

Tu manda, tu dcspedeiuni raiç, um. raio $ 

Do immenso eterno sofjtfjue em U reflecte; $£"•■ „ & 

Dá-me effluvips subtis, da acesa idéa, 

Idéa onde ertí trope^iysterios andão, 

Portentos com porttjítos se encadêão. . -M A- 

Nos tiéps, na terrafeomo entorna os dias^ j^jSjí 

E sempre o monto, e novo, o grão plaBetá^|i^> 

r w Opulento de si^urge e resurge, 

.'^.. Tal podes atear-me a .«èa flamma, 

E, deosa, quasi um deòs tornar Elmario. 



FRANCISCO MANOEL DO NASCIMENTO 

— FILINTO ELY8IO — * 

Gozava Filinto da mais emipente reputação, quando 
respondeu á remessa que Bocage 1 lhe fez das suas obras, 
com %epistola que vem no tom. II da edição dos onze 
volumes, de Paris : ^^ 

J&rtf* Tepcritus ^Ê 

v* Dijcet lber, Rhodaniquc potor ! 

Lendo os teus versos, numeroso E Imano, 
E o não vulgar conceito, e a feliz phrase- , 
Disse entre mim : a Depõe, Filinto, a lyrí * 

Jà velha, já cansada, c 

■*■ *■ 

Irianccbo vem tomar-te os louros, i'.: 

com teu canto na aurca quadra .* • ." 

ié ao bom Corydon, a Elpino, a &lfeno .. 
Àpplaudía Ulysséa. * V V ,- ^ 




990 LIVRARIA CLÁSSICA. 

-<' Rouca hoje, c som alento, a minht Clio 

Não troa sons altivos, arrojados : 
Vai pedestre soltando cm frouxo melro 
Deleixadas cantigas. 

Desceu Apollo e o coro das donzellas 
Á morada dElmino; e esse, que outrora x ■ 

Canto nos dava nome, o pôz na boca 
Do noTo amido cysne. 

,~Aftirma-se que nunca Bocage dera apreço e considor 
rtÇào igual a outro algum Iriumpho, não havendo pessoa 
a quem nao repetisse, cheio dé satisfação e orgulho, os 
versos do vale do Sena. A curta peça em que manifestou 
esta profoiât sensação, verdadeiramente inspirada, é 

Zoilos, estremecei, rugi, mordcHvos : 
Filinto, o £r3o cantor, preiou meus versos ! 

Sobra a margem feliz do rio ovante, "■ 

D'oude, arrancando omnipotência aos fados, 

Universal terror vibrando cm raios, 

Impôz tropel de beróes silencio ao globo, 

O immortal corypbèo dos cysnes lusos 

Na voz da lyra eterna alçou meu nome. _ 

Adejai, tersos meus, ao Sena, ufano -'% 

De altos, fastosos, marciaes portentos, 
K, ganliaudo amplo voo após Filinto, 
Pousai na eternidade, em torno a Jove. 

Eis os templos, a inveja, a morte, o Lclhes, 
Da monte, que os temeu, desapparecem. 
Fadoinme o grão Filinto, um vale, um nume. 
Zoilos! tremei. Posteridade! és minha. v . t 

..;■■,■.:#■■ 

(li, de passagem, notaremos que ainda çqtii, nífafcob-* 
stante os êxtases de gratidão, patenteou'Bôtt^\Q/«eu 
orgulho. Enfadado de tào curta ser a ode quí raipirára 



JS» 



BOCAGE. 291 

(dczeseis versos) respondeu com outra, sem um hérnia- 

tychio de mais, como acima se vê.) 

Levou desde então a uma espécie de culto o nome de 

Filinto, que lhe servia de ponto de CQmparação para 

quanto cm intelligencia lhe parecia eminente, bradando, 

por exemplo : 

$-■ 
CarúVPhebo, a Filinto, a Lysia, â Fama! 

Também Filinto lhe retribuía em consideração, c tartlb 
que sendo n'elle frequentes as allusôes saty ricas a poetas 
contemporâneos, nem. çiria só vez as usou d'esta sorte 
contra Bocage, antes pelo contrario; como ra peça inti- 
tulada Debique : _*■; : ;>;jí' 



*w 



Toda a clássica phrase, que ignoramos, 
Gritemos logo : Drogas da antigualha 1 ! 
Insultemos as obras de Filinto, 
As de Bocage, Alfeno, c outros sediços ! 

Forão aquellas duas producções (a epistola a Bocage e 
a resposta dcllc) que derâo origem á espécie de moda, 
que então grassou, e que durou nos mezes que ate a 
mort&do poeta decorrerão. Quantos alumnos das musas 
se abalançavão na capital a pulsar a lyra, tantos pagarão 
o. j?eu tributo de vassallagem ao génio, enviando-lhe poe- 
sias em louvor, sobretudo durante o período da enfer- 
midade de que suecumbio, a muitas das quaes respondeu. 
A este respeito diz o Morgado d'Assentiz u<^ 

1 Este epigvamnia <5 foHado contra o Abbadc d' Almoster, que n'uma 
epistola) que acabava de inserir no tom. III do Almanak das Musai, 
pajf. lOti* zombara/de Filinto, escrevendo a Laurino : 

\ SêHkM chamo, não porque tu mo b três 
. Ao inundo, em vãos escriptos pedanteseos, 
Carregados de dregas da antigualha! 



2W LIVRARIA CLÁSSICA. 

' « Doo nossos poetas existentes, mais idoso», foi o padre 
Francisco Manoel o primeiro que elogiou Bocage, envian- 
-clo lhe de Paris a bellissima ode que anda nas mãos de 
todos. Foi o Antesignano do cortejo triumphal, que agora 
98 génios ia Lusitânia têm votado a Bocage na sua 
doença. » 

V CAPITULO XVIII 

Continuação das relações de Bocage com Oi contemporâneos. — Gregório . 
Freire Carneiro»— Ignacio da Costa Quintana. — João f jfe ut e Pimentel 
Maldonado* — rSebaatião Xavier Botelho. — Francisco^ freire de Car- 
valho. — D. António da Visitação. — Nuno Alvares Pereira Pato Moniz.. 

— António Mendes Bordalo. — Agoitínho Gomes às*. Silveira. — António. 
Xavier Ferreira. — Bento Henrique» Soares. — Henrique Pedro da 
Co* tu. — José Niootfò de MassueUof Pinto.— José Rodrigues Pimcn-^ 
tel c Maia. '— Pedro José* Constâncio. — Pedro Ignacio Ribeiro Soares. 

— Thomaz António dos Santos e Silva. — Vicente Pedro Nolasco da 
Cuulia. 

GREGÓRIO FREIRE CARNEIRO 

A este homem, que mil vezes salvou o vate do pego da 
indigência, dirigio Bocage esta elegia : 

A Freire hcmfeitor, ao caro amigo, ^ ., 

Áqucllc que mil vezes tem salvado -\ ^ 

Do pego da indigência o triste vate, 
Versos do coração Bocage envia. 
Versos do coração não se guarnecem 
Do falso adorno de atiladas vozes : 
Filhos da natureza, á mãi seinelhão, '-•'' **'$'/£* 

Correm serenos, aprazíveis, puros, ' - ■ ■ » ' 'J % i~* 

Por leito igual, por límpidas arêas, ~ '&:■ 

l)crivão-sc de amor, e amor procurão. ' '& ;ts . -^ * 
Quaes os affectos meus, lacs são meus versos ; F *1i^';^' 
A nívea candidez os purifica, 



i. * íífí. 

BOCAGÍi 295 

;.:;v O lustre da amizade os abrilhanta : ^ ? " 

^v Assim de quando em quando os não turvasse * 

pfi* Denegrido vapor, que as almas iolda, 

: UaBto infausto, que dos lábios feios 
ifiptre meus dias a tristeza espalha ! 
Etíe inda ha pouco me turvou na mento l • ; ;, 

Mimos das graças, mimos dos amores. 
Marilia, gloria tua, e gloria Telles, 
E como a d'elles mãi, primor e extremo 
De encantos, de attracfivos, outra Vénus, 
Deosa nos olhos, nos sorrisos òjgoaa., ■ • 

*■■■ Mariha, doce ardor de léus sentiflos, * 

Seu dia genial, seu áureo dia, 
Yio ha pouco outra vez luzir no pólo : 
£ eu, a cantal-o afeito ; eu, que me honrava, 
Unindo o claro objecto aos sons da ryra, ilki* 
Eu tremi, desmaiei, cahi na empreza ■ > 
, *. .. Que audaz tentara, que feliz cumprira. 

'*- Prestante amigo! Á minha dor perada; 

Já de usado a gemer cantar nao posso ; 
Sei versos de tristeza urdir somente; 
Só versos quaes escrevo, e quaes te envio, 
Não, como os prometti, serenos, puros : 
No começo a desgraça o turvo alento 
Sobre elles esparzio, e os fez tão tristes. 
Pela voz da indigência elles te implorão ; 
Tu, que sempre magnânimo os ouviste, 
Dá-lhc a resposta que lhes sempre has dado, 
O soccorro efficaz, com que aligeire 
]>' Dos agros dias meus o férreo peso. 

Bocage dirigio a este generoso bemfcitor o soneto : 
Com ampla mão , benéfica largueza 

<ji*e fecha' com o verso : 

/ \i V'^ a {$" tc em verso o que te devo em ouro 

aaajoflp, ao final do soneto a J. P. Silva : 

ava em metro o que devia cm ouro 




,-:V* 



* ■ 


LIVRABJA CLÁSSICA. 








* * 


IGNACiO DA GOSTA QUINTELLA 




A: 






— JACIHDO ULV88IPONENSE — 







QuintcllaT, que chegou a secretario de estado, e vice- 
almirante, foi por muitos títulos distincto. Versado em 
mathematicas.; membro da Arcádia sob o pseudonymo de 
Jacindo, c talvez traduçtor à^Eneida; autor dos Annaes 
* d% marinha portugu&p, I publicados até a data da exaltação 
do Sr. D. João IV, e notável poeta, de quem Bocagçxlisse, 
no prologo do poema das Plantas : 



aperfeiçoa os sons do plcctro 

Quando a revolução de França «atendia a sua propa-áí^ 
ganda pela Europa, diligencia Portugal conservar a suaifc '-. 
neutralidade ; porém a final teve de mandar para ojHc- 
diterraneo uma frota commandada pelo marquez de Ni|ç, 
successor de Vasco da Gama, e também um corpo auxi- 
liar á Hespanha, apenas os exércitos franceses atravessa- 
rão os Pyrenêos, corpo que admiravelmente se portou 
nas campanhas do Rousaillon. Na divisão naval tinha 
Quintella um commando, e ahi, como sempre, se portou 
bravamente. A elle dirigio seu amigo Bocage uma ode, 
de tão pomposo dizer, que devemos aqui transcrevêl-a :? 






Impávido outra vez, Quintella egrégio^: 
Vás pôr freio aos tufões, dar leis aos s mares, 
Do grande génio teu dobrar ao jugo 
Carrancudas procellas. 

Ruem por terra as emperradas portas 
Das eólias, horrisonas masmorras, 
Que de um fero encontrão, rugindo, arromba 
A caterva dos Euros : 





m 



BOCAGE. 

Soa o duro estridor das azas negras, 
Nuvens a nuvens súbito se aggregão; *" . : A * 

pego se revolve, o céo gottêa, 
Tintp^da côr do inferno : 

Eis arde, serpeando entre os horrores 
Da basta ccrraçSo, fulmineo lume, 
Eis pesados trovões o pólo atrôão, 
Os nautas ensurdecem : 

Nos crespos escarçéos lá surge a morte, * 

Em montanhas de espuma o lenho affronta i 
Rasga celestes véos o aéreo tope, 
Roça no Âverno a quilha : 

Aos bravos furacões, que não fraquejem* . -■{.... ■ .... 
Grita o deos do tridente, c o deos do raioip^íH' 
Nos eixos anta o mundo. & voz dos torvos 
Irmãos omnipotentes: 

Medrosa pallidez destinge as faces, 
Sopêa as forças, enregela o sangue : 
Jà sobre as azas do terror convulso 

Foge a murcha esperança : ■> - 

Em choroso fragor mil preces tentão, 
Voando, amollecer de love a£ iras : 
Sanhudos turbilhões co'as amplas fauces 
Os votos extravião : ' 

Sobranceiro ao pavor, Quintella emtanto, 
Contrastando os revoltos elementos, 
Depois que exhaure, ó arte, em vãs industrias, 
Teuâjfrovidos thesottros : 

Pela undosa braveza ao ver sem fructo 

Subtis cDinbinações, subtis segredos, 

Recorre à sacra lyra, ao dom divino, 

Dom fecundo de assombros. 

Rebentão d'entrc as ondas marulhosas • 
am orados delfins, os venVos &ínrmksl, 



'■.■■* 






m ' LIVRARIA CLÁSSICA. 

^t Deaassombra-so o pólo, o mar se encurva 

: : y- * Á potente harmonia : 

Anto o novo Arion, como encantados, . 
Surdem Terdes tritões do equoreo seio, - 
Assoma de Ncrôo a ingénua prole 
Nos monstros escamosos. 

Oh! dadiva dos céos! Oh! lyra augusta! 
Para o digno cantor, o exímio vate v 
tí Não corre o tempo, não dimana o Lethes, 

Não ha segunda morte. 

JOÃO VICENTE PIMENTEL MALDONADO 

-— I8MENO -— 

Este cavalheiro foi provedor dos resíduos, e deputado ' 
ás cortes constituintes. SuMjUsimo autor de variadas " 
poesias, primou sobretudo-iíós apologos, madrigaes e * 
onaerconticas. Era elle tido na maior conta por BocàjÉp, 
que no prologo do poema das Plantas diz : ■ 

Se em podre lodaçal negrejão zoilos, 

Ás margens do Permapso Epnenos brilhão, 

D'alma phebea, creadòrjj, acesa, 

A verdade em relâmpagos vibrando 

Também fallou o nosso poeta com apreço da irmã * 
d'este f D, Marianna Antónia Pimentel Maldonado (Ar- 
mania), senhora do grande talento, e autora de vários 
opúsculos, entre os quacs prima uma ode ao anniverjj 
sario da morte de Gomes Freire de Andrade. Em casa. dr 
um commum amigo, Mendonça, costumarão encontrar-se, 
e n'uma epistola que Manoel Maria dirigio a este, pe- 
dindo-lhe auxílios, se lô : 

Caro, amável Mendonça, o teu Bocage, 
O terno amigo teu, que em outaçç &&% 



BOCAGE. 

Momentos festivaes gozou comtigo ; 

O vate que em teus lares, que a teus olhos, 

£ á face do immortal, canoro Ismeno, 

Foi cysBfi junto a cysne, e deu toes voos ... r * ' 

Que as azas do improviso os céos roçarão, 

Por milagre talvez de Armania bella, etc. 7; : % •■ 



SEBASTIÃO XAVIER BOTELHO 

— SALIOtO — . " * 

\* .- -r 

Da casa dos condes de S. Miguel, e-pessoa de elevados 
dotes intellectuaes; autor de excellentes obras em prosa 
jftbre os domínios portugiiezes e outros assumptos de 
momento, era também poeta de subidos qtdlajtótí tendo-se 
sobretudo a sua musa appliçgdQ a assumpto Jk«rotic«. 
Botelho e Bocage recipròetQgi^iifè se apreciaVffò muito. 
Este, çío prologo das Planfpãgò enumera entre os poucos 
a quârtt jjá titulo de bons poetas, chegando a dizer d'elle : 




Clario co'a própria mão Salicio cnloura. 



Sálicio dirigio a Elmano jgjferô. poesias; Elmano lh'as 
retribuio, distinguindo-se, enftEjputras, as elegias : 

™ Se lúgubre existência amargurada 






Ao grão vate Salicio o vate Elmano,*.. 



IPeela se reconhece o elevado conceito que Bocage for- 
mava de Botelho, como se collige dos seguintes versos : 

íomtigo falia, que do Pindo houveste 
O eulcmnc idioma, o tom dos numes, 
A voa que lonyo vai, que longe sobe, 
e soa além do munda, além dos tempos. 

alio comtigo ; a ti, que tens tu meNta -■"«■ 

f/iesouro lirilhaoMb inexhaurwel» 




**V 298 LIVRARIA CLÁSSICA. 



^9- 



■< 



O ígneo foco de altivolas idéas 
Em que José reluz qual é no Olympo. 
Fallo comtigo; a ti, que tens na mente 
Poder de eternisar e eternisar-te. 



FRANCISCO FREIRE DE CARVALHO, E D. ANTÓNIO DA VISITAÇÃO 
FREIRE DE CARVALHO 

— ONTANIO — 

, De três illustrados irmãos era primogénito D. António, 
cónego regrante de S. Agostinho, e professor no mosteiro 
de S. Vicente de Fora, onde morreu mui joven. A 
exacto o que affirma Couto, Bocage costumada ir poel 
á cella de D. António, o que muito escandalisava o geral 
dos Cruzios, gorducho, rubicundo, velho, chamado D. Ber- 
nardo. Chegando este a ponto de prohibir quesBocage 
continuasse a ir alli fazer versos, sahio-se-lhe o poeta com 
um soneto, que todavia ainda contém ai lu soes, hoje inde- 
cifráveis : 

Corre furioso o episcopal repolho, 

No habito branco, nas feições vermelho, 

Porém mais corre o portuguez francelho 

Com a presa carnal, que trouxe de olho. * 

Pois deita agora as barbas de remolho, , : 

Hypocrita insolente, hediondo velho ; - *• jf 

E se queres tomar o meu conselho, 
Para as aves' não sejas vil trambolho. 

Olha que, se ellas enchem o bandulho, 
Vai-me cheirando a haver muito retalho, 
E dás co'a prelazia de mergulho. '"'V 

Evita com prudência algum trabalho/ sá&& ^f?* 
Quando não, meu Bernardo, o teu orgulhe^ ■* V^/'*' " 
Sobre ti acarreta um bom ver galho. 




BOCAGE. * 299 

Fallecendo D. António, poucas semanas antes de Bo- 
cage, e tendo Francisco Freire dirigido a este a epjptõlt :' 

*• 
*Sem yov' entra qb clarins, ele. '^ ' 

que se lê nos Improvisos, a pag. 72, e oride'affparecem 
alguns ?ersos á memoria do finado, Bocage lhe redarguio 
com o stiítflrto: 

De Ontanio choras, e de^pejanio cantas, 
iy' Teu doce e claro irmão, meu doce'«nago, 
■*• Àquelle de quem pousao no jazigo 
+4 Tantos ais, tanta dor, -jlhdades tantas! 

Cantando enlevas, e Chorando encantas, * £$5% 
É acorda, e vive u'alma o tempo antigo, " $&- 
■f* Quando a Qiiin^,no ajhl^abri^o, . .^. 

Carpia o vate , cujo soij@fariààs* 

'* "As artes, as scienciasJmjDRàdas, 
í/(£s delicias de Ontanio, os seus amores) 
Depois que o virão mudo, estão caladas ! ... 

Ah} com elle etemisem-se os cantores : 
Altos génios vos dêm, cinzlijagradas, 
Tersos, gemidos, lagrimai gHôres. 




& 



Francisco Freire (o autor das Lições elementares da 
eloquência nacional) igualmente dedicou a Bocage a epis- 
tola que principia : 

É nos revezes que apparece o sábio 

incorporada a pag. 56 do opúsculo A virtude laureada, e 
uma poesia intitulada Pranto na morte do Bocage, que 
Trio na Collecção de poesias á memoria d'elle, impressa, - 
em 1806, e começa : 

BI pus ol hos a cboryr, <^e \\a. m\Àto 3&«\\xa« » . - . ■ 



~t* 300 LIVRARIA CLÁSSICA. 



NUNO ALVARES PEREIRA PATO MONIZ 

Este infatigável autor do poemetto A apparição, de 
vários dramas e elogios dramáticos, de muitas odes e 
poesias gratulatorias, foi um dos mais queridos sócios de 
Bocage, e por isso mesmo dos mais satyrisados . por Mar 
cedo, o qual muito padeceu, em sua reputação litteraria, 
da guerra que Pato lhe moveu, ardente, implacável, já 
em periódicos, já em folhetos de refutações avulsos, já 
nos exames críticos do Gama e do Oriente, já no poema 
Agostinheida, e em mil settas^arremessadas por este Bryqf» 
rêo centunáho, que nem todas aparou no escudo o orgu- 
lhoso ex-frade, apezar de ter até cteado este um jornal, 
Espectador , que dous àníàròse destinou a desfiar P(*tii'' 
aos bocadinhos. '''■%* ?;. , 

Eis como se exprime Nuno, o qual apenas contava 
vinte e quatro annos de idade, por morte de Bocage : 

« Eu fui intimo amigo de Bocage, c me glorio de o 
haver sido : com elle fiz ò ensaio dos meus primeiros 
voos poéticos ; elle foi quem primeiro castigou os meus 
versos...» 

Outro tanto diz Bocage de Pato Moniz; por exemplo, 
numa nota ao soneto (tomo IV, pag. 49) : ?■ 



Co'a mente juvenil, sublime, alada. 



diz elle : t< Quero (se meus dias findarem) deixar uma 

prova do muito em que tive, do muito que n^Jjigrecem 

os talentos de um dos meus mais caros amigçs.^ 

Bocage igualmente o elogia no soneto : 






Terno Paz, bom Maneschi.. 



< ';•* BOCAGE. ^ ;^ 301 V 

.. JHrigto^Nuno a Bocage o soneto que vem no tpmo VI 
pag. 34: ^ *■ &j"""" 

*?* '" Se as arenas jabda sã philosophia; -j fefe - V 

Sacra égide á&Tsão contra a desgraça, ^^r ' ^L 
* Então em que desdiz a humana raça 
Das outras que razão iiSKjalumia? 

y Seus venStos distille a tjrannia, 

Raivoso o fido em raio* -10 desfaz 
4v Alma que o leme da r <ffOft ríl .C ^ 

Sorve tranquilla o néctar cralegria.í^* 

*"' ' Quando a ventura ao pensamento acode, 

01 E não prova revezes o desejo, 

Embate» de afflicção qualquer sacode. -Jfc 

Aos males na cgÉjitáiicia seftsobejo 
tu, A poucos dado fòr~ EfcrfJJSÉtp pôde — . ■ ■/ 

™ jf % Dá, que um novo trophSHjR o Tejo ! ^'^ 

e oyflfi que sahírão ;rf collecção dos Improvisos, a 
pag;>o2J-.33, 50, a saber f 

De meigo rosto e de olho^^gptadores 

Por mais que o tempo elEfljjfcilos damnosos.t... * 
" ; Pincel, que rivalisa a natureáiT.... k 

e nao menos a epistola (Improvisos, pag. 72) : 

T** Em agro serro, de ascensão difficil 

e recebeu do vate este : * 

ias liçofs de férreo Zeno 
j o coração, se enruga o rosto : 
"y st ema, e de aridez composto, 
fecundas paixões secca o terreno ! 

timbre em mohcp de ouro o toxa v.^ 








-& 



# 



*m 



302 LIVRARIA CLÁSSICA. 



E à doce natureza o nunca opposto « -j 

fjR ^ t (Rindo entre flores, vicejando em gosto) 
"■'*' .Génio deslisa em Epicuro ameno. 

\. ■*■ 

Elie (bem que o diffame o vulgo rude) *- 

J». De «Imos prazeres pela mão nevada 

D'espinhos despe o trilho à sã virtude ; 

Veste de rosas a macia estrada, *"- 

.A moral formosêa, e não me illude .*. ■ 

Querendo que de um Deos ostente* um nada. 

Já nos últimos tempos dà vida, Bocage dirigio a Pato 
Moniz a seguinte ode, notável por mais de um motivo : 

^ Já meu estro, Moniz, apenas solta 

* Desmaiadas faíscas, 

Em que as frouxas idéajmal sé aquecem ; 

Elmano do que fòfifr §J* 

Qual no gesto desdiz, *WBp na mente : v*È 

Diástole tardia ' ■ * . » r^jS? 

Jã da fonte vital me esparge a custo **"*$.. 

licor circulante, ■■" '■' A 

Que é rosa entre jasmins de virgem face ; , '*% 

Que outr'ora esperto, aceso 
De santa agitação, de-ardor sagrado, 

No cérebro em tumulto 
(Estancia então de um deos!) me borbulhava 

Respiração divina, 
Enthusiasmo augusto, alma do vate ! 

Que rápidos portentos, -V'. 

Portentos em tropel, não deste á fama, 

Não deste á natureza,^- 
Á pátria, ao mundo, a amor, na voz d'Elmanot 

Ora aplanando os sulcos 
Com que a saturnia mão semblantes lavra, 
^ A razão pensadora 

' >C- ' Erguia aos graves sons o grave aspecto ; 

Ora ao ver-se anteposto 
• ^ Por deleitosa insânia, a ella, a tudo, 

* grato,, cyprio numen 




'* 






BOCAGE 



303 




Fadava docemente o doce canto 
i ^ No coração de Analia. 
Oh! êxtase! oh! relâmpagos da gloria! ; 
^ Faustos momentos de ouro, 
líom que meà gfào comprei na eternidade] !- 
* r Ib/temjf^incu voando, $L^' 

Do tempo, que annuvião negros males," ^ 

Brilhais inda emi&ihh' alma 
Entre sombrias, áridas péas, 
■^■'■'Quaí mire aves esfearas 
(Órgãos do agouro, injJ&WHçetes M morte) 

Requebros arrulando^ v * • ' "> .. 
Das aves de Cythera o coro alveja!.*^... 

Mas, ah ! saudosos dias, 
Vós sois memoria só, não sois influxo ! 

Não me reluz comvosco ^ 

O espirito, abysmadò em fundas trevas, v 

Com gast^jftil fio* 
Preso à matéria vfl, qujnffc dores! 
Ante meus olhos flHr 
ué já d^amiga luz sejESpedírão) 
Sahe da eterna^tragem 
Japor funéreo, que exhalais, ó fados! 
p Eis meu termo negreja, 

^no marco fatal meu fim terreno ! 

Mas surgirei nos astrjfe j. 
Para nunca morrer; com^fe ímpune 

K Lá zombarei da sorte. * 
Moniz, ó puro amigo! Ó sócio, ó parte 

Do já ditoso Elmano ! 
Ás musas, como a mim, suave e caro! 

£ De lagrimas e flores 
Honra-me a cinza» o tumulo me adorna* 

Não só longa amizade, 
Novo, sacro dever te exige extremos : 
Da lyra minha herdeiro 

e Phebo, o teu, te coáptitue; 
iebo após mim te augura 
renome, que sobeje aos evos : 
" dos annos vantagem, ^ 

Não vantagem do engenho & ^tecfttaap^S 




^F*' 






# v*. ■' 3 

*^304 LIVRAM A CLÁSSICA. 

r Teu metro magestoso 

*cY«v Que» já todo fulgor, zoilas deslumbra, 
. A Teu metro scintillante 
tias virtudes mimoso, aceito ás Graças, > > 

Turvem saudades : canta 
v Alguma vez d^Elmano, e chora-o sempre, 

E Amor e Analia o chorem : 
Amor e Analia, meus piedosos numes, 
Sem mim, por mim suspirem. 

♦ * . * s : * 

*r Pato Moniz, depois da morte do seu amigo, continuou 
a tributar-lhe provas de inalterável affecto. Na sua en- 
carniçada polemica com José Agostinho, muitas vdles 
exaltou a memoria de Elmaqp» Assim, na epistola a José . 
Maria da Costa e Silva, por ocasião da publicação do 
Passáo y depois de fallar de Camões, Torres, Garção, 
DinÍ7<- Ribeiro dos Santos J&Rlinto, acerescenta : # * 

E o mais que todos sonoroso Elmano, * '* e -||f 

Imprimirão nas folhas da Memoria -dat 

Seus nomes que^mmortaes o império abrangem .Ifc ~y 
Da lauri-cinta lifteraria fama. .. <$■• 

■ *." ■ * 

A ANTORIO MENDES BORDALO ' ^ 

Este homem dirigio-lhe, próximo á morte, o seguinte 
soneto : , 

Cedei, profanos, da razão aó trado, 

Que sublimes verdades anmmcia. 

De Bocage em triumpho a poesia - 

Prende a seu carro a inveja, e prende o fado.^..,.^ ■ 

rico, o grande, o mesmo potentado, 
. Homenagem lbc dà, votos lhe envia. 
Nem sempre, a estupidez, a tyrannia, 
Affronta o Ábio, humilha o desgraçado. 




„ v „ BOCAGE. 

^ Em vão do nume que os mortaes iguala, 
Unindo o Louvre á mísera cabana» 
fc - b Sobre a tua cabeça o raio estala. 


305 


Não Mlenceâ/ dimano, à sorte humana.. 
Nâjfc morre quem os tempos avassalla. 
Tua' vida é dos fados soberana. 


ode de Mal- a 

• 


Sem duyjdff o primeiro terceto alludiá á 
herbe:.* ~ •* j^v , 



•u*. Jje paurre en sa cabane ou le djauine le couvre, 
oif a est' outros versos 



Çt la garde qui veilleflHa porte du Louvre 

rTen défen^point nos róis. * 

Àquella poesia retriímiaAcage com ou to (I/ttprQ- 
wi^#ig-.20): W * 




Anciãs inda teu metro e raivas custa 

tf 

JltlikTfNHO GOMES D**Ú.VEIRA 



Advoga^ em Óbidos : bom* homem, mas poeflfc me- 
díocre; recebia perfeitamente em sua casa, o que lhe 
grangeava lisonjeiros. N'um seu anniversarie, Bocage lhe 
improvisou este soneto : 



Mil poetas emphaticojre ufanos, . 

Pintando em verso natalício dia, 
Fazem voar nas azas da harmonia +' 

chusma de hyperboles ^enganos. » 




que, sobrepondo-se aos humanos, 
^jecto que o furor lhes desafia 
[a de ver entreis risos da ale^râ 1| 
Sua gloria sem fim,* seu* fim raa& » 



\ 



Í Q SS 



1 



<M 



'306 LIVRARIA CLÁSSICA. 

Desça a mentira ao ultimo terceto 
v Nos outros, que eu desejo-te saúde, 
mas seres immortal não te prometto. 

Só rogo a Deos que, em premio da virtude^ . 
Cada verso que vai n'este soneto 
A teu favor n'umfeeculo se mude. 

* 

4 ' ANTÓNIO XAVIER FUREIRA . r , 

•O autor do Manoel Mendes, e fecundíssimo drama- 
turgo, tinha apenas Urite e um annos de idade, no da 
morte de Bocage, a quem dirigio este soneto : 

* Quji volátil implume, â terra junto, » 

* Qtp mal sabe gemer por órgão rouco, 
Deaim leito de afBicQòA]Elmano inypoo 

* \% ^dfemma de seus aiEfid af ajunto. 

pfferta exigia o nobre assumpto, 

de puro sacrário, onde o provoco, 

Se aos olhos4o Mortal tm^ai é pouco, 

No coração dê^Elmano é grande,,^ nuiftfr "^ fr 

• ■'* /.A i. *■* ' ** 

que o*'mu1ldoJflgflk Elmano sente, \'*' : * 

, Elmano, que &U$i Áôr em*que fluctua — 

Inda amor, iiraa o céo lhe aquece a mente, #r 

Mas Elmano esvaece, a dôr gradua * 4 

* Fica o mundo sem elle, e o céo contente 

Goza então de mais perto a imagem sua. jf 

Bocage lbe retorquio com oseguinte : 

Se Elmano, a quem no plectro, ente sagrado, r , 

Esmaltas o porvir^e a dor temperas, /*:--£ ka£ * 

Transcender inda ousasse em metro alado, **^|" " 
Rodantes turbilhões de azues espheras : 

Se entranjb o brônzeo alvergue,%ide abre o fado 
4fun cõiSgo immortal deátòs roera, s . 




1 




* % 



BqCAGE. 307 






Attcntar, como tu, lhe fosse dado 

Em promiscu* tropel fervendo as eras : 

CMeu, do ethereo ser não mui distante, 
De olyfiQpia abrilhantado amenidade, 
Vira stirrfr-ee em fldr sazão fragrante : 

E lá comtigo, pela eitrema idade, 
Firmado em muitos mil, degrão brilhante, 
Ir desapparecer i^etérnidade. 



BENTO HENRIQUEJ^OARES 

— BERMUINO — * * 

è> 

amigo de João Baptista Gomes, recebendo no Peito 
a nova de ser falso o })oato da morte de BoctfJ^ escrevei * 



j 



a 



Nymphas do Douro*ao vosso uni meu pranto, 



/ 

„ 4 , i pranto, ^ 

E ao cysne que Melpmítene amimara" 
Eu lagrimas votei, ittÍMpie çhnrirçgt 
Mais que vos fez^ chotífco , o titÇe (frito. - ^T 

Do Tejo .$s margens corro : iánp^firantb 
Os olhos mie a saudále inao|v * ' 

TijjÈ)» vejo da dor que lá deixar??! * 

•Odça gritos iguaes, cheios de espanto. * 

Elmano! Elmano! em vez deJonio clamão » 

íA As Tágides formosas, ladeadas * 
jp De Alfeno, Elmiro, Qkfto, que tanto amSo. 

Forão-ihes suas precéVescutadas : 
Elmano vive; as graças lhe derramão 
vida o néctar nas canções douradas. 

Leu Bocage : wSL 

Jonio meu, indAneu (porque o Y^^V «t -^ IBP 

Títulos' immottaea, uMpw ^«w^ > * * fcN ^ 




■*. 



# 



308 



LIVRARIA CLÁSSICA 



'€ 



Que encantador, e que encantado outr ora 
Luz eras d^elle, e tua luz o amigo!* 

D^lmano é grato á dor vagar comtigo 
Plagas fataes, onde o silencio mora; 
É doce á minha dor, que em vão te chora, 
Das sombras tuas qppirar no abrigo. 

Vate delgnez! Perdêrão-te os amores, 
Que em ti gozavão duplicado encanto, 
Flores no metro, eno caracter nflôrès Y 

Sopro da morte i|.jpltr meu pranto, 
Ais canoros o cl«rantre os cantores 
Sagre aos llous génios, qee se amarão tanto. 

-JSP* x ^ENRIQUE PEDRO DA COSTA 

A este bem feitor pagouíocage a daífiva 
o segTOite ^íneto : t .*:"■■ 

P^ebb no ethèreo plaustrcuunni-fulgente 

gureas as rod^o eixojafoiantino) 
amou do ca&poímmeWu^crystallino : 
* *Honrou-n}ç, ój^itureza, ornar um enje! 

Nt OlympobpHKpH 1 jp) me f°* patente 
O dfelta çreafl<f*€oT^arono ; \£^ 
Vi, não perfeito aind|, o ser de Henrino, 
Obtive enriquecêl-o, e dei-lhe a mente. 

— Eu dei-Hje o coração, melhor thesouro 
(Responde natureza ao nume ufano)/ 
E ao teu prefere da virtudqA, louro : 

Transcende na ternura os gráos de humano, 
* E seu canto não só, também seu ouro 
Mitiga os males da jacente Elmano. » 

•jj|Respondeu-lhe mais com est'outro, que lhe|| 
moribundo (Improvisos, pag. 18), e começa : *** 

Jtfldadó 6 foco á luz da f|(ila*\& ■ - :,> 




o com 



t 



io ja 



<. 



• 



BOCAGE. « 309 



Acabava de ler-sc uma poesia, attribuida a Bocage, 
mas cuja tutoria era por todos os circumstantes rejeitada . # 
com indignação, quando, ao recilar-se outra incontestar ■ 
velmente do poeta, fez Costa este soneto : * j," 

• • 
"Esta, sim, é át ElmaQp a vapme fèa ! 
Vê, ganso grasnador, vè quanto ousaste 
Quando as plumas sacrílego arrogaste 
Doljfne que lâ afrrge e ao Pindo voa. • 

Gomo de luz a esphcra azul povoa 
' V4 cá da terra onde de rojo^ÉÉpte ; 
Das azas o estampido a que fsptfaste ._* 
Ouve, se podes, ouve como troa ! 

Eia, após elle já, no ar librado, ^9^- 

Do Tejo o niveo bando se remonta, ■ \ A • 

- &gto a Bhçbo, a Sophia* á gloria, ao fado 

Aonreclamo exultáf 46, que reponta 
k". í* ^ os lábios seus, lá vai o coro alado • 

^- 'jj Cantar em seu louvd&a gm tua affrontáfc / 

J06É NICOLAO DC MAS|U|LUMfe PINTO 





al-fná$r da con^j^fírí&Tnariokíi era não só 
um piítf%armoniosissimo, Amo também, na sua' ve- 
lhice, um dos typos d'aquella ámavel geração anacrçpn- 
tfta. Tinna na Arcádia o nome Josinv, c Bocage o res- 
peitava, pelo saber, pek probidade, pela benevolência 
e pelo estro. * 

Pouco antes da morte de Bocage, vendo o relrajp d'cste, 
compôz o soneto (Improvisos, pag. 38, tom. VI, p. 21) : 



Não desdenhes, Elmano, a limpa oííerta. 
recebendo esta retribuição % . *"V.^ 



310 



tf 



'» * LIVRARIA CLÁSSICA. 



* 



A». 



Do coro arguto de phcbcos cantores 
Josino é doce parte, é sócio amado ; â 

Vio, comraetteu, vingou com génio alado, 
Monte, espinhos em bano, em cima flores ;*. 4 

Néctar lhe ferve (que libais, amorej) 
No metro, pelas graças torneado : 
E põe na etefbidade, e p3e no fado 
Olhos impunes, do porvir senhores : 

Do coração nos dolte, ou mais, ou tan|p» ** 
' A cópia minha olhou, deu-te ffòmensgem,i,i~* ■ * 
Ó deosa, irmã d^amjfff em verso, em prarrfc : * 9 

Não treqydfc que o» séculos me ultragem; 
L^(merçiFdo pincel, mercê do canto), 
Meu nome viverá, e a íninmT imagem. 



|*t 




, josé Rodrigues piw wp- e jitfiá j^l 

Este moçoique, antes dajdàde de vinte annos, 
mio suas obras poéticas, cornas iniciaes do «joi 
tido em grande a^eçl por Bftcàge, que d'ell|jÔísse : 

tpgnas solto, ., 
Já dflftu^*9VP<8 es *> niveas plumas 
> ; cysne adeja. 

* Jn°ment$} endereçou ao J>oeta este soneto : ft 



Além da natureza, aíéa^do4|Jo, 
Grande nos males, grande ná ventura, 
- Jfty.trftne a teus horrores, sepultura, 
•&tre of?jaWfí o sábio eternisado. . 
, fc » è 

& tempo saturnal, tempq^ dourado, 
■*> Do vate à^maga voz renasce e atura, . 

Que a do barro poreja molesta, impura, 
Não deixa Abrande espirito eclipsado. /.. 



& 






BOCAGE. * M 311 

O vate, quando pulsa a lyra ufano, 

5ern morada onde os numes têm mofada, 
a triste humanidade é soberano. * *g 

Ah ! se a vida dos mais é sonho, é nada, y ' 

Vida sem morte conseguiste, Elmano, , ■•*» 

Que ás musas e á paixão fpi consagrada. • ■ * 

E teve a seguinte resposta de Bocage : 

Tu, que tão cedo aventurando as pcnaas, 
Ayc gentil d*amor, transpões o cume 
* Itos montes do universo, e ànhIb um nume 
ííS doce ao coro das irmãs Gamenas :^ 

Tu, que dos cysnes as canções amenas ; - t -■ 
Desatas em dulcisono queixume, 
Sem que o lethal,, irresistível gume, 
Talhe o fio^subtil aos sons que ordsjias : 

Do Vate, oppresso dft intimo quebranto, 
Colhe, amenisa.o tom,<jue em vão forceja 
r Por ser, qual era, deleitarei canto : • 

Já débil, tibio já, meu estro adeja, ., 
^entenebrece a mente, e poe^lhe espanto 
■ > A ÍP orte > <¥* no V e ™*f&W^ty* 

ÍpVlf PEDRO JOSÉ OQNiHDlPO :< 

DirigA| a Bocage os dous seguintes sonetos : 

Mal forão nados os virentes louros 

Com que te ornei acreadora testa, 

Eis me troa o grasnar de gralha infesta, # ,. 

Dada a crestal-os, rouquejando agouros*» \,V- 

.. ■ ■ : . Beber me assusta, sem lograr vindouVos, 

""■■ Tragos do Leihes, que mortaes detesta. 
Imploro Elmano contrafajpl que enlpesta 
Génios que adejão a innpffiaes tta*4NK&. ~ V 



«f* 



. • **« 



312 * LIVRARIA CLÁSSICA. 

Preaies bai^jm da região do dia, 
,, Zoilos mordazes aterrando, irado; 
Eis me bafeja, me afervora e guia. 

Depois, ardendo em estro arrebatado 
' . . De novo altéa o vík> à láctea via, H . 
* Rival cios numes, vencedor do fado. 



• Assim como a serêa sonorosa 

Canta, aos bramidos da procellá ingente, ; N * 

Tal da aneurisma rápida, tumente, ' 

Desprende Elmano a voz melodiosa, i « * 

Não bei de^Hespanha, alardear vaidosa 

„ Co'á intrepidez na moribunda frente 

Doesse, que, ao borbulhar do sangue quente, 

Se espalha sobre a fronte sanguinosa. 

■ * ** ^^K " 
Não sç horrorisa co'o favor da morte * ^ 

Quem no berço, das musas embalado, 
, Correu á gloria, seupharol, seu Arte. .'*.', ' 

"* . * * 

, Olha o padrão que te erigib teu fado ! v 

f *f As obras vivem. Viverás tu forte, 

• v Sorrindo a estragos mil do tèVnpo irado. 

■ ^ Além d'isao, consagrai Constâncio ao nossojgMe Ama 
epiçtolá, que anda no folfieto intitulado A virtude lau- 
reada, e, na Collecção de poesias á morte de JBocage, 
uma canção. 

E recebeu do nosso poeta estes dous sonetos : 

Nos elysios de amor endeosada, 
Quadros tua alma esparze encantadores ; * v 
Deu-lhe as graças n'um riso, e deu-lhe as 4$fe8 : .. 
De Adorifs doce amante, e doce amada : -^* 

Sonhando attrahe a icH| embellezada 
Néctar dos gostos, hálito das flores ; 



#*t 



BOCAGE. 513 

Perde-se, esvai-se em êxtases dVmofces, * **y 
E um céo parece á fantasia o nada ! 
* * 

Por floria, almo pintor, ou por piedade, 
Novos encantos do pincel risonho 
Enrija ã dor, que geme em soledade!... 

Doure-se, p morte, assim tea\éo medonho : 
Ah ! Quero amaciar tua verdade, 
Tua ferreaVrdade, em- áureo sonho ! 

*■#■■'■» " * 

Cysne gentil, que modulava iqtó&me 
- A furto, a medo, pela ismelnrmh; 
Cysne gentil, que da cerúlea vêa ». 
A modo, a furto, só. roçava o lume : 

Plumoso, os magos sons já não resume, * 

Os voos da harmonia espraia, altèa* *"* 

* Dd^tgãocanoro inspirações gorgêa 
(Que no gorgeio se lhe sente um nume !) 

Gralhas da inveja ! ó vós, que .gm vâo damnosas, * 

D'intactos nomesf^xtrahis veneno K 

Tal como a torpe* Arachne extráne daí rosas :%,. 

,* ' ' v. 

Deixai niYeo cantor brilhar \éJ$tsStíb; 
Deixai, filhas da noite, ave^ttd^aa^ 
4&tór-se a natureza ao ca^cfcJKneno. 



PEDRO IGNACIO RIBEIRO SOARES ^ 

Fez a Bocage a ode (Improvisos, pag. 85) : 

Cedendo á fúria da raivosa, idade 

retribuída 3$p è soneto (IrfTyjgajj, i$) : ^ 

>fíEu, esse cuiofl|dons medrarão tanto.. ^í * ..- , .\* 

Também, na Collecçãq4&$^\^vS^\z< ^%ç>w^-> 



V**" 



314 * LIVRARIA CbASSICA. 

• ■ «*• 

á sua memoria dedicou Soares o epicedio quê enceta pel6 
verso : .* * 

Phebo, nympbas, amor, ó pátria, ójama 



THOMAZ AGONIO SANTOS E SILVA 

■A' * 

— THOMINO SAOINO — V ' 

Este homem, da mesma terra, je pouçQ à^is *velho que 
Bocage, tinha lambem mm peregrino* engenho. Deixou 
muitas poesias, entregas quaes, no volume intitulado 
Estro, a Sepuliura de Lésbia; os poemas Silveira e Bra- 
siliada; a tragedia D. Sebasti&o, e grand%: numero de 
outras pr^ducções originaes e traduzidas. "Morreu c&go, 
em 1816, no hospital de S. José. Era particular amigo 
do se|t patrício, a quem consagrou* os dotfSTfeguintes 
sonetos, já na sua perigosa enfermidade : 



Elmano ! Elmano ! Os que te dflMrão rindo, 
Penhas e montas, que teu metrpalçava, 
Chamar faz hoje á dor, que empranto os lava* 
E mais que todos p Permesso, o Piado. 

**• ■'- 
Bosques, paisagdtó, que teu verso lindo ■ 
Em dobro enriqueceu, teu mal aggrava. ♦"■ 

Chorao-te graças, nymphas, que elle honrava, t 
niva^rosto com as mios cobrindo. 

Inda^cylne do Tejo, inda teu canto, 

Bem que rouco, se escuta ; e em desconsolo 
Já das musas te chora o cônTsanto. 

Quando não ergas o mellifluo coljo, y ,. 
Qugn mais te chorará ?JJm deos eimpip«^<*:v - 
Se m de ítitão ver, chorando o mesmo~âjpK; .^j» 

* ■*--%' " '.£ 

De excelsos, dignos wes cópia ingente 
(Que debaixo do defptyco estandarte 



Í0CAGE. ,* • * 315 

<% * ^ #/ 

- > Raia^oluso engenho alongue* p£rte) . £ 

Marchar-se via, com Bocage á frente.'' 

êrnão-lhe o lado hfiróes de fogo ardente, 

Insignes capitles de peso e arte; 

E na bagagem" vai* qual velho Marte, 

cego, o estropiado,. b já demente,- *Ç 

Eis cgie dejÂpentina, atroce queixa 
Egpbta o clffe: aspérrimo quebranto 
As m$os lhe tolhe, a sacra votflhe fecha. 

Pajlece' a tropa illustref opfrime o canto * 

^:Da tuba portentosa, os louros AíÉ^; * 

As palmas, os trophêos são dòr, são prjnío. 

V ■ 

Bete ultimo foi retribiíldo petos mesmos consoantes : 

Indígena immortal do Pindo ingente, 

jj$tt na dexffa o jdelphico estandarte; ^ 

flne-se Elmano (como ao todo a parte) 

A ti, para.ò&mtar c'roada frente : 

ígneos voos lheJpteu estro ardente, 
Quabdo, opnleiQem génio, 'eriço em arte, 
Pintas glorias de Amor, furbp de Marte, . 
E qual foi Corydon, és só (Jeínent^ 

Rjctarisas no metro o gosfá,.Vqueha, 

E ouvindo-te, dra em riso, ora em quebranto, 

ABs*to o pensamento as azas fecha: 

Quão varias sensações produz teu cantolPi 
N'alma, no coração mie effeitos deixa? 4 

Ou jubilo, ou terror, ou pasmo, ou pranto ! 
• 
Na satyra-Ajosé Agostinho, diz Bocage : 

Nas^nmn para mim reluz Tn6mmo..ft ■< <*^ 

Quando Santos e Silva sqÚtameçte cegou, esta des- 
graça iqspifou ? Bocage o aotÉfc ^Sfck \Y^ .> \j^^KN >> 



.■*f^ • •